South Park S15E07 – You’re getting old

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Há quem ligue a televisão em algumas noites e se depare com quatro crianças falando palavrões, e se divirta. Há pessoas fodidas que assistam a South Park toda noite, por alguma razão. O primeiro tipo pode até gostar deste episódio, que destoa de todos os outros das dezesseis temporadas do desenho. Mas o segundo tipo nunca esquecerá da primeira vez em que o viu. Deitou em sua cama, esperando ver o desenho que lida de forma sarcástica e escrachada com QUALQUER coisa do mundo, dos maiores tabus às ideias populares infundadas mais imbecis.

E o episódio, que começa como qualquer um, mas depois percorre um caminho inusitado, faz o espectador esperar o tempo todo por um twist debochado.

De um lado, Stan completa dez anos e começa a achar tudo uma merda. No desenho, literalmente. Enquanto as pessoas falam, merda sai por suas bocas. O que seus amigos gostam de fazer (e que ele gostava) é agora apenas merda.  Sem ter prazer por nada, sempre resmungando, seus próprios amigos (há 15 temporadas juntos) começam a evitá-lo, porque ninguém quer andar por aí com um cara resmungando e achando tudo uma merda.

De outro lado, seu pai (Randy) passa por uma crise semelhante, mas em idade diferente. A pessoa que chegou ao fim da vida sem conquistar o que sonhava quando jovem. Atrasado, tenta se forçar para ter a vida que sempre quis.

O episódio parece indicar uma insatisfação dos autores de South Park. Na briga entre os pais de Stan, Sharon começa a se questionar por quanto tempo eles podem continuar fazendo aquilo; toda semana uma mesma história de formas diferentes, cada vez mais ridículas. Stone e Parker, que sempre escrevem um episódio por semana já para lançamento, estavam na época produzindo um musical (“The book of mormon”) e não sabiam como conseguiriam manter a obrigação legal de continuar a 15ª temporada.

Por fim, o episódio não nos dá o twist que esperamos. Ao contrário, vira South Park do avesso. Se chegamos à nossa noite, depois de ver tanta merda pelo dia, esperando quatro garotos (que nos lembram os bons tempos, de quando as coisas tinham alguma graça por si só) passarem por situações sarcásticas com coisas que repudiamos, para então relaxarmos, rirmos delas e dormirmos, o que vemos é um Stan sendo abandonado pelos amigos enquanto seus pais se divorciam. Sharon começa a jogar na cara de Randy infantilidades que realmente aconteceram no desenho (mas é exatamente essa infantilidade que o torna divertido, e que acaba provocando o fim de seu casamento). Por fim, enquanto Stan senta sozinho em um parque, Kyle até pensa em caminhar até ele, mas desiste. Chega a provocar dor física ver Stan deitado em sua cama, refletindo sobre como sua vida ficou vazia, com seu pijama do Terrance & Phillip (dos quais ele provavelmente já não consegue mais gostar). Até o episódio se encerrar. Este que chegou a me lembrar a época de leitura de “Notas do subsolo”.

“People get older, Randy. People grow apart”. Os pais de Stan se divorciam.

“I haven’t changed, the world has. Don’t you see it?”. Isto não é verdade, Stan. Você mudou, o mundo continua o mesmo.

The Texas Chain Saw Massacre – O massacre ao massacre de Tobe Hooper

Imagem 1Coloque Jimmie Rodgers pra tocar. Sente-se na cadeira mais confortável de sua casa. Pés na mesa. Acenda um cigarro de palha, feche os olhos e sinta o cheiro do mato. You’re in the jailhouse now, ma friend. Spoiler Alert

É assim que se inicia a história real contada por Tobe Hooper. Vocês ouvirão que – apesar de assim apresentada logo no início do clássico de 1974, bem como assim descrita no pôster do filme – isto não procede. E de fato, apesar de leatherface ser inspirado em um verdadeiro assassino (Ed Gein), o que é narrado no filme não é estritamente verdadeiro. Mas também não é completamente falso. Estamos no conturbado período político da década de 70, com grandes escândalos como o de Watergate, recente retirada das tropas dos EUA no Vietnam e, enfim, um período em que o Estado trata a população como uma massa bovina que engolirá qualquer informação veiculada. Portanto, esta história é tão real quanto tantas outras engolidas por aí. Ou mais, porque seu conteúdo é tão cruel e verdadeiro quanto as verdades que elas escondem.

São estas circunstâncias que levam Tobe Hooper, com um cachê aproximado de 83 mil dólares, em uma filmagem apressada de sete dias (com trabalhos em torno de 16h/dia, lembrando que demora na gravação de um filme é um privilégio vinculado ao cachê), selecionando atores desconhecidos com participações em comerciais ou vínculos pessoais, a gravar um dos maiores e mais influentes filmes de terror de todos os tempos. São vários os remakes, narrativas pré ou pós, superproduções, que não alcançam nem de perto a ideia e a maestria deste clássico. Não que todo terror tenha de ter um conteúdo, mas o terror de entretenimento do submundo possui um humor mais refinado e um suspense muito mais divertido do que os mecânicos e enferrujados do mainstream. Neste filme estão vários dos “clichês” que tomaram conta de diversos filmes de terror e ali está a raiz de diversos gêneros. Não gosto de “filmes obrigatórios”, mas creio que este seja inevitavelmente uma indicação essencial aos fãs do Terror e Suspense em geral. Mas nem todos gostarão de vê-lo. Negrito, porque não tenho gosto para assassinar, assim como Jim Siedow. I’m just a cook.

