Lucky Ladies Brasil: o reality show das funkeiras
Lucky Ladies Brasil: o reality show das funkeiras

Lucky Ladies Brasil: o reality show das funkeiras

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Tem algumas semanas que eu encontrei meu novo reality show favorito, Lucky Ladies, e, desde então, vinha com uma vontade latente de escrever sobre ele. Contando sobre a realidade de mulheres da periferia que encontraram na música a forma de superar os problemas, ele mostra que o funk tem sim um papel social que atualmente pode ser bem mais relevante que o rock. Depois de ver os comentários afiados e assertivos que Sú Vasconcellos faz no Facebook sobre o programa, percebi que ela escreveria esse texto muito melhor do que eu. Com vocês, a palavra dela 🙂

 

Unlucky Ladies

Na noite de 25 de maio o canal Fox Life estreou o seu primeiro reality show brasileiro, o Lucky Ladies Brasil, que criou uma certa expectativa nas redes sociais. Boa parte dos internautas esperava por MUITO barraco ao saber o nome das participantes, principalmente pela presença da Tati Quebra Barraco (que não tem esse nome à toa). Lucky Ladies é um programa que tem seu formato próprio e por isso não deram um nome que tenha a ver com as funkeiras aqui no Brasil. Ele rola em outros países com ex-esposas de jogadores de futebol e esposas de astros do rock. Porém, a Fox Life Brasil convocou as funkeiras para deixar o programa com a cara do nosso país (e foi uma grande sacada).

O programa tem como mentora das funkeiras a Tati, uma pioneira ao se destacar como MC no mundo do funk dominado por homens, por isso extremamente respeitada alcançando grande sucesso no Brasil inteiro (quem não conhece o hit Dako é Bom? risos). O objetivo do programa é quebrar a conhecida rivalidade que existe entre mulheres no mundo do funk e colocar todas as participantes no mesmo palco cantando juntas. Para isso elas terão que aprender a conviver numa casa e até mesmo dividir o mesmo quarto. Mas diferente de outros programas, elas podem usar celular e sair da casa (não, gente, não tem confinamento porque não é competição).

“Fizemos este reality com o intuito de unir as funkeiras, porque os homens são unidos mas a gente não”. é o que diz Tati. Na noite da estréia, Lucky Ladies chegou a ficar em primeiro lugar nos trending topics do twitter com a tag #LuckyLadiesBR e hoje é o queridinho das redes sociais, chegando a ser mencionado pelos internautas como “o melhor reality show da TV brasileira”. Apesar da expectativa de confusões e barracos por se tratar de funkeiras que falam o que pensam e com personalidades totalmente diferentes, o programa tem surpreendido com histórias fortes de vida e de superação de mulheres que lutam pelo seu espaço no funk no Rio de Janeiro cativando mais o público. Inclusive muitas meninas estão se sentindo representadas por falas sobre independência feminina e auto-estima de algumas participantes.

 

Mulher Filé

Uma velha conhecida do público da época das mulheres frutas no funk e da sua participação no programa A Fazenda, gosta de causar por onde passa. “Gosto de ser provocativa, eu gosto de passar e as pessoas olharem, se não me olham tem alguma coisa errada”. Sua marca é a sensualidade e faz questão de descer até o chão não importando onde esteja. É a mais zueira das participantes, sempre fazendo brincadeiras e animando a casa. Suas falas geralmente são polêmicas e ao mesmo tempo engraçadas, muitas vezes alfinetando outras participantes. Você pode detestá-la em alguns momentos em outros pode aplaudir. Ousada, autoritária e independente, também teve momentos difíceis no início da sua carreira no funk.

 

Karol Ka*

*(não confundir com Karol Conká, a rapper negra de Curitiba, please)

Desde o primeiro dia já se destacou das outras candidatas ao chegar cheia de malas e dizendo, para o espanto de todas, que não bebe. Vinda de uma cultura evangélica, ela “não se mistura” com as outras meninas, abomina palavrões e se espanta com a sensualidade de algumas participantes. “Eu não consigo entrar nas brincadeiras das meninas, isso não tem nada a ver comigo”. De Belo Horizonte, faz questão de dizer que tem 14 anos de carreira na música, técnica vocal, profissionalismo e muito foco. Quer mostrar que apesar de não ter nascido numa comunidade do morro pode e tem potencial para ser funkeira mesmo vindo do pop e do gospel.

Mary Silvestre

Ex-modelo e ex-dançarina do programa Caldeirão do Huck, também quer mostrar que mesmo não sendo do universo do funk pode ser uma funkera e realizar seu sonho de ser cantora. A mais tranqüila da casa sempre se mostra disposta a fazer festa e conseguiu facilmente se enturmar com as outras meninas, participando das brincadeiras e rindo mesmo quando ela é o alvo da zuação. Defende que o funk é uma música para curtir e não apenas pra rebolar e mostrar a bunda. Talvez seja a candidata com o ego menos inflado da casa, se mostrando disposta a aprender e até mesmo certa uma insegurança diante da presença impactante de Tati Quebra Barraco.

