Oi, meu nome é Clarissa e eu abortei

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Eu tinha 22 anos. Foi ano passado. Engravidei do amor da minha vida, João. Nossa primeira vez foi da forma mais doce possível, ele colocou Miles Davis pra tocar e ao som de jazz a gente deitou na cama de solteiro dele. Ficamos apaixonados, prometemos ficar juntos pra sempre. Já morávamos juntos há quase dois anos, dividindo tudo na nossa vida. Eu não podia usar pílula anticoncepcional porque tenho histórico de trombose na família e minha ginecologista me falou pra usar camisinha. Sempre usamos. Sempre. Sempre usamos. Mesmo assim, um dia, com a menstruação atrasada, fui consultar na minha médica. Não fazia ideia do que tava acontecendo, nem pensei que poderia ser gravidez, já que sempre usamos camisinha. Mas era. Deve ter estourado alguma vez e a gente nem viu, e eu tava grávida de cinco semanas. Voltei pra casa chorando, contei pra ele. Ele perguntou o que eu queria fazer. Ele disse que a gente podia criar a criança se eu quisesse, que ele tá comigo pra sempre. Eu falei que não, não queria, não podia ter filho agora, eu tenho tantos planos… to fazendo tratamento pra depressão, um filho agora ia me jogar de volta pro inferno. Falei que queria abortar. A gente chorou juntos deitado na cama, ele botava a mão na minha barriga e dizia que um dia a gente ia ter filhos juntos. Descobri um lugar que enviava remédios pelo correio, pedi e recebi em casa os comprimidos. Paguei R$1.200 reais. Tomei, seguindo as instruções, e senti as piores cólicas da minha vida. Sangrei muito. E no outro dia, quando fui no banheiro fazer xixi, vi no vaso o pedacinho de feto que poderia ter sido meu filho. Chorei muito, João ficou comigo o tempo todo. Continuei sangrando. Na semana seguinte, tive que ir no hospital. Tava com hemorragia grave. Ninguém parecia saber o que era. Tive que fazer transfusão de sangue e fiquei internada por uma semana para observação, com dores fortes. Eu abortei ilegalmente. Foi a pior experiência da minha vida.

Eu tinha 17 anos e queria muito ser mãe. Sempre pensava nisso, desde pequena. Lembro que ganhei aquela boneca meu bebê quando tinha uns quatro anos e minha mãe conta que eu pegava ela no colo e ficava fazendo ninar antes de dormir. Durante o dia, levava ela para todo o lado. O nome dela era Minei (porque eu não conseguia falar Minnie direito quando era pequena), mas eu dei ela de presente depois que isso aconteceu. Eu tinha 17 anos e conheci esse cara maravilhoso. Ele era mais velho, loiro e tinha olhos azuis. Me lembrava o Draco Malfoy, eu adorava Harry Potter e aquele jeito de mau me deixava com muito tesão. A gente transava muito, sem camisinha, porque eu tomava pílula, e eu adorava. Um dia, tive uma amigdalite bacteriana fortíssima que me deixou de cama com febre e delírios e dor por quatro dias. Nesses dias, não tomei pílula. Quando fiquei melhor, falei pra ele que queria usar camisinha por causa disso. Ele disse que não, que ia gozar fora, me pressionou. Eu aceitei. A gente transou e eu engravidei. Falei pra ele, ele falou que não devia ser dele, que era uma puta louca. Quando falei pra minha família, eles me xingaram por ser burra e ter acreditado no cara. Ninguém falou que ele foi injusto por me pressionar. Que ele foi mau caráter por ter mentido pra conseguir me comer sem camisinha. Que ele foi um escroto que se aproveitou de mim. Ninguém falou dele. Eu que era burra. Fui sozinha procurar uma solução, e a clínica mais barata que achei, a única que conseguia pagar com minhas economias do emprego de meio turno que eu tinha, disse que eu iria ficar estéril. Eu tive que aceitar. E nesse aborto ilegal, morreram todas as minhas chances de ser mãe.

