FLIP 2016: “Escritores deveriam ser como cirurgiões”

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Foi minha primeira vez em Paraty, minha primeira vez na FLIP, minha primeira vez viajando sozinha com minha melhor amiga, e como pisciana deslumbrada eu não tive escolha a não ser ficar… deslumbrada. Entre as várias críticas que li por aí – sobre a escolha da Ana Cristina César como homenageada, sobre o elitismo dessa edição, sobre como foi pior que outros anos pro comércio – me sinto sozinha, maravilhada, sem conseguir absorver essas exigências. Porque pra mim foi isso: maravilhoso.

Minha amiga trabalha em uma editora pequena e independente que é muito foda, a Kapulana. Eles têm um catálogo recheado de livros infantis de qualidade e de autores africanos, de Angola e Moçambique. Por causa disso, na sexta-feira estivemos na Flipinha acompanhando e filmando o autor Aurélio de Macedo, e também fizemos um vídeo sobre o impacto que os livros têm na vida das pessoas. Porque é isso que a Kapulana acredita: que livros mudam pessoas.

Mas um pouco disso tudo eu falei em vídeo. O que eu quero falar aqui é outra coisa.

 

 

Irvine Welsh e Bill Clegg

A primeira mesa que sentei pra ver com calma, sem a correria de pular de uma casa pra outra, foi a do Irvine Welsh com o Bill Clegg. E ouvindo eles falar percebi que deve ser mais fácil mesmo pedir pra um escritor falar: eles são especialistas em contar histórias.

Eu conheci o Bill Clegg já há um tempo, por causa dos livros auto-biográficos Retrato de um viciado quando jovem e Noventa dias. Quando ele parou para ler um trecho de seu livro novo, dessa vez de ficção, e brincou que era difícil seguir uma leitura de Welsh, percebi que o problema não era esse. O trecho parecia fraco não pela leitura anterior, mas porque, pelo menos naquele excerto, era lotado de clichês narrativos. A sensação que eu tive era que estava numa sala de oficina literária, de frente a um escritor iniciante. O trecho, todo no presente, talvez tivesse sido mal escolhido. Sempre há essa possibilidade.

Mas Clegg, que também é um agente literário, mostrou sensibilidade em suas colocações. Contou que costumava roubar dinheiro do seu chefe quando usava drogas e que muito mais tarde, recuperado, apareceu para devolver milhares de dólares que havia roubado. Ele tinha certeza de que o chefe sabia o que havia acontecido e tinha escolhido ficar quieto. O chefe não fazia ideia.

Welsh, por outro lado, com uma leitura interpretada com força e emoção, deve ter arrepiado grande parte da plateia. Me arrepiou. Com frases como “Em Miami, até as árvores têm raízes superficiais” e “Don’t be a pussy, eat one”, o trecho pareceu ter sido muitíssimo bem escolhido. Saí de lá com a certeza de que preciso ler A vida sexual das gêmeas siamesas.

Grande parte da conversa foi direcionada a Trainspotting, e não poderia ser diferente. Welsh comentou que esse livro foi um pouco auto-biográfico, que encontrar a voz da narrativa foi à base de tentativa e erro, e que humor é uma forma de dar espaço pros leitores lidarem com as partes mais pesadas. E foi aí que começou a falar de drogas, deixando claro que o livro não é sobre isso: é sobre uma mudança de um cenário social. Para ele, as drogas são sintomáticas de trauma, um indicador de problema no lugar do próprio problema.

No outro dia, na Casa Rocco, em um encontro bem mais próximo e intimista, ele conta que escrever Skagboys, que conta a história anterior dos personagens de Trainspotting e foi escrito quase 20 anos depois, foi como escavar um cadáver de alguém que você tivesse matado. Mais tarde, ele declara que não existe uma pessoa sequer no mundo que nunca escreveu um poema ou uma música. “Todo mundo acha que é brilhante”.

No fim da mesa, perguntei pra ele qual livro mudou sua vida. “Trainspotting“, ele responde, sem hesitar. “É sério”, continua, quando todo mundo ri. E segue para explicar que o único livro que realmente pode mudar sua vida é o que você escreve: é onde você exorciza seus demônios e coloca todas as suas obsessões. Fui levada direto para uma aula com Marcelino Freire que tive esse ano na Perestroika onde ele comenta que escrever é sobre obsessões.

