Livros demais, tempo de menos #2 – “Garota Exemplar” e “Como ter uma vida normal sendo louca”

Livros demais, tempo de menos #2 – “Garota Exemplar” e “Como ter uma vida normal sendo louca”

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Não existe nada como abrir um livro novo.

“Garota Exemplar”, Gillian Flynn

Era época de Copa do Mundo, o Brasil tava em campo, mas eu não conseguia dirigir a atenção completamente pra televisão. Quando não eram os olhos que escapavam pras páginas do livro, era o pensamento: o que vai acontecer? “Garota Exemplar” é um livro de suspense que mostra a que veio logo no começo, e ele veio para impedir que você desgrude das páginas.

O ponto de partida da história é o desaparecimento de Amy, e Gillian Flynn constroi esse envolvimento inicialmente a partir da intercalação narrativa: cada capítulo é escrito em primeira pessoa do ponto de vista de um dos personagens do casal e, enquanto a narrativa do marido inicia a partir do desaparecimento, a narrativa de Amy mostra o passado do casal até o acontecimento. Assim como em “Dom Casmurro”, não sabemos qual é a verdade absoluta uma vez que temos apenas as interpretações pessoais dos personagens, que são manipuladores e mesquinhos, completamente perdidos no próprio universo egoísta. Os pulos temporais e entre os pontos de vista são o suficiente para te prender na trama que costura segredos, mistérios, vingança, amor e ódio de forma espetacular. Mas nada, absolutamente nada te prepara para a guinada que acontece na metade do livro: e como um carro em 200km/h que de repente muda a direção, você fica completamente sem fôlego, embasbacado, sem saber o que pensar.

A versão cinematográfica estreia hoje e é dirigida por David Fincher, o que já parece garantir que será incrível também, e traz Ben Affleck no papel do protagonista. A trilha sonora é feita por Trent Reznor (Nine Inch Nails), repetindo a dobradinha de “A Rede Social” e “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, outro filme espetacular, e já dá pra ser ouvida aqui.

No dia em que terminei de ler, pedi pizza para jantar, e fui carregando o livro no elevador e enquanto pagava o entregador, porque não poderia perder aqueles preciosos minutos longe da história. O moço do restaurante olhou pra mim, surpreso, e perguntou:

– É tão bom assim?

– É – eu respondi.

janaecamila

“Como Ter Uma Vida Normal Sendo Louca”, Jana Rosa e Camila Fremder

Desde que comecei a ler no metrô, já fui abordada por pessoas que me viam lendo e queriam comentar sobre como “A Game of Thrones” é sensacional ou perguntar se é fácil ler “Harry Potter” em francês. Nenhum livro, porém, me fez chamar tanta atenção no transporte público quanto esse, mas por outro motivo: as risadas incontroláveis faziam com que todo mundo no vagão decidisse virar para entender por que aquela louca – no caso, eu – estava gargalhando com vontade às 9h da manhã.

As 200 páginas, com ilustrações pontuais e divertidíssimas, são conduzidas por bom humor, identificação, ironia e muito riso. Os temas abordados pelo livro vão desde dramas atemporais – “como ser solteira e ser respeitada na sociedade” – até aqueles característicos da nossa geração Y – “a vida depois de ser taggeada em uma foto feia com muitos likes e comentários”. Aliás, outra coisa que fazem com maestria é zombar os dramas de primeiro mundo em que nós e nossos amigos e amigas com frequência nos vemos.

Sem se levar a sério e com a capacidade incrível de tirar sarro da gente e fazer a gente adorar, elas também ensinam coisas essenciais para a vida em 2014, por exemplo “como parecer intelectual sem ser” e “quinze maneiras de ter fama de cool“, porque, segundo elas, “não basta ser legal, tem que ser legal em inglês”.

É daqueles livros que, quando acaba, bate uma tristeza. Gostoso demais.

 

 

Outras resenhas literárias:
“Morte Súbita” – J.K. Rowling
“The Bling Ring” – Nancy Jo Sales
“Jogos Vorazes” – Suzanne Collins
“A Visita Cruel do Tempo” – Jennifer Egan

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