Eu, eu mesma e Lana Del Rey

Eu, eu mesma e Lana Del Rey

58Shares

Vulnerabilidade é o que me fez me apaixonar pela Lana Del Rey.

Nosso romance começou ainda lá em 2011, antes de “Video Games”, em um finado vídeo de “Kinda Outta Luck”, em que ela sussurra que quer ser uma boa menina mas não consegue negar a própria escuridão. Divertida, gostosa, provocante de um jeito meio lolita, “Kinda Outta Luck” era um pop diferente, meio retrô, que me chamou a atenção assim de cara e eu decidi que já adorava a cantora. Quando “Video Games” chegou, acho que ninguém – ou quase ninguém – passou impune pelo frisson. A atmosfera carregada, a voz sussurrada e grave pela qual sou completamente apaixonada e que é tão difícil de se encontrar nesse cenário que muitas vezes super valoriza notas agudas, o flerte discreto, as declarações de amor exageradas, a introspecção sugerida na progressão de acordes… cada pedacinho de “Video Games” denunciava uma menina ansiosa (e amante) do amor. Para alguém que tanto adora o sentimento como eu, era como navegar um mar conhecido e delicioso.

Depois, foram os recortes imagéticos que ilustravam suas canções saudosistas e, para mim, profundas: pareciam saídos de um caderno de colagens da artista, todos guiados por uma subjetividade que muitas vezes soaria completamente confusa para o observador, que não é parte daquele universo. Para mim, das strippers às lolitas às femme fatales, da Califórnia a NYC, do glamour da antiga Hollywood à simplicidade completa, dos vestidos brancos até as jaquetas de carros de corridas por cima de regatas e jeans, tudo fazia sentido. Era Lana quem eu estava procurando esse tempo todo.

Obcecada como sou, de lá corri pra entrevistas, onde encontrei a moça tímida, se justificando de forma exagerada, obviamente insegura, explicando que a colagem de seus vídeos era composta por pequenas coisas que ela considerava belas e formavam a história que ela teria montado, na cabeça, para os vídeos. E em cada entrevista, em cada música do disco “Nevada”, que nessa altura eu já havia baixado e ouvido repetidas vezes, ela comprovava uma vulnerabilidade e uma delicadeza que só aumentavam meu fascínio.

“Pawn Shop Blues” até hoje é uma das canções dela de que eu mais gosto. Sobre uma composição harmônica bastante simples, Lana conta sobre como tem que penhorar brincos dourados que o homem com quem ela estava envolvida deu de presente, pois precisava de dinheiro para voltar pra casa. “That’s what happens when you’re on your own and you’re alright with letting nice things go” ela canta logo na primeira estrofe, entregando uma das minhas frases preferidas da discografia da cantora, porque letting nice things go, aqui, vai muito além do brinco dourado com flores e evoca imagens de amor, desapego, perdas e escolhas. “Yayo” parece uma canção assombrada e sua voz alonga as palavras, cria melodias inteiras com vogais e mais uma vez promete seu amor. “For K Part 2” é outra música simples que evoca imagens poderosas: “alright you got me, I don’t play a good guitar” é como começa, e eu automaticamente penso na menina querendo impressionar o cara que ela gosta em uma cama de solteiro, de shortinho e camiseta larga, a janela aberta num fim de tarde de verão.

lana borntodie

Quando o “Born To Die” chegou, consumi vorazmente o disco inteiro. Embora ele não trouxesse a simplicidade, que pra mim era um dos pontos fortes das composições, trazia ainda essa voz única que me conduzia a sonhos compridos e maravilhosos. A produção exagerada era compensada por cada uma dessas imagens oníricas inspiradas cada vez que eu a ouvia cantar. E, depois do “Born To Die”, me deparei com o EP “Live or Die”, de onde vem “Fordham Road”, outra bela música que não canso de ouvir, e com o “Sirens”, ainda mais antigo que “Nevada”, com canções ainda mais simples e mal gravadas. É de lá que vem “Pride”, outro hino ao abandono, em que, assim como em “Pawn Shop Blues”, ela musifica o adeus a mais um grande amor – dessa vez porque “my dreams are bigger than your junkie pride”.

Isso porque Lana foi mandada para um internato ainda bem novinha e lá pelos 18 ela já tinha passado pela reabilitação por alcoolismo. Em entrevistas, Lana falou sobre experiências aterradoras com drogas e sobre a distância que mantém do álcool. Ainda contou sobre os trabalhos voluntários em clínicas onde ajudou viciados em NYC. Lana tinha tristeza e conhecia esquinas sujas e desesperadas da vida, e mesmo assim ela conseguia trazer beleza e amor. Para mim, isso sempre foi divino.

