O que é essa tal de sororidade e o que ela tá fazendo com o movimento feminista?
O que é essa tal de sororidade e o que ela tá fazendo com o movimento feminista?

O que é essa tal de sororidade e o que ela tá fazendo com o movimento feminista?

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A sociedade da supremacia masculina tem uma estratégia importantíssima: a de manter mulheres competindo entre si. Seja através de padrões de beleza inatingíveis (onde sempre haverá disputa pelo posto de “mais bonita”, “mais magra”, “mais gostosa” etc), seja pela crença de que o objetivo da nossa vida é homem (o que coloca a culpa de traições “na outra”, faz amigas brigarem pelo carinho do mesmo cara, enfim), a percepção de outras mulheres como inimigas é essencial.

“Desejo a todas as inimigas vida longa para que elas vejam a cada dia mais nossa vitória” deixou de ser frase de nick do MSN pra se tornar hino na voz da Valesca Popozuda, se solidificando na cultura popular no formato de legendas, memes e até festas.

Fora dos ambientes feministas, a expansão do conceito de sororidade ainda é uma urgência: perceber outras mulheres como aliadas é, por si, uma prática de resistência. Porém, dentro do movimento feminista, o termo tem sido distorcido ao ponto de criar consequências nefastas.

Inicialmente, é preciso pontuar que os movimentos sociais são baseados na ideia de coletivo, mas não podemos esquecer que somos seres humanos e por isso passíveis a erro. O escracho e a perseguição de mulheres nunca deveria ser prática de qualquer pessoa que busca se denominar feminista.

A meu ver, o ingrediente essencial que leva à luta não deveria ser a sede de vingança do opressor, mas a empatia aos oprimidos. Nesse ponto de vista, em que a empatia é a palavra de ordem, não haveria nunca necessidade de tratar colegas de luta com outras formas de violência.

Acontece que o movimento feminista não é um sentimento ou um rótulo de auto-identificação. O movimento feminista é uma LUTA POLÍTICA. Você não sairia por aí dizendo que é comunista sem se sentir coerente com os preceitos políticos da ideologia, certo? Então por que quando a coerência é pedida por outras feministas isso é visto como um ataque pessoal?

O movimento feminista com esse rótulo surgiu nas décadas de 60/70 com uma ideologia radical e, com o tempo, o termo passou a ser apropriado por diferentes tipo de ideologias e utilizado para elas também. Atualmente existem diversas correntes de feminismo – calcadas em ideologias radicais ou liberais – e isso é compreensível: como uma feminista liberal admitiu em entrevista, a melhor forma de neutralizar qualquer revolução é destruir quem é radical – e “radical” significa ir à raiz do problema. Alguns textos feministas atuais parecem baseados em alegações de pessoas da extrema direita e nenhum alinhamento político com o que significa o movimento: “o feminismo é uma ideia individual”, “não existe coletivo, existem pessoas individualmente” etc. Mas indo além das diferentes correntes, o feminismo atual tem usado a palavra sororidade como escudo para defender pessoas que propagam ideias machistas.

Dentro dos movimentos, as buscas por desconstruções pessoais e das colegas deve ser um processo constante, e as problematizações das atitudes também. Se uma pessoa dentro do movimento erotiza abusos, ela deve ser apontada e problematizada. Se uma pessoa dentro do movimento protege abusadores, ela deve ser apontada e problematizada.

Não defendo, é claro, exposição pública, uso de ameaças, escracho ou qualquer outra técnica que seja violenta. Acredito que existam formas honestas e respeitosas de confronto e é por elas que clamo, porque a sororidade não deve se tornar sinônimo de apatia: se o movimento é uma luta política, devemos apresentar coerência com ela. Eu não posso me dizer comunista e falar a favor da meritocracia, da centralização de renda e do liberalismo econômico – certamente os companheiros de luta se sentiriam responsáveis por esclarecer a falta de juízo em alegar esses preceitos. O mesmo deve ocorrer em qualquer luta política.