Enfim. É neste clima Jimmie Rodgers – vamos conhecer o campo – que Tobe Hooper nos introduz na narrativa em que dois irmãos pretendem conhecer a velha casa do vovô, levando seus amigos. A perturbação inicial é mais sutil e se concentra no personagem cadeirante e em suas limitações locomotoras e afins (o que é terrível para nós que sabemos estar vendo um filme de terror em que uma hora ou outra um maluco de 100kgs vai surgir empunhando uma motosserra). Além disto, aos poucos o diretor vai demonstrando que os personagens não têm o mínimo de respeito por Franklin Hardesty, nem mesmo sua própria irmã, que sente por ele um misto de pena e irritação. Nosso paranoico personagem está o tempo todo alerta para todas as possíveis merdas, enchendo o saco dos demais a respeito, que o respondem com piadas ou indiferença.  É um rapaz, enfim, que tem tudo para se foder grande, mas ao mesmo tempo, quem sabe não é o único que vai se salvar? Afinal, é uma armadilha muito comum do Terror.

Esse clima tranquilo começa a ficar bastante suspeito quando os personagens param para pedir informação e, chamando a atenção apenas de nosso pobre personagem paranoico, um velho lança disparates sobre coisas estranhas que acontecem por ali, destacando que seus avisos são sempre em vão, porque ninguém dá atenção a um velho bêbado. Não parece ser o caso de Hardesty.

Mas qualquer coisa que ele tenha a dizer é ridícula. Nevermind.

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Enquanto Hardesty narra diversas formas de se matar animais, o que se reveza com imagens do tratamento cruel que dispensamos a eles, nossos viajantes decidem por dar carona a um hitchhiker pela beira da estrada. Obrigado por isso. Graças a eles conheceremos a atuação sensacional do lunático Edwin Neal. Com um bom e velho country a fundo, nosso novo amigo entra com tudo no assunto, discutindo novas técnicas de se matar animais com um sadismo incômodo. Logo o louco inofensivo se converte em um lunático inconstante e coloca todos os demais em uma situação defensiva, sem conseguirem compreender se estão lidando com apenas um maluco qualquer ou um psicopata perigoso. Mas depois de queimar uma foto com pólvora, cortar a própria mão e demonstrar sua enorme curiosidade por facas, inclusive cortando um de nossos personagens (e quem poderia ser?), acho que todos chegamos à conclusão de que o indivíduo realmente não bate bem e pode ser perigoso. Ao ser chutado da van, continua atrás dela, chutando e deixando por ela marcas de sangue. Cena sensacional! Edwin Neal fica para trás no caminho e na cabeça de todos os personagens. Excetuando-se, claro, nosso pobre amigo paranoico, que fica o tempo inteiro se questionando se eles não serão seguidos e assassinados ou qualquer maluquice do tipo.

Uma parada em um posto para abastecer, porque é claro que eles não se preocupariam com gasolina em uma viagem tão tranquila, um caipira gente fina que os sugere que fiquem e comam um churrasco ao invés de procurar a casa, porque as pessoas naquela região podem ser bastante sensíveis (ou rigorosas) no tocante às suas propriedades. Nossos amigos aceitam o churrasco, mas resolvem ir à casa com o pouco de gasolina que possuem. Chegam a ela, claro e convenientemente, quase sem gasolina.

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Uma chegada tranquila e agradável à casa de campo. Bastante velha e destruída, mas esse parece ser o objetivo aventureiro de nossos personagens. Todos bastante felizes. Exceto, obviamente, nosso amigo só-se-fode que, aliás, está fazendo uma viagem roots com dois casais: algumas pessoas não se ajudam. William e Teri, um de nossos casais, decidem dar um passeio. Mas não se preocupem. Pelo contrário. Em sua caminhada, avistam uma casa próxima. Conseguiremos gasolina. A princípio educado, o rapaz bate à porta, aguarda que alguém atenda. Mas na ausência de resposta, decide entrar e procurar por alguém. E encontra. Nosso herói, Leatherface, que, como se lidasse como um animal, o abate com uma pancada forte e certeira na cabeça. Enquanto William tem um ataque no chão, tremendo pela pancada na cabeça, a trilha sonora pela primeira vez se altera para algo sinistro e impactante. Leatherface fecha a porta com um baque que, além, quebra o filme. Nem o psicopata, nem nosso amigo paranoico, haviam conseguido romper nosso clima country/folk até então. Mas não se engane pensando que entramos em toda a perturbação que o filme tem a oferecer. Indo à procura de William, Teri se vê cercada por ossadas, sons de animais, combinados a uma trilha discreta, porém ambientada e atmosférica (nada daquela trilha meramente indutiva comum dos suspenses/terror, muitas vezes mal utilizada). As câmeras inquietas e rodopiantes se combinam à trilha e ao ambiente para nos situar subjetivamente na personagem. Mas se você já teve náuseas por aqui: pare o filme. Da mesma forma certeira, Leatherface golpeia Teri e a carrega para seu pequeno e introspectivo açougue. Seguindo a linha anterior do tratamento por nós dispensado aos animais, da mesma forma é o tratamento dispensado por Leatherface aos seres humanos. Nota-se em nosso herói alguém que vive isolado em um matadouro. Além de seus problemas mentais, ele realmente não parece ter a noção do que está fazendo. Acostumado a fazer aquilo com animais, parece a ele comum fazer o mesmo com os humanos que não são parte de sua família.

