O protesto da Chanel e a apropriação do feminismo

O protesto da Chanel e a apropriação do feminismo

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O mundo da moda é carregado de unanimidades, o que já está implícito no conceito de “tendência” que movimenta o mercado lucrativo que esse tipo de expressão artística se tornou. Mesmo assim, a reação que Karl Lagerfeld suscita entre os profissionais do meio é assombrosa. A marca sob sua direção, Chanel, é reconhecida mundialmente com facilidade até por não iniciados no assunto, que foram atingidos pelo nome de uma forma ou de outra ao longo do último século – seja pela Marilyn Monroe falando que dormia com apenas algumas gostas do Chanel nº 5 ou pelo atemporal corte de cabelo inspirado na estilista que criou a marca. Por isso, a responsabilidade de renovar o estilo e criar tendências respeitando a essência da casa é imensa, mas Lagerfeld parece sempre responder à altura e o mundo da moda aplaude cada coleção que ele apresenta em produções espetaculares no Grand Palais, na semana de moda de Paris.

Para os desfiles, o espaço já chegou a receber carrosséis e chafarizes e a replicar ambientes como uma fazenda e até a Place Vendôme. Cenários de Paris não são incomuns: em 2009, o Grand Palais se tornou a Rue Cambon, e esse ano outra boulevard da cidade foi recriada. A coleção desfilada trouxe elementos dos anos 60 e 70 na forma de modelagens, cortes e cores, e também no muito controverso encerramento: um protesto encenado, inspirado pelo maio de 68 em Paris.

Segundo Lagerfeld, ele queria trazer a ideia de “moda como feminismo, um feminismo moderno e atualizado”, assim como os casacos que ele cria. Outros aspectos referentes a gênero infestaram o desfile: o estilista mesmo explica que as jaquetas são abotoadas pelo lado masculino (pra quem não é do meio, um parênteses: as camisas e jaquetas masculinas e femininas são diferenciadas pela lateralidade do abotoamento) e os sapatos mesclam sapatos de homem (frente) e de mulher (trás). Junto à essa ideia de androginia, unem-se cores e estampas psicodélicas e materiais futuristas, uma referência clara às décadas mais importantes do feminismo radical, em que a segunda onda se formou e conquistou, entre outras coisas, a legalização do aborto em vários estados dos Estados Unidos.

Enquanto as modelos da Chanel lutam por oser sans poser (ousar sem posar), as ativistas das décadas passadas lutavam pelo fim da violência doméstica e do estupro, e só essa frase já é o suficiente para mostrar o absurdo que esse desfile criou. Mas sabemos: a moda engole tudo. Em cima de uma passarela, encenada por modelos em sua maioria esmagadora brancas, magérrimas e lindas, algumas tão famosas que já se tornaram celebridades (o casting da Chanel trouxe a socialite Cara Delevingne; a filha de Mick Jagger, Georgia May Jagger; a meia irmã de Kim Kardashian, Kendall Jenner; e Gisele Bündchen, que não precisa de apostos), vestindo roupas de etiquetas caras, o feminismo é inofensivo. Ali, ele está sendo engolido pelas classes dominantes e regurgitado em um versão palatável para os interesses dos grandes, “atualizada”, como Lagerfeld bem pontua, para um novo feminismo que, transformado em produto de consumo, não tem nada de revolucionário – ou de feminista.

O artista Maurício Ianês, em entrevista para o FFW, fez bem em lembrar que a moda pode, sim, ser política: “em 1984, a estilista Katharine Hamnett foi a uma recepção da então primeira-ministra britânica Margaret Thatcher usando uma camiseta que ela tinha criado com o slogan ‘58% DON’T WANT PERSHING’ (58% NÃO QUEREM MÍSSEIS NUCLEARES). Thatcher estava na época negociando com os EUA a entrada de mísseis capazes de carregar ogivas nucleares (pershing) no Reino Unido. A estilista usou a moda, no caso, o item mais simples, uma camiseta – em uma festa em que, ela descreve, todos usavam vestidos e tailleurs de alta-costura – para disseminar uma mensagem política. (…) No desfile da coleção de Verão 2012 da sua marca Comme des Garçons, Rei Kawakubo apresenta uma coleção extremamente poética e forte em conteúdo político e crítica aos padrões sócio-culturais impostos às mulheres, olhando especialmente para o vestido de noiva, esse símbolo de pureza virginal, que atesta que aquela mulher, ‘propriedade’ do seu futuro marido, está sendo entregue a ele intacta – sem desejos, sem libido, sem história, sem vida”, ele escreve. Enquanto isso, o protesto da Chanel inundou a passarela com reivindicações completamente vazias, como “free freedom” e “be different”.

