Literatura e “literatura feminina”: que bobagem é essa?
Literatura e “literatura feminina”: que bobagem é essa?

Literatura e “literatura feminina”: que bobagem é essa?

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Monique Wittig, em um de seus textos feministas, defende a teoria de que existe um só gênero: o feminino, já que ser homem é o padrão. As frases dos livros de história sempre falam de conquistas dos homens, as teorias sobre a condição humana elaboram sobre as motivações dos homens. “Homem” é o coletivo de “seres humanos”, “eles” substitui “eles e elas”. Ser homem é ser normal. Ser mulher é ter um gênero.

Da mesma forma, a literatura per se é a literatura feita por homens e sobre homens. Quando existe alguma diferença em qualquer um dos fatores – se o personagem principal é do sexo feminino, se quem escreve é uma autora – automaticamente o livro leva a alcunha de “literatura feminina”, porque afinal apenas mulheres se interessariam pelas questões próprias de outras mulheres.

Escrever sobre a condição humana é legitimado na pele de homens. As angústias humanas são traduzidas e validadas quando na pele de personagens do sexo masculino. Porque, no nosso inconsciente coletivo, é dos homens o direito de sentir as coisas profundamente e de refletir sobre elas.

O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger (que era um abusador, aliás, mas isso é história pra outro post), traz o protagonista Holden Caulfield refletindo sobre a vida, sua solidão, seu futuro. Se trata de um romance psicológico que discute em grande parte sobre a existência humana. Do outro lado, temos um romance que é considerado alma gêmea de Salinger por alguns estudiosos de literatura, A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath. O livro aprofunda e traduz em imagens fortíssimas a realidade da depressão. Também se trata de um romance psicológico que discute a existência humana.

Salinger é considerado um grande escritor de romances psicológicos, e a literatura que produziu é incontestável. Plath, que nasceu apenas 13 anos depois, é considerada escritora de literatura confessional e sua importância literária é altamente contestada – mesmo ela tendo um Pulitzer Prize e ele, nenhum.

A falsa simetria no mundo artístico entre homens e mulheres não é novidade. Esse ano mesmo a Pitchfork publicou um artigo excelente que analisava essa discrepância no mundo da música: “Homens que trabalham questões sobre arte e se tornam famosos são canonizados quando morrem; mulheres são contestadas, diminuídas. É provável que essa parcialidade ao tratar o assunto seja ligada à noção puritana da ‘mulher artista’, em que a capacidade de ter um bebê indica que ela não deveria e nem poderia mergulhar tão fundo na arte quanto homens. Uma vez, uma pessoa especializada em história da arte me disse lamentar o fato de que Yoko Ono jamais seria tão respeitada quanto seus conterrâneos homens por ser mãe: ‘Mulheres que vivem da arte e colocam seu trabalho em primeiro lugar são vistas como egoístas e negligentes com a família. Homens que fazem a mesma coisa são chamados de gênios consumidos pelo trabalho.’”

Uma vez, entrevistando uma das moças do Warpaint, ela me disse só ler coisas de homens por acreditar que a literatura das mulheres não era tão capaz. Bukowski, um babaca que escreve mal sobre as mesmas coisas sempre, é endeusado em círculos literários. Jack Kerouac é a voz de uma geração. E enquanto isso uma quantidade de mulheres divinas como Virginia Woolf, Sylvia Plath, Harper Lee, Emily Dickinson, Donna Tartt, Emily Brontë (inclusive considerada por Bataille a escritora de um dos melhores livros do mundo, “sendo certamente a mais bela e profundamente violenta história de amor que existe”, nas suas palavras) e mais recentemente Jennifer Egan, ganhadora do prêmio Pulitzer em 2011, entre várias outras, são quase invisíveis. Egan escreve histórias em que discute o tempo e o futuro com frequência, intercalando narrativas, personagens, pontos de vista e angústias de forma espetacular.

Nós temos dezenas de filmes e documentários dedicados a escritores homens, como o maravilhoso recém lançado The End of The Tour, sobre o ainda mais maravilhoso David Foster Wallace. Sobre mulheres, a lista é realmente mais curta: dos mais recentes, temos de um lado o glorioso As Horas e do outro o superficial e mesquinho Sylvia, que reduziu uma escritora genial a uma mocinha ciumenta e imatura.

