MUSAS DA MÚSICA – As três mulheres da minha vida

MUSAS DA MÚSICA – As três mulheres da minha vida

156Shares

Como tem mulher incrível no mundo. Aqui são só algumas.

Kathleen Hanna

É difícil falar de alguém que representa tanto na minha vida, porque sempre parece que algo muito importante vai ficar de fora. Pra resumir, Kathleen Hanna é a mulher mais foda do mundo. Isso mesmo. Feminista radical, ela e sua banda Bikini Kill foram responsáveis pelo movimento RIOT GRRRL nos Estados Unidos. Não contente com os rumos que o movimento levava, ela passou a inserir pautas que evidenciassem mulheres negras e mulheres pobres. Para ela, os preceitos liberais individualistas não faziam nada por essas mulheres e as riot grrrls tinham que parar de olhar pro próprio umbigo e começar a olhar pra quem está precisando de ajuda.

No Bikini Kill, ela criou músicas como Rebel Girl em que incentiva uma revolução feminista (REVOLUTION GIRL STYLE NOW era um dos seus slogans), questionava o uso do corpo feminino na indústria cultural, reivindicava o prazer feminino como em I Like Fucking, desafiava outras meninas a serem quem elas querem ser como em Double Dare Ya e xingava quem tinha que ser xingado (oi, White Boy).

Com o fim do Bikini Kill, ela se dedicou a novos projetos como o Le Tigre e atualmente The Julie Ruin, sempre com música muito boa – e muitas vezes agressiva, quem disse que mulher tem que ser uma dama? Ah, e pra completar, ela ainda pedia que os caras fossem pra trás em todos os shows e liberassem a parte da frente pra quem fosse do sexo feminino: GIRLS TO THE FRONT! Assim, todas ficavam protegidas de assédio e tinham acesso a uma área privilegiada do palco. Agora vai lá ver o documentário The Punk Singer. Você não vai se arrepender.

 

Kim Gordon

Criar um aposto para ela é um desafio: cantora, baixista, artista plástica, escritora – essa mulher é espetacular em tudo que faz, mesmo que diga em entrevistas que toca baixo muito mal (tudo bem, é verdade, mas isso é parte da estética do Sonic Youth e até pra isso é preciso arte). “Ela coproduziu o primeiro álbum do Hole, serviu de mentora para um jovem Kurt Cobain, foi a primeira pessoa a colocar Chloë Sevigny no cinema”, começa a entrevista com ela na revista ELLE.

Após o fim muito público do casamento de quase três décadas com Thurston Moore, ela se dedicou à arte visual e a um projeto de música experimental chamado Body/Head. Quem escuta o primeiro disco da dupla, não consegue ignorar: é forte e cheio de camadas de melodia e significados.

E ela é tão foda que ainda nos presenteia com músicas irreverentes como a famosa Kool Thing e declarações como “Mulheres são revolucionárias natas, porque sempre fomos cidadãos de segunda-classe, tendo que lutar pra conquistar qualquer coisa. Quem fez as regras da nossa cultura? Homens brancos. Por que uma mulher não deve se rebelar contra isso?” e “No rock as pessoas acham que são esclarecidas, mas não são. Elas pensam que são tão legais, mas na verdade são só machistas”. Musa.

 

Nico

Ela é mais conhecida por ter passado gonorréia pro Iggy Pop, por ter pegado um monte de gente na música (Lou Reed, John Cale, Jim Morrison), por ter apresentado heroína pro diretor de cinema e então namorado Philippe Garrel, por ser uma mulher lindíssima… enfim, um monte de fofocas sobre sua vida pessoal. Por ser mulher, ela não teve a sorte de ser tratada como artista, e o que ela fazia – e principalmente quem namorava – ganha até hoje a atenção de grande parte das pessoas que se dizem interessadas por música. Até quem conhece seu trabalho junto com o Velvet Underground no seminal disco da banana poucas vezes vai procurar outras coisas que ela fez.

Bom, quem perde é você: Nico é uma musicista incrível e perturbadora, capaz de criar discos densos, aterradores, pesados e maravilhosos. O melancólico The End traz inclusive uma canção sobre estupro, Secret Side, e parece uma tarde morna, um pouco fresca, de contemplação à tristeza. The Marble Index, meu favorito, é um dia quente, abafado como a depressão, e ele também tenta te afogar, te sugar, te destruir. E por isso mesmo é incomparável.

Se a gente pode falar que a Kathleen Hanna é sobre revolução, então a Nico é sobre loucura. Sobre se perder em si mesma, sobre camadas de depressão, sobre viajar nesse mundo paralelo. E é uma perturbação maravilhosa para todo mundo que realmente aprecia arte – vivenciei o conceito de sublime do Kant colocando esse disco pra tocar e lendo Sylvia Plath. Não existe nada melhor.

156Shares

Related Stories

1 Comment