Quando as críticas a ela surgiram, fui logo levada a um bando de vampiros esperando sugar carne nova e surpreendentemente vulnerável, com inseguranças e nada da atitude confiante e irreverente amada pela mídia. Cada vez que ela se atrapalhava em entrevistas por tentar se justificar demais, por tentar agradar, por medo do que os outros poderiam pensar, cada vez que essa insegurança absurda transparecia no discurso de Lana, eu sentia mais carinho. Aquilo ali era real, não aquela pose supostamente contra o sistema que tanta gente carrega de forma calculada. E as críticas à artificialidade, aqui, para mim, soavam ainda mais absurdas. Ainda: como alguém poderia criticar a criação de uma persona no mundo da arte? Todo mundo é um performer. E de que importava a cirurgia plástica, existente ou não, em seus lábios? Alguém se importaria se fosse um homem?

Não entendia como o resto do mundo não sentia o que eu sentia a ouvir essa voz. Como meu namorado, uma das pessoas mais sensíveis que eu conheço, não caía de amores junto comigo? Quase tudo o que eu ouvia conversava profundamente com o que eu pensava sobre a vida, sobre amor: quer uma imagem mais simples e bonita que vestir o vestido preferido do moço que você gosta e passar uma tarde jogando videogames? Pequenos detalhes compunham a história que eu criei para o mundo de Lana: de inseguranças, arte, tristeza, sujeira e redenção. Porque, acima de tudo, sempre foi sobre redenção, sobre se perdoar por erros passados, sobre reencontrar a beleza na vida.

A espera por “Ultraviolence” foi ansiosa, impulsionada por quando “Black Beauty”, maravilhosa, vazou. “West Coast” já é uma das minhas músicas preferidas de todos os tempos, com as diferenças melódicas, as alterações na voz, o clipe no mar – no mar, que eu tanto amo! Ah, Lana.

E o disco chegou maravilhoso, muito mais Lizzy do que Lana, despido de megaproduções épicas. “Ultraviolence” veio assombrado, carregado em sentimentos de perda e tristeza, com letras doloridas sobre os temas recorrentes da artista – amores perdidos, dinheiro, sexo, drogas. Explodindo nos momentos certos e envolvendo quem escuta, a voz sussurrada, grave e maravilhosa continua lá, seduzindo sobre camadas sonoras barrocas e pungentes.

Quando “Ultraviolence”, a música, saiu, eu pensei logo em “Caroline Says II” do Lou Reed. Na música do Lou, uma Caroline cansada e perdida na resignação pergunta: “why it is that you beat me? It isn’t any fun”. Na versão de Lana, eu via mesma personagem ainda afogada na ilusão do relacionamento abusivo, acreditando em uma verdade falsa que é exposta completamente no verso “he hurted me but it felt like true love”.

Na mesma semana da liberação do single, li uma entrevista em que Lana dispensa o interesse pelo feminismo porque “teria coisas mais interesses sobre as quais pensar, como as galáxias”. Já sabia do posicionamento infantil e burro que ela tinha em relação a isso, mas a coincidência da entrevista e da letra da música não conseguiram passar despercebidas. Como uma amiga apontou, algumas coisas não deveriam ser romantizadas, alguns limites não deveriam ser cruzados. E, agora, Lana tá começando a cruzar.

Essa primeira crítica realmente consistente e com a qual eu conseguia me identificar me introduziu em períodos intensos de reflexão sobre o efeito da artista sobre as adolescentes. Para mim, que tive meus próprios envolvimentos com depressão e vários outros demônios expurgados por Lana, os discos todos soavam, como já disse, como redenção e auto-perdão. Mas o que soariam, para adolescentes ainda formando sua personalidade, as palavras “I need you, I breathe you, I’d never leave you”? Lana é submissa em juras de amor e de necessidade em quase todas as canções de “Born To Die”, em que se apresenta como completamente dependente de seus homens. Em “Puppy Love”, ela alegremente diz que queria ser uma mulher dos anos 50 para servir seu homem do café à janta, todos os dias.

Como soa a alusão a drogas, álcool e maus comportamentos? Para mim, todas são lembranças, cantadas como exorcismo, mas é isso a voz dela ou é a minha, transferindo as minhas histórias e os meus demônios para os discos dela? No vídeo de “Ride”, o estilo de vida pueril e superficial “live fast, die young” é exaltado de forma que me causou até mesmo vergonha. Depressão, suicídio, doenças mentais, vender o próprio corpo, todos esses temas podem ser analisados como glamurizados – em vez de expurgados, que era o que eu via – nas canções.