A própria J.K. Rowling, primeira pessoa do mundo a se tornar bilionária escrevendo livros, após as críticas de seu primeiro romance pós-Harry Potter, se viu obrigada a se esconder atrás do nome de um homem para ser bem recebida. Pensando que Mortes Súbitas é um drama familiar que trabalha política e relações pessoais de uma forma incrível que poderia, talvez, lembrar Tolstoi, torna tudo ainda mais absurdo. Aliás, ela escondeu seu próprio nome em siglas em Harry Potter por instruções de seu agente: com nome de mulher, as chances de sucesso seriam pequenas.

Gillian Flynn, autora do best-seller Garota Exemplar, é também desmerecida com frequência pela estrutura de thriller dos seus livros. O filme homônimo, na minha opinião horrível, não ajudou a autora: mas não foi ele, nem de longe, o responsável pelos comentários preconceituosos que dirigem a ela. Em seu primeiro romance, Objetos Cortantes, ela escolhe falar sobre níveis de loucura, em uma trama familiar com camadas e mais camadas de segredos e emoções conflitantes, que é impossível não encarar o teto por horas depois de cada soco que o livro nos dá. A escritora é especialista em trabalhar um tema que é muito ignorado na arte: a raiva e a violência feminina. Esses sentimentos, geralmente relegados a mulheres histéricas e ciumentas, retornam aqui com motivos de psicopatia e crueldade intencional, em personagens muito bem construídas que não deixam dúvidas da complexidade de ser mulher.

Eu deveria poder falar “de ser humano”, mas curiosamente esse ponto só é aceito em relação a homens. Uma pesquisa feita no Brasil em 2013 analisando mais de 250 romances brasileiros a partir da década de 90 revelou que 93.9% dos escritores são brancos e 72.7% são homens. Em relação aos personagens, o cenário é o mesmo: 62.1% são homens; 25.1% das personagens mulheres são donas de casa; apenas 7.9% dos personagens são negros, sendo que só 5.8% são protagonistas e 2.7% narradores.

É fácil olhar para o passado e eleger algumas mulheres para admirar: Harper Lee e Virgínia Woolf são quase inquestionáveis. O Sol É Para Todos definiu uma geração, e o livro até aparece em séries atuais como a razão de muita gente ter escolhido Direito. Mrs. Dalloway é um dos melhores livros de todos os tempos, e veículos como The Guardian e a TIME concordam.

Mesmo assim a maior parte das escritoras continua sendo julgada como inferior. Quando falamos de escritoras modernas, o fato se intensifica. Deixam às mulheres o papel de escrever livros comerciais e lixos literários como 50 Tons de Cinza enquanto aos homens servem os prêmios e a glória. É claro que homens também escrevem livros ruins, com personagens mal desenvolvidos e apenas ambições comerciais, como por exemplo Sidney Sheldon, Dan Brown e o nosso clichê brasileiro Paulo Coelho, mas até mesmo nessa categoria eles recebem mais respeito. Porém, independente de quantos forem, são as mulheres as conhecidas por produzir esse tipo de literatura.

Recentemente, recebi o livro O Segredo do Meu Marido da mesma amiga que me trouxe Gillian Flynn. A história explora a vida de três mulheres de realidades muito diferentes, dramas diferentes e personalidades diferentes, que se cruzam ao decorrer da história. Discutindo gênero e história na trama, Liane Moriarty nos brinda também com estereótipos quebrados, reflexões sobre distúrbios de ansiedade e uma narração irônica em que as próprias personagens são vistas de forma completamente diferente dependendo do ponto de vista que lemos. A capa, porém, com tipografia arredondada, uma flor e bastante rosa, jamais transpareceria tudo isso.

Por que concluímos que apenas mulheres devem ter interesse por assuntos de mulheres? E mais: por que as editoras reduzem drasticamente o número de possíveis leitores de um livro sério que trata de assassinato, luto e culpa com cores leves e uma letra bonitinha?

É óbvio que esse fenômeno não é uma reação dos leitores – embora é lógico que a realidade social patriarcal crie leitores mais propensos a livros de e sobre homens – mas desde a escolha de livros a serem publicados até a embalagem em que eles vêm interferem nesse processo. Das editoras aos críticos, existe um processo sistemático de diminuição do valor de livros de mulheres.

É importante reconhecer essa diferença se temos alguma vontade de que ela mude – e temos, é claro. Pra começar, podemos começar com algo bem simples: que tal ler mais mulheres?

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