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Não são atos isolados – gaslighting: por que eles querem que você acredite que está louca

A melhor coisa que existe são amigas feministas, com quem aprendo diariamente não só sobre teoria e política, mas também – e talvez principalmente – sobre a vida. Hoje, cedo meu cantinho pra uma dessas mulheres maravilhosas que escreveu um texto daqueles que todo mundo precisa ler sobre uma das formas mais cruéis de tortura naturalizada da nossa sociedade da supremacia masculina: o gaslighting, abuso psicológico. Pra ficar ainda melhor, ela ainda nos faz um panorama da origem do patriarcado. É pra ler, mandar pras amigas, compartilhar nas redes sociais, enfim, vocês sabem o esquema. Sem mais delongas, com vocês, Camila Souza.

 

“Não são atos isolados – gaslighting:
por que eles querem que você acredite que está louca”, por Camila Souza

Segundo estatísticas razoavelmente atualizadas, o Brasil registrou, no primeiro semestre de 2014, cerca de 4,4 assassinatos a cada 100 mil mulheres. Em 2011, o Ministério da Saúde registrou 12.087 casos de estupro a nível nacional (lembrando que grande parte dos estupros não são registrados), e esse número equivale a 23% do percentual de 2012. Essas estatísticas encontram-se aqui.

Qualquer número acima de 1 é alarmante.

Começo o texto com as estatísticas acima para mostrar que a violência contra a mulher não é, nunca, um ato isolado. Se assistirmos aos telejornais, com frequência serão noticiados casos de mulheres que foram assassinadas por seus cônjuges. A violência física é o último grau de controle e poder que o patriarcado tem como arma, porém há, ainda, a violência psicológica.

A violência é sistêmica, são complexas questões estruturais que não podem ser chamadas de “crime passional”.

 

Um pouco da história – um panorama das origens do patriarcado e do capitalismo

Antes de chegar ao abuso psicológico, gostaria de fazer um panorama breve sobre as origens do patriarcado e do capitalismo – sistemas intradependentes.

Pra quem já é familiarizado com a teoria marxista, em 1867, Marx postulou que a exploração e opressão do proletariado é oriunda da manutenção e manipulação dos meios de produção pela classe dominante. Shulamith Firestone, em sua obra A Dialética do Sexo, faz os mesmos apontamentos que Marx, porém sob o escopo da condição da mulher: nossas exploração e opressão se dão através da manutenção dos nossos meios de reprodução pela classe dominante. Nossa dominação se apoia no fato da suposição de que geraremos filhos.

A “maternidade compulsória” é uma das faces da nossa socialização, do tornar-se mulher: é esperado que a mulher gere uma prole e que ambos levem o nome do homem, para perpetuar a família e a herança.

Nas sociedades antigas, os núcleos familiares eram constituídos, principalmente, pelas mulheres e crianças, podendo ou não existir a figura masculina/paterna. Nessa configuração, as mulheres possuíam mais autonomia e um papel ativo no que tange a coleta e o preparo dos alimentos. E essa é a verdadeira liberdade: não depender de outro para a sobrevivência. Porém, ao surgir aquilo que conhecemos como civilização, como aponta Engels em seu A Origem da Família, da propriedade privada e do Estado, a mulher teve seu status social destruído: com o surgimento da agricultura, surgiu a produção excedente e a necessidade de se negociar essa mercadoria. As tarefas na terra ficaram mais pesadas e o papel de coleta foi delegado apenas ao homem e, à mulher, o preparo. Junto com essa noção de excedente, surgiu a noção de propriedade privada, acumulação de bens e negociação de mercadoria.

Um dos principais pontos aqui é, justamente, o da propriedade privada: com seu surgimento, foi estabelecido, de vez, os papeis do homem e da mulher. O homem assumia o controle da produção, tornando-a seu domínio. Para a manutenção desse sistema e para que ele fosse passado às próximas gerações, a mulher precisaria ter um forte laço com o homem. É aqui que começa a dominação e o controle sobre nossa sexualidade: o homem precisava garantir que a prole carregasse seus genes. Isso representam o controle dos meios de reprodução.