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Se você criou alguma simpatia com nosso aventureiro medroso e estava torcendo para ele sobreviver ao fim como resposta ao deboche e descaso que ele até então recebeu, trago tristes notícias. Afinal, na primeira aparição de nosso herói com sua clássica serra-elétrica, quem melhor para ser cortado em pedaços? Após Jerry também ser abatido, em uma cena que se inicia com o estresse e desespero dos irmãos deixados para trás, já após anoitecer, caminha pelo suspense de ambos em busca dos desaparecidos pelas matas e termina em uma perseguição desesperadora de Leatherface a  Sally (Marilyn Burns), a única sobrevivente a esta altura. Sem apelar para a trilha indutiva, como dito acima (que às vezes acaba por estragar o impacto da surpresa, apesar de reforçar o susto), Leatherface aparece do nada nas matas e corta Hardesty em pedaços. Aí sim, combinada ao som natural da motosserra, a trilha estimulará a adrenalina da perseguição. Por mais que Sally se afaste de Leatherface, ou se esconda em cômodos e afins, o som da motosserra está sempre presente, mantendo a adrenalina ativa. Mas à medida que ele se aproxima da vítima, a trilha cresce e fica mais densa, ampliando a situação. Sally consegue escapar e encontra abrigo no posto do caipira gente fina que conhecemos no início. Estamos de volta ao bom e velho country rolando ao fundo.

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De agora em diante, adentraremos na perturbação que o filme realmente tem a oferecer. Aquele caipiria legal é, na verdade, a causa de tudo. Se Leatherface aparentemente não sentia prazer em torturar humanos – mas apenas os via com indiferença em relação aos animais que são abatidos em matadouros – não sentimos o mesmo de Jim Siedow, cujo personagem não recebe nome no filme. Após capturar nossa última sobrevivente, ele parece sentir prazer com seu desespero. Além, na forma de tratar o hitchhiker (cujo personagem também não recebe nome) e leatherface, parece que boa parte de suas “doenças” tem como origem este cozinheiro, que não gosta de matar, como ele mesmo diz. Sally é levada de volta à casa e amarrada a uma cadeira. Ao retirar-se o saco que cobria seu rosto, reconhece o hitchhiker e ele a reconhece, agora em situações completamente opostas. Vulnerável e desesperada, sente o prazer sádico de Edwin Neal, rindo e tocando seu rosto diante daquela inversão. As câmeras inquietas e em ângulos incomuns no desespero de Sally começam a ficar mais apelativas, revezando-se com os preparativos de nossos psicopatas para o que seria um dos banquetes mais macabros do Cinema, com completas condições de competir com as refeições escatológicas de Pasolini. Um dos cadáveres que Sally havia visto enquanto fugia de leatherface anteriormente era, na verdade, o avô desses malucos. Vivo, em um estado putrefato. Mas suficiente para chupar sangue do dedo da mulher, cujos gritos eram audíveis embaixo da mordaça e cuja mobilidade estava completamente restrita. Não havia escape, desabafo, diante daquela situação desesperadora. Mas principalmente, do que parecia ser apenas o princípio do imprevisível. Sally é, então, apagada.

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Sally acorda em uma mesa de jantar em família. Seus gritos de desespero recepcionados por gritos de deboche. A cena cresce de forma genial. Um revezamento entre o enquadramento no desespero da vítima – que chega a entrar em seu olho – e o sadismo e deboche da família. A trilha se enche, misturada aos gritos que já são uma constante, ao deboche e diálogo maluco dos psicopatas e a barulhos cujas origens sequer são identificáveis. A câmera não para. Aqui, o terror psicológico se enche em uma cena de técnica primorosa, misturado à náusea. O tratamento à Sally já em nada se difere a um animal, e eles decidem que o avô putrefato – dos quais se orgulham por ser um exímio matador – seria o responsável por abatê-la. Ajoelhada, com a cabeça segura acima de um balde, tentando reagir sem êxito, Sally assiste enquanto o avô – que a mataria, segundo a promessa, com apenas uma pancada, por sua habilidade e experiência – sequer consegue segurar o martelo. O velho a acerta, ferindo-a, mas sem êxito. O processo seria bastante lento. As quedas do martelo e os gritos de incentivo da família aumentam o desespero da vítima, já ferida, além do que se pensava possível. No ápice, ela se desvencilha deles e salta por uma janela de vidro. A queda fere sua perna e assistimos à vítima fugir mancando, perseguida pelos dois matadores da casa. Chegando à estrada, o hitchhiker, mais próximo na perseguição, é atropelado por um caminhão, cujo motorista acaba assassinado. Sally consegue subir em uma pick-up, que para em ajuda e, logo em seguida, foge acelerada, enquanto a sobrevivente observa leatherface descontrolado desferindo golpes com sua serra-elétrica contra o carro. Na pick-up vemos, por fim, Sally ensanguentada, sem podermos identificar se sorri, chora, ou faz ambos ao mesmo tempo.

Assim termina o filme. Nada de cena final com a sobrevivente tomando um banho quente, compreendendo os acontecimentos, refletindo a respeito. Tobe Hooper já nos deu tempo e informações o bastante pelo caminho para compreender tudo.

E nada de quebrar a adrenalina. É bom terminar o filme com um “Puta que pariu”, em todos os sentidos possíveis.

Texas Chainsaw 3D

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Você provavelmente está olhando a barra de rolagem e se questionando: ela já está chegando ao final e só agora começará a review do novo “Texas Chainsaw 3D”. Infelizmente, não há muito o que se dizer sobre esse filme. Enfim, o único ponto positivo está na última foto do post. Sinta-se à vontade para deixar de ler o que vem a partir daqui e pular para ela. Se você é mulher, interrompa por favor a leitura antes do que está abaixo da última foto.

A proposta, na verdade, não é ruim ou incomum: a vitimização do vilão. Grande parte dos personagens clássicos do terror (Freddy Krueger, Jason, Candyman…) não são vistos pelos fãs como inegavelmente vilões, pela história construída por trás deles. A questão é: a ideia foi bem desenvolvida? Além, já não estava implícita no original de Tobe Hooper?

