Minha buceta é o poder!

Minha buceta é o poder!

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Eu trabalho no meio da música e muita gente que se diz culta estremece ao ouvir as músicas da Valesca, especialmente as que vieram antes de “Beijinho no Ombro”. Essas músicas anteriores são acusadas de bagaceiras (mas rappers e rockeirinhos metidos a macho enchendo as músicas de palavrão é cultura, ahãm, tá bom, pode crer). Mulher falando da própria anatomia é sempre ofensivo.

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O primeiro resultado no Google de uma busca “pênis + cheiro” é sobre sintomas de doenças e atenção à saúde. Quando buscamos “vagina + cheiro”, o resultado mais relevante ensina a disfarçar os odores naturais. “Cheiro de homem” é uma expressão que remete à virilidade e supremacia masculina. “Cheiro de mulher”…. bom, esse tem que ser encoberto. Em uma busca rápida em sites de farmácias, encontrei hidratante, ducha higiênica, desodorante, sabonete, lenços e até perfume dedicados exclusivamente a disfarçar o cheiro da vagina. Existem receitas com iogurte natural, óleo da árvore de chá, vinagre de maçã (tudo diretamente na vulva) e até indicações de mudanças alimentares.

Na Idade Média, segundo minha professora de História da Arte, a Igreja tinha um manual que detalhava inclusive os tipos de pensamentos que poderíamos ter na hora do banho e de usar o banheiro. O banho, aliás, era feito de roupa: o contato com o próprio corpo era eliminado ao máximo, e o controle do que pensávamos em momentos em que o nosso corpo se encontrava conectado com nossas funções fisiológicas fazia parte dessa desumanização. Nós, mulheres, ainda nos depilamos, usamos perfumes, nos maquiamos, fazemos as unhas, alisamos os cabelos, e principalmente eliminamos todo o nosso cheiro natural – a intenção de uma plastificação da mulher, de deixá-la cada vez mais distante das funções corporais é a manutenção da nossa desumanização.

Nós nos distanciamos do nosso ser pessoa e nos aproximamos do ser boneca, elemento decorativo social. Destruindo nossa conexão com nosso corpo, se quer destruir nossa percepção da nossa humanidade.

Quando o absorvente foi inventado, em 1920, o criador não conseguia encontrar lugar para publicar seus anúncios: nenhum veículo queria falar publicamente sobre menstruação. Ainda hoje matérias sobre isso substituem vagina por “naquele lugar”, alegam que sem o cheiro natural da vagina é mais fácil receber sexo oral, falam que o odor natural é motivo de vergonha. Ou seja: tudo relacionado ao nosso órgão reprodutor é sujo.

 

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Enquanto isso temos campanhas de saúde “lave o pinto”
porque anualmente mil homens perdem o órgão sexual
por câncer de pênis causado por falta de higiene.

 

Até mesmo em grupos feministas discutir a nossa anatomia virou tabu. Falar em útero, gestação, menstruação? Não pode. As mulheres grávidas e mães são esquecidas, abandonadas. As mulheres com dúvidas em relação à própria saúde podem contar só com o Google, já que são rechaçadas inclusive em espaços onde deveriam ser acolhidas.

Não bastasse isso, existem cirurgias plásticas vaginais destinadas exclusivamente a deixarem a vagina “mais bonita”. Existem cirurgiões especializados em vaginoplastia e rejuvenescimento vaginal. As cirurgias não têm como objetivo algum problema fisiológico, e nem mesmo aumentar o prazer sexual. Elas têm como único objetivo fazer vaginas mais atraentes – tipo aquelas que apareciam na Playboy. A Society of Gynecologic Surgeons já alertou que esse tipo de cirurgia pode causar cicatrizes dolorosas e até danos nos nervos responsáveis pelo prazer, impedindo a função sexual, tornando a vulva extremamente dolorida ou completamente anestesiada de forma permanente.

Mesmo nesse cenário assustador, a procura para esse tipo de procedimento só aumenta. Os anúncios em jornais locais dos EUA, especialmente em Los Angeles, também. Estatísticas mostram que, nos últimos 5 anos, essa tendência só cresceu – e de forma exponencial. Os anúncios ainda explicam que se trata de uma correção para vaginas com aparências mais assimétricas, com lábios externos e superfície irregular. Afinal, a própria existência do nosso órgão como foi feito naturalmente é um erro: o termo usado pelos cirurgiões é exatamente esse, correção. Os tentáculos dos padrões de beleza atingem até as partes mais íntimas do nosso corpo (aliás, pra que serve a depilação…?) e mulheres com bucetas que não são lisinhas, clarinhas e delicadas precisam ir pra faca.

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Tá na hora de parar com essa palhaçada.

Nossa buceta é linda, cheirosa e gostosa ao natural. Isso sem falar que a gente tem um órgão inteiro só destinado ao prazer, um botãozinho da facilidade. Vamos virar as costas pra essa indústria que lucra em cima da nossa infelicidade? Pra esse machismo capitalista e explorador? Vamos nos amar?

E se a nossa buceta não fosse tão maravilhosa, a natureza não ia ficar imitando, né?

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