O poder do erro – e sim, esse é um post meio auto-ajuda feito por causa de uma Ted Talk

O poder do erro – e sim, esse é um post meio auto-ajuda feito por causa de uma Ted Talk

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Por muitos anos, minha terapia era sempre feita de madrugada e com a minha melhor amiga, Amanda. Víamos o sol nascer juntas – ela de Osasco, eu de Porto Alegre – depois de ficar discutindo todas as angústias que, como duas adolescentes deprimidas, nós compartilhávamos. Eu ainda lembro de uma vez em que ela me disse que precisava lembrar constantemente que não tinha problema errar. Aquilo mudou minha vida.

Eu, assim como ela, tinha o perfil bastante A. Melhor da turma na escola, monitora de matérias, presidente do Grêmio Estudantil. Com 15 anos já queria trabalhar e saber como era. Assim que entrei na faculdade, me inscrevia em pelo menos três cursos de extensão com duração de um semestre – e vivia na faculdade todas as manhãs e pelo menos três tardes por semana.

Eu cresci ouvindo que era um prodígio. Aprendei a falar cedo. Com cinco anos, lia e escrevia. Meu vocabulário sempre chamava atenção onde quer que meus pais me levassem, e até hoje escuto história em que protagonizo usando palavras surpreendentes pra uma criança. A vida toda, eu aprendi a vencer, a ser perfeita, a responder às expectativas dos adultos.

Em nenhum momento eu aprendi a errar.

Aceitar o erro foi algo que aprendi com a vida, com muito custo, choro e raiva. (E com a Amanda.)

Só que eu sempre pensei que isso fosse coisa de millennials. Bom, isso é porque cresci achando que era diferentona. Isso é porque fui primeira filha, neta, sobrinha, e todo mundo me amou demais. Isso é porque na escola todos os professores colocavam responsabilidades demais nos meus ombrinhos magricelas. Só hoje percebi que isso tudo pode ser um pouco verdade, mas a verdade maior é que isso é porque sou mulher.

Trago dois exemplos do vídeo: no primeiro, ela traz o dado de que homens costumam se candidatar a vagas em que completam 60% dos requisitos, enquanto mulheres apenas se candidatam caso preencham 100%. No segundo, ela conta que nas aulas de programação, quando há algum erro, homens falam “tem um problema com meu código”, enquanto mulheres dizem “tem um problema comigo”.

O livro Faça Acontecer, da Sheryl Sandberg, foi muito criticado no meio feminista. Sim, ele fala para uma parcela específica de mulheres brancas de classe média, e ele peca em não reconhecer as estruturas que o capitalismo ajuda a manter. Ele é, sim, um livro que não contesta o patriarcado, não contesta o capitalismo, e, no lugar, incentiva as leitoras a aprenderem a jogar usando as regras do jogo. Não é revolucionário. Isso não quer dizer que não tenha valor. Sheryl fala sobre a maternidade, a divisão de trabalho doméstico, a socialização feminina e o impacto na forma que, como mulheres, crescemos, trabalhamos e nos colocamos no mundo.

Os dados que o livro traz são impressionantes. Uma pesquisa de 2011 provou que homens são promovidos baseados em potencial, enquanto mulheres são promovidas por conquistas passadas. Muitos estudos em muitas indústrias (sério, demais pra ficar citando aqui, mas tá tudo na bibliografia de Faça Acontecer) provaram que mulheres costumam julgar o próprio trabalho muito pior do que é, enquanto homens julgam muito melhor. Ainda hoje, avaliações cegas de currículo – isso é, onde o sexo do candidato não aparecem – têm resultados absurdamente melhores para mulheres do que as avaliações em que o sexo aparece.

Esse texto não tem uma conclusão ou um conselho. Esse texto é só algumas coisas que, na última semana, povoaram minha cabeça. É tudo bem errar. Esse texto ainda não tá pronto.

Esse texto, como eu e você, não é e nem precisa ser perfeito.

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