O filme conta com diversas cenas que chegam ao infantil. Quando Heather Miller, que se descobre membro da família Sawyer (de Leatherface), questiona seus pais de criação a respeito, nos deparamos com uma cena tão ruim que se torna difícil identificar se a péssima qualidade se deve às atuação fracas ou à má construção em si. Os viajantes dão carona a um rapaz, em um clima de suspeita, e na primeira oportunidade o deixam sozinho em uma casa que Heather recebeu de herança, cheia de objetos valiosos. Ao retornarem, se surpreendem por terem sido roubados! Qual a surpresa? A revelação do bom e confiável policial como um dos vilões chega a lembrar Doofy em Scary Movie. A cena piora com uma tentativa de psicopatia por parte de Heather, que responde à revelação do policial com uma ameaça: “Sou uma Sawyer”.

Toda a climatização inicial da obra de Tobe Hooper é trocada por adolescentes em um carro ouvindo músicas péssimas (com o que não tenho problema; compreendo que seja uma transposição ao que aconteceria atualmente, pela personalidade dos personagens) e atitudes despidas de qualquer naturalidade. O espectador nunca está conectado subjetivamente a qualquer personagem, porque o filme não constrói, em nenhum momento, um ambiente convincente.

A única boa situação de suspense – o policial entrando na casa após os incidentes – é rapidamente estragada com a sua saída: ele acaba de passar pela situação mais grotesca e de maior tensão de sua vida e, para sair, relaxa a guarda, como se não estivesse em perigo algum.

Os sustos não são lógicos – Leatherface aparece atrás do hitchhiker para assassiná-lo, do nada e silenciosamente. Mas como ele moveu aquela pesada porta sem fazer qualquer barulho? – mas combinam com a trilha sonora meramente indutiva e besta.

A proposta inicial, conforme exposto, se desenvolve para um adjetivo não inventado que está além do horrível. Não me assustaria descobrir que James Franco dirigiu e escreveu este filme em segredo (e até diria que ele melhorou um pouco desde que dirigiu e escreveu secretamente REC 2). O único medo que o filme desperta é o fim aberto à possibilidade de uma continuação.

Só um pequeno detalhe: os gastos pra produzir essa merda estão na casa dos 20 milhões de dólares! Contraste com os 80 mil dólares gastos por Tobe Hooper e um belo incentivo para você começar a ser mais otimista com as suas ideias pra filmes caseiros e inventivos.

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Ponto positivo do filme: mantiveram a tradição secular de mulheres gostosas no Terror. Aliás, o 3D aparentemente só serve para realçar a bunda de Tania Raymonde em incontáveis inícios de cenas. Belo trabalho, pessoal!

Obs.: Todas as informações relativas a James Franco são tão reais – e irreais – quanto a narrativa de Tobe Hooper.

 

Kairo (Pulse) – A internet de Kiyoshi Kurosawa não é a mesma de Paul Miller

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Na fase catastrófica do Terror no Cinema mainstream, os fãs do gênero são obrigados a encontrar no underground filmes que satisfaçam sua procura. Para não ser injusto, essa não é apenas uma característica da fase atual do Cinema e se torna, inclusive, um ponto forte à medida em que você põe os pés mais a fundo no gênero. Raros são os momentos em que o Terror atinge alta qualidade no mainstream (e estes filmes costumam ser excelentes). Foi por esse caminho que acabei entrando no cine oriental e, acidentalmente, encontrando Kairo (nome americano: Pulse), filme de 2001 no qual o Terror divide espaço igualmente com o Sci-Fi e, ao contrário do que possa parecer, não é tão b-side assim. Há spoilers no texto, mas não considero que a leitura vá estragar o filme.

Com trilha sonora sutil, atmosférica e muitas vezes minimalista, fotografia sombria – clássicos do Terror japonês – em alguns momentos fazendo lembrar inclusive a direção típica do Cinema Noir, além de ótimo uso de câmeras subjetivas, Kiyoshi Kurosawa constrói um excelente e envolvente ambiente de suspense. Além, a técnica se integra muito bem ao roteiro para nos ambientar no clima da Internet 90s e do início da primeira década de nosso século. O roteiro destaca bem situações da época, ao redor do nascimento da internet, que são bem diferentes da atualidade, como o enorme abismo entre os que estudavam computação e afins e os que começavam a se aventurar de forma autodidata no mundo tecnológico e da internet inclusive no que há de mais básico.

A internet nos 90s não era um ambiente tão integrado à vida real como atualmente, e se afastava cada vez mais desta à medida que se caminhava para seu interior. As amizades eram trocadas por ideias. Formava-se quase uma segunda personalidade e essa alteração em sua vida o afastava cada vez mais do real. As ideias aos poucos iam se tornando vazio. O vazio, convertendo-se em solidão. A velha prática de manter-se acordado até a madrugada para acessá-la ia aos poucos nos despersonalizando na vida real. Era um clima de insegurança quase primata, ali surgindo os lammers: pessoas com conhecimento irrisório de computação, mas que conseguiam droppar sua internet e sentiam-se por isso uma raça superior de donos do novo mundo (teriam perdido menos tempo estourando espinhas ou correndo em uma esteira). Também ali surgiram os hacktivistas, pessoas que utilizavam seus conhecimentos de tecnologia com propósitos políticos, bem intencionados; na época sofriam grande preconceito da sociedade – com verdadeira imagem de terroristas -, o qual vem sendo desconstruído atualmente. Esse ambiente alternativo, agora integrado ao real, faz os velhos internautas sentirem falta do que encontravam no princípio. Às vezes me pego conectado ao IRC – lugar que via repleto de pessoas, com canais sobre qualquer tipo de assunto imaginável -, agora deserto, com poucos canais acessados por algumas pessoas que estão lá mais por saudosismo do que para conversar propriamente e, claro, os hackers old-school, que ainda o frequentam.