Eu tinha 27 anos. Eu trabalho numa empresa de Relações Públicas bem sucedida e gosto do meu trabalho. Sou solteira, porque trabalho demais, não tenho tempo pra namorar. Minhas amigas da faculdade, as melhores que eu podia pedir, ficam me incomodando que não consigo ir no nosso encontrinho semanal, mas nem sempre dá tempo. Eu adoro encontrar elas, a gente sai pra jantar, pra drinks, pra balada. Mas eu amo meu trabalho, então nem sempre consigo. Numa dessas vezes, voltei caminhando pra casa. A gente foi num pub na zona residencial que eu moro, e não tinha por quê pegar táxi pra caminhar 4 quadras. Eu não tava de salto, o clima tava gostoso e eu queria caminhar, e fui. Eu tava usando calças jeans e uma camisa branca, o cabelo preso em um rabo de cavalo, que foi o que o agressor usou pra me puxar. Ele me jogou na parede na parte mais escura da rua, botou a mão na minha boca, e baixou a calça com a outra. Eu chorava sem parar. Queria gritar mas não conseguia. Ele me estuprou ali mesmo, e senti como se pegasse fogo por dentro. Quando ele terminou, falou que eu tava pedindo, e saiu caminhando calmamente. Acendeu um cigarro. Eu caí no chão chorando. Não sei quanto tempo fiquei lá até ter coragem de levantar e ir pra casa. Sentia a porra dele escorrendo para a minha calcinha e me melecando enquanto caminhava, e sentia um nojo imenso de mim. A água ficou vermelha de sangue quando tomei banho. Não dormi aquela noite, no dia seguinte fui na delegacia. E engravidei desse desgraçado. Fui abortar pelo SUS, porque eu podia pela lei. Fui mal tratada pelo médico. Pelas enfermeiras. Por todo mundo. Chorei o tempo todo. Gritavam comigo, não se importavam se eu sentia dor. Foi horrível. O aborto era legal pelo estupro, mas a ilegalidade do fato foi o que validou todos os maus tratos que eu passei.

Eu tinha 32 anos e trabalho em bancos desde que saí da faculdade de economia. Dá pra dizer que ganho muito dinheiro pra minha idade, e adoro minha vida. Não tenho tempo e nem vontade de ter um relacionamento estável, então me contento com noites com caras aleatórios ou um ou outro amigo com quem tenho cumplicidade suficiente pra fazer sexo quando dá vontade. Numa dessas, engravidei. Não tenho certeza com quem, mas não queria ter o filho, de jeito nenhum. Minha vida é boa demais como é, não quero mudar. Logo no começo a Constituição do meu país garante igualdade e segurança a todos os cidadãos, falando que homens e mulheres são iguais perante a lei e que ninguém será submetido a tortura ou tratamento desumano. O que é a proibição do aborto senão isso? Me tiram o direito do meu próprio corpo, me tratam de forma degradante e chamam isso de lei. Abortei. Fui pros Estados Unidos, abortei lá, porque eu felizmente ainda posso. E foi a pior viagem da minha vida. Ter que recorrer a outro país para conseguir um direito básico.

Eu tinha 44 anos. Eu moro na periferia de São Paulo e tenho quatro filhos. Dois meninos, uma menina e outro menino, de 17, 14, 7 e 2 anos. Meu marido trabalha como guarda noturno em algum lugar, e gosta de beber. Ele bate em mim e nas crianças. Eu quero ir embora de casa, mas não tenho dinheiro pra sustentar meus filhos sozinha. Eu tava planejando formas de fugir desse cara quando ele chegou um dia bêbado em casa, pela milésima vez, me bateu, me jogou no chão e me fodeu. Foi horrível. Eu engravidei, de novo, e não queria ter mais um filho desse nojento. Precisava abortar. Eu queria ter abortado meus outros filhos pra poder ter tido uma chance de me livrar desse perverso, mas não sabia ninguém nas outras vezes que engravidei. Agora eu sabia, um contato de uma vizinha que tinha ido lá abortar. Fui também. Paguei. Perdi o bebê. E perdi a vida. Eu abortei ilegalmente e morri.

 

Eu, Clarissa, nunca abortei de verdade. Mas cada um desses relatos poderia ter sido eu. 20% das brasileiras de até 40 anos já fizeram aborto ilegal. No Brasil, a cada ano, cerca de UM MILHÃO de abortos ilegais são feitos. A cada dois dias, uma mulher morre por conta disso. O feto é uma criação de homem e de mulher, mas é só um deles que paga o preço. Sempre. O aborto é uma questão de saúde pública, as mulheres são assassinadas e despidas dos seus direitos pelo Estado. Isso precisa mudar. Agora.

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