A rua é a maior arquibancada do Brasil

“Vem pra rua, porque a rua é a maior arquibancada do Brasil”, canta o Falcão na nova música do Rappa, que toca de 15 em 15 minutos nos intervalos da sua programação televisa. A música, como sempre, está presente em todas as manifestações. Esta, no caso, na manifestação de “alegria” pela Copa do Mundo que vem aí, no Brasil, o país do futebol, das mulheres, do carnaval. Visão gringa detected.

Ironicamente, a rua também tem sido a arquibancada do Brasil nesses dias, especialmente São Paulo. Não quero entrar no mérito “está certo, está errado”, porque não tenho embasamento e conhecimento para isso. O que não se pode negar é que alguém adormecido – o povo – cansou de ser cutucado, com varas curtas ou maiores.

Mas a música, veja bem, cumprindo seu papel de estar presente sempre, também pode ser um sopro de esperança em meio ao caos. Ano passado, quando Londres parecia a São Paulo de hoje, fiz uma mixtape com faixas que de uma forma ou de outra não são simples canções, mas uma espécie de grito de liberdade para uma sociedade que, acima de tudo, respira cultura pop, respira política e respira também o mau cheiro da corrupção, politicagem e indignação.

Vinagres à parte… Power to the people.

Time For Heroes (#5) by Alisson Guimarães on Mixcloud

* Foto: lost.art.br / Igo Aranovich

Uma segunda chance para Liam Gallagher

Você talvez não saiba, mas minha banda preferida é o Oasis. Preferida ao ponto de um dia ter feito um blog sobre eles, lá em 2004, quando a ferramenta blog era maior que Jesus Cristo, ou o Facebook-Instagram-Twitter dos últimos anos. Recém ingresso na faculdade de comunicação, resolvi abrir um blog para falar de alguma coisa que gostasse, não sobre o que eu comia no café da manhã ou como tinha sido meu desempenho na tradicional pelada semanal.

Peguei o Oasis de cobaia para este site e, quase 10 anos depois, ele ainda existe, com 20 milhões de visitas nesse meio período, muitos shows, encontro com a banda, etc. Tô enchendo essa linguiça toda só para dizer que já vi de tudo no universo Oasis, que por um acaso acabou em 2009 e fez a banda se separar em dois lados, o do Noel e o do Liam, o High Flying Birds e o Beady Eye. Mas o ponto principal quando a banda chegou ao fim era: como um iria se virar sem o outro? As ótimas músicas do Noel iriam funcionar sem a voz marcante do Liam? E o Liam iria continuar cantando músicas boas ou sua voz seria desperdiçada? O Noel ia conseguir cantar tão bem quanto escreve?

Como são as DÚVIDAS que movem o mundo, o show continuou. Do Oasis, todo mundo se resolveu debandar para o lado do Liam. O Noel quis seguir seu caminho sozinho, em outro direcionamento. Em pouco mais de um ano e meio, Liam já soltava um disco novo com seu Beady Eye, também conhecido como “Oasis sem o Noel”, para o bem e para o mal. Expectativa grande, Liam dando entrevistas falando que tinha se livrado do irmão e que aquele disco seria um petardo. Não foi. Liam foi refém da própria língua e, sem querer, acabou colaborando para que muita gente torcesse o nariz para o “Different Gear, Still Speeding”, primeiro esforço sonoro dele longe do irmão.

Enquanto isso, o big bro Noel aguardou um pouco mais. Esperou a poeira baixar, não deu entrevistas e soltou seu primeiro e aguardado disco solo mais de dois anos após o fim do Oasis, depois que o primeiro ciclo de disco e turnê do Beady Eye tinham acabado. Grande letrista e buscando no seu baú muitas músicas da época de Oasis, fez um disco aclamado pela crítica, rodou o mundo todo com um show que tinha muitas músicas do Oasis (“são minhas músicas”, ele sempre frisa) e isso só colaborou para queimar ainda mais o filme do Liam, com seu primeiro disco mais ou menos.

Coisa difícil de acontecer, o Liam parece ter se tocado que a coisa estava ficando um pouco feia para ele e abriu a cabeça. Na verdade, Liam é um cara legal, mais legal do que o Noel, fato que muita gente não sabe. Ele sempre quer aprender alguma coisa diferente e se renovar, mas para chegar a esse ponto ele precisa sempre de alguém que o não só estimule, mas o desafie. Aí, agora, o jogo começou a virar.

O primeiro passo do novo Beady Eye foi escolher um produtor bamba, mas novo, modernoso e cheio de ideias diferentes. Além de tudo, esse produtor praticamente não conhecia muita coisa do Oasis e sabia do Liam mais pelas suas encrencas do que pelo seu som. Dave Sitek, um dos cabeças do TV on the Radio e produtor do Yeah Yeah Yeah’s, por exemplo, é o cara que apareceu para mudar a vida do Liam para melhor. Pensa bem: um indie de visual hipster no estúdio com o Liam Gallagher. Receita certa para o fracasso. Ou para um sucesso instantâneo.

Justamente por não saber das virtudes e clichês do Beady Eye/Oasis, Dave Sitek logo se impressionou com a voz do Liam em estúdio. Falou que a voz dele era tão boa que a primeira atitude para a gravação do disco era não ter efeito na voz. Que ela iria sair limpa-suja-limpa nas faixas. Pegou uma música que parecia ser simples e exigiu: “preciso de um set de metais. Para amanhã!”. Estava ali o cara que veio para desafiar o Liam e o ajudá-lo neste processo de sucesso pessoal. Era a segunda chance de Liam Gallagher, às vezes subestimado no próprio Oasis, com fama de brigão, e que tinha que conviver sempre com o papo de que o filho mais talentoso da família era outro.