O diretor nos introduz nesse contexto já no início, com a solidão consumindo os usuários de internet. No velho clichê de que “um dia o mundo dos mortos ficará sobrecarregado e eles voltarão à nossa realidade”, o filme aponta metaforicamente a internet como porta para tal, mas tratando logo de comparar os usuários com fantasmas. Utiliza quase sempre a personagem Harue para fazer tal ponte, como em cenas em que esta questiona Kawashima sobre o porquê de querer se conectar à internet, logo desconstruindo a ideia de que, através dela, se conectaria a novas pessoas: “As pessoas não realmente se conectam”. No desenvolvimento paralelo entre o pano de fundo sobrenatural e a crítica à internet, Harue, em cena chave, conecta as linhas de desenvolvimento ao ligar diversos computadores em sua casa, nos quais se transmitiam imagens via webcam de usuários em estado de alienação, questionando se eles estavam realmente vivos; se haveria verdadeira diferença entre estas pessoas e os fantasmas. “They are trapping themselves into their own loneliness”. Por fim, o filme desemboca em uma Tokyo apocalíptica e deserta, com todos os personagens restantes agonizantes pela solidão.

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Não foi sem motivo que resolvi revisitar pela terceira vez essa excelente obra do Cinema Japonês. O filme me veio à mente após ler a experiência de Paul Miller, jornalista norte-americano que, sentindo-se uma vítima moderna semelhante aos personagens do filme, resolveu experimentar uma vida desconectada por um ano. O resultado é este excelente artigo para o The Verge, que apoiou o projeto (infelizmente não o encontrei em português).

Em um projeto que desmente a si mesmo, Paul Miller descobre que não há mais um muro entre a realidade e a vida cibernética, mas que estas estão conectadas de forma inseparável, já não nos delegando uma opção. A internet, ainda, não é mais a mesma; o aumento do fluxo de informação, a busca desenfreada que aponta, do indivíduo, a todas direções, torna cada conteúdo – apesar da amplitude na rede – aproveitado muitas vezes de forma limitada. O desenvolvimento da comunicação, que nos liga uns aos outros a qualquer momento, choca-se com o “todo mundo é uma ilha”. Por fim, não pude me decidir se o que Paul Miller encontrou em sua vida por um ano foi uma resposta negativa à crítica do diretor japonês ou o pessimista alinhamento com o adendo de que, para nós, é tarde demais.

The Walking Dead: uma homenagem ao Cine Trash, um insulto à humanidade.

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A realidade é um muro de concreto. Imaleável, subjetivamente, quebra-se como porcelana. Era o que pensava o homem, involuntariamente, olhando fixamente para um vaso intacto, em cujo interior jaziam plantas mortas. Havia sido baleado e, há alguns segundos, conversava com seu melhor amigo, sentindo que se recuperava. Sentia que a lógica era um organismo vivo. Dependia de cada um dos seus órgãos, dos centrais aos mais insignificantes. Se um deles não funcionasse, todo o resto era questionável. Do interior à realidade, já não mais poderia afirmar que qualquer coisa fosse real, ainda que palpável. Gritava por ajuda sem saber que não havia ninguém para atendê-lo. Ou todos aqueles corredores estariam dominados por pessoas, escondidas sob seus cadáveres. Criaturas do demônio, um castigo de Deus, um erro da ciência, um produto natural das escolhas da humanidade. Isto, somente ele poderia decidir. Aquele homem, que dormiu por dias, meses, anos, estava prestes a envelhecer mais do que qualquer pessoa que viva em tempos de paz, ainda que velada. Mas provavelmente não gostaria que seus gritos de ajuda fossem atendidos. Não naquele momento. Não daquela forma. Foi aí que tudo começou para alguns. Para outros, começa no gênero que se encontra nos 60s, se expande nos 70s e consolida seu espaço nos 80s. Mas os zumbis nasceram muito antes.

O princípio

Passado-tratada

Apesar do artigo de reunião supersticiosa “The Country of the Comers-Back”, publicado pelo jornalista Lafcadio Hearn na Harper’s Magazine (1889), foi o aventureiro William Seabrook – membro da Geração Perdida de escritores norte-americanos – o primeiro a ir além da superfície do mito. Dono de uma escrita espontânea e subjetiva – estamos falando de um escritor que se recusou a escrever sobre canibalismo (em seu livro Jungle Ways) até que provasse por si mesmo a carne humana, a qual descreveu como semelhante à carne de porco, mas que “precisava de mais tempero” -, em viagem à capital Vodu do Caribe (Haiti), publicou “The Magic Island” (1929), livro que mostraria que a lenda zumbi vai além das superstições sem padrão apresentadas no artigo de Hearn.

O Haiti, em situação colonial ainda pior do que a brasileira, teve sua população indígena dizimada, seguida por uma grande importação da mão-de-obra escrava africana e imigração de uma minoria de proporção irrisória que dominaria esta mão-de-obra. Do híbrido da cultura africana e da tentativa de catequização forçada, nasceria a religião Vodu, que resistiria à caça às religiões pagãs. De acordo com tal crença, uma pessoa seria composta de duas almas: a primeira representando sua força vital (“gros-bom-ange”), enquanto a segunda, sua essência (“ti-bom-ange”). Aqui, nasce a possibilidade de que as duas sejam separadas por um terceiro, restando ao corpo, de volta à vida, apenas sua força vital, sem qualquer vestígio de sua essência: uma casca vazia. Diante deste contexto de exploração extrema de uma vasta maioria por uma minoria, era assustador à população haitiana a possibilidade de que este feitiço fosse utilizado contra eles para que o que restasse de seus corpos vazios fosse utilizado para o trabalho escravo, fazendo inclusive com que fosse comum que, após a morte de um parente querido, a própria família o “matasse novamente” com um tiro na cabeça. Se isto, a princípio, soa como uma superstição banal, o alcance da veracidade do mito pode surpreender, o que é constatável da descrição de Seabrook ao se deparar pela primeira vez com o que os fazendeiros haitianos se referiam como zumbis:

