Mãe, obrigada pelas coisas que tu não me ensinou

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Eu lembro que eu tinha uns 11 anos quando uma colega começou a ser mal tratada na minha turma do colégio porque a mãe dela não deixava ela se depilar. Até aquela idade, nunca tinha pensado nisso. Eu perguntei pra minha mãe:

– Tu não vai me falar pra me depilar?

Eu não lembro o que ela respondeu, mas ela disse que isso deveria ser uma escolha minha. Que não era o papel dela vir me falar que eu deveria fazer isso. Que se eu quisesse, ela me mostraria. Eu quis. Naquela idade não tinha recursos o suficiente pra entender a sensação de abandono que eu senti: como minha mãe não se preocupava que eu pudesse ser alvo de coisas horríveis na escola?

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Minha mãe costuma contar, em uma anedota da família, que eu odiava usar “roupas de menina”. Ela comprava coisinhas pra me enfeitar como árvore de Natal e eu arrancava todas, intransigente com o desconforto que elas me causavam. Em vez disso, eu usava shorts largos, camisetas de meninos, e pulava em árvores, jogava bola e bolita com meus primos. Ela aprendeu cedo: eu devia estar começando a falar quando ela desistiu de me enfeitar.

Quando tava muito quente, eu costumava tirar toda a roupa e ficar só de calcinha, imitando meus amigos que desnudavam o peito. Na minha casa, nunca foi problema. Minha mãe nunca me ensinou a me cobrir. Nas festas de aniversário, minha vó fazia vestidos lindos que eu usava pela primeira hora antes de sentir calor demais e tirar a roupa. Se os meninos podiam, eu também podia. Na minha casa, isso nunca teve problema.

Quando eu tinha 15 anos, eu comprei uma mini saia tão curta que uma vez, na rua, um cara gritou que eu tava usando uma bandana de cabeça nos quadris. Minha mãe riu e repetiu a história pra família inteira. Ela nunca me ensinou que eu tava errada por usar roupas curtas. Ela nunca me ensinou que boas meninas se vestem para não parecerem vadias. Ela nunca me ensinou a me vestir.

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Com 13 anos, uma colega de turma me perguntou por que eu me vestia como menino. Por que eu usava aqueles shorts que faziam minhas pernas magrelas parecerem ainda mais finas. Por que eu não usava calças jeans, e sim calças largas de moletom.

Eu cheguei em casa chorando e perguntei por que minha mãe me deixava eu usar aquelas roupas. Por que ela não me avisava que eu ia passar vergonha. Ela comprou uma calça jeans como eu queria, e disse que eu poderia me vestir de qualquer jeito que eu quisesse.

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Quando eu troquei de colégio, minha amiga me apresentou os sutiãs de bojo, que faziam meus peitos inexistentes aos 14 anos parecerem ter alguma coisa de volume. Minha mãe nunca havia me falado nada disso – ela usa até hoje sutiãs de tecido confortável sem bojo e sem estrutura que apertem o corpo.

Essa mesma colega me apresentou lápis de olho. Eu comprei um, cheguei em casa e pedi pra minha mãe me ensinar a passar – ela não sabia, mas achou um estojo de maquiagem que ganhou de presente, bem colorido, e disse que eu podia brincar. Eu ia pra escola com sombras azuis e verdes e rosas e achava que aquilo era ok, porque minha mãe nunca me ensinou a me maquiar.

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Numa madrugada da última semana, compartilhei com meu namorado como faltei a todas as aulas de química do cursinho Unificado de Porto Alegre porque o professor que eu tive era nojento – ele fazia piadas horríveis e misóginas em sala de aula e dava em cima de metade das garotas, uma delas minha conhecida que me contava coisas que ele dizia e fazia.

– Você já era engajada com o feminismo nessa época? – ele me perguntou.

Não. Nessa época nem me considerava feminista. Mas eu sabia a diferença entre piadas misóginas e racistas e piadas que não agrediam. Porque minha mãe nunca me ensinou a rir pra não ser mal educada. Minha mãe nunca me ensinou a calar a boca quando a graça da piada era desrespeito aos oprimidos – nem mesmo quando as piadas vinham de alguém que a gente amasse. E sobre mesas postas ela brigou muito por causa disso.

Ela nunca me ensinou a rir da nossa opressão. Ela nunca me ensinou a me calar.

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Cresci sem filmes de princesas da Disney – só tinha “A Bela e a Fera” porque, bom, ela que salvava o príncipe, e “Mulan”, porque ela não ficava esperando ser salva também – e sem novelas. Cresci com centenas de livros em volta de mim, e escrevia histórias horríveis e cheias de erros de português que meus pais liam com paciência e falavam que eu tinha talento.

Minha mãe me ensinava a apreciar visitar livrarias e pintar com acrílica sobre tela. Antes de menstruar eu tinha dezenas de livros e tintas, e nós nos fechávamos nos fundos das casas e, enquanto ela explorava sua técnica, eu fazia desenhos bobos que ela depois pendurava na parede como obras de arte.

Minha mãe nunca me ensinou a “ser mulher”, e demorou para eu perceber que era uma. Foi só depois de trocar de colégio e experimentar novas roupas e cenários que me tornei consciente de como eu era desajeitada e nada feminina. Para compensar, fui estudar moda, tive anorexia, aprendi a me maquiar e me tornei a filhinha perfeita do patriarcado – branca como eu e com o IMC abaixo do mínimo não foi difícil. Foi com os assédios na rua que eu aprendi que era mulher. Mas nada disso foi ela quem me ensinou.

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Como a Andrea Dworkin fala em seu maravilhoso “Woman Hating”, “a tecnologia da beleza e as mensagens que ela carrega é transmitida de mãe para filha. A mãe ensina a filha a usar batons, a se depilar, a prender seus seios, a usar cintas e sapatos de salto alto. Mães ensinam às filhas o seu papel, o seu comportamento adequado, o seu lugar. Elas ensinam, necessariamente, a psicologia do ser mulher: uma mulher precisa ser bonita para agradar Ele. E o que chamamos de ethos romântico opera na América e na Europa do século 20 como operou no século 10 na China [quando a técnica de deformação dos pés foi iniciada]”.

Obrigada, mãe, por tudo o que você não me ensinou.

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P.S.:

É claro que, como Dworkin ainda explica, “Essa transferência de cultura, papel e psicologia afeta a relação emocional entre mãe e filha e contribui substancialmente para a dinâmica ambivalente de amor e ódio dessa relação”. Em outras palavras: é do interesse do patriarcado que esses ensinamentos sejam passados de mãe para a filha não apenas pela manutenção do padrão, mas pelos efeitos negativos que se sobrepõe à relação. A mãe, nesse cenário, tanto quanto a filha, é vítima das opressões do patriarcado, e colocá-la como perversa seria culpabilizá-la pelas opressões que sofre. Por isso, não é, em nenhuma instância, meu objetivo aqui colocar a culpa da criação das meninas na própria mãe.

O ato de transferência de cultura ainda pode ser visto como forma de proteção: usando o exemplo das chinesas, uma mulher com pés normais era execrada socialmente e perderia todas as chances de casar. O papel da mãe em proteger a filha, dentro de um sistema de opressão, implica passar adiante as opressões necessárias para o sucesso social da filha: a psicologia social e individual desse fenômeno oprimi tanto mãe quanto filha, sendo de nenhuma a culpa do processo.

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