MC Sabrina

Aparentemente tranqüila tem uma das personalidades mais fortes da casa, forjada nas dificuldades da sua vida e começo de adolescência. MC Sabrina encontrou na música um ponto de equilíbrio e uma forma de transmutar seus sofrimentos. Sua força transparece na sua voz marcante e potente, e ela sobrevive do funk e sustenta sua família (mãe e irmãos). Tem seus momentos de diversão na casa e se dá bem com todas as outras meninas, principalmente com Yani Filé, empatia imediata que se deu ao revelar sua forte história de vida no episódio 2, que emocionou o público. Sua risada é contagiante e é a dona dos melhores comentários entre uma cena e outra do programa.

MC Carol de Niterói

A figura mais carismática do programa conquistou o público logo de cara rendendo muitos comentários no dia da estréia se emocionando ao ver Tati Quebra Barraco. Conhecida por músicas como Minha Vó Ta Maluca e Meu Namorado É O Maior Otário, também possui uma forte história de vida e sobrevivência e passou fome antes de ingressar no mundo do funk. Defende a independência feminina e a não submissão a homens, e disse ao Portal Vírgula que se considera feminista. Possui uma auto-estima elevada, se acha sexy e adora seduzir o marido, o que impressiona as outras meninas da casa que vivem em apreensão constante com a aparência e a imagem. Ela é a mais engraçada da casa e arranca infinitas risadas com frases como: “Eu queria emagrecer comendo churrasco, como faço?”. Dona de uma sinceridade ímpar, diz o que tem que dizer na lata doa a quem doer, mas mesmo assim dotada de uma tranqüilidade tal que se torna impossível guardar rancor de uma pessoa tão fofa. MC Carol é 100% good vibes não liga pra críticas á sua aparência, defende que a essência do funk é a atitude e a mensagem e que funk não se aprende funk se vive. Ela conquistou a simpatia do público no primeiro episódio e internautas comparam Mc Carol e Tati com Beyoncé e Nicki Minaj fazendo referência ao feat Feeling Myself.

Não podemos deixar de falar da Tati Quebra Barraco, que realmente bota ordem na casa dando a última palavra, e até mesmo o produtor Rafael Ramos que se cala diante da autoridade da funkera. O momento marcante se deu no primeiro episódio onde Tati diz que não está procurando “boniteza” está procurando talento, depois de Rafael Ramos elogiar a aparência de Karol Ka. O público vibra com a franqueza e o “não ter papas na língua” de Tati, e a frase se tornou o meme mais divulgado naquela semana.

Sabemos que existem muitos preconceitos com relação ao funk muitos deles relacionados ao racismo e elitismo latentes em nossa sociedade. Dizem que funk é uma música que objetifica mulher, porém o rock também tem letras que falam abertamente de estupro e violência. Algumas dessas mulheres têm sim uma mensagem a passar e fazer pensar (como MC Sabrina e MC Carol falando da questão indígena em nova música).

Particularmente sempre me pareceu mais interessante mulheres cantando funk do que homens, mesmo que essas mulheres pregassem a dita rivalidade feminina, ainda assim era mais divertido que esse “endeusamento de piroca” das letras dos homens. Valesca Popozuda e o Beijinho no Ombro que o digam. Letras que pregam independência de homens e autonomia sexual feminina, e até mesmo olhar sem censura para seus próprios corpos são importantes dentro de um contexto social machista e sexista como o nosso. Até a própria Tati Quebra Barraco foi muito importante nesse sentido, representando muitas mulheres que muitas vezes sofriam violência e eram sufocadas por homens. Não é necessário gostar de funk para assistir ao programa, pois o programa não fala só de funk, nem toca funk o tempo todo. Fala de maternidade, casamento, amor, de mulheres batalhadoras, das dinâmicas das relações familiares e amorosas, de luta por sobrevivência, de busca de sonhos, de outras realidades sociais fora da bolha classe média.

Até agora vocês conhecem o funk feito por homens. Lucky Ladies convida vocês a ver o mundo do funk pela visão das mulheres, de histórias, lutas e vivências de mulheres. O programa Lucky Ladies BR é exibido todas as segundas ás 22h30min no canal FOX Life. Com reprise do capítulo na madrugada de terça as 3h:30min e quinta as 19h00min.

Sú Vasconcellos, libriana, comentarista Lucky Ladies nas terças,
leitora de mapa astral nas quartas, admiradora desde os fados do ocidente
até música árabe do oriente por que música boa não tem fronteiras.

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