Lollapalooza 2015: um festival de música?

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A despedida do Lollapalooza de 2014 foi a mais gostosa (e agridoce) de todas. O lugar diferente e as diversas inovações elevaram o festival a outro nível e as dificuldades daquela edição prometiam um aprendizado para a próxima. O line-up, com headliners de peso e ainda mais bandas incríveis de médio e pequeno porte, indo desde atos com história até apostas em descobertas, também mostrava o amadurecimento do festival. No ano passados, tivemos a transcendente apresentação do Nine Inch Nails que sufocou todo mundo em um barulho delicioso para depois terminar em uma catarse melancólica em Hurt. Arcade Fire foi considerado um dos melhores – senão o melhor – show do ano por muita gente e Muse espremeu uma quantidade imensa de fãs no espaço do Palco Skol. O festival ainda trouxe o Pixies, importantes para a história do rock – foram uma das maiores influências do Kurt Cobain, por exemplo – os aclamados grupos indie Vampire Weekend e Phoenix, assim como o vocalista do Strokes em show solo. As melhores apostas foram, na minha opinião, a estranha e encantadora Lorde e a fúria das mulheres do Savages, que deixaram todo mundo da plateia (pequena) em um transe coletivo na apresentação ao vivo de Fuckers, com vários minutos de duração.

Dizer adeus foi triste, mas esperançoso. A edição de 2015 prometia ser a melhor de todas. Não foi. Foi a pior.

A expectativa foi devastada pela primeira vez com o anúncio do line-up. Nessa edição, as apostas do festival foram em artistas seguros e bastante pop – Pharrell, Calvin Harris e Marina and the Diamonds não me deixam mentir. Os atos menores pareceram ser apenas bandas que também referenciam a mesma sonoridade, como Bastille, Foster The People e The Kooks. Do outro lado, Jack White, Interpol, Kasabian, St. Vincent – melhor show dos dois dias – e o veterano Robert Plant representavam um diminuto oásis de expectativa em meio ao deserto musical dominante. Acrescente-se a isso o fato de que a organização escalou Kasabian e St. Vincent para tocar no mesmo horário, tornando inviável assistir às duas apresentações. Genial. Ficava claro, de cara, que a música estava em segundo plano.

A ida até o festival manteve as facilidades (metrô e trem) e conturbações (muita gente) de sempre, e eu mantive a tradição de perder o primeiro show que gostaria de ver no dia (Alt-J, que, pelos relatos, não foi uma perda lá muito considerável).

O festival me recebeu com a apresentação da moça de Tulsa (aquela cidade que o Chandler vai trabalhar em Friends), amiga dos maravilhosos do The National, e incrível guitarrista e vocalista. Se St. Vincent fosse homem, certamente já teria alcançado novos níveis de reconhecimento: a qualidade musical, a estranheza, a presença de palco, a sintonia com os membros da banda, a bagagem da sua experiência (ela já contribuiu com Bon Iver e Swans, foi sampleada pelo Kid Cudi, tocou com a banda do Sufjan Stevens, abriu pra várias bandas famosas e, claro, ganhou Grammy), os álbuns coesos e fortes, tudo é motivo pra admirar o trabalho que ela faz. Mesmo assim, o show, relegado a um horário no meio da tarde e competindo com os britânicos do Kasabian, atraiu pouca gente no menor palco. Quem perdeu foi você: com o sol se pondo, coreografias bizarras e explosões de guitarra, St. Vincent foi poderosíssima. Ela ainda arriscou no português, brincou com uma bandeira do Brasil que foi dada de presente e, encarando o alto, fez o sinal da cruz – para depois cair, entregue, no chão.

St. Vincent maravilhosa <3 #lollapalooza #lollabr2015 #stvincent #live #music

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Por dar preferência à St. Vincent, perdi, com tristeza, o show do Kasabian. Não é uma das minhas favoritas, embora seja uma das que mais gosto depois dos anos 2000, e sabia que a apresentação teria muita força. E também temos que admirar quem nomeia a própria banda em homenagem a uma seguidora de Charles Manson que foi posteriormente sua delatora, Linda Kasabian.

Embora eu deteste a estética macho de sexo, drogas e rock’n’roll típica do Led Zeppelin – e mais recentemente de outra banda terrível, o Queens of the Stone Age – o show de Robert Plant foi sensacional. As versões de clássicos do Led Zeppelin eram diferentes das originais, de alguma forma mais cruas, mais nuas, e, pra mim, mais sinceras. Saí de lá eletrizada. Plant é uma lenda que soube envelhecer musicalmente com dignidade e já rejeitou por diversas vezes a reunião do Zeppelin, mesmo podendo ganhar uma tonelada de dinheiro. No mesmo palco, Jack White fechou o dia. Como o Kasabian, sabia que seria um show forte e tinha bastantes expectativas, todas atendidas durante o tempo em que fiquei no palco. Carregado de guitarras – e de azul, em homenagem ao novo disco – o show foi sombrio e bastante impactante, como esperado.

