Na Europa é bem melhor

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A primeira vez que eu fui pra fora do país, em 2014, vivi vários choques de realidade. A percepção de que um salário mínimo em Paris compra o que conseguiríamos com talvez R$2500 em São Paulo foi o primeiro. Esse ano, voltei pra lá, somando 40 dias naquelas terras, entre Barcelona, Berlim e Paris – e um pulinho de um dia em Madri e Lisboa. Paris e Berlim me parecem anos luz na frente dos colegas, mas isso é história pra outro texto. O que queria falar é sobre essa ideia de que tudo “na Europa é bem melhor”. Olha, amigos, eu vou dizer, eu também prefiro Berlim e Paris a São Paulo e Porto Alegre. Andei pelas ruas da cidade, sozinha, de noite, de roupas curtas, com a câmera e o celular na mão e me senti extremamente segura. Comprei comida boa com poucos euros e vi obras de artes de rua sendo incentivadas. Mas sabe o que é mais impressionante na Europa?

 

# As pessoas limpam a própria sujeira

No Brasil, a gente da classe média é acostumado com a ideia de que vai ter sempre alguém atrás pra limpar nossa sujeira. Tem a empregada, a faxineira e a mãe também, nos seguindo pra tirar a mesa da nossa comida, trocar o saco de papel higiênico, lavar a roupa e a louça. Em Porto Alegre, nós não somos nem capazes de empacotar as próprias compras do supermercado em sacolas. Quando vamos a praças de alimentação, deixamos bandejas, guardanapos sujos, comida cuspida, restos e um monte de coisa que a gente tem nojinho demais pra botar a mão e levar no lixo – e porque sabemos que uma mulher mal paga vai limpar tudinho depois.

Na Europa, onde tudo é bem melhor, é melhor porque todo mundo faz a sua parte. Em Berlim, nos restaurantes, as pessoas tão lá só pra pegar o seu dinheiro mesmo. Você pega suas coisas, se serve, bota a bandeja no lugar de bandejas usadas, deposita a louça suja no lugar de louça suja, joga os guardanapos no lixo orgânico e as latas no lixo especial pro material – o que, aliás, é motivo pra outro tópico.

# As pessoas se importam com o meio ambiente

No apartamento onde eu fiquei em Berlim, tinham tantos lixos diferentes que antes de ir embora eu não sabia exatamente o que ia em cada lixo, tantas opções que existiam. Sabe aqueles lixos coloridos que a gente vê no metrô? Então, é tipo a evolução daquilo. EM CASA.

Ninguém joga lixo no chão. Se come pouca carne. Se passeia muito com cachorros. Se limpa o cocô dos próprios cachorros. Enfim.

# Os homens não assediam mulheres na rua

O maior choque pra mim foi andar por Paris e perceber que não tinha nenhum medo. Eu podia andar com qualquer roupa e todo mundo me respeitava. Ouvi exatamente: zero cantadas. Ninguém fica julgando o que você veste, ninguém se importa com o que você veste, ninguém se importa se você é bonito ou feio. Dá pra sair de pijama e descabelada que ninguém vai olhar pra você. Especialmente homens: sabe aqueles olhares constrangedores na rua? Pode esquecer, eles não existem em Paris e Berlim.

# As pessoas se envolvem com a comunidade

Em Berlim, nós ficamos na casa de uma senhora de 70 anos que nos contou várias anedotas e histórias sobre a Alemanha. Uma delas foi assim: depois de uma noite de ano novo, que deixou todas as ruas sujas, nevou muito. Tipo, muito mesmo. E bem antes de a prefeitura conseguir limpar a sujeirada do Réveillon. Então ficou camadas super grossas de neve em cima de uma sujeira imensa e a prefeitura não conseguia dar conta. O que será que as pessoas fizeram? Foram reclamar no Facebook? Foram xingar a presidenta de ofensas misóginas? Foram botar a culpa no prefeito, governador, São Pedro? Não. As comunidades se organizaram e elas mesmas limparam a cidade.

# Acumular riquezas não é virtude

Sabe aquele esquema de ter uma conta super recheada, trocar de carro todo ano e ter sempre o último celular? Então, ninguém se importa. Aliás, a maior parte da galera por lá usa bicicletas e transporte público. Essa coisa de ostentação, super copiada dos EUA, não tá com nada. E essa vibe louca de workaholic também não: em Barcelona as coisas fecham tipo 4, 5h. Ninguém fica até madrugada trabalhando. Porque a galera entende que vida é muito mais que $$$.

 

Esse post ridiculamente classe média tá aqui pra dizer sabe o quê? Que sim, existe um contexto histórico que facilitou o ambiente da Europa, mas a mudança mais drástica que percebemos hoje são as atitudes das pessoas. Mais que isso: existe uma política de inclusão, em que o aborto é legalizado, o acesso é distribuído, existe suporte financeiro do governo  (aliás, vocês sabiam que a J.K. Rowling só conseguiu escrever Harry Potter por causa do “bolsa-família” da Inglaterra?). Então em vez de ficar enchendo o saco falando que “na Europa é bem melhor”, que tal lavar a própria louça e a própria roupa? Que tal tirar a própria mesa? Que tal parar de assediar mulheres? Que tal cuidar do meio ambiente? Que tal parar de ser contra cotas e o aborto? Que tal parar de ser babaca?

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