“Minha primeira impressão dos três supostos zumbis, que continuavam a trabalhar, foi a de que eles tinham realmente alguma coisa de estranho. Seus gestos eram de autômatos (…). O mais horrível era o olhar, ou melhor, a ausência do olhar. Os olhos estavam mortos, como se fossem cegos, desprovidos de expressão. Não eram olhos de um cego, mas de um morto. Todo o semblante era inexpressivo, incapaz de expressar-se. Eu havia visto no Haiti tantas coisas que fugiam do senso comum que por um instante tive um surto, quase pânico, no qual pensei, ou senti: ‘Bom Deus, talvez seja tudo verdade e, se for, é terrível demais, pois isso muda tudo’. Por ‘tudo’ eu me refiro às leis e aos processos da natureza nos quais o pensamento e a ação humana moderna se baseiam.

Mais uma vez, porém, Seabrook não se rendeu aos mitos e, em diálogo com um médico haitiano, constatou que havia grandes chances de que o que os haitianos se referiam como zumbis fossem sonâmbulos em estado induzido de hipnose. Por isto, não é de se estranhar que algumas listas de zombie movies incluam filmes como “The Cabinet of Dr. Caligari”. Tal hipótese, inclusive, é reforçada pelo Código Penal do Haiti que, em seu Art. 249, assim dispunha:

                             “É também considerado atentado à vida de uma pessoa, o emprego feito contra ela de substâncias que, sem produzir a morte, causam um efeito  letárgico mais ou menos prolongado, quaisquer que sejam as consequências.  Se por efeito desse estado letárgico a pessoa for enterrada, o atentado será considerado assassinato”.

Para mais informações a respeito, sugiro a leitura de “Book of the Dead”, de Jamie Russel.

O apocalipse chega ao Cinema

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O livro de Seabrook chega aos EUA em meio à Grande Depressão e, além, em um contexto em que o Haiti, país já independente e que sofria embargos de toda a comunidade internacional, despertava interesse a todos pela construção preconceituosa de uma sociedade e cultura de selvagens. Não é aí, porém, que os zumbis encontrarão seu espaço livre de preconceitos.

A Guerra Fria, conhecida pela ausência de conflito direto entre a dualidade de potências mundiais, não tem a perder em relação às demais Grandes Guerras. Principalmente com a proximidade da Guerra do Vietnam, a população norte-americana – especialmente os jovens – se percebia enfim como vilã no mundo. Era uma juventude perdida e que se via como vazia, clamando por sentido. Foi aí que Jack Kerouac iniciou suas viagens que dariam origem ao “On the Road”. Que um fã de Woody Guthrie, influenciado pela obra de Kerouac, de voz questionável, saiu pelo país com um violão nas costas e um talento para letras que revolucionaria a música. O movimento Punk, enfrentando o privilégio e a extrema delimitação da música, gritou ao mundo o lema “do it yourself”, universalizou o acesso à música e a produção da mesma com sua atitude que preenchia seus acordes em grande parte simplórios e, principalmente, com o muito que tinham a dizer – ou gritar. Agora, qualquer garagem poderia se expressar através da música. O cinema, que é uma arte de alto custo, não ficou de fora disto. O tão mal quisto Cine Trash nada mais é do que a vertente “do it yourself” do Cinema. Pessoas com muito a dizer, que queriam apenas se divertir ou que buscavam chocar, sem dinheiro e sem apoio de produtoras, lançavam seus filmes low budget e conquistavam aos poucos seu público. Daí as inúmeras vertentes; o humor negro, macabro ou muitas vezes simplesmente pastelão, filmes de produção limitada e com conteúdo infinitamente maior do que grandes produções hollywoodianas ou filmes que lidavam quase estritamente com o gore. E claro, a mescla de tudo isso era comum. Para bom espectador de um filme trash, o sangue falso ou a maquiagem tosca não ofusca o plano de fundo. Guarda-se o foco etimológico do termo “monstro”: o termo latino monstrare; demonstrar, mostrar, apresentar. E mesmo o gore, que tanto preconceito sofreu no Cinema (e hoje está em alta), era algo equivalente a um adolescente trancado no banheiro raspando sua própria cabeça e saindo às ruas com seu moicano. Foda-se se você gosta ou não, e se detesta, que seus olhos tenham a nítida certeza de que não queremos que pense o contrário. FUCKOFF. Com o Cine Trash, o processo de aceitação foi mais lento, mas não menos corajoso.

Neste cenário, os filmes de zumbi se encaixam se dirigindo a um público específico. Aqueles que têm curiosidade sobre a verdadeira natureza humana.  Sobre quão certa nossa é nossa escala social de valores, quando testada diante do caos. Aquele grupo de pessoas que se perguntam se o que eles fazem e que aparentemente contribui à sociedade por uma atribuição humana de valores realmente é útil em um estado de natureza. Se nossa ciência realmente produz algo que transforma e evolui o ser humano. Se estamos no caminho certo. Esta reflexão pode parecer inútil se o estado caótico for colocado como uma situação utópica tão distante, mas a abstração pode trazer algum sentido real às nossas vidas, nos afastar de um caminho determinista improdutivo. De uma verdadeira escravidão. Da letargia. Isto, afinal, adotando a postura de que estamos tão distantes do caos. Estamos? Ou estamos próximos? Talvez vivamos nele? Ele seria tão ruim assim?