Como podem ver, esse é o primeiro espectro do patriarcado; seu surgimento foi por necessidades socioeconômicas vinculadas aos homens: “Com a mudança da realidade socioeconômica, as mulheres se tornaram mais e mais ligadas ao fator que as diferenciava dos homens: nossas aptidões de gerar filhos. As muitas manifestações do patriarcado são construídas ao redor disso. Isso pode ser notado na visão da sexualidade feminina, na exigência social do casamento, nas violências masculinas contra a mulher, incluindo a sexual, na batalha contra a liberdade reprodutiva e na discriminação contra mulheres em áreas econômicas e políticas.” (Fonte: nosotraslasbrujas)

Também, como afirma Beauvoir, n’O Segundo Sexo: a garantia da existência e manutenção da propriedade privada se dá através de firmes laços, da solidez do núcleo familiar e da presença da mulher nessa configuração. Sua emancipação – sexual, afetiva, dos meios de produção – apresenta risco e ameaça à manutenção desse sistema: “A fim de provar a inferioridade da mulher, os antifeministas apelaram não somente para a religião, a filosofia e a teologia, como no passado, mas ainda para a ciência: biologia, psicologia experimental etc. agora no presente.” (Beauvoir, O Segundo Sexo, página 24)

Nós carregamos as marcas da nossa opressão de gênero: performar a feminilidade nada mais é do que o patriarcado afirmando nossa subordinação, nossa inferioridade. Salto alto, roupa justa, maquiagem e depilação são formas de controle e dominação. Quantas de nós já não ouvimos de homem – seja ele nosso amigo, namorado ou familiar – que agir como mulher não é digno do sexo masculino? Somente com o fim do capitalismo e do patriarcado nós seremos efetivamente livres.

Somos forçadamente mantidas numa posição inferior para nos pensarmos realmente como inferiores. Sempre nos ensinaram a não andarmos sozinhas à noite e que acompanhadas estaríamos mais seguras. Na companhia de outro homem, obviamente. E do quê esse homem estaria nos protegendo, exatamente? De outros homens, claro. O espectro do homem perigoso que nos encurrala numa rua escura e deserta é, de fato, o abusador ideal. Apenas ele nos oferece algum tipo de perigo, e não nosso namorado, amigo ou companheiro.

A socialização do homem o ensina que somos objetos que podem ser tomados e que serão no matrimônio, e essa nova onda de liberação sexual é falaciosa pois é apenas mais uma forma de dominação.

Chegando no ponto da dominação, há um termo que frequentemente aparece em textos e nas redes sociais, porém não é muito conhecido, e é usado por psicólogos e psiquiatras norte-americanos para nomear uma das técnicas mais violentas de dominação e abuso psicológico usadas por narcisistas: gaslighting.

 

Abuso psicológico e seus efeitos devastadores

Gaslight é um suspense norte-americano de 1944, estrelado pela Ingrid Bergman e dirigido por George Cuckor. O filme mostra o principal personagem numa manipulação psicológica sistemática na vítima, personagem de Bergman.

Gaslighting é uma das técnicas de abuso psicológico que mais tem efeitos devastadores nas vítimas dentro de um relacionamento abusivo. Consiste em falsificar informações – ou omiti-las – e apresentar à vítima como verdades. Fazê-la questionar a própria memória, realidade e conduta. Apagar a sua identidade. Os níveis de abuso variam desde pequenas encenações até a manipulação de grandes eventos. É fazer a vítima duvidar de si mesma, destruir sua identidade e autoestima num jogo de manipulação, poder e controle. Elas, abaladas, passam a não acreditam que conseguem administrar a própria vida, sentindo-se incapazes de tomar até as menores decisões, ficando à mercê dos abusadores.

