Notas sobre o hospício II – Os médicos e o pensamento manicomial

Notas sobre o hospício II – Os médicos e o pensamento manicomial

245Shares

(a foto é um auto-retrato de 2015) // (parte um do post)

Eu queria acreditar que eu tinha sorte. Mas eu sabia que o que eu tinha era só um plano de saúde melhor. Mais caro.

Essa era a única diferença entre mim e todas as outras pacientes. Essa e o fato de que eu recebia visitas médicas diariamente, e elas passavam três, quatro dias ou mais sem ver o médico.

Minha mãe tinha sido contra a internação, desde o começo. Quando fui, acreditava que era porque ela não acreditava na minha dor. Quando saí de lá, vi que era porque ela faz parte da abordagem anti manicomial.

Eu imaginava que diariamente teríamos grupos de psicologia, consultas médicas, terapia, atividades. Eu acreditava que teríamos equipe suficiente para que víssemos o sol, fizéssemos caminhadas, buscássemos processos curativos variados.

Nos dez dias que passei lá, participei de um grupo de psicologia com um psicólogo bundão, que nos tratou como crianças de 7 anos, e foi lá pra ler um monte de regras. Ele não falou, mas é óbvio que a leitura aleatória das regras tinha um subterfúgio: alguma coisa tinha acontecido para que ele fosse até lá, falar pra todo mundo que um estupro e uma amor têm a mesma origem, o toque. Descobri depois que era a presença de pessoas bissexuais, como eu. Porque somos bichos, porque não podemos ver outra mulher, porque se abraçamos uma amiga precisa ser com segundas intenções.

De psicóloga, conversei duas vezes com uma. E dela, não posso reclamar: foram conversas úteis, fortes, que mexeram comigo, que me ajudaram a refletir sobre questões fortes. Ela fez o trabalho muito bem: me pegou pela mão e me conduziu aos pouquinhos pela escuridão do meus sentimentos, pra que eu fosse me acostumando com eles, aceitando, conseguindo quem sabe até superar. A ela, só tenho a agradecer.

A nutricionista tava doente quando cheguei. Demorou três dias pra que alguém falasse comigo sobre eu ser vegetariana, sobre ter uma dieta adaptada pra minha condição (síndrome de câncer). Nesses três dias, fui obrigada a comer carne pra não passar fome, entre outras coisas que me deixavam enjoada e com o estômago revirando.

Fui tão sedada no começo que mal conseguia pensar. Tinham que me dar comida na cama. E entre os remédios que eu tomei estavam anti psicóticos fortes pra um surto sem psicose, anti psicóticos que me deixaram pra sempre marcada do horror que é sentir aquele embotamento afetivo que nem a pior quimioterapia tinha me feito sentir. Essa apatia é inexplicável. Vem de um tédio tão profundo que qualquer possibilidade de reação é impossível. E você sabe, você tem certeza, naqueles momentos, que nunca mais vai sentir qualquer alegria.

A rotina da clínica, que foi tão bem referenciada em pesquisas pela internet, que se mostrou uma das melhores do sul do país, é uma cópia de manicômios. Me lembrou da leitura de Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, sobre o Colônia, manicômio de horrores que existia em Barbacena, em Minas Gerais. Guardadas as devidas proporções. Mas serviu pra lembrar especialmente que esse tipo de visão médica ainda existe. Que o louco, pra equipe, quando fala, só serve pra validar a própria doença.

Eu sou muito honesta, até quando vou quebrar regras. Na clínica, celulares eram proibidos. Pedi pros meus pais levarem o meu celular em horário de visita, para que por uma hora eu tivesse contato com a internet, com o Facebook, com a vida normal. Pedi isso porque entendi que a saída da clínica pra realidade seria brusca demais. Que ficar dez dias enfurnada e protegida num lugar pra ser jogada aos lobos em seguida era menos inteligente do que experimentar coisas que me deixavam ansiosa quando ainda estava em um ambiente protegido. Falei isso pra minha médica. Sabia que era contra as regras, mas falei pra ela, porque queria honestidade no tratamento, porque queria ouvir dela sobre minha interpretação de ver as redes sociais ainda internada, que seria melhor pro meu tratamento.

