Notas sobre o hospício

467Shares

Fui internada.

Os primeiros dias na ala mais fechada da clínica psiquiátrica foram passados na cama, numa sedação intensa, num embotamento afetivo inexplicável, causado pela mistura de anti depressivos, ansiolíticos, anti psicóticos, anti depressivos, estabilizadores de humor. A última vez que tinha tomado tantos remédios, eu tava com câncer.

Conheci pessoas incríveis, passei a maior parte do tempo conversando e colecionando histórias, sentimentos, ideias. Valeu a pena. Eu precisava. Mas trago notas:

# Na ala mais fechada, um quadro gigante mostra o nome das pacientes e o risco que elas representam. De queda, de fuga, de agressão, de uso de drogas. De suicídio. Meu nome era limpo, salvo pelo último. E a exposição pouco importa: pouca gente tá lúcida. E todo mundo ali é fodido. Não tem ninguém pra te julgar.

# As horas, que se arrastavam como se contivessem dias inteiros em cada uma delas, torturavam. A gente contava o tempo pelas refeições, e o período entre elas era de espera. O estado de lá é de espera. É curioso, pra alguém como eu, que quero fazer tanto ao mesmo tempo, me encontrar sem nada, nada, nada pra fazer. Sem nada que satisfaça uma necessidade básica de sentir prazer em algo. O prazer é um luxo.

# É curioso ser rotulado como louco, isolado de todo o contato para se esperar a recuperação. Qualquer impulso de injustiça, qualquer vulnerabilidade ou vontade é descartável embaixo desse rótulo. A nossa humanidade é limitada, destruída aos pouquinhos, a cada insatisfação. Existe um pacto de silêncio auto inflingido pelas pacientes, porque qualquer vocalização é palavra de gente que não tá sã.

# Os tênis são sem cadarço, e demorou um segundinho pra entender o motivo.

# Lápis e canetas eram proibidos na ala fechada. Explodindo de poemas, eu escrevia em letras gigantes com giz de cera meia dúzia de versos pra guardar na memória esses embriões de poesias.

# As ligações, pra quem pode receber, duram três minutos cronometrados. São no horário do almoço e da ceia, e geralmente encontram um ambiente barulhento que dificultam a troca breve de comprimentos. Se eu peço pra encostar a porta da enfermaria, ela me diz que não. E se assim eu não consigo ouvir nada, ela me diz que sente muito, e vira as costas.

# Existem muitas enfermeiras e técnicas maravilhosas. Encontrei anjos lá. De verdade. Mas existem muitas enfermeiras e técnicas que não se importam com a nossa dor e esquecem de buscar quando pedimos medicamentos, ou que moldam as regras ao seu favor sem se preocupar se nos prejudica, como adiar o horário da ceia e dar junto com a medicação para facilitar o trabalho, mesmo que todo mundo fique com fome, mesmo que o certo seja dar a medicação depois de comer, mesmo que muita gente fica grogue assim que o comprimido desce na garganta. É curioso como as regras e as normas são facilmente mudadas quando é pra interesse alheio.

# Tem dias em que não tem copo, e se você não encontra uma garrafinha de plástico de água pra chamar de sua, você fica sem beber água. Tem gente que busca no lixo, lava, e usa, porque também não podemos pedir pra ninguém levar.

# Os contatos, apertos de mão, e abraços são proibidos. A gente abraça mesmo assim.

 

 

467Shares