Roupas também são feitas para protestar

Roupas também são feitas para protestar

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Na minha primeira semana de aulas na faculdade de moda, há cinco anos, quando eu não fazia a menor ideia que acabaria largando a faculdade, todos os professores quiseram saber por que a gente tinha escolhido esse curso. Minha resposta, com 17 anos, falava de moda como expressão artística e arte como catarse e forma de mudar o mundo, e ela encontrou espelho em uma ou outra resposta. A grande maioria respondia que queria moda porque gostava de glamour, de roupas e de comprar. Ingenuidade típica de pisciana sonhadora, fiquei desolada ao descobrir que, mesmo dentro da faculdade de moda, pouca gente busca seu viés artístico.

jimnakao

Desde que começaram os protestos, fala-se de roupa também. Gloria Kalil, com um título espirituoso, publicou em seu site uma matéria com dicas aos manifestantes sobre vestimentas adequadas para os riscos que correriam. Nela, havia informações bastante úteis como o fato de que o algodão absorve gás lacrimogêneo e faz com que os químicos permaneçam por mais tempo em contato com a pele, por isso devemos usar tecidos sintéticos. Achei sensacional a participação de um dos principais nomes do jornalismo de moda do Brasil.

Pois eis que na última sexta encontrei uma matéria no UOL intitulada “roupas também são feitas para protestar”. E são mesmo, mas não da forma superficial e burra exposta ali. Nada de protesto era agregado pela matéria; ela só trazia, como uma vitrine que muito bem poderia ser de qualquer loja, utilizando mais uma vez o que está acontecendo em busca de incentivar o consumismo exagerado da nossa sociedade hiperconsumista como bem explica Lipovetsky, uma série de camisetas com frases duvidosas como “desculpe o transtorno, estamos mudando o Brasil”, “sim, eu sou brasileiro, não, eu não desisto nunca”, e “não roube, os políticos detestam concorrência”.

Sim, roupas também são feitas para protestar, mas jamais dessa maneira mercenária. Vestir uma camiseta dessas tem um significado tão vazio quanto dizer que o Brasil acordou, porque não acordou porra nenhuma. Vestir uma camiseta dessas é atestar a própria alienação política. Porque essa é só mais uma forma cômoda de fazer protesto do sofá.

Quer saber quando roupas são feitas para protestar?

Quando, no período pós-Revolução Francesa, se adota uma moda austera e simples inspirada no classicismo greco-romano, se está protestando contra os excessos vividos no Barroco e no Rococó às custas da miséria da população.

Quando Chanel veste calças e se recusa a baixar a cabeça às imposições da moda feminina da época, que mesmo já liberta do espartilho por Poiret ainda trazia incubida uma série de regras estúpidas, ela está protestando contra a dominação do corpo feminino pela sociedade patriarcal.

Quando Schiaparelli faz chapéus com a forma de sapato, ela está protestando contra uma moda feita de dogmas e regras.

Quando o designer Jim Nakao, durante o São Paulo Fashion Week de 2004, faz uma coleção incrível, que deixa os maiores apreciadores de moda babando, feita de papel, e rasga todas as roupas ao fim do desfile, ele está protestando contra uma indústria que suga o pior do capitalismo em suas tendências que mudam na velocidade da luz e obriga as vítimas a se atualizarem com o mesmo ímpeto.

Quando roupas e cores são usadas para acenar uma ideologia, como o vermelho é adotado pelos partidos de esquerda, se cria moda de protesto.

Moda de protesto não é e nunca vai ser uma estampa do V de Vingança quando é tendência – e aliás protesto nunca vai ser protesto enquanto for por tendência.

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  • […] Pois eis que na última sexta encontrei uma matéria no UOL intitulada “roupas também são feitas para protestar”. E são mesmo, mas não da forma superficial e burra exposta ali. Nada de protesto era agregado pela matéria; ela só trazia, como uma vitrine que muito bem poderia ser de qualquer loja, utilizando mais uma vez o que está acontecendo em busca de incentivar o consumismo exagerado da nossa sociedade hiperconsumista como bem explica Lipovetsky, uma série de camisetas com frases duvidosas como “desculpe o transtorno, estamos mudando o Brasil”, “sim, eu sou brasileiro, não eu não desisto nunca”, e “não roube, os políticos detestam concorrência”. Sim, roupas também são feitas para protestar, mas jamais dessa maneira mercenária. Vestir uma camiseta dessas tem um signifcado tão vazio quanto dizer que o Brasil acordou, porque não acordou porra nenhuma. Vestir uma camiseta dessas é atestar a própria alienação política. Porque essa é só mais uma forma cômoda de fazer protesto do sofá. Quer saber quando roupas são feitas para protestar? LEIA MAIS. […]

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