Porque o Nick Cave é o cara mais legal do mundo e o primeiro dia em Berlim

Porque o Nick Cave é o cara mais legal do mundo e o primeiro dia em Berlim

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Nunca gostei dessa coisa de fazer bate-e-volta e se não fosse pelo show do Nick Cave, jamais toparia o desgaste. No caminho para o auditório do Parc del Fórum, encontramos uma israelense perdida que tinha o mesmo destino que o nosso.

– Qual é seu nome? – perguntei.

– May… como o mês. Como é em português?

– Maio.

– Então Maio. Meu nome é Maio – ela respondeu, sorrindo.

Nos vinte minutos que passamos juntas, ela contou como a vida é difícil em Jerusalém por causa do extremismo religioso, como tudo é caro demais e como Havaianas lá custam aproximadamente 20 euros (nós vimos por 25 em Berlim). Lembro da brasileira que encontramos em Lisboa e mora há uma década na Europa: “volto ao Brasil quatro vezes por ano, mas detesto ver os jornais. Você tá na Europa e tudo que você encontra são brasileiros, a gente nunca esteve melhor. Mas você chega lá e só ouve falar em crise. Que crise? Nosso povo nunca esteve tão bem”.

– Você lembra no filme quando aparece aquela parte do quarto dele com um monte de cabelo colado na parede? – May começa a falar sobre Nick Cave. – Depois que eu vi, comprei um monte de cabelo sintético e colei na minha parede também.

Ela tem 22 anos, abandonou a faculdade de artes por sentir que as regras acadêmicas podavam demais a criatividade e quer sair de Israel pra morar na Europa. Talvez Berlim, “os alemães sempre querem ajudar judeus”, ela explica, “mas tenho medo de me decepcionar com a cidade, tenho muitas expectativas”. Ela vestia uma camiseta estampada de flores, os cabelos estavam presos em um rabo desarrumado com vários fios escapando, e a mochila era coberta de desenhos em marcador preto. Mas de tudo o que ela falou, o que realmente me atingiu com força foi um relato sobre a própria família:

– Meu pai é ucraniano. Ele não quer voltar pra Rússia de jeito nenhum, mas eu quero muito conhecer lá. Eu vou encontrar ele e meu irmão antes do show.

– Você não mora com eles? – o João perguntou.

– Não… não consigo. Não consigo nem viajar com eles. Eles viajam juntos, se hospedam juntos. Eu faço tudo sozinha. A gente se encontra às vezes.

O dia que eu vi deus. #nickcave #concert #live #music #barcelona #vídeo #omg

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Nos despedimos quando chegamos no show, cada um se dirigindo ao seu assento. O nosso, na lista de convidados da banda, era pertíssimo do palco. Quando Nick Cave entrou, já sabia que seria impressionante. Como uma cobra, ele desliza de um lado pro outro do palco, magro, esguio, hipnotizante. Ao fim da primeira música, ele pediu que tirassem o fotógrafo que estava na frente da primeira fila. Atrás dele, nossa amiga israelense se levantou. Ela tinha abandonado o assento pelo chão logo à frente do palco.

– Não, você pode ficar – ele disse, olhando pra ela. – Mas larga esse celular.

Depois disso, várias pessoas se levantaram e se dirigiram pra perto dele, sentando no chão. E ele continuou a fazer a apresentação, chegando perto, interagindo com as pessoas, tocando nas mãos. Na euforia inicial, May subiu no palco, abraçou ele com força e recebeu um beijo no rosto. Depois desceu, voltando pro seu lugar, antes mesmo de o segurança pedir.

O show seguiu entre momentos de transe completo, com Nick Cave ao piano levando todo mundo em um mergulho introspectivo profundo e outros momentos de explosão catártica, em que ele pulava pelo palco, subia na plateia, conversava com as pessoas. Em Higgs Boson Blues ele se atirou no público e na nossa frente puxava a mão de fãs, colocando sobre seu próprio coração, encarando-os nos olhos e perguntando: “can you feel my heartbeat?”. Em Into My Arms ele convidou todos a cantar junto o refrão, criando uma harmonia emocionante de centenas de vozes maravilhadas. Push The Sky Away, a última música, terminou a experiência sublime de forma perfeita: todo mundo repetindo as palavras junto com ele, abandonando seus lugares, amontoados perto do palco, enquanto ele caminhava pelos bancos para conseguir interagir com o máximo de pessoas.

É difícil assistir a um show quando você tem expectativas demais porque, assim como May pensava em relação a Berlim, o medo de se decepcionar é grande. Mas a delícia de ser surpreendida com algo ainda mais incrível do que você imaginava é indescritível. Obrigada, Nick Cave.

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Nossa primeira impressão de Berlim, andando de ônibus por Berlim Oriental em direção a Kreuzberg, é que ela poderia ser, como João falou brincando, “um grande hotel fazenda”. Com árvores cobrindo todas as calçadas, casinhas de arquitetura que a gente do sul do Brasil já tá acostumado, a cidade tem um charme muito diferente do que eu esperava encontrar. Mas chegando ao nosso destino a imagem de paredes cobertas por grafites e arte pulsante tomou conta: a cidade é exatamente como eu imaginava. Às 23h está cheia de pessoas na rua, comendo, conversando, indo pra alguma festa, bebendo cerveja, se divertindo.