Eis que, agora, o Beady Eye está de volta. E com a volta do grupo, retorna também o brilho no olhar do Liam. Galvão Bueno diria que ele está com a faca nos dentes. “BE”, segundo disco da banda, sai dia 10 de junho. Mas já está entre nós graças à tal da internet. E o que se vê é que o Liam agarrou esta segunda chance. Com voz em destaque, Liam voa alto (perdão, Noel) em um álbum coeso e cheio de texturas, que vai do rock que nos faz pensar que estamos em 1996 a uma psicodelia no ponto, com viradas excelentes em músicas que, quando começam, você não dá nada para elas. Tem linhas de baixo fortes, riffs nervosos, bateria descompassada, discurso político pré-gravado, sobreposição de vozes e violões pra lá de afinados como se fosse um luau, mas em noite de chuva.

Como fã de Oasis, fico feliz que Liam tenha conseguido se envolver em uma obra bem relevante longe do Noel. Mais do que necessidade, ele merecia isso. Só o tempo vai dizer se “BE” vai ser um sucesso comercial ou não, se os críticos vão ouvir com atenção ou se apegarem aos clichês que estigmatizam o nome de Liam. Mas o que importa é que Liam, hoje, parece botar a cabeça no travesseiro e ter a certeza que desempenhou um bom trabalho. E ele tem motivos para isso.

A faixa que talvez melhor represente esse novo Liam, focado, seja “Don’t Bother Me”. Música de sua autoria, com letra simples, ingênua, mas direta, que mostra toda a bipolaridade do cantor, que ao mesmo tempo que parece reconhecer suas falhas e hastear uma bandeira branca em relação a Noel, dá a entender que não vai “precisar” dele mais. Enquanto isso, o Oasis vai se tornando cada vez mais um registro histórico nas prateleiras deles e dos fãs no mundo todo.

Mas Liam está vivo no jogo. No seu jogo.

Vai, Liam!

Paixões de buteco

Se tem duas coisas que detesto são (1) escolher nome para alguma coisa e (2) descrever essa coisa que eu já detesto escolher o nome. Pop de Buteco, sei lá se é bom, resume especialmente ao que a gente fala em buteco. Desde futebol à física quântica após dez garrafas de cerveja. Como bom mineiro, buteco para mim é indispensável. É tipo uma pizza ou um vinho: até quando é ruim, é bom.

E o papo pop que toma conta dos butecos em Minas Gerais por esses dias não são sobre Cruzeiro e Atlético. E, se isso acontece, é porque andou rolando alguma catarse coletiva. E BH/Minas teve a sua no último sábado. Pode soar clichê que Paul McCartney redescobriu o caminho do Brasil, já que ele ficou quase duas décadas sem vir aqui e agora vem em quatro anos consecutivos. E a tendência é ele fazer sua visita anual ao país até anunciar sua aposentadoria dos palcos, o que, infelizmente, imagino que não está muito longe de acontecer, mesmo que aos 70 anos ele tenha mais pique que eu e você juntos.

Mineiro é meio besta com passionalidade. “Besta” no melhor sentido da palavra, veja bem. Ver um beatle tocando no principal cartão postal do estado era uma coisa improvável até pouco tempo. Talvez por isso o Mineirão recebeu tantas caravanas do interior, como se fosse um jogo de futebol. E o mais legal de tudo foi ver o público eclético assistindo ao show. Literalmente, gente dos 8 aos 80. Eu, por exemplo, tinha ao lado um senhor de 60 anos, que nunca tinha ido a um show grande assim na vida. Ele, na pista, perto da grade. Enquanto o filho dele, com menos da metade da idade, assistiu de arquibancada. Senti a emoção do senhor ao dizer que escutava “o cara” há 40 anos, que ouvia um programa diário sobre Beatles em uma rádio AM do Rio de Janeiro, que passava às 3h da tarde. Ele, na zona rural, ouvindo Beatles, à tarde, depois de completar seus afazeres no campo. Existe um cenário mais distante de se pensar do que este? E ele ali, 30 anos mais tarde, vendo um beatle em sua “casa”?

Sempre digo que música é o melhor dos amores, porque é um amor que nunca te trai. E você tem sempre o controle. Se você ama uma música uma vez, vai amar para sempre. Se você adota um determinado artista, vai ouvir ele a vida inteira, mesmo que ele não lance sempre trabalhos bons e que as suas b-sides sejam para encher linguiça. Música é paixão, é alma, é talvez a única coisa/manifestação artística que consegue unir tanta gente, de qualquer classe e credo, com um mesmo sentimento. No final de uma “Maybe I’m Amazed”, todo mundo vira pessoa comum. Ou então, todo mundo vira uma pessoa especial.

A vitalidade de um senhor de 60 anos na multidão vendo outro senhor de 70 tocando mil instrumentos e cantando todo tipo de música em um palco deve servir de parâmetro aceitável e referencial para nossas velhices que iremos enfrentar.

Se quiser envelhecer bem, sempre bata um bom papo, de preferência em um buteco. Mas também sempre ouça uma boa música. Vai render boas histórias e emoções para a vida toda.