Lagerfeld não citou a própria Chanel nas entrevistas a que assisti, o que não deixa de ser curioso: Coco foi uma das raras estilistas a transformar moda em libertação, trazendo a calça para a indumentária feminina e investindo em peças confortáveis que permitissem que a mulher se sentisse livre, pudesse trabalhar e se movimentar sem as prisões da indumentária anterior à época dela, como vestidões com silhueta aprisionadora, criados a partir de espartilhos e camadas de saias de armação. Na Belle Époque, inclusive, era costume que mulheres bebessem vinagre para baixar a pressão e, à base do desmaio, elas conseguiam atingir o padrão de beleza ideal de branqueza e delicadeza extremas.

Coco usou a moda como política, como feminismo. À época, a marca agregava um valor claro de vanguarda e chocava as camadas mais conservadoras, espaço que hoje em dia ocupa. Como maison estabelecida e caríssima, não restou nada da ousadia e da irreverência verdadeiras de Coco, porque Lagerfeld é exímio em manter a essência de estilo, mas deixou pra trás todo o significado da moda que ela criou. Chanel se tornou um antro de um clacissismo regrado e, por mais belo que possa ser, não tem nada de genuinamente revolucionário, como tinha na sua origem.

Pouca coisa da moda tem, é verdade, porque a moda não existe mais para libertar. Louboutin, criador dos sapatos mais desejados do mundo atualmente, já declarou em entrevista que não se importa que os saltos altos machuquem, uma vez que mulheres devem sentir dor. O próprio Lagerfeld já mostrou sua opinião sobre o padrão de beleza avassalador: “ninguém quer mulheres com curvas na passarela”. Lá nos anos 60 e 70, as mulheres que protestaram nas ruas já sabiam que o mercado da moda não quer a libertação: o primeiro protesto do WOMEN’S LIBERATION, movimento que se originou nos Estados Unidos, foi no Miss America. Padrões de beleza e moda já naquela época eram claramente um dos primordiais alvos do feminismo radical. Quando sutiãs foram supostamente queimados – porque não, isso nunca aconteceu – o protesto na verdade nada mais era que uma lata de lixo em que seriam jogados símbolos opressores, como sutiãs, peças de roupas, acessórios, cílios postiços e outros tantos objetos tão intrínsecos à moda.

No meio da música, é comum teorizar que “o rock morreu”, já que não existe mais nada de contra cultura na produção musical de hoje, e, sem a marca do gênero musical, que é justamente a negação revolucionária ao sistema, a sonoridade sozinha não significa nada. É isso que a Chanel se tornou hoje: suas roupas se tornaram embalagens, belas em criação, mas vazias em revolução. O desfile foi ovacionado pela mídia, considerado a melhor coisa da semana de moda francesa por diversas publicações.

“O feminismo e a moda têm uma relação complicada demais pra ser elaborada em apenas um post. Feminismo é uma ideologia. Seu objetivo é conquistar liberação e igualdade para as mulheres. Moda é uma indústria (e por isso parte de outra ideologia, o capitalismo), e seu objetivo é fazer dinheiro. (…) Convencer pessoas a comprar roupas absurdamente caras, por exemplo, implica cultivar uma ideia de exclusividade a custo de quem não tem dinheiro, de quem não é branco, e de quem não é super magro; implica criar – e se beneficiar de – um sistema de inseguranças sobre a aparência. E tudo isso mostra que feminismo e moda vão com certeza cair em contradições”, elabora Alison Herman para a Flavorwire.

O que Lagerfeld faz é usar um movimento social como acessório de moda para ganhar dinheiro com isso. A melhor forma que existe de neutralizar a resistência é absorvendo-a. Parabéns, Lagerfeld. Você apropriou o feminismo e o despiu de poder. Nesse ponto, infelizmente, você acertou.

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  • […] O mundo da moda é carregado de unanimidades, o que já está implícito no conceito de “tendência” que movimenta o mercado lucrativo que esse tipo de expressão artística se tornou. Mesmo assim, a reação que Karl Lagerfeld suscita entre os profissionais do meio é assombrosa. A marca sob sua direção, Chanel, é reconhecida mundialmente com facilidade até por não iniciados no assunto, que foram atingidos pelo nome de uma forma ou de outra ao longo do último século – seja pela Marilyn Monroe falando que dormia com apenas algumas gostas do Chanel nº 5 ou pelo atemporal corte de cabelo inspirado na estilista que criou a marca. Por isso, a responsabilidade de renovar o estilo e criar tendências respeitando a essência da casa é imensa, mas Lagerfeld parece sempre responder à altura e o mundo da moda aplaude cada coleção que ele apresenta em produções espetaculares no Grand Palais, na semana de moda de Paris. LEIA MAIS. […]

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