Não quero falar em nenhum momento que devemos esquecer a empatia – já falei lá em cima, ela é, pra mim, o ingrediente essencial. Mas precisamos parar de justificar atitudes que têm impacto negativo para quem luta contra o machismo com pedidos de sororidade. Quer um exemplo de exigência de coerência? Seguem as palavras da feminista Maia Ruiz: “Não existe feminismo liberal. Existem mulheres liberais, ou [que são] de esquerda pra outras pautas mas para esta são liberais, que não são contra machismo e sim só contra questões pontuais como desigualdade salarial e casos de misoginia selvagem, como feminicídios. Isso é insuficiente, ineficiente e anti-sororário com irmãs, principalmente quando estas sofrem outras opressões. [Isso] não é feminismo, é clube da Luluzinha – ou nem isso porque adoram presença de homem nos espaços. O que mais tem é mulher, principalmente branca, militante de esquerda que é pateticamente tão liberal quanto uma mulher militante de direita. Acho que elas se iludem com os privilégios de cor e classe que possuem. Até sentiria pena se elas não estivessem, ao mesmo tempo, se lixando pra quem sofre misoginia e racismo, misoginia e elitismo, etc”.

Sororidade tem sido usada como ferramenta para silenciar problematizações que pedem alinhamento político no feminismo e também para silenciar denúncias de racismo e elitismo dentro do próprio movimento. Falando especificamente de racismo, não podemos esquecer que mulheres brancas são inseridas na cultura do racismo assim como os homens são inseridos na cultura do machismo: nós temos obrigação de buscar desconstruir nosso racismo introjetado. É triste ver mulheres falando sobre “não ter culpa de ser branca”, reproduzindo o discurso opressor que homens usam para nos deslegitimar como feministas, e pedindo sororidade por isso. Mulheres brancas têm uma dívida eterna com mulheres negras e é nossa obrigação mudar nossas atitudes: uso “obrigação” porque se trata justamente disso – não é algo para ser admirado, é o mínimo que podemos fazer em respeito a nossas irmãs de cor.

Esquecemos, parece, que feminismo é política: mas despido de seu poder de luta, se tornando apenas uma identidade, ele se esvazia de intenção (e qualquer possibilidade) revolucionária. É da articulação política que vêm as conquistas, e é preciso reconhecer que, para que haja uma luta sólida, é preciso haver coerência. E é preciso que as militantes entendam o movimento como um espaço em como elas podem ajudar outras mulheres, e não apenas libertar a si própria. Ser contra escrachos e exposição pública de mulheres tem a ver com empatia, mas é possível – e urgente – problematizar dentro dos ambientes do movimento. Precisamos entender que como humanos somos passíveis de erros, e não podemos execrar pessoas que estão em um momento diferente do processo de desconstrução. Me usando como exemplo, demorou alguns anos para que eu conseguisse problematizar a ideia de depilação e mais ainda para aparecer na rua com as axilas peludas. O processo individual é diferente para cada uma, e precisamos respeitar isso, mas precisamos ainda mais estar dispostas a nos desconstruir e a aceitar a problematização da colega. Se esconder por trás de um mecanismo de defesa alegando que “isso é caçar carteirinha” e pedindo “sororidade” é fugir da luta política. Feminismo não é um clube.

Sabe aquelas listas do BuzzFeed que é tipo, “amiga que é amiga fala se a outra precisa de desodorante/se a maquiagem tá borrada/se a roupa não ficou bem”? É tipo isso versão feminista. Amiga feminista que é amiga feminista problematiza 🙂

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  • […] A sociedade da supremacia masculina tem uma estratégia importantíssima: a de manter mulheres competindo entre si. Seja através de padrões de beleza inatingíveis (onde sempre haverá disputa pelo posto de “mais bonita”, “mais magra”, “mais gostosa” etc), seja pela crença de que o objetivo da nossa vida é homem (o que coloca a culpa de traições “na outra”, faz amigas brigarem pelo carinho do mesmo cara, enfim), a percepção de outras mulheres como inimigas é essencial. Fora dos ambientes feministas, a expansão do conceito de sororidade ainda é uma urgência: perceber outras mulheres como aliadas é, por si, uma prática de resistência. Porém, dentro do movimento feminista, o termo tem sido distorcido ao ponto de criar consequências nefastas. LEIA MAIS. […]