Conceição Evaristo e linhagem “Clariceana”

Nos três dias, também pudemos nos emocionar em uma mesa com Conceição Evaristo, na Casa Itaú, que olhou nos olhos das pessoas brancas ali e disse que a nossa culpa não serve pra nada. Que ela quer ver nós, como brancas, não só falando mas também agindo para acabar o racismo. E leu o conto homônimo de Olhos d’Água. Aqui, posso dizer com certeza: todo mundo que tinha um coração batendo no peito se arrepiou.

A outra mesa que quase me fez chorar aconteceu em uma das casas do SESC e trouxe três estudiosos de Ana Cristina César, Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu para falar de seus objetos de estudo e daquilo que chamaram de linhagem Clariceana na literatura brasileira. É curioso como isso sim parece voyeurístico: a forma como falamos dos mortos. Janet Malcolm aborda isso muito bem no incrível A Mulher Calada, e é assim que nos sentimos lá. O que não me impede de me emocionar. Ao fim, levanto e vou conversar com Paula Dip, uma das musas de Caio, que foi tão importante pra mim. Descubro que o primeiro amor dele morreu de leucemia. E descubro a forma assustadora e trágica do suicídio de Ana C.

Svetlana rainha, o resto nadinha

O último dia foi o dia de Svetlana Alexievich, vencedora do Nobel de Literatura de 2015 e autora de Vozes de TchernóbilA guerra não tem rosto de mulher. O dia começou com a coletiva de imprensa e terminou com a mesa, me fazendo pensar que a coletiva foi muito mais legal: as perguntas dos jornalistas e muitas vezes fãs eram sempre mais interessantes.

Ela nos contou que está escrevendo um novo livro, sobre amor, e que as histórias femininas são sempre mais profundas. Logo de cara admite uma certa dificuldade em encontrar a voz masculina: “Ou será que os homens não têm a mesma sinceridade ao falar sobre amor, especialmente para uma mulher?”

Na terra dela, essas histórias de amor sempre têm fundos maiores: de guerra, de tragédias. Nunca são histórias do cotidiano. O título desse novo livro seria algo como “um novo alce para uma caçada eterna”, numa referência a um conto dos irmãos Grimm que fala sobre aquilo que buscamos durante a vida inteira e muitas vezes não conseguimos. E completa: “Escrever sobre amor é mais difícil que escrever sobre a guerra”.

Depois das três primeiras perguntas, todas feitas por homens, ela questiona: por que as mulheres estão quietas? E em toda a conversa demonstra uma sensibilidade superior.

É impossível esquecer a política. Quando questionada sobre o rótulo anti-comunista que ela recebeu, ela responde que todo pintor honesto deve pincelar contra o governo, e que aquele foi o governo que ela viveu. Ela fala que para ela o homem pós-soviético vive com muito medo – e quando Svetlana fala “o homem” ela não quer dizer coletivo de seres humanos. Ao falar do Brasil, ela fala que admira que a gente tenha – ou tenha tido – uma presidenta mulher. Que isso representa evolução. E completa: “Os líderes atuais são homens medianos”, citando Putin, Chirac, Sarkozy. “O mundo precisa começar a viver pelas razões das pessoas comuns”.

Ela também discute sobre como a humanidade não aprende com os próprios erros. Um general chegou a questioná-la como ela poderia ousar escrever sobre a guerra sem nunca ter matado alguém. A resposta, carregada de empatia, foi matadora: “Justamente por preservar esse lado humano é que eu posso. Ao pegar uma arma você muda”. E finaliza refletindo sobre como a vida hoje é mais complexa, porque cada dia é uma luta para se manter humano. “E isso não se refere apenas à guerra”, faz questão de frisar.

Quando fala sobre escrever, é possível perceber a vocação e os sacrifícios da arte. Escrever tem riscos psicológicos e físicos e ela perdeu já a capacidade de presenciar certos sofrimentos. Hoje em dia, não conseguiria mais ir a um campo de batalha e ver uma pessoa morta. Iria parar e chorar. É um caminho inverso à anestesia social. E reflete que cirurgiões, esses sim, são fortes. Obrigados a lidar com a morte o tempo inteiro. A ver um coração pulsando, um peito literalmente aberto na sua frente. A dar notícias ruins pra família. Finalmente, sentencia: “Escritores deveriam ser mais como cirurgiões”.

 

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