Menos branquice no Netflix

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No incrível “Swing Time”, primeira leitura de 2017 e com certeza pertencente à lista de melhores desse ano, a personagem principal é filha de mãe negra e pai branco. Tal qual a autora, Zadie Smith, a questão de não ser branca e nem negra marca a narrativa. Em determinado momento, ela, criança, mostra pra uma colega de classe e de dança um vídeo de uma apresentação em que todos os dançarinos são negros. A protagonista está deslumbrada. Pela dança, pela identificação. A amiga, branca, responde de forma incisiva: ela não consegue perceber como é ofensivo mostrar um vídeo assim? Em que todo mundo é negro? Na própria casa dela? Que era um absurdo, uma falta de respeito, uma falta de consideração?

Master of None, série original do Netflix, chegou dando um chega pra lá nessa coisa de só gente branquinha e perfeitinha sendo estrela. Mas em 2016, tivemos três séries espetaculares que deram uma resposta incrível pro white washing de Hollywood: não só os brancos são minorias, mas o racismo é denunciado, e as séries são muito, muito boas. Atuação, roteiro, história: dando uma lição pra outras séries amadas como Sense 8Stranger Things, Gilmore Girls (que eu amo, mas que revival bem mais ou menos, né gente?).

Junto com Mr. Robot, The Americans, Black Mirror, Game of Thrones e House of Cards, elas completam as minhas séries favoritas do ano (e percebam como mesmo assim a minha lista é dominada por brancos…). Vamos lá pro top 3:

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3. CHEWING GUM

Tracey é uma menina de uma família muito religiosa que, como toda adolescente, está com os hormônios explodindo. Perder a virgindade é o drama central no começo da história, que se desenvolve pra falar de dramas muito mais profundos. Com um humor afiado, uma narrativa maravilhosa e uma atuação melhor ainda, a série trouxe alguns dos melhores diálogos que eu já assisti. É de chorar de rir: um retrato fiel e irônico do que é ser adolescente e dos conflitos entre religião e desejo.

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2. THE GET DOWN

Eu tinha certeza que essa seria a melhor série do ano pra mim, de tão boa que é. O fio condutor da história – a música – já é uma das minhas paixões. O cenário, a Nova York explosiva dos anos 70, com um Bronx em chamas, o apagão de 77 (que, além de aparecer na série, é tema de um lançamento literário que se tornou best seller mundial, Cidade em Chamas), a crise política, a especulação imobiliária. Nesse ambiente caótico, os personagens fazem poesia, trazem o conflito entre arte e responsabilidade, e sentem como é ser jovem e apaixonado. Destaque pro Jaden Smith, meu personagem favorito. De novo: atuações incríveis, roteiro invejável e fotografia sensacional. Que série.

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1. ATLANTA

Donald Glover é tudo o que eu queria ser: músico de altíssima qualidade (o que é esse disco novo do Childish Gambino?), escritor muitíssimo bom, ótimo ator, lindo de morrer. Ele é também o criador, protagonista, roteirista e às vezes diretor de Atlanta, facilmente a melhor série do ano. Earn, o personagem principal, é um jovem adulto que precisa lidar com a responsabilidade de ter uma filha ao mesmo tempo que quer seguir o sonho de ser produtor musical, sua verdadeira vocação. A relação bem humorada com os amigos, o relacionamento complexo e muito bem desenvolvido com a esposa e a paixão pela música desenvolvem o drama existencial que cerca cada diálogo perfeito. A série é engraçada, irônica, super atual e afiadíssima, e ainda faz um uso muito criativo do Snapchat. Com episódios para mostrar a perspectiva da esposa, com conflitos carregados de subtexto e sequências maravilhosas, a série é o que toda série almeja ser: impecável. O destaque vai para o episódio 7, B.A.N., uma sátira de talkshows norte-americanos em que se discute corajosamente como o preconceito é um se você é branco e rico (como Bruce/Catilyn Jenner) e outro quando você é preto e pobre. Um muito bem dado tapa na cara de todo branco que assistir (na minha inclusive). Maravilhosa.

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