Leonard Cohen e o pior ano de nossas vidas

Leonard Cohen e o pior ano de nossas vidas

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Nessa trilha sonora pro fim do mundo, Leonard Cohen era o que me salvava.

Esse ano começou com meu quarto câncer, em que perdi o útero, os ovários, as trompas, todas as chances de ser mãe. Mais ou menos na mesma época que o Bowie morreu. E todo mundo chorou. Eu não, já disse. Ele não era meu deus do rock. A gente sente a perda – o mundo sente a perda. Da arte. Da força de unir tanta gente num sentimento. Em alguns versos. Em uma sequência de acordes.

Leonard Cohen não era um David Bowie. Não era estrela, não era performático, não era de outro mundo. Ele era daqui, do nosso mundo, do nosso chão. Só que sentia as palavras de um jeito diferente. E nos meus momentos de catástrofe interna, de temporais e furacões, era sempre ele que eu ouvia, não só com os ouvidos, ouvia com o corpo todo, com o estômago, com os pulmões, pra voltar a respirar.

E como a gente precisa respirar esse ano. Astrólogos falam que são os astros, os espíritas têm outras explicações. Mas a gente sente. O dinheiro faltando, os atentados acontecendo, essa gente sendo escolhida pra mandar no mundo. E parece que as pessoas iluminadas – aquela aura de luz, a capacidade de nos envolver dentro, e nos tirar um pouco do vórtex de destruição – tão indo embora. Uma por uma.

Faz quatro anos que o João e eu tentamos entrevistar o Leonard Cohen. Semana passada, recebemos um ok. Como falou o João, “quase fizemos a última entrevista da vida dele. Ou fizemos a última quase entrevista da vida dele”. Seria a última entrevista das nossas vidas – o que viria depois dele? O que a gente sente depois de encontrar deus?

A primeira música que conheci dele não é das mais famosas, “Waiting for the miracle”. Esse título, como disse a Amanda, nesse 2016 apocalíptico, nunca fez tanto sentido. E no meio do meu desprezo incontrolável por gente que chora a morte de pessoas famosas como se fossem amigas, to aqui, chorando também.

Meu deus desistiu do nosso mundo.

Mas Leonard Cohen continua sendo a trilha sonora perfeita pro fim do mundo.

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