Esclarecendo que este texto não tem intenção de qualquer tipo de orientação relativa a filmografia, apenas para reforçar o que foi até então dito, não poderia deixar de citar o grande mestre George Andrew Romero. Tido por muitos como o grande criador do gênero no Cinema – o que não é bem verdade, apesar de tê-lo adaptado de uma forma que será a linha seguida majoritariamente – com seu filme “Night of the living dead” (1968), que se foca no terror e na natureza humana e divergência comportamental e ideológica em face do apocalipse, tem “Dawn of the Dead” (1978) como obra base e que melhor ilustra o que foi até então exposto – que posteriormente recebeu uma das mais lastimáveis adaptações do Cinema, do diretor Zack Snyder – na qual ultrapassa a situação de exteriorização do zumbi para consolidar a ideia de que é também o zumbi uma metáfora para a alienação já presente no indivíduo de nossa sociedade, além de considerações sobre a defesa de valores sociais em uma inércia de ausência crítica até o limite do caos, envolvendo inclusive o humor e o gore típicos supracitados. Em “Land of the Dead” (2005), filme que se inicia em meio a um apocalipse zumbi já consolidado, mas com uma cidade completamente cercada e reforçada onde vive o que restou da humanidade, o diretor dá ainda maior amplitude ao que construiu. O filme atinge seu ápice quando os mortos a invadem e, ao tentar fugir, a população se vê cercada pelos muros que ela construiu para sua própria proteção, o que é destacado pelo personagem, indicando seu sentido metafórico explícito. Não é, porém, conveniente buscar listas e afins, embora tais filmes sejam bons para quem está ainda ingressando no mundo dos zumbis. O legal é que você mesmo trilhe seus caminhos, vá encontrando os filmes que te agrade. Seria uma pena delegar a terceiros a escolha dos filmes em um gênero tão amplo.

The Walking Dead – Uma homenagem ao Cine Trash

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“Welcome to the big city”. Foi com esta frase que Glenn recepcionou Rick, enquanto observavam as ruas repletas de zumbis.

Há poucos motivos para não considerar a primeira temporada da série excelente e muitos motivos para não considerá-la ruim ou meramente mediana. Priorizando situar o espectador no novo mundo, o primeiro episódio inicia-se com um Rick fraco, que mal consegue caminhar, em um hospital infestado. Caminhando pelas ruas enquanto o espectador tem a percepção de que, em uma cidade deserta, talvez um dos zumbis fosse suficiente para acabar com o personagem ali mesmo. É um contraste interessante com o Rick que termina o episódio saudável, recuperado e seguro, caminhando pelas mesmas ruas e inclusive matando um zumbi que antes o assustara. Não se limitando ao bom suspense e à ação, já nesta temporada os personagens são apresentados em seu básico, sem grande desenvolvimento, e os espaços do HQ são preenchidos com referências a diálogos, ao gore e ao suspense clássico dos zombie movies, embora levemente amenizados. Inclusive o contraste de cenas de imagens fortes com músicas leves, com um toque de humor negro que suaviza o suspense levando o espectador a divertir-se acima de tudo com o que está por vir.

A primeira temporada não traz ao espectador a segurança de que uma boa série está por vir, mas consolida uma promessa. Seus erros irão se refletir majoritariamente na segunda temporada, o que comentarei posteriormente. Se cabe aqui uma crítica, seria a Noah Emmerich, que enfraquece seu personagem. Outro bom ator poderia dar ao desfecho um peso muito maior. Mas é muito positivo que a adaptação não tenha se dado ao pé da letra, como muito acontece e é desastroso, mas sim resgatando as origens do gênero, constituindo verdadeiro transporte do modelo de expressão dos comic books para o das séries. É ótimo destacar que, apesar de toda a explicação dada pelo Dr. Edwin a partir de suas pesquisas mantém ainda em aberto a causa. O fornecimento de uma explicação limita que os personagens expressem suas visões pessoais diante da nova realidade. Alguns personagens importantes da HQ, cortados, aparecerão posteriormente. Não estou certo, porém, que isto tenha sido premeditado, mas retornarei a este ponto ao comentar a terceira temporada.

Uma adaptação é subjetiva, podemos dar importância maior a detalhes aos quais os roteiristas não se detiveram, e não creio que isto sempre possa ser posto como crítica. Ao ser questionado sobre sua profissão antes do holocausto, diante da admiração do grupo por suas habilidades, Glenn os surpreende dizendo que era entregador de pizza. Nas HQs ocorre uma conversa no acampamento em que cada um fala brevemente sobre sua ocupação e sua vida antes da mudança. Considero esta cena importante. Característica dos filmes de zumbi, demonstra normalmente o contraste entre a importância dos empregos e a verdadeira utilidade de cada um diante daquela nova circunstância, ainda reforçando a ideia de que após o apocalipse zumbi, todos são iguais. Mas não se pode esperar – ao contrário é ideal que se repudie – que uma fórmula seja obedecida. A arte em geral não deve funcionar assim.

Por fim, a criação de Merle e Daryl é de se tirar o chapéu. Merle cortando a própria mão e a cauterizando no fogão é um ato sequer exposto em cena que já traduz a essência do personagem. A interpretação que Norman Reedus dá a seu personagem o engrandece e segue uma crescente por toda a série. Ele e Steven Yeun já se marcam como bons atores, em gritante contraste com a maioria dos demais, o que também vai ficando cada vez mais nítido pelo caminho.

The Walking Dead – Um insulto à humanidade

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Se o problema fosse somente a covardia, o desenvolvimento chulo dos personagens, a abundância de más atuações (aqui alguns atores devem ser aliviados, porque simplesmente não dava pra trabalhar com o que lhes foi passado) e o conteúdo absolutamente nulo, a segunda temporada seria apenas horrível. O problema invade inclusive o campo técnico, com uma direção que deixa a desejar, em contraste com a season 1.