Paramos para não atrapalhar uma pessoa fotografando um grafite. Ela nos olha, abre um sorriso e diz:

– Foda-se, to sendo artística.

E depois vem conversar com a gente. Descobrimos que ela é inglesa e já morou por vários lugares do mundo. Por dois anos na América Latina – destes, 3 meses no Brasil e 3 na Colômbia, que adorou. Passou o último ano no Japão, “mas lá as pessoas são muito obcecadas com a aparência”, ela fala, falando que isso só é superado na Coréia do Sul.

– Adoro que em Berlim ninguém liga pra como tá – ela fala, e eu lembro que eu li em algum lugar algum texto sobre feminismo falando algo como “vou pra Berlim pelo direito de ser feia”. Eu sorrio, e concordo. Minhas maquiagens escolhidas a dedo ainda não fora tocadas, em toda a viagem. E to nem aí.

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Paramos pra comer – 7 euros pra nós dois, um absurdo de barato se pensarmos que em Paris, em qualquer brasserie é difícil jantar por menos de 20, 30 euros – e o moço do restaurante começa a conversar comigo.

– De onde você é?

– Brasil.

– Bélgica, claro.

– Não, Brasil.

– Quê?

– Brasil.

– Brasil?

– Sim, Brasil.

– Não, você não pode ser brasileira – ele fala. Eu começo a rir, porque não é a primeira vez que acontece. No aeroporto, inclusive, vieram me pedir informações em alemão. “Ich spreche kein Deutsch”, uma das poucas coisas que aprendi na língua. Eu não falo alemão. – Achei que você era de Londres – ele esclarece, depois.

No dia seguinte, decidimos caminhar até a East Side Gallery, um pedaço restante do muro de Berlim a céu aberto que passou pela intervenção artística de artistas de vários lugares do mundo. O caminho até lá mantém o que eu esperava da cidade. Passamos pelo atelier de uma fotógrafa cujas fotos me emocionam de cara. Entro pra conversar. Ela fala que todo seu trabalho é analógico e os efeitos são todos feitos na revelação. Em alguns aspectos, ela me lembra a fotógrafa Alison Scarpulla, que minha melhor amiga adora.

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Seguimos até o rio, atravessando a ponte que parece ela também uma obra de arte. Do outro lado, várias pessoas caminham pelo muro, observando os murais pintados pelos artistas convidados e depois grafitados por cima por artistas da cidade, querendo expressar os próprios sentimentos e ideias conflitantes com os que estavam ali. A gente é muito obcecado pelo passado, eu fico pensando. Pela nossa história. A reflexão iniciou sobre mim e João, especificamente, mas quando parei pra pensar percebi que podia ser o mundo inteiro. Monumentos do que já vivemos são erguidos e destruídos, construindo a história que querem que a gente se lembre. O único mural livre de grafites é uma bandeira de Israel, incólume no meio do caos dos outros painéis. A história contada aqui ignora o genocídio que Israel faz na Palestina e eu fico pensando: somos mesmo obcecados pela nossa história? Como um povo que sofreu um holocausto tão terrível pode migrar pra outro lugar e fazer o mesmo com outro povo? Sinto vontade de chorar, uma vontade que nasce devagar e toma lugar no êxtase que é a principal emoção da viagem.

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De lá, vamos para o memorial do muro, que fica em uma região um pouco mais distante da cidade. O memorial é ao ar livre e traz imagens, textos e áudios com reportagens e entrevistas. Passeando por lá, podemos ler e conhecer detalhes da vida durante a época em que o muro foi erguido: as famílias e amigos que aos poucos foram sendo separados enquanto o trânsito entre os dois lados de Berlim se tornava proibido. No prédio do memorial encontramos ainda mais relatos e uma série de pequenas curiosidades, como o álbum do Jimi Hendrix que era proibido na Berlim Oriental e contrabandeado para dentro. De lá, fomos para o memorial da estação fantasma que passava por Berlim Ocidental e foi soterrada para impedir escapes. A impressão que eu fiquei pela escolha de palavras e organização do relato é que a parte oriental da cidade é mostrada com uma espécie de prisão infernal, onde quem escapa para o lado ocidental é homenageado como herói e não consegui deixar de sentir um pouco de desconforto com isso. Essa é a história que querem que a gente lembre: que o capitalismo salvou a todos. De toda forma, a experiência é fortíssima: saindo da macropolítica e entrando na vida individual das pessoas, os relatos são de arrepiar.

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Mesmo assim, a intervenção no muro que fica perto do rio, a East Side Gallery, teve um efeito muito mais forte em mim. É inegável como ler e ouvir histórias da época seja impactante, mas a impressão final foi que East Side Gallery é o memorial que as pessoas da cidade ergueram e ainda mantém, com intervenções e grafites colocados por cima dos paineis originais, enquanto o memorial oficial é exatamente isso, a versão oficial dos fatos. A organicidade do painel artístico é o que mais me atrai.

Terminamos o dia visitando o Portão de Brandemburgo, majestoso, com direito a despedida de solteiro, limusine rosa, e cortejo de casamento. Chegamos em casa às dez, cansadíssimos.

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