Ela contou isso pros meus pais, que logicamente sabiam, mas contou isso sem conversar comigo sobre falar com eles. Sigilo médico-paciente vira uma piada num lugar em que você é louca com tendências suicidas. Ela contou, e contou para usar isso como motivo pra minha internação por mais tempo. Que seguir as regras é parte da cura. Que a desobediência é parte da doença. Que meu passado de adicção em drogas (!!!) mostrava que eu tinha impulsos descontrolados e que não estava conseguindo controlar nem ali dentro.

(Pra quem tá se perguntando, eu acabei decidindo por não usar o celular, porque não queria causar problemas – antes mesmo de a médica falar isso pros meus pais.  Continuo acreditando que teria sido melhor pra mim.)

As clínicas psiquiátricas são também uma ferramenta do nosso mundo capitalista e patriarcal, que vê a loucura – essa patologia tão expressiva e sintomática do descontentamento com a realidade injusta – como uma praga, e que busca transformar o louco em um ser obediente. A cura, ela me disse, é ligada à obediência.

As clínicas querem nos fazer abaixar a cabeça pro sistema.

Saímos de lá anestesiados, robôzinhos condicionados que sabem que com uma campainha é hora de comer, que abrem a boca pra mostrar que tomaram o remédio, que têm medo de ficar na rua depois das 18h, quando as portas fecham, porque eles podem anotar. Eles podem anotar tudo o que você faz de errado. Qualquer descontentamento que gere uma atitude desobediente. E tudo isso prejudica sua alta.

Minha alta foi a pedido da família, essa atitude que eles condenam como outra praga, como se os familiares fossem incapazes de pensamentos próprios e manipuláveis pelo paciente. Alta pedido ainda vem um presente: você sai de lá sem receitas e sem nota de alta. Você sai de lá como se fosse ainda louco. Sem saber que remédios tá usando, o que é um direito seu. Você sai de lá regredindo no tratamento, como uma punição por ousar ir contra os magnânimos médicos do lugar.

Tentaram me assustar falando isso, médicos, técnicos, enfermeiros. Eu ria na cara deles: “meus pais são médicos, eu tenho cinquenta receitas dessas na hora que quiser”. Mas e as pessoas que não são filhas de médicos? Que dependem dessas receitas pra se tratar? Eu cheguei louca, mas fiquei bem. Nos últimos dias, tava ficando louca de novo. Quantas pessoas prejudicam o próprio tratamento por causa de uma folha de papel que a clínica, cruel, burra, como um manicômio, nos priva? Até quando a opinião do paciente vai ser considerada uma besteira, um capricho de louco, perto da toda poderosa opinião médica? O que nos privam é dos nossos direitos, da nossa dignidade.

Meus pais me tiraram de lá. E foi simples: eu já tinha saído do surto. Eu tava lá só pra ajustar a dose de um remédio específico (lítio), processo que minha mãe faz ambulatorialmente com os pacientes dela. Meus pais são médicos, já articularam consultas com uma psiquiatra fora da clínica e minha terapia. Minha mãe inclusive tirou licença pra cuidar de mim.

Com tudo isso, a médica devia ter achado maravilhoso que eu tivesse um suporte como esse pra terminar o processo curativo em casa, com meus bichos de estimação, minha família, com tudo que me faz bem. A reação dela foi dizer que isso ia contra os procedimentos da clínica e eu só sairia antes de completar 15 dias com alta a pedido de familiar. Que mesmo com o respaldo da minha psiquiatra, eles não me liberariam antes desse tempo.

Eu pensei, tentando entender o que faz um médico tão facilmente descartar o bem estar do paciente em nome do procedimento. E então percebi: a clínica tem diárias, que meu plano – tão bom, tão caro – tá pagando.

No fim, a única coisa que eu ainda tenho é minha voz. Meu texto. E por isso que continuo escrevendo.

245Shares