Game of Thrones resumido em uma frase do Jaime Lannister (com spoilers)

Game of Thrones resumido em uma frase do Jaime Lannister (com spoilers)

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Game of Thrones é uma das minhas séries favoritas, porque eu resolvi assistir lá em 2014 em um momento de depressão forte (ainda não tomava remedinhos na época, sabe como é). Aquela semana em que assisti às quatro temporadas disponíveis inundaram meu cérebro de serotonina e foram o abraço que eu tava precisando. E, bom, a gente sabe, né? Vínculos que se criam assim são impossíveis de se apagar. Eis que comprei os livros – li só o primeiro por enquanto – e continuei acompanhando a série, lógico. Nesse meio tempo, teve muita coisa pra me fazer pirar de amores (e refletir).

Essa é uma guerra de rainhas

Daenerys. Cersei. Sansa (não importa o que falem do Jon).

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Aliás, Sansa, ah, Sansa

Tenho certeza que muita gente odiava a Sansa – eu mesma já vi gente por aí chamando a personagem de “sonsa”. E, vamos combinar, isso não é a coisa mais surpreendente do mundo: é inegável que ela era uma personagem bastante alienada no começo da história. Só que a empatia necessária pra simpatizar e se apaixonar pela personagem vem justamente de entender a alienação: socializada como futura princesa do Norte, ela tem a trajetória de grande parte das mulheres que se tornam feministas. Foi a minha trajetória. De filhinha perfeita do patriarcado – uma perfeita lady – o caminho de Sansa foi marcado de misoginia. Assim como o nosso. E é de lá que Sansa ressurge, como fala Sylvia Plath em Lady Lazarus: “cuidado, das cinzas eu me reergo com meu cabelo vermelho e destruo homens como ar” (“beware, out of the ash I rise with my red hair and I eat men like air”).

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Não, a série não é machista

Sim, houve muita cena de mau gosto (alguém lembra aquela fala direcionada ao Tyrion de que não existe nada como comer uma mulher depois de matar alguém? E depois as pessoas vão se perguntar por que é que estupro é sobre poder, e não sexo, e fica todo mundo surpreso com estupro sendo usado como arma de guerra). Apesar disso, o tom que perpassa toda série no que diz respeito à violência contra mulher é de denúncia, não normatização. Sim, existem cenas que são gatilhos de trauma bastante fortes: mas a vida é um gatilho de trauma, e nossa anestesia perante essa realidade é uma das principais armas da manutenção dessa mesma realidade. Quer dizer, quem ainda se sente triste quando vê um mendigo na rua? Pois é. De repente o horror que as cenas suscitam servem pra nos acordar do transe a que somos condicionados pela sociedade capitalista e patriarcal em que vivemos. E mais: a nudez em Game of Thrones começou, sim, de maneira problemática, explorando mulheres nuas em cenas onde elas são facilmente sexualizadas. Mas não continuou assim. Buscamos o fim da sexualização dos nossos seios, que foram feitos, afinal, para amamentar, e não para deleite masculino. Cenas em que peitos são expostos e não são sexualizados – como acontece com frequência em Girls – são propositivas nesse sentido. Na última temporada, a série ainda fez um comentário bastante pertinente sobre isso: enquanto em cima de um palco de teatro uma atriz mostrava os seios de forma completamente gratuita, os bastidores nos trouxeram um close de um pênis de uma forma em que era impossível se preparar. Todo mundo precisou encarar aquele pênis por uns bons segundos na tela. E ficou bem claro o que eles quiseram dizer: no mundo do entretenimento, enquanto peitinho é tranquilo no palco, pênis explícito só é aceito nos bastidores.

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É tudo sobre amor

Lá no episódio inicial Jaime já dá a moral da história: “ah, as coisas que eu faço por amor”. O amor que ele tem por Cersei (alguém lembra que ele admitiu que ela é a única mulher com quem ele já se relacionou?), o que Cersei tem pelos filhos, o que Daenerys tem pelo seu passado, o que os Stark têm pela família. Enfim. Diferente do ódio psicopata de Ramsay, as grandes jogadas da história são todas movidas por amor. E no lugar desse ideal romântico do amor puro que tudo justifica, existem consequências sangrentas, cruéis e doentias, mesmo assim incapazes de macular a origem do sentimento. O próprio Jaime, um dos personagens mais amados, fala isso pela primeira vez quando se vê de certa forma obrigado a matar uma criança. Não consegue matar, mas faz com que fique paraplégica. E a ação ganha contexto na motivação de fazer tudo por Cersei. Game of Thrones, é, no fim, uma série sobre amor.

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A religião fode

Não, não é só do Alto Septo que eu to falando. A Melisandre fez um pai e uma mãe sacrificarem a própria filha. Não importa qual é o seu deus, aqui e em Westeros as consequências são claras: é a religião um dos únicos lugares em que a motivação vem exclusivamente do ódio. Que loucura (ou lucidez) maravilhosa do George R. R. Martin é essa, de colocar o amor na guerra e o ódio na religião?

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