Paris e o dia que descobri que meu nome está imortalizado no Panteão

Paris e o dia que descobri que meu nome está imortalizado no Panteão

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Dessa vez, a ansiedade era menor. Quando entrei no avião e sentei no banco preparada para as nove horas de viagem até Lisboa, que seria minha conexão, o coração não estava disparado e o sentimento dominante poderia ser descrito como “paz”, embora o conceito seja um pouco distante demais para que eu possa dizer com certeza. Em algumas fileiras atrás de mim, alguém foi repreendido pela aeromoça que, voltando ao seu posto, murmurou em voz baixa “homens” para a colega. Eu sorri.

Era quase meia noite em São Paulo, que eu deixara, quando, a milhares de quilômetros de distância, sobre o oceano, coloquei “Wild” para assistir. (Eu e o João somos tão insuportáveis que mesmo no avião, com sistema de entretenimento individual, combinamos o que assistir e contamos até três para o play ser junto. Sim, horrível.) Não gosto de histórias de superação com lições de moral sobre a vida ou a melhor forma de viver, mas, por outro lado, adoro histórias de auto-conhecimento, de mergulhar em si mesmo, de testar os próprios limites – muito mais mentais do que físicos – e “Wild” é tudo isso. É também feminista e uma grande reflexão sobre as relações familiares. Quando o avião pousou, ainda tava abalada.

Foi só ao meio dia de Paris que desembarquei na minha cidade favorita. E foi só quase 2 horas que, carregando mala, subi a escada do metrô e vislumbrei a paisagem se formando devagar, um pouquinho a cada degrau. As folhas verdes das árvores. As placas da cidade. Um prédio antigo. Tudo bem – o coração disparou. To em casa.

O Panteão de Paris
O Panteão de Paris

A rue des Écoles, onde fiquei hospedada, na rive gauche dessa vez, é uma sucessão de livrarias de um lado da rua, com a Sorbonne ocupando um bom espaço do outro. Francesas carregando livros passavam por mim, outras encaravam vitrines, buscando exemplares sobre teoria social – o que, na história que inventei na minha cabeça, era o que estudavam. Fazia frio, mas o sol era forte lá em cima, e o cansaço era substituído pelo deslumbre que sempre me assoma nessas situações.

Nosso studio no sexto andar de um prédio antigo tem vista para o tapete de pedra da cidade e o espaço pequeno parece um palácio. Me jogo na cama, a febre baixa, a tosse intensa, a cabeça explodindo, para tentar conter o jet lag exagerado por um quadro gripal. Acordo à noite e vamos passear pela região, mas é somente no dia seguinte, cedo, que realmente acordo.

Cripta do Panteão
Cripta do Panteão

O Panteão, a poucas quadras a pé de onde estamos, no coração do Quartier Latin, nos recebe no começo da manhã. Está em obras. Sinto que tudo em Paris está em obras – a Nike de Samotrácia no Louvre e a St. Chappelle ano passado, dessa vez o Panteão. O Pêndulo de Foucault não é visível, mas a arquitetura clássica e sublime do templo é de fazer perder o fôlego. Colunas coríntias erguem-se por toda a extensão interna, criando um labirinto de espaços, estátuas e murais. O espaço inteiro é invadido pela luz que entra das cúpulas e parece projetar o significado de divino no ar.

Abaixo do templo, uma cripta se espalha subterrânea e guarda os restos mortais de pessoas como Alexandre Dumas, Victor Hugo e Voltaire. Alguns espaços estavam fechados e outros, abertos, recebiam oferendas de admiradores de todos os lugares do mundo. O túmulo de Marie Curie exibia uma coroa de flores brancas e vermelhas recém colocada.

Túmulo do Voltaire
Túmulo do Voltaire

Como é curiosa nossa obsessão pela própria mortalidade, nossa curiosidade pelos mortos, não conseguia parar de pensar. Entrar em alguns dos espaços podia ser uma experiência negativa – de um deles, tomada de uma energia tão intensa e ruim, saí quase correndo. Em outros, encontrava uma placidez que, mesmo não completamente silenciosa, era inegável e envolvente.

Quando subimos, encontramos um mural homenageando todos os escritores que morreram pela França. C. WOLFF, minha inicial e sobrenome, pertencentes a alguém que veio muito antes de mim, imortalizadas ali. Sorri.

C. WOLFF no Panteão
C. WOLFF no Panteão

Saímos caminhando pelas redondezas até uma pequena brasserie onde sentamos para almoçar e eu pedi meu costumeiro tartare de boeuf. Depois de quase uma semana sem sentir o gosto das comidas, por causa da gripe, foi uma sensação incrível retornar aos prazeres orais assim. A chuva começou a cair com força e pequenas pedras de gelo batiam no vidro e se despedaçavam nas calçadas, agora vazias. Uma hora antes, quando chegamos, elas estavam tomadas de estudantes fumando, conversando e dividindo cafés.

A tarde nos levou para lojas de arte de séculos de existência e passeios nas margens do Sena. Que cidade maravilhosa. Como é bom ser jovem e apaixonada, não conseguia deixar de pensar, sentindo a inspiração pulsar pelas ruas e cair direto no meu sangue. Encontro “Le Bleu du Ciel” do Bataille por quatro euros em uma das lojinhas na beira do rio, o João encontra um álbum que ainda falta na nossa coleção do Leonard Cohen ali perto. Era fim da tarde quando entramos uma galera de novos artistas. Seis andares repletos de obras de diferentes estilos amontoadas como se fosse a própria casa deles, entre tintas abertas e pinceis sujos. No último andar, uma surpresa: uma artista brasileira. Quando falamos da nossa vontade de vir morar aqui e estudar História da Arte, a resposta que ela nos deu foi gentileza e incentivo:

– Vem. Vai mudar sua vida. E boa sorte.

– Eu venho – respondi. Eu venho.

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