Cabe aqui um questionamento que diz respeito à montagem das séries, no tocante à diferença aos filmes. Ao contrário do que se pensa a princípio, a diferença não deveria ser tão grande. A vantagem das séries é a possibilidade de contar longas histórias com maior tempo para desenvolvimento. Mas se todo este tempo é inutilizado, não havendo qualquer desenvolvimento, quebra-se o sentido. Não estou aqui considerando, porém, um mundo idealizado que não leve em consideração o caráter comercial da série. Mas considere-se, por exemplo, Lost: temporadas e temporadas de enrolação que fizeram com que parte do público desistisse. Qual a diferença? Lost inicia suas temporadas atingindo todos os personagens a fundo, contrastando a ideologia de cada um com resgate a clássicos científicos como os contratualistas bem como personagens fictícios literários. É plenamente plausível para um fã de Lost estabelecer um diálogo com um dos personagens, apenas olhando para a parede, porque foi criada uma personalidade verdadeira, como se cada um deles realmente existisse como uma ideia. Em Walking Dead, como me referi, os personagens foram meramente apresentados na primeira temporada e simplesmente não foram desenvolvidos na segunda: não há qualquer tipo de ideia, apenas uma eterna e maçante novela de entretenimento sem esforço, se é que há algum entretenimento.

Toda a temporada se guia basicamente em uma dualidade entre o instinto de sobrevivência (Shane) e a manutenção da humanidade (Rick), mas o discurso simplesmente não se desenvolve, mantendo-se repetitivo, como mera forma de legitimação de uma novela sem fim. As discussões inerentes aos filmes de zumbi são esquecidas. Os personagens chegam a encontrar uma igreja e, impressionantemente, ninguém expõe qualquer tipo de pensamento cético firme: não há discussão.

As mudanças dos personagens se dividem entre alterações bruscas e mal planejadas e a covardia de maculá-los, o que impede o desenvolvimento de algum conteúdo, de conflito real de ideais, no roteiro. Assim como a morte de Dale, que era um personagem capaz de causar as piores vergonhas alheias a um ser humano, o covarde Hershel da série, com sua defesa pacífica e civilizada da propriedade (defesa que o simboliza a princípio nas HQs, mas de forma rígida) deveria ao menos ter recusado abandonar sua fazenda e morrido defendendo sua propriedade, demonstrando que, mesmo após o apocalipse, alguns valores sociais não se perderam. Ambos personagens chegam ao limite da tolerância humana na segunda temporada, se comparados com os personagens de expressão das HQs.

A atuação de Sarah Wayne Callies merece um destaque especial. Simplesmente messiânica, é um provável sucesso do século XXII. Por enquanto, ninguém compreende muito bem o que ela está fazendo. Parabéns.

O grande problema da segunda temporada é que, com objetivo comercial nítido e estrito, houve má leitura do mercado. Tudo o que desperta um mínimo interesse pode ser amenizado, adaptado e rentável. Atualmente tem-se um movimento de importação de elementos do Cine Trash a filmes produzidos; formou-se um verdadeiro hype. O público se interessa atualmente por estes temas, quer conhecê-los. O que a série fez foi exatamente fugir do que considerava “repugnante para atrair audiência” para um modelo velho e conservador, quando o público esperava exatamente que a série seguisse a linha da primeira temporada.

Terceira temporada e o resgate

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O fracasso da segunda temporada parece ter sido um alerta efetivo. Mas nem todos os problemas por ela ocasionados puderam ser habilmente solucionados.

Não só pelo aparecimento de diversos personagens da HQ, inclusive personagens que foram omitidos na primeira temporada e que entram bem na história, os combates corpo a corpo e a oposição entre a prisão e Woodbury dão à série um clima de HQ interessante. A escassez de munição e a exploração da prisão me lembraram em alguns momentos o clima de jogos antigos de zumbi como Resident Evil 1, em que frequentemente era necessário o recurso ao corpo a corpo e a munição deveria ser economizada, bem como o clima de suspense. O elenco em geral cresce – as atuações melhoram – apesar de faltar aos personagens a substância, a particularidade determinada, que deveria ter sido desenvolvida na segunda temporada. Isto prejudica a série principalmente pelo aparecimento do Governador.

O governador é, sem dúvidas, o personagem que mais enriquece a série. Com fortalecimento da boa atuação de David Morrissey, sua conduta misteriosa logo expõe ideias que chegam a lembrar clássicos como “Crime e Castigo”. O personagem, em seu discurso repleto de sugestões metafóricas, opõe uma pequena parcela da humanidade a outra de caráter estritamente determinista. Finalmente, ao sugerir que eles reconstruiriam a sociedade, sugere que esta renasceria diferente: uma sociedade em que os indivíduos não se devorariam, nítida comparação entre os zumbis e as pessoas da sociedade em ruína (que no caso, seríamos nós). O personagem cresce e se revela a cada episódio. Infelizmente, sua ideologia não encontra uma ideia para contrastar no grupo da prisão, justamente pela ausência de forte caracterização dos personagens. O fortalecimento da atuação do elenco – conforme supracitado -, porém, ajuda nesta oposição – longe de torná-la perfeita. Apesar da ausência deste contraste, há conflitos relativos ao tratamento dispensado a estranhos e a forma de condução daquele grupo que nos levam a reflexões interessantes.

A temporada apresenta bons momentos de suspense e ação e nos leva a refletir, embora haja tal unilateralidade. Coloca novamente Walking Dead em possíveis bons trilhos, mas não alcança a qualidade da primeira temporada. A série continua em dívida.