A febre de “garota” em títulos de livros e o Oscar de Emma Stone

A febre de “garota” em títulos de livros e o Oscar de Emma Stone

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Se eu decidir escrever um texto provando que livros com a palavra “garota” no título estão na moda (e estão vendendo), eu vou ter gastado o meu tempo e o tempo de todo mundo que parar pra ler. Porque esse argumento é inútil: já é óbvio. Garota exemplar, A garota no trem, A garota do calendárioA garota que você deixou para trás (da Jojo Meyes, responsável por Como eu era antes de você): todos esses títulos foram tiradas de listas de mais vendidos da Publishnews, em 2016 e 2017.

O que me interessa é que, na maioria desses livros, as “garotas” já são mulheres (a exceção é The Girls, da Emma Cline, que realmente fala de garotas de 14 anos). Em uma coluna, Eva Wiseman, uma das minhas escritoras favoritas no The Guardian, trouxe essa discussão e me lembrou de quando uma Clarissa com 18 anos recém feitos conversou com o ex-namorado de uma veterana minha na faculdade de moda. Para explicar porque estava se apaixonando por outra pessoa, ele disse: “ela já uma mulher, e minha ex ainda é uma garota”.

Eu respondi: “Acho que nunca vou me referir a mim mesma como mulher”.

Já naquela época, pra mim, muito antes do feminismo, “mulher” era uma criatura mítica e poderosa – como minha mãe – que eu poderia apenas sonhar em um dia me tornar. Eu seria sempre uma garota – e implícito ali estavam os adjetivos boba, vulnerável, iludida.

Ontem, no Twitter, após Emma Stone levar o Oscar de melhor atriz, um homem – Kyle Buchanan, editor na New York Magazine – escreveu: “desde 2000, 7 vencedoras do prêmio de melhor atriz estavam com 20 e poucos anos, incluindo Emma Stone. Apenas um homem com 20 e poucos anos, Adrien Brody, levou o prêmio na história”, ao que uma mulher – Laura Turner, escritora – sarcasticamente rebateu: “é quase como se a gente valorizasse demais a juventude em mulheres…”

A febre dos títulos, os prêmios do Oscar, a nossa performance infantilizada como mulheres: é tudo a mesma coisa.

Felizmente, há alguns anos, me peguei pensando sobre mim como uma mulher, e foi uma surpresa. Boa.

 

 

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