Livros demais, tempo de menos #1 – “Morte Súbita”, J.K. Rowling

Livros demais, tempo de menos #1 – “Morte Súbita”, J.K. Rowling

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Não existe nada como abrir um livro novo.

Pra mim, ler sempre foi uma experiência sensorial tanto quanto intelectual. O toque das páginas, a textura do papel, a cor amarelada do tempo ou branquíssima de nova. O cheiro. O cheiro de livro novo. O cheiro de livro velho. Porque cada história, cada livro tem um cheiro. Esses dias, assistindo a um episódio de “Buffy”, vi Giles explicar de forma muito simples o motivo pelo qual ele não troca jamais livros por computadores: o olfato é um dos maiores ativadores de memória que existem. Você sente determinado cheiro e viaja automaticamente para o momento – ou história – que ele representa. Eu, assim como Giles, sinto falta do lado sensorial quando tomo nas mãos um Kindle. Talvez um dia a praticidade vença o prazer, mas esse dia ainda não chegou. Felizmente.

Mas abrir um livro também se estende para além dos sentidos. Abrir um livro novo é a ansiedade do antes, do desconhecido, de saber que você está mergulhando em um novo universo, preparada para conhecer novos personagens, seus mundos, sonhos, segredos e medos. Abrir um livro novo é um dos momentos mais felizes que existem porque é um começo, uma primeira vez deliciosa que você tem à disposição a qualquer momento. E se envolver com a história é como, de verdade, se apaixonar.

Eu sempre fui leitora assídua. Com 11 anos li a trilogia “Senhor dos Anéis”, e os grossos volumes de Harry Potter passavam menos de poucos dias nas minhas mãos antes que eu terminasse de ler. A vida de workaholic, porém, me colocou em uma rehab forçada, e me vi lendo em um ano inteiro o que costumava ler em um mês. Por isso, quando comecei a trabalhar fora de casa e precisava encarar 1 hora de metrô por dia, fiquei surpresa ao descobrir que aquele tempo era ideal para voltar a ler. De lá pra cá, vários livros já passaram pelas minhas mãos, alguns dos quais inclusive já resenhei aqui (como o vencedor do Pulitzer “A Visita Cruel do Tempo”, a série adolescente e incrível “The Hunger Games”, e o comentário social “The Bling Ring”).

Entrando no ritmo de que a vida nos dá livros demais e tempo de menos, tento otimizar não só minhas leituras, como também minhas indicações: exercito então meu poder de síntese em textos curtos e rápidos, indicando as melhores descobertas das minhas leituras mais recentes. Sem spoilers, só o suficiente pra fazer você também ter essa experiência maravilhosa que é abrir um livro novo.

 

“The Casual Vacancy”, J. K. Rowling

Eu sou completamente apaixonada por Harry Potter. Foi meu primeiro grande amor na vida e é eterno: a história me deu um lugar para pertencer, me deu meus melhores amigos, me fez escrever mais de mil páginas e exercitar minha familiaridade com as palavras. Existem um milhão de coisas que eu amo em Harry Potter e poderia falar sobre isso por horas a fio, mas se precisasse escolher só uma, seriam os personagens. “The Casual Vacancy”, primeira publicação da J.K. Rowling após a série, é sobre isso: personagens.

É difícil falar sobre a história desse livro, porque não é ela a melhor parte, mas vamos lá: o ponto de partida é a morte do conselheiro de uma cidadezinha do interior, que desencadeia reações em famílias de diferentes classes sociais, visões políticas e formas de vida. Desde adultos conservadores ou progressistas lutando pelo lugar vago no conselho da cidade até seus filhos adolescentes, lidando com os problemas típicos da fase, Rowling tece com maestria uma teia de hipocrisias, incoerências pessoais, e relações humanas. Para mim, o ponto forte são as dificuldades da galera mais nova: o menino oprimido (e espancado) em casa que é conivente com a opressão de outros no ambiente escolar; o menino que vem da família melhor estruturada, mas odeia o pai e desconta esse ódio em uma colega; a menina que sofre todo esse bullying escolar por causa da sua etnia e encontra em casa palavras duras da mãe, se refugiando em navalhas para aguentar a pressão; a menina mais bonita da escola, que veio de uma cidade grande e se perde na arrogância adolescente por ter certeza que é boa demais para aquela merda toda. E, finalmente, a mais impressionante das personagens: Krystal, péssima aluna e adolescente super sexualizada porque descobriu ali uma forma de poder, filha de uma viciada em heroína, responsável por cuidar do irmão menor no meio de uma casa imunda onde quase tudo falta.

Li o livro em inglês, percebendo uma diferença na narrativa entre esse livro e os três últimos volumes de Harry Potter (únicos que li no original). Outra mudança perceptível é a presença de temas mais adultos como vício, drogas e sexo: masturbação, relações sexuais, desejos e estupro são temas explorados – e muitas vezes detalhados, inclusive em sensações, texturas e cheiros – pela autora. Voltando à trama, todo mundo teve sua vida impactada pela morte do conselheiro, e essas reações são o que desenvolvem a história e fazem os capítulos seguirem. Mas o livro é muito mais que isso: é sobre a sensibilidade e a complexidade do ser humano. Baita leitura.

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4 Comments

  • […] Não existe nada como abrir um livro novo. Pra mim, ler sempre foi uma experiência sensorial tanto quanto intelectual. O toque das páginas, a textura do papel, a cor amarelada do tempo ou branquíssima de nova. O cheiro. O cheiro de livro novo. O cheiro de livro velho. Porque cada história, cada livro tem um cheiro. Esses dias, assistindo a um episódio de “Buffy”, vi Giles explicar de forma muito simples o motivo pelo qual ele não troca jamais livros por computadores: o olfato é um dos maiores ativadores de memória que existem. Você sente determinado cheiro e viaja automaticamente para o momento – ou história – que ele representa. Eu, assim como Giles, sinto falta do lado sensorial quando tomo nas mãos um Kindle. Talvez um dia a praticidade vença o prazer, mas esse dia ainda não chegou. Felizmente. LEIA MAIS. […]

  • Michelle
    5 years ago

    Li o livro durante as férias de julho e achei ele realmente incrivel! As 500 paginas passaram tão rapido que li em 2 dias (na verdade por que nao existia sono enquanto o livro com acabava). Foi maravilhoso ver os lados das historias me senti impactada com cada personagem. Amei seu texto!

    • 5 years ago

      Ba, demais o livro, né? :~ esse livro me pegou muito forte, eu lia no metrô indo pro trabalho e tive que chorar na frente de todo mundo hahahaha.

  • […] Livros demais, tempo de menos #1 – “Morte Súbita”, J.K. Rowling […]

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