Na obra de ficção – e na vida material também – o homem tenta convencer a vítima de que ela está louca. Pra isso, ele desloca pequenos objetos e faz parecer que ela está enganada sobre seus lugares originais.

Imaginem a seguinte situação como exemplo de manipulação de grandes eventos: no filme, as personagens se mudam para uma casa onde uma famosa cantora de ópera havia morrido e quem encontrou o corpo foi a personagem da Bergman. Numa tentativa de fazer Bergman duvidar da própria sanidade, o homem coloca lâmpadas de gás (daí o nome “Gas Light”), no sótão. Quando a vítima apontava para aquelas luzes, o homem negava que as via.

Esse é o jogo para destruir a percepção de realidade da vítima.

Traduzi, deste site, alguns exemplos de gaslighting:
– Fingir não compreender o que a vítima diz e negar-se a escutar.
– Trocar as datas de eventos e dizer que a vítima entendeu errado.
– Negar o que disse, inclusivo o que disse minutos atrás. Logo, acusará a vítima de nunca o escutar.
– Trocar de tema dizendo que não quer voltar a tratar desse assunto (mesmo que jamais houvessem conversado sobre o mesmo).
– Negar eventos reais à frente de colegas, amigos e familiares para que eles também duvidem da percepção da vítima.
– Acusar a vítima de ter uma imaginação fértil e viver nas nuvens.
– Acusar de ciúmes, possessão, de ser exigente quando nada disse é verdade (e trata de fazer isso na frente de quem não pode corroborar a história).
– Tenta isolar a vítima. Diz que acredita mais no que o outros dizem do que no que ela própria fala. Fingirá sentir-se traído e magoado.
– Desvalorizar o que a vítima diz ou faz dizendo que as suas opiniões são ridículas e infantis. Começa a dizer coisas como “Você não viu a cara que todo mundo fez quando você começou a falar de política? Eu estou lhe dizendo para o seu próprio bem, porque eu te amo, não faça papel ridículo diante deles”.
– Negar coisas que prometeu. “Eu jamais disse/prometi isso”.
– Acusá-la de ter problemas de memória. “Se sempre se esquece onde deixa as chaves, por que eu vou confiar no que está me dizendo agora?”
– Esconder coisas da vítima, inclusive trocar de lugar e logo dizer “Mas você havia deixado ali.”

A opressão da mulher é sistêmica, não é isolada. É a macroestrutura – sociedade – agindo na microestrutura – nossos relacionamentos. Situações como a mencionada acima tendem a se repetir e o grau de violência tende a aumentar.

Faz parte do jogo colocar a vítima como a culpada que leva o agressor a tomar determinadas atitudes: “Você me faz agir dessa maneira”, “Por que você faz isso comigo”? Frases comuns em casos de violência doméstica. Como disse a Chimamanda Adichi na sua brilhante fala: “A culpa é inerente ao gênero mulher”. Não esqueçamos, nunca, que dominação e subordinação são essenciais para a manutenção da sociedade patriarcal e, na prática, seus tentáculos nos atingem de diversas maneiras.

Abaixo, uma companheira traduziu uma imagem que aponta como podem ocorrer os abusos dentro de relacionamentos. Caso algum dos itens seja compatível com sua situação atual, procure ajuda.

abuso

Referências:

# “Os meios de reprodução: a evolução da opressão e a exploração das mulheres.”
# “A origem da família, da propriedade privada e do estado.”
# “A Dialética do Sexo, parte I” e “A Dialética do Sexy, parte II”
# “O Segundo Sexo”

1 Comments

  1. Um dia conversando com uma das “bruxas” da minha vida (aquelas mulheres que apenas pela força do olhar tu sabe que são especiais) ela me disse com firmeza: “Não se submeta!”. Isso foi há pouco tempo, mas parece que alguns detalhes que antes passavam despercebidos se tornaram “elefantes na cristaleira”. Muito bom o texto. Adorei. Saudade, Clah.

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