VINYL, a maravilhosa série sobre sexo, drogas, rock’n’roll e homens otários

VINYL, a maravilhosa série sobre sexo, drogas, rock’n’roll e homens otários

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Jessica Jones e suas metáforas sensíveis sobre relacionamentos abusivos. Master of None e um humor ácido tirando sarro de opressores. Relacionamentos mergulhados em sarcasmo e na indústria de séries para TV em Love. E a maravilha de Mr. Robot, que vai de discussões sobre justiça social a sofrimento mental em incríveis dez episódios. A gente não pode negar: as séries estão ficando cada vez melhores. Com Vinyl, em 2016, isso é ainda mais verdade.

A New Yorker não concorda. Na resenha após o piloto da série criada por Scorsese e Mick Jagger, a publicação diz que assistir ao episódio é como estar numa festa ao lado de um cara que fica gritando sem parar o quão chapado ele tá: Vinyl é uma masturbação, o próprio meio da música exaltando a si mesmo e promovendo valores sobre a essência do rock e a arte de não se vender.

É verdade: a série retrata, sim, esses princípios travestidos de nobres sobre o que seria o verdadeiro rock’n’roll. Essa ideia é perfeitamente personificada no protagonista Richie Finestra (Bobby Cannavale), fundador da American Century, uma gravadora que viveu os anos de glória e agora se vê definhando. Ele tem uma mulher linda em casa, Devon (Olivia Wilde), que precisou abandonar a própria carreira artística para exercer bem o papel de mulher-de-executivo. Ele tem uma série de ideias sobre a verdadeira música e detesta a realidade comercial que impõe dívidas e obriga que ele traga artistas sem qualidade. Ele tem muitos pêlos no corpo, grita sempre que pode, e adora provar o próprio poder. Ele é machão e doidão, engole álcool de montão e cheira cocaína o suficiente pra mostrar que é valentão.

Mas Richie, por mais que queira, não é nosso heroi vitorioso. E é essa a prova de que a série é muito mais incrível do que a New Yorker pôde imaginar. 

Richie Finestra, assim como esse ideal do estilo de vida do rock, é uma fantasia que não pode se sustentar. Do outro lado, Kip (James Jagger), o vocalista da nova descoberta musical Nasty Bits, veste a roupa do artista problema, com noções megalomaníacas do seus próprios direitos em nome da arte.

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O que acontece é que, episódio após episódio, Richie se afunda cada vez mais em uma espiral de destruição, que é muitas vezes auto-gerida, mas a maior parte fica fora do seu próprio controle. A sua visão de algo “novo” não é nem um pouco convincente, porque nem ele mesmo sabe como salvar algo que já está acabado. Para ele, a expressão máxima da masculinidade, expressa em sexo e violência, está intrinsecamente ligada à validade da música. “Você lembra a primeira vez que escutou uma música que arrepiou os pêlos da sua nuca?”, Richie pergunta. “Que fez você querer dançar, ou foder, ou sair e bater em alguém?” Pra todos os efeitos, isso é o que faz a boa música. O personagem é claramente um machista dos piores, com episódios de racismo explícito, como o bom típico homem branco. 

Isso é muito bem mostrado em uma sequência em que ele convida Devon para seduzir um artista a permanecer na gravadora. Ela tem plena consciência de que cabe a ela o papel de isca – linda e fascinante o suficiente para flertar com o artista até ele decidir ficar. Mas Richie não suporta perceber que ela se sente atraída pelo artista – e é nessa percepção chocante da humanidade dela que ele mostra o quão pequeno ele é. E mesmo assim, na própria fossa da auto-piedade, ele tem carisma e consegue até gerar um pouco de compaixão: coitado. Tão cego, tão louco, tão fora da realidade.

E a realidade é que são as mulheres da série que ocupam o espaço da lucidez contrária a toda essa histeria coletiva masculina. As decepções constantes de Devon com o marido fazem que ela volte ao círculo artístico coroado por Andy Warhol, de onde ela saiu. O amor pela fotografia reaparece. Jamie, uma assistente, é a única pessoa que ainda consegue trazer artistas com alma pra gravadora – os Nasty Bits foram descoberta dela – deixando todos os fodões efetivamente contratados para isso comendo poeira. Seu chefe, inclusive, acaba matando o som da banda ao tentar aprimorá-los. Andrea surge para mostrar pra todos os valentões da American Century tudo de errado que eles tão fazendo – e, acredite, é muita coisa.

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Esse não é o Mad Men da música, como a série foi promovida em alguns lugares. Não temos um Don Draper conquistador para quem dezenas de mulheres decorativas são criadas. Não temos personagens femininas reduzidas a dramas menores, sempre um pouco – ou muito – atrás. 

Os anos 70, o clima de arte, a música de resistência, tudo isso é de relevância na série, que nos traz Andy Warhol, Lou Reed, David Bowie, John Lennon, Nico – as aparições são tantas que a memória falha. O desespero e o medo também têm espaço – não só por causa das relações superficiais e da constante instabilidade do meio, em que todo mundo é dissimulado, corrupto e egoísta, mas também pelo assassinato que acontece logo no primeiro episódio e pelas atividades com a máfia. E todos os episódios são revestidos em uma embalagem de cores perfeitas, trilha sonora incrível, óbvio, e detalhes que te levam direto pra década em questão.

Vinyl é, sim, uma série que vai na contramão, que resiste, que é contracultura. E até um pouco mágica: começando pela ilusão de máquina do tempo.

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