A inveja e a felicidade pelo fracasso de Rory Gilmore
A inveja e a felicidade pelo fracasso de Rory Gilmore

A inveja e a felicidade pelo fracasso de Rory Gilmore

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Sim, tem spoilers.

Confesso: eu duvidei que o futuro da Rory fosse esse retratado pela criadora Amy Sherman-Palladino no revival que estreou mês passado na Netflix, A Year in the Life.

Faz mais sentido quando pensamos que as últimas quatro palavras – e a história – eram planejadas por Amy desde o começo da série, e que ela saiu da produção logo após a grande crise de Rory Gilmore (quem é que nunca roubou um iate, né?…). Ou seja: talvez esse momento de confusão, de desencaixe, de encarar a realidade, na verdade aconteceria com uma Rory recém formada, lá pelos 20 anos.

Faz mais sentido.

Encontrar a Rory com 32 anos profissionalmente mais perdida que eu com 25 foi desapontador. Perder uma referência, uma inspiração, alguém a frente de mim que me pudesse me dar gás e vontade de lutar, bom, nunca é legal. E ainda mais quando isso acontece com a Rory, a primeira personagem da televisão onde eu realmente me vi. De verdade. Inteligente, menina prodígio, bonitinha, leitora assídua, apaixonada por música, que preferia ficar lendo no intervalo do que socializando com colegas – e mimada, egoísta, insegura demais pelas expectativas dos outros.

É óbvio que a realidade em algum momento ia bater na porta dela pra dizer ei, miga, saca só, as coisas não são tão simples na vida real, Nova York não é Stars Hollow, ninguém lá te conhece, ninguém lá te ama, ninguém lá tá torcendo por você. Mas assistir àquela personagem sensata e reflexiva perceber isso aos 30 é doloroso. (Talvez o câncer e a depressão tenham cuidado de começar a me ensinar isso cedo, então meu aprendizado constante não vai ter um começo súbito e desesperado aos 32.)

Mas, mais que doloroso, é difícil de acreditar.

Que ela estivesse desempregada, sem nada publicado, sem prêmios e sem reconhecimentos? Ok, isso acontece, a vida é uma merda. Mas que ela estivesse perdida, ainda afogada em uma postura adolescente, repetindo erros de uma década atrás? Ela não aprendeu nada nesses 10 anos? É uma espécie de adolescência tardia? Na próxima temporada ela vai experimentar maconha e ter o primeiro porre?

Amy fez suas escolhas. A gente é obrigada a aceitar. Agora, o que é difícil de aceitar é essa plateia de pessoas batendo palmas pro fracasso da Rory, felizes por ela encontrar uma realidade fria e cruel, o que finalmente me faz pensar: é isso que vocês pensam sobre suas amigas, conhecidas, chefes, colegas? Vocês torcem pro fracasso umas das outras?

“Mas, Clarissa, Gilmore Girls é uma série…”

Eu não vou entrar no mérito da arte e entretenimento como catarse e forma de viver outras experiências, nem sobre a função disso na criação da empatia. A verdade pode ser resumida de um jeito bem mais fácil: todo mundo que eu vi feliz por esse futuro da personagem falou a mesmíssima coisa.

Que era bom ver aquela menina inteligente, bonita, querida, focada, sendo fodida pela vida. Que ninguém é assim, ao mesmo tempo inteligente, bonita, querida, focada. Que é reconfortante ver que ela deu com a cara na parede.

E daí eu penso: vocês não conseguem acreditar em mulheres assim? Inteligentes, bonitas, queridas ao mesmo tempo? As personagens femininas precisam ser mentalmente estragadas pra compensar uma superforça como a Jessica Jones? Ou com uma moral bem complicada pra equilibrar o poder como a Claire Underwood? Ou terem cometido crimes pro karma fazer sentido como todo mundo em Orange Is The New Black?

Como feminista, é curioso observar que mulheres com grandes falhas são mais críveis que mulheres com grandes qualidades, e que personagens como a Rory são descartadas por serem “perfeitas demais”. É triste e revoltante que uma mulher com essas qualidades não faça sentido nem na ficção, e mais ainda que exista torcida para que ela se ferre.

É. Tá foda.

No mais, eu tenho o prazer de poder dizer que sou cercada por mulheres ainda melhores que a Rory. Inteligentes demais, lindas demais, admiradas, amadas, reconhecidas, artísticas, expressivas, tímidas, únicas. E, melhor ainda, reais.

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