Fui a essa edição do Lollapalooza com a minha melhor amiga da minha cidade natal, Porto Alegre, e o que trouxe Marina pela primeira vez ao festival foi a presença do Bastille. Como, diferente de mim, ela não vive em shows e festivais, decidi abandonar o Jack White para acompanhá-la até a apresentação da banda que ela mais queria ver, mesmo eu não gostando muito.

Saímos do palco Skol em torno das dez horas da noite, e o público parecia menor do que o que assistiu ao Phoenix no ano passado, uma comparação desproporcional quando pensamos que Phoenix não era sequer headliner. Quem ganhou o horário nobre naquele dia foi o Muse, responsável por espremer milhares de fãs no espaço do maior palco. Em 2015, nada disso aconteceu: a pouca quantidade de pessoas facilitou o trânsito entre os palcos e os diferentes ambientes. Se fosse para chutar, diria sem dúvidas que bem menos pessoas se dirigiram ao Autódromo nesse sábado do que no segundo dia do ano passado, o que vendeu menos – e as previsões de mais de 60 mil pessoas me parecem as estimativas exageradas do protesto contra a Dilma.

Se o trânsito era fácil, o acesso aos banheiros não era: poucos e colocados de forma aparentemente arbitrária – já que parecia haver zero planejamento estratégico – eles criaram filas e perda de tempo. Minhas amigas gaúchas ficaram chocadas com a falta e má localização dos banheiros, e Laura, que também nos acompanhava, fez questão de frisar: “Clarissa, por favor, fala que é um absurdo a quantidade desproporcionalmente pequena de cabines e espaços no maior palco. É um absurdo”.

Não podemos falar no Lollapalooza 2015 sem falar no maquiavelismo que é se aproveitar da necessidade humana de comida para inflar preços às alturas: um refrigerante chegava a custar 7,50, e o cachorro quente gourmet que foi minha escolha era 15 reais. Apavorada com os preços altíssimos escondidos na forma de Lolla Mangos, que custava 2,50, Marina chegou a brincar: “Cara, a ideia aqui é agir como se a gente tivesse viajando: se fizer a conversão dos mangos, a gente não vai comer nada”. E não foi só a gente que percebeu: a estratégia de acobertar os preços com uma moeda nova foi notícia em vários veículos, como a Folha,  e eu não pude esquecer que aqui a vulnerabilidade humana é motivo de lucro cruel. Que vergonha, Lollapalooza. E falando em vergonha, é impossível esquecer o cancelamento do show de Marina and the Diamonds e a decisão da produção de não fornecer reembolso. Não faço ideia se isso é ilegal (deveria ser), mas acima de tudo é extremamente desrespeitoso.

Chegando ao Bastille, eu não conhecia basicamente nada dos londrinos, e a primeira impressão que tive foi que as referências ao David Lynch e ao cinema surrealista eram apenas os títulos óbvios e a abertura de Twin Peaks de introdução ao show: a musicalidade era previsível, de fácil digestão e animada, perfeita pra qualquer pista de dança alternativinha, como manda a escola dos indiepops publicitários do Imagine Dragons e Capital Cities e tantas outras bandas completamente descartáveis. O aluno superou o mestre, é verdade, mas nesse caso isso não significa nada. Mesmo assim, o show do Bastille foi divertido e as referências pseudo-sombrias me fizeram refletir sobre o flerte com a introspecção que invade o mainstream mas interrompe o mergulho quando os pés tocam a superfície – é esse o máximo que conseguimos ir? Parece.

Por outro lado, os fãs loucos fizeram a diversão: chorando e pulando, como o sósia genérico do Felipe Neto que estava extremamente emocionado na minha frente, contagiavam. Até eu me diverti. Antes do fim, o vocalista parou o show para falar que St. Vincent tinha sido maravilhosa e com certeza a melhor coisa do dia. Bom, amigo, pelo menos bom gosto você tem.

Chegando em casa, fui surpreendida com uma intoxicação alimentar que me deixou acordada a noite inteira, vomitando, e também o dia seguinte. Por isso, o palco do segundo dia de Lollapalooza foi a minha televisão, de onde assisti ao show da única banda que valia a pena no dia: Interpol. Fazendo o favor de tocarem minhas músicas favoritas – The New e Rest My Chemistry – eles conseguiram até mesmo me deixar chateada de não poder ir. O setlist foi bem melhor do que aquele de 2011 e eu agradeci o fato de que irei vê-los ao vivo em Barcelona daqui alguns meses. Paul Banks parecia também muito mais satisfeito, saudável e bonito, e, se ele conseguiu me emocionar com a entonação triste e suja de sua voz mesmo da tela do computador, imagino que ao vivo tenha sido incrível.