Na revista francesa Les InROCKuptibles, Lana declara que é uma merda artistas morrerem jovens porque param de produzir sua arte e que felizmente Leonard Cohen ainda está vivo. Na mesma semana em que a revista foi lançada, o perfil da artista no The Guardian revela a vontade que ela tem de morrer cedo.

Na última entrevista que li, Lana, alcoólatra, voluntária em clínicas de reabilitação, que disse que sentia que sua vocação era ajudar viciados, declara que os anos 70 chamam sua atenção porque adora os alucinógenos, a criatividade ligada a eles, Timothy Leary, a ideia de escrever um livro em uma noite sob o efeito de anfetaminas. Onde está a dor pungente de “Get Drunk”, em que sentimos o desespero de uma viciada sendo seduzida pelos próprios demônios e refletindo sobre se valeria a pena se controlar? “Come on, get drunk, you know you wanna” ela geme sobre um violão ridiculamente simples e sujo. Onde está essa Lana?

Confesso que ainda adoro as músicas e que “Ultraviolence” me prendeu do início ao fim. Mas essa última semana levantou o questionamento: as histórias e imagens que eu amo são as histórias e imagens da Lana ou fui eu que as criei? Isso, só o tempo vai contar.

Volta, Lana!

58Shares

Related Stories

16 Comments

  • Ray
    5 years ago

    Amei seu texto! Voce escreve muito bem!
    Eu tb ando um pouco confusa em relação à Lana ultimamente. As vezes ela soa até mesmo meio pretensiosa nas entrevistas, infelizmente ela está muito na defensiva o tempo todo e eu consigo entender de onde isso vem, mas é triste!
    Eu também já fiz esse questionamento, se eu não estava apenas enxergando meu próprio reflexo nas músicas da Lana.
    Quanto à posição dela em relação ao feminismo, eu acho que ela não quer mesmo ser rotulada, não quer levantar bandeira, prefere se ver como uma pessoa “livre”.
    Mas ela já disse tb que a ideia dela de feminismo é a de uma mulher que faz o que quer, e eu acho que ela segue isso à risca. Ela não é realmente submissa, ela coloca em prática todas as suas fantasias passivo-agressivas e não se desculpa por isso. De certa forma, ela está sempre no controle, é isso que eu leio nas entrelinhas.

    • 5 years ago

      Awn, obrigada 🙂

      Então, mas eu sou feminista e estudo o feminismo e o que ela faz é um desrespeito e é opressor. Feminismo vai muito além de uma mulher ser “livre”, especialmente porque na conjuntura atual isso é utópico. Mas enfim, isso é conversa pra outro texto hahaha 🙂

  • Amanda
    5 years ago

    Excelente texto, é bem dificil encontrar pessoas que se refiram mais as músicas e influencias da Lana do que as velhas polemicas sobre marketing e ela ser montada, etc.
    Particularmente eu acho que a Lana está cada vez mais se distanciando da imagem montada no inicio e se tornando mais Lizzy, como tu mesmas citastes no texto, isso tanto visualmente quanto musicalmente. Mas não acho que seja a função de um artistas se preocupar na influencia que terá em adolescentes ao interpretarem sua obra, creio que a função deles seja exatamente instigar o pensamento, lançarem obras capazes de nos fazer sentir, refletir, discutir, etc, sobre nós mesmo e o que nos cerca. Ainda vejo Lana usando suas músicas como uma forma de exorcismo, assim como vejo ela em algumas declarações recentes (como ela falando que sofre de uma doença misteriosa que a deixa triste o tempo todo, o que não é tão misteriosa, já que todos sabem o nome é depressão)ela é ainda aquela menina insegura que não sabe filtrar o que falar ou não para jornalistas, e muitos acabam se aproveitando disso para tirar de contexto algo falado pela mesma.Enfim, como a própria Lana canta em Brooklyn Baby “They judge me like a picture book by the colors like they forgot to read”.

    • 5 years ago

      No fundo, eu concordo com você, mas o depoimento dela elogiando a ideia de LSD e anfetamina me deixou muito chateada 🙁 hahaha enfim, mas concordo mesmo e adooooro esse verso de Brooklyn Baby <3

  • Camila
    5 years ago

    Tambem já me questionei sobre as mesmas coisas – quanto ao feminism, e esses dias li um texto que achei super coerente
    http://lanadelrey.com.br/lana-del-rey-e-a-sua-propria-heroi-feminista-defende-a-revista-esquire/
    nao que eu ache que ela seja feminista, mas entendo que a preocupacao dela não é falar sobre isso, mas apenas escrever coisas autobiograficas – será que é justo exigir dela, que não tem nenhuma preocupacao com a discussao, que traga a bandeira pra sua musica? acho que ate essas entrevistas fazem todo o sentido com tudo o que vem dela. Quanto a entrevista do guardian ela falou no proprio twitter que foi mal interpretada, que nao quis dizer isso e tbm já li eemm entrevistas que o tal die young que ela sempre fala não se refere a morrer jovem – de idade- mas sim jovem de espírito.

