Racismo disfarçado de purismo literário: até quando, meudeus?
Racismo disfarçado de purismo literário: até quando, meudeus?

Racismo disfarçado de purismo literário: até quando, meudeus?

989Shares

Eu amo Harry Potter mais do que quase tudo na vida, então escrevi e li fanfics (aliás leio até hoje, esse passado anterior é uma ilusão de que virei adulta e só leio literatura russa, mas é tudo mentira), era ativa no fandom e fui inclusive administradora e fundadora de um fórum. Eu participava de discussões intermináveis sobre quem seria o Príncipe Mestiço (eu acertei bem antes de o livro sair), se R.A.B. era mesmo Regulus Black, sobre o triângulo Snape-Lily-James.

Talvez você, que não participou desse mundo por anos enquanto crescia, pare para olhar e diga que isso é um absurdo: mas vi páginas e páginas de discussão sobre o vestido rosa que Emma Watson escolheu para o baile do Torneio Tribuxo. Caso você não saiba, era azul no livro. E o fandom não perdoou.

Fofinha <3
Fofinha <3

Curiosamente, a mesma fúria sumiu quando a atriz que atuava como Lilá Brown, negra, foi substituída por atriz, branca, quando o papel começou a ter mais participação. Mas essa fúria estava pronta para ressurgir em 2015 quando uma nova atriz foi escolhida para o papel de uma Hermione adulta. Todo mundo sabe que nos filmes ela é branca. E adivinha: agora, escolheram uma atriz negra.

Quando a própria J.K. Rowling vai ao Twitter para legitimar a participação da atriz dizendo que nunca foi especificado nos livros que a personagem era branca, a primeira pergunta que deveríamos nos fazer é como ficou tão enraizado na nossa cabeça que Hermione não é negra. E a resposta não é a atuação de Emma Watson.

A escritora feminista Monique Wittig já fez uma discussão sobre o quanto o padrão é ser homem: “‘Homem’ é o coletivo de ‘seres humanos’. ‘Eles’ substitui ‘eles e elas’. Ser homem é ser normal. Ser mulher é ter um gênero”. Quando descrevemos, de forma genérica, a existência de um personagem, automaticamente imaginamos um homem branco. Não é uma particularidade nossa: são anos e anos de doutrinação da ideologia dominante para que o normal seja esse. E na dicotomia de brancos e negros, a regra permanece.

Duvida? Se você vê uma moça bonita na rua e vai descrever para alguém, você geralmente falaria: “Vi uma mulher bonita”. Não precisa de explicações. Todo mundo vai entender que ela é branca. Isso porque, se ela fosse negra, você deixaria especificado: “Vi uma mulher negra bonita”. O normal, o padrão, aquilo que o nosso subconsciente acessa no nível automatizado, sem precisar pensar, é isso: é ser homem, e é ser branco. Qualquer coisa fora precisa de descrição.

Vocês já viram a discussão que tá rolando sobre fazer um James Bond negro ou mulher? Pois é. Ninguém quer aceitar um James Bond que não seja homem branco.

Captura de Tela 2016-06-05 às 19.33.58

É fácil então entender como o apego a uma Hermione branca, quando mesmo a autora do livro nega que isso tenha sido descrito (e não foi!), é alto. Ele é fruto de um racismo enraizado e introjetado tão fundo que todo mundo 1) nega e 2) diz que não é racismo.

Surpresa: é, sim. E é o tipo de racismo mais poderoso do mundo: aquele que aparece no nosso nível mais anterior, antes mesmo do pensamento racional, e que é facilmente descartado como inofensivo.

Ainda mais evidente essa falsa simetria se torna quando analisamos outras situações em que o chamado “purismo literário” foi completamente ignorado e ninguém se importou: a Katniss, de Jogos Vorazes, é descrita como tendo “cabelos escuros, olhos cinza, e pele de oliva”. Mas quando Jennifer Lawrence, loira de olhos claros, branquela, com aquela cara de californiana pintou os cabelos e disse que estava pronta para se transformar na Katniss, ninguém interveio. Quando Game of Thrones decidiu escolher atores brancos para uma série de papeis que deveriam ser de pessoas negras e pardas, ninguém interveio.

A revolta só vale quando se muda a imagem branca, que já tem uma frequência gigante, gigantesca, imensa, em uma proporção vergonhosa. Quando a representatividade negra é roubada, ninguém se importa. Então onde está esse famoso purismo literário, que por si só já seria ridículo? E como existe gente que tem coragem de defender isso que é nada mais que supremacia branca?

A falácia é tão gigante que temos pessoas reais negras sendo personificadas no cinema por atores e atrizes brancas sem qualquer indignação: Angelina Jolie como a jornalista Mariane Pearl; todos os filmes de Egito Antigo com atores brancos como faraós (aliás, vocês sabiam que o Egito fica na África? A Cleópatra da Elizabeth Taylor é uma mentira gigantesca – mas nada é desculpa pra não saber esse fato básico da geografia e esconder o próprio racismo nessa ignorância, viu?); Max Minghella como o indiano Divya Narendra em A Rede Social. Batman, Bonequinha de Luxo, Príncipe da Persia, Scarface, Uma Mente Brilhante. Cadê a revolta por esses filmes?

Isso sem falar naquelas situações vergonhosas em que maquiam artificialmente atores brancos para que eles pareçam ter outra cor e roubem, assim, o papel que deveria pertencer a atores e atrizes não brancos. Menos de 20% da população mundial é branca. E eu aposto que ainda vai ter gente falando que falta ator não branco pra representar os papeis. Isso tem um nome: racismo.

Parece aquele quadro incrível em Master of None em que um produtor de uma série que tá aberta pra contratar pessoas de diferentes etnias diz que não pode ter “dois indianos na mesma série”. Ou seja: até os ambientes supostamente abertos para diversidade têm seus limites (racistas).

E se é pra brincar de “deveria ser de outra cor”, o próprio Jesus é representado como loiro de olhos azuis na maioria esmagadora de imagens. Se ele tivesse suscitado uma revolta como a que a Hermione negra causou…

Mas é só pra ser justo com os livros, né? Não tem naaaaaada a ver com racismo. Imagina.

rihanna-nothing-is-promised-1
Rainha do mundo! <3

P.S.: Recadinho pessoal: amigos e amigas brancos, sério. Menos, tá? Tá na hora de reconhecer a dívida histórica que temos e começar a olhar pras merdas que a gente faz e ver se a gente consegue ser melhor. Por favor. Que vergonha.

989Shares

Related Stories