Vozes da África: conheça os livros bons e belos da Editora Kapulana

Vozes da África: conheça os livros bons e belos da Editora Kapulana

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Toda vez que vejo aquelas amizades invejáveis – tipo o pisciano David Foster Wallace e o leonino Jonathan Franzen – fico pensando que queria ser amiga dessas pessoas incríveis. Mas quando olho ao meu redor, percebo que tem tanta gente maravilhosa pelos 20 e poucos anos que ainda vai fazer história. Se for pra falar de conhecer gente foda, eu tenho muita, muita sorte – e uma leonina pro meu coração pisciano. A Amanda Azevedo, de quem já falei aqui e que foi a razão por trás da criação do meu canal no YouTube, é ilustradora e diretora de arte da Editora Kapulana.

“Literatura de qualidade”, ela me fala, de cara, quando eu comento que quero fazer uma matéria sobre a editora pro meu blog e pergunto a missão da editora. “Pra gente, a ideia de fazer parte de todos os estágios do leitor é muito motivacional”, completa, explicando a razão por trás da existência de livros bons desde o estágio de alfabetização, passando pela infância quando a criança já sabe ler, depois se inserindo na época universitária até a idade adulta. Afinal, o catálogo, que já é bem grande para uma editora tão nova, acompanha a formação de leitores desde pequenos.

“Começamos a editora com uma obra brasileira, infantil e inédita, seguindo essa nossa ideia inicial. Continuamos trazendo novos autores brasileiros e atualmente temos alguns projetos bem bacanas com eles. Uns já em andamento, ou outros mais secretos…” ela continua. A preocupação de lançar escritores e ilustradores no mercado é clara. “Mas a gente trabalha bastante com literatura africana também”, acrescenta, começando a entregar o ouro.

A fundadora e diretora da editora, Rosana Weg, morou em Moçambique e se apaixonou pela literatura local. Por isso, o contato com a produção de lá e de Angola é constante. “Vozes da África é um selo nosso onde a gente traz livros de contos e poesia, alguns com obras inéditas no mundo e outros que foram publicados, esgotados e nunca foram republicados aqui. A gente tenta dar visibilidade pra essa literatura de qualidade, que se mistura com uma literatura mais regional, que eu particularmente gosto bastante, e uma literatura mais universal. Mas o legal mesmo é esse intercâmbio cultural Brasil-África”, Amanda continua. E mantendo a essência de tocar os leitores ainda bem novos, existe um braço infantil também com publicação de autores africanos, muitas vezes resgatando e eternizando contos tradicionais da oralidade local. O meu favorito pessoal do catálogo é O regresso do morto, um livro de contos do Suleiman Cassamo.

“Pra se abrir uma editora no Brasil, assim na cara e na coragem, tem que ter um amor muito grande pelo mundo editorial”, ela fala. E explica: “Produzir e distribuir livros são processos caros por si só, mas além disso existem burocracias, existe um mercado que é vendido pra gente como um mercado não leitor, apesar dos números sempre dizerem o contrário. Esse ano mesmo durante a Feira do Livro de Londres eles apresentaram estatísticas que dizem que o Brasil é o país do mundo onde a venda de livros mais cresceu nos últimos anos. E mês passado saiu o resultado da pesquisa do Instituto Pró-Livro dizendo que o número de leitores no Brasil cresceu, mas todo mundo continua dizendo que brasileiro não gosta de ler”, contextualiza.

Para autores novos que queiram publicar pela editora, a dica é preencher o formulário no site. Todos os livros enviados passam por uma curadoria editorial: “Os membros do conselho fazem leitura individual da obra, que depois é discutida em grupo, e ali se decide se o título se adequa ou não ao nosso perfil editorial. Se o título for selecionado, ainda passa por uma segunda leitura mais crítica, essa já pensando no processo de edição”, Amanda explica.

“Apesar das dificuldades, tem poucas sensações mais incríveis do que entrar numa livraria (de shopping, de rua, de aeroporto, rodoviária, estação de trem…) e ver um livro que você ajudou trazer à vida, ali, exposto, no mundo, pronto pra ser lido. É um trabalho que acaba envolvendo todo mundo no processo, que acaba não sendo só de criação e execução, mas também emocional. Ainda mais num ambiente com uma equipe pequena como a nossa. A gente conhece o autor, a história dele, a história que ele criou, e é difícil não se apegar”, continua. Eu acredito.

Esse ano, ainda no segundo semestre, a editora será a responsável por trazer pro Brasil a antologia poética da moçambicana e revolucionária Noémia de Sousa. A minha dica é: fica esperto pra agarrar um exemplar assim que sair. Essa mulher é incrível.

 

Clique aqui pra ler o poema na íntegra
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