Sharon Van Etten em São Paulo

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Sharon Van Etten é pequena e tem um sorriso doce que esconde o poder de sua voz e a profundidade de sua dor. Seu quarto disco, Are We There, um dos melhores de 2014, porém, não deixa nada a esconder. As narrativas, todas carregadas de emoção e extremamente pessoais, contam sobre um relacionamento de anos que teve em Nova York. As idas e voltas, a decisão de abandonar o romance pela música, e uma série de questionamentos sobre a vida e o futuro são o fio que ligam as 11 músicas matadoras, criações de alguém que obviamente sente coisas demais e de forma muito intensa.

Ela subiu ao palco do Cine Joia em São Paulo um pouco depois das 9 e meia da noite, e começou a cantar como se não fosse esforço algum. Taking Chances, segunda música do show, foi recebida calorosamente pela plateia apaixonada. Gritos de “a gente te ama” surgiam no silêncio entre as músicas e encontravam sorrisos levemente envergonhados da artista. “Por que vocês estão aqui sofrendo no dia dos namorados? Vocês pagaram por isso!” ela respondia, conquistando cada pessoa lá dentro com seu carisma. Ao ouvir “seu disco foi o melhor de 2014”, ela rebateu: “Como é possível? Ano passado teve o disco do Bon Jovi!”

Pedidos de músicas também apareciam entre elogios. “Eu tentei aprender a tocar Crime de novo, mas eu esqueci a letra”, Sharon se desculpa. “Eu tive que procurar na Internet a letra da minha própria música”. O humor levemente auto-depreciativo também apareceu em outros momentos, como quando bateu a cabeça no microfone e exclamou “não sou perfeita”, ou quando errou um acorde e falou “sou humana”. “Mas vou tocar uma das que vocês pediram, não se preocupem”, ela acrescenta.

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As músicas também ganhavam introduções frequentes. Antes de começar I Don’t Wanna Let You Down, música que dá título ao seu EP lançado esse mês, ela declara: “Minha mãe ficou muito brava que essa música não entrou no último álbum, mas é uma música muito feliz pra isso”. O refrão era ecoado por Heather Broderick, backing vocal, entre olhares e sorrisos trocados pelas duas. As interações entre elas, aliás, eram frequentes e carregadas de carinho e cumplicidade. (Pra quem também se apaixonou pela voz maravilhosa de Heather, ela vai lançar seu primeiro disco em julho desse ano pela mesma gravadora de Sharon.)

Quando os primeiros acordes de Your Love Is Killing Me, penúltima música da primeira parte, começaram baixinho, o público entrou em um transe coletivo. A canção é ainda mais destruidora ao vivo, evoluindo em uma explosão sonora catártica. É impossível não perceber que a música vem de um lugar doloroso, e, como Sharon fala em entrevista ao Stereogum, “[se vocês se sentem assim] imagina como eu me sinto”.

A banda volta para tocar um bis de três canções, entre elas I Love You, But I’m Lost, muito pedida pelos fãs, que não estava no setlist. A música levou Sharon ao piano e evocou uma melancolia profunda em cada novo acorde. A menina do meu lado cantava trechos em uma voz chorosa, o rosto lavado por lágrimas. É curioso pensar como essas canções surgem de alguém tão doce, que falou em entrevista ao Catárticos que gostaria de ser terapeuta “mas não psiquiatra porque não quero medicar pessoas, a não ser que seja com música”. Faz sentido: essa doçura e essa paz talvez só sejam possíveis de alcançar por alguém que realmente é muito sensível. “É difícil conectar com a dor”, ela fala na mesma entrevista.

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Em algum momento da apresentação, alguém a pede em casamento. “Não dá, eu seria terrível”, ela responde, rindo. A atenção de todos é nela, o que é óbvio uma vez que a banda leva seu nome. Na entrevista, ela confessa: “Toda hora [eu tenho vontade de estar em uma banda que não leve meu nome]. Eu queria começar uma banda só de meninas”.

O show acabou com Every Time The Sun Comes Up, última música do último disco, e surgiu com um convite: “Sintam-se livres pra cantar comigo!”. Depois, a banda se despediu e Sharon desceu para o camarim para descansar por alguns minutos e logo voltar ao público, esperando todo mundo para tirar fotos e autografar discos, se desculpando repetidamente por não poder ficar mais, e confirmando o que todo mundo já tinha aprendido: ela é realmente maravilhosa.


Vídeo maravilhoso do Marcelo Costa, do Scream&Yell, pra dar um gostinho (um gostinho) de como foi.

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