Racismo, turbante, o estigma do câncer e a geração do like

Racismo, turbante, o estigma do câncer e a geração do like

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Recentemente, apareceu na minha timeline várias discussões sobre uma jovem que contou ter sido xingada por usar turbante. A justificativa dela era estar com câncer.

Não vou entrar no mérito de apropriação cultural agora e nem explicar por que eu, branca, considero equivocado acreditar que “ter câncer” é desculpa pra ser racista. “Mas, Clarissa, tu não sabe o que é passar por isso, câncer é muito grave”. Antes que esses comentários comecem, saca só: eu tive câncer. Quatro vezes. E duas delas foram leucemias, a mesma doença da menina que estava de turbante – embora fosse de uma tipologia diferente, confesso.

Também não quero entrar em detalhes sobre as perguntas que quis fazer à menina – coisas que, pra mim, soaram tão incoerentes que me deixaram curiosa. Não em relação à apropriação cultural, mas em relação à forma de abordar a doença nas redes sociais. Mas, bom, cada pessoa é uma pessoa, e eu não posso julgar a coerência de outra através da minha ótica.

Vou repetir pra ficar claro: esse post não é sobre essa menina. Esse post não é pra questionar a veracidade ou não de inúmeros relatos que surgiram. E esse post não é sobre apropriação cultural.

Então sobre o que é?

Esse post é sobre estigma social.

Eu discuti sobre o fato com algumas pessoas e defendi que não é preciso usar turbante quando se têm câncer. Eu tive câncer quatro vezes, já disse. Meu cabelo todo caiu e esse foi um dos maiores traumas da minha vida. E nunca, nunca precisei – pasmem! – usar turbante.

O cabelo cair, pra uma mulher, é carregado de significados muito além da doença. Se sabemos que antigamente o cabelo solto sinalizava uma mulher solteira e o cabelo preso uma mulher casada, é óbvio a relação de cabelo com feminilidade e disponibilidade sexual é direta. O sexy – e a pornografia – abusam de cabelões soltos, armados, felinos, porque isso lembra sexo, beleza, atração. E numa sociedade em que a mulher existe unicamente pra ser objeto sexual, é inegável que a perda de cabelo seja um trauma gigante. Como mulher, a gente sabe como as amarras da feminilidade nos enfraquecem e nos aprisionam.

Eu fui ter cabelo curto depois dos 20 e poucos, quando minha confiança me liberou do calor de um cabelão até a cintura. E quando digo curto digo acima dos ombros: mais que isso, ainda não consigo. Tudo bem, todo mundo tem seu tempo.

Então repito: é compreensível que a perda de cabelo seja traumática, e que a gente, como pacientes com câncer, busque alternativas pra esconder que isso esteja acontecendo (olha só, até hoje me dá agonia usar a palavra careca pra me referir a isso. Que forte). Eu usava principalmente toucas, já que perucas em geral incomodam bastante. Mas usava em casa. O trauma era tanto que eu não saía de casa e só recebia visita de poucas pessoas, porque não aceitava ser vista daquele jeito. De homens, só minha família mais próxima e um melhor amigo (Lucas, um beijo!).

Não existem fotos minhas daquela época. Nem com touca, nem sem touca.

Essa lembrança é inexistente, fantasiosa, apagada, quase como se nunca tivesse acontecido. E isso não é pelo estigma do câncer. É pelo estima da mulher careca, da mulher que não é capaz de performar a feminilidade dela esperada, da mulher que é feia.

Eu, que sempre fui bonita, jamais conseguiria suportar isso.

Esse estigma não vem do câncer, vem da opressão. Muito parecido com o tipo de estima que o racismo evoca: filho da opressão, impossível de fugir, muito mais enraizado na cultura do que a gente pode imaginar.

Corta pra falar de câncer, o ponto onde eu queria chegar: existe um estigma de paciente com câncer?

Existe. Claro que existe. E, sim, eu também não gosto. Ser tratada com pena, ser lembrada por ter tido câncer, ser rotulada por isso. “A minha amiga que teve câncer”, “aquela menina que eu te falei que teve câncer quatro vezes”, cansei de ser apresentada assim. Eu sou tantas, tantas coisas. Não sou o câncer. Não sou minha doença. O câncer acabou. A Clarissa continua.

Mas esse estigma é muito, muito diferente do estigma da opressão. Esse estigma não te bate, não te xinga, não te rejeita, não te marginaliza.

O estigma do paciente com câncer é o da vítima. E o que a gente faz com vítimas? A gente recompensa. Fala com mais carinho e cuidado. Dá o lugar no metrô (não que isso seja errado, tá gente? Lugar no metrô é importante sim, a gente em geral fica muito fraco! Mas to usando de exemplo porque né, ganhar lugar no metrô é muito bom). Mais que isso: a gente dá uma chuva de likes. Literalmente.

A diferença do estigma da opressão e da vítima é fácil de perceber: é só comparar os likes dos posts sobre apropriação cultural em relação ao caso acima (poucos) com os de um relato sobre câncer (muitos).

O meu único post no Facebook que teve mais de mil likes foi falando sobre eu ter finalmente superado o câncer 100% depois de todos os anos de follow up (ironicamente ainda tive um câncer depois. Na época não sabia que sou portadora de uma síndrome genética que faz minhas células ficarem mais loucas que minha cabeça).

O paciente com câncer, diferente da mulher, do negro, do pobre, é aquele que vai receber privilégios que compensem a condição de vítima. É o que vai receber likes, comentários atrás de comentários de “guerreira” (ugh, odeio, guerreira é a Xena, eu sou a Clarissa), admiração grátis de um milhão de pessoas que não te conhecem e não fazem ideia de quem tu é. Nessa hora, aquele cara que manda feministas radicais (oi, eu) serem estupradas tá lá prontinho pra comentar e dizer que me acha incrível. O cara que acha massa xingar PTista nas fotos do Instagram de repente aparece pra dizer que me acompanha e me admira.

Nenhuma dessas pessoas me conhece. Essas pessoas conhecem uma coisa: o sentimento generalizado que a gente deve ter por pacientes com câncer. E esse sentimento, que vem do estigma, nunca é marginalizar. É sempre elogiar, admirar, privilegiar.

E eu só queria dizer: sério, amigos, com todo o respeito, vão se foder, tomem no cu, vão embora do meu Facebook e de todo mundo que tá doente. Esse comportamento é o que faz tanta gente fingir que tem câncer na Internet (você não sabia? Dá um Google).

Esse comportamento é o que me dá vontade de ter um câncer novo e morrer, só pra não ter que ouvir um monte de bunda mole hipócrita comentando coisas vazias pra ficar com a consciência limpa.

E se lembrem disso antes de passar pano pra racismo. Vocês não são legais. Nem pra nós, que vencemos o câncer.

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