    • 5 years ago

      Oi, Camila, tudo bom?

      Eu li essa matéria, sim, e como feminista estudante há anos posso te falar com embasamento que é uma das maiores bobagens já escritas. A Lana não é feminista. E um num mundo preso em dicotomias, se você não defende o feminismo, você acaba preso nas reproduções machistas.

      A gente poderia entrar na discussão sobre responsabilidade de pessoa pública, mas não vejo necessidade. Pode ser bem mais simples que isso: mesmo que a Lana possa fazer o que ela quiser, mesmo que ela possa sair propagando coisas machistas de forma impune, eu posso rejeitar essa atitude, criticar a cantora e considerar isso absurdo. O texto é tanto sobre a Lana quanto sobre mim, e sobre a desconstrução (ou não) de um ídolo por ela talvez propagar coisas que são abomináveis para mim. E contra isso não existe argumento, porque tem a ver diretamente com minhas crenças e com as coisas que eu acredito pra vida.

      Enfim 🙂

  • Camila
    5 years ago

    quanto as drogas, opiniao minha, mas acho compreensível vc ter se fodido por causa de droga mas ainda achar a ideia sedutora, a imagem e tal, como a de alguem escrevendo neuroticamente, ou a psicodelia dos anos 60/70… por mais que eu nunca tenha usado alucionogenos e corra deles tbm acho demais a filosofia dos anos 60, as musicas psicodelicas etc, que querendo ou nao foi absurdamente influenciada pelo lsd

    • 5 years ago

      Isso também depende da sua opinião e da corrente psicológica que você se identifica quanto avalia as questões de vício. A corrente com a qual eu me identifico não compactua com esse pensamento 😉

  • 5 years ago

    Parabéns pelo texto! Você não poderia ter descrito melhor o meu sentimento sobre Ultraviolence. Estou longe de ser realmente uma feminista, mas é claro o exagero que Lana faz em torno da vida na estrada, da submissão e do sexo e drogas. Certas pessoas podem não levar a frase “he hurt and it felt like a kiss” da maneira correta. Mas afinal, que maneira correta seria essa? Lembranças da cantora? Pode parecer lindo e comovente essa entrega toda de Lana aos homens de sua vida, mas pode também ser muito sugestivo. Realmente, ótimo ponto de vista.

  • Douglas
    5 years ago

    Quando ouço o Ultraviolence acabo entrando em um reconhecimento do meu passado. Lembrando das minhas submissões e depressões em relação a contextos totalmente diferentes. Uma análise das letras pode sim revelar uma visão opressora e só isso. Embora acredito que ela escreva sobre um personagem cujo passado foi superado e ecoa constantemente. Uma pessoa que não tenha estudado o feminismo conseguiria atingir tão profundamente essas questões? Seria a ideologia dela apenas “livre para fazer o que quiser”? Acho que é mais complexo que isso. São composições estéticas e ela provavelmente tem total noção dos possíveis ecos de todo esse trabalho que é ético e estético, como pouca coisa pop.

    • 5 years ago

      Eu prefiro pensar que ela não tem noção de todos os ecos, porque acho que pode ter ecos muito negativos 🙁 eu acho que ela só tá criando algo que é íntimo, dela, sem pensar nas coisas que podem impactar 🙂

  • Débora
    5 years ago

    Clarissa, me vi no seu texto do início ao fim. A Lana sempre significou muito pra mim,(e ainda significa), principalmente quanto à representatividade emocional. Mas tá difícil lidar com essa síndrome de estocolmo/fetichização de relacionamentos abusivos e romantização da prostituição.
    Parabéns e obrigada pelo texto.

  • […] (…) Essa primeira crítica realmente consistente e com a qual eu conseguia me identificar me introduziu em períodos intensos de reflexão sobre o efeito da artista sobre as adolescentes. Para mim, que tive meus próprios envolvimentos com depressão e vários outros demônios expurgados por Lana, os discos todos soavam, como já disse, como redenção e auto-perdão. Mas o que soariam, para adolescentes ainda formando sua personalidade, as palavras “I need you, I breathe you, I’d never leave you”? LEIA MAIS. […]

  • […] para ouvir). 5. Swans – To Be Kind: meu coração para Screen Shot (ouça na Deezer). 4. Lana Del Rey – Ultraviolence: meu coração para West Coast e a faixa-título (ouça na Deezer). 3. Leonard Cohen – […]

Leave a Comment

Leave A Comment Your email address will not be published