Querida São Paulo,

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(esse texto foi escrito em outubro de 2015, quando voltava para Porto Alegre depois três anos aqui. Agora, de volta à verdadeira cidade maravilhosa, reencontrei essa carta entre outros rascunhos. No aniversário de São Paulo. Pareceu a hora certa de publicar. As fotos vieram daqui.)

Querida São Paulo,

Eu ainda lembro a primeira vez que te vi de verdade. Não foi no avião, ou em Congonhas, ou andando de carro até a casa da minha melhor amiga. Não – foi na primeira vez que botei os pés na Paulista, saída do metrô, em que nunca tinha andado, na minha primeira viagem de avião. Eu tinha 20 anos, uma depressão grave e a sensação permanente de que minha cidade, Porto Alegre, não era minha casa.

A primeira vez que vi a Paulista, fui tomada pela magnânima impressão de poder dos prédios altos e espelhados, das luzes, e do céu claro se desnudando. Foi a primeira vez, depois de muito tempo, que eu me senti realmente viva – o coração acelerado, a vontade de viver, a noção de que ainda existem coisas que valem a pena. Menos de dois anos depois, eu me mudei pra cá.

Eu nasci em um berço de ouro – não porque meus pais sejam ricos, porque não são. Eu nunca tive tudo o que quis, nunca tive grandes luxos na infância, e meus pais enfrentaram grandes dificuldades financeiras. Mas não tem nada que, olhando para trás, eu poderia pedir a mais. Eu tive suporte, carinho, muito amor. Eu tive, por isso, um berço de ouro. E quando saí, com uma estabilidade financeira familiar que eu nunca tinha vivido antes, abandonei um conforto que seria impossível de recuperar nos meus anos aqui.

São Paulo é uma cidade árdua, cheia de dor, cheia de lágrimas, carregada de desigualdades sociais. No dia em que te brinda com um pôr-do-sol glorioso, te traz um menino de rua esfomeado implorando por comida. São Paulo é a realidade, dura, sem maquiagem.

Aqui, todo mundo busca alguma coisa com afinco, as pessoas facilmente passam por cima de você. Às vezes literalmente. A ganância é o sentimento que domina a região da Berrini, onde trabalhei por mais de dois anos, numa empresa maravilhosa. As ruas, porém, são lotadas de homens de ternos, energias agressivas, competição e olhares invasores. A amada Augusta à noite, um antro de liberdade de expressão, com frequência se torna o vórtex da auto-destruição. Depois de passar anos sóbria, os olhos vermelhos, os passos errantes, a fala confusa e as pessoas jogadas no chão não mais criam identificação. O metrô, uma das minhas coisas favoritas da cidade, é uma arena em que vence o mais forte: apertos imensos, acotovelamentos, empurrões. Não existe educação em uma cidade que não pára, em que você precisa cumprir prazos, em que não existe metrô suficiente para comportar a quantidade absurda de gente que se locomove. Pinheiros é uma visão do inferno – quantas vezes, lá no meio, cerceada por vidros, guardas e corrimões, a multidão parecia apenas gado em direção ao abate?

Mas São Paulo é a cidade em que eu me tornei eu mesma. Foi em Porto Alegre que nasci, mas foi aqui que eu me tornei eu. Se Porto Alegre representa minhas origens, São Paulo é minha formação. Ela é, apesar tudo, a minha cidade, a que eu escolhi pra amar, pra às vezes odiar, e, principalmente, pra viver. Porque isso é algo que eu havia deixado de fazer em Porto Alegre: viver. E agora, prestes a abandonar a cidade que eu escolhi pra mim, a nostalgia toma conta. É, eu sou uma pessoa muito nostálgica – passados se transformam em imagens fortes de cheiros, luzes, sensações e sentimentos. E caminhar pela Paulista, dobrando na Pamplona em direção à minha casa, em um caminho que já me fez querer desistir de tudo e já me deu a melhor sensação de gratidão do mundo, eu penso: como posso ir embora?

Novas coisas me esperam, cidades que amo muito mais que essa, vidas que vou amar mais também. Mas São Paulo é a primeira parte disso tudo. E dói, sim, me despedir. Porque aqui foi onde eu amei – a vida, o amor, e a cidade.

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