O resto das apresentações era um combinado esquecível e plástico com bandinhas previsíveis como Foster The People e The Kooks, que seguem a linha do Bastille. Já vi Foster The People em 2012 e o público parece se envolver bastante com as interações e animações da banda. The Kooks, como era de se esperar, lotou o palco Ônix: em 2012 eles conseguiram esgotar em pouco tempo 7.000 ingressos em São Paulo. Esse domingo conseguiu levar muito mais gente para o Autódromo do que o sábado, o que faz bastante sentido se pensarmos que o line-up era baseado em sucessos radiofônicos. Acho ainda mais engraçado quando percebo que o público dessas bandas muitas vezes se considera parte de uma geração iluminada e despreza o pop dito mainstream como One Direction, sendo que todos buscam referência no mesmo lugar. Se o Friendly Fires, provavelmente o menos pior do sub-gênero, ainda tem um branquelo sem suíngue como vocalista (como bem disse Barcinski), o que sobra pro resto?

Como o Fernando Lopes falou de forma perfeita em sua resenha: “Mais do que isso, é importante apresentar bandas, novas ou não, que não atentem ao status consolidado: nenhuma chance de um Nirvana que cuspa nas câmeras de tevê; de um artista que toque pelado; de algum artista que mostre a bunda; de alguém que faça discursos políticos inflamados; de alguém que mande a plateia invadir a área de bebidas e pegar o que quiser, ou quebrar banheiros… Nada disso é possível nesse Lollapalooza que precisa dirimir riscos pra pagar as contas. Num mundo onde temos Estado Islâmico, racismo, machismo, terrorismo, preconceito contra nordestinos, falta de água na maior cidade da América do Sul, uma polícia militar assassina, políticos abomináveis, e trocentos e inomináveis outros males, não há um só artista que ao menos pense em se insurgir contra algo. Nada pode afrontar a moral, nada pode ser ofensivo, de “mau gosto” ou socialmente inaceitável. Não há rupturas nem mesmo musicais – e pra quem oferece espaço ao novo, não seria o esperado?”

Apesar de não parecer nesse texto, eu sou bem fácil de agradar. Eu sou a pessoa que no fim do primeiro Lollapalooza escreveu um post para um caderno de um jornal pequeno do sul falando que todo mundo deveria parar de reclamar e se sentir sortudo e maravilhado pela experiência que tivemos. Sempre amei todas as edições do Lollapalooza e todas elas até hoje, sem exceção, me fizeram chorar. Nem mesmo o lamaçal no Jockey em 2013 foi motivo para descontentamento por aqui, pois entendo que seja parte da experiência: é ao ar livre, pode chover, vocês já viram fotos do Woodstock? Então. Acontece que, com o fim do Planeta Terra, o Lollapalooza é um dos últimos festivais de música alternativa do país, e me dói ver no que ele se transformou em 2015. Onde está o compromisso, a ousadia, a paixão pela música com o line-up que dava ansiedade já de cara quando a gente precisava pensar quais bandas precisaríamos abrir mão? Meu carinho pela Planeta Terra foi imenso e, talvez por ter sido o primeiro festival que eu fui, quando ainda nem existia Lollapalooza, ele sempre será meu favorito no Brasil. Mas é sempre do Lollapalooza que eu esperei as melhores surpresas, melhores bandas e experiências mais incríveis. Talvez por isso esteja tão desapontada com essa edição: porque me importo, e muito. Só resta torcer que 2016 recobre a coragem e a promessa dos outros anos.

Essa edição do Lollapalooza, especialmente o line-up, me lembrou muito Porto Alegre – a cidade de onde eu fui embora.

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  • […] A despedida do Lollapalooza de 2014 foi a mais gostosa (e agridoce) de todas. O lugar diferente e as diversas inovações elevaram o festival a outro nível e as dificuldades daquela edição prometiam um aprendizado para a próxima. O line-up, com headliners de peso e ainda mais bandas incríveis de médio e pequeno porte, indo desde atos com história até apostas em descobertas, também mostrava o amadurecimento do festival. No ano passados, tivemos a transcendente apresentação do Nine Inch Nails que sufocou todo mundo em um barulho delicioso para depois terminar em uma catarse melancólica emHurt. Arcade Fire foi considerado um dos melhores – senão o melhor – show do ano por muita gente e Muse espremeu uma quantidade imensa de fãs no espaço do Palco Skol. O festival ainda trouxe o Pixies, importantes para a história do rock – foram uma das maiores influências do Kurt Cobain, por exemplo – os aclamados grupos indie Vampire Weekend e Phoenix, assim como o vocalista do Strokes em show solo. As melhores apostas foram, na minha opinião, a estranha e encantadora Lorde e a fúria das mulheres do Savages, que deixaram todo mundo da plateia (pequena) em um transe coletivo na apresentação ao vivo de Fuckers, com vários minutos de duração. Dizer adeus foi triste, mas esperançoso. A edição de 2015 prometia ser a melhor de todas. Não foi. Foi a pior. LEIA MAIS. […]