Louie – a luta pelo cotidiano

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O maior erro que um ser humano pode cometer é questionar aquilo que ama ou lhe dá prazer. Alguns nascem, descobrem e morrem biologicamente. Outros nascem, descobrem, desconstroem e morrem em vida.

Agora, meus senhores, eu quero contar-lhes, desejem ou não desejem escutar isso,
por que não consegui tornar-me nem um inseto. Solenemente lhes digo que várias
vezes quis tornar-me um inseto. Mas nem isso me foi concedido. Juro-lhes, meus
senhores, que ser por demais consciente é uma doença, uma verdadeira e rematada
doença. Para o humano bastaria, até dizer chega, uma ordinária consciência humana,
isto é, metade ou três quartos daquela porção que cabe a um homem desenvolvido
de nosso infeliz décimo nono século (…).

Notas do Subsolo – Dostoiévski

 

Hoje tive um dia cansativo.  Há um ponto em minha rotina – pontualmente às 19h – em que estou sentado em um ônibus entre o trabalho e a faculdade e adentro em um estado anestésico em que não consigo identificar perfeitamente qual a linha lógica que estabeleço em minha cabeça. Aquele momento em que você sabe que está pensando, pelo pressuposto fático de conhecimento geral do ser humano de que é impossível deixar de pensar, e só por isso não se deixa levar pela ideia de que nada se passa por sua cabeça a não ser uma forte neblina entre os carros e uma mistura de vozes cansadas que chegam ao fim do dia.

Foi aí que uma voz em particular me chamou a atenção: uma mulher, sentada atrás de mim no ônibus, em voz alta no celular, reclamava sobre seu dia no trabalho. Uma cliente alegava que havia comprado chupetas e estas não haviam sido colocadas em sua sacola, enquanto a trabalhadora alegava tê-lo feito. Desabafava sobre isso com sua amiga como algo que havia posto a perder seu dia. “Quanta estupidez” – pensaria qualquer terceiro sobre aquele sentimento – “deixar que um fato tão besta acabe com seu dia”.

Tudo o que descobrimos e identificamos como verdadeiro se desconstrói em nossa passagem pelo tempo. O pressuposto infantil de que seu pai sabe exatamente o que está fazendo, o primeiro beijo, o primeiro amor, o sentimento sexual, a ambição por poder, o sucesso profissional. É natural que, em algum ponto de sua vida, quando você se pega pensando que “se sua vida estivesse de outra forma, estaria muito melhor”, perceba por experiências passadas que isto, de fato, não faria diferença nenhuma. A vida é como ela é. Sem a imortalidade da alma não pode haver virtude. O efêmero de nosso prazer é inerente à nossa percepção e realidade. O próprio prazer não possui sentido senão o criado pela mente a partir da percepção biológica. Pode ser aproveitado enquanto não desconstruído pela mente desde que não haja um pré-questionamento sobre toda e qualquer sensação, que se reveste na recusa em aceitar-se humano. Tudo se encerra em um contexto social, ainda que este seja ampliado pelo conhecimento de outras eras e costumes, porque o aumento do espaço de uma prisão não é a conquista da liberdade.

Aí está o grande prazer de boa parte das grandes sitcoms – Seinfeld, Friends, The Office (…): a aceitação do prazer do cotidiano, sem a espera de um grande sentido. A vida como ela é, pequena, simples, divertida, despretensiosa e despreocupada. Em verdade, qual a diferença entre sofrer por um problema besta de trabalho ou sofrer pelo abandono de um grande amor, um trauma de infância, um ato que incrimine a consciência?

Afinal, se o prazer é racionalmente pré-condenado, desconstruído – se não há absolutamente nenhuma diferença entre o vazio do pós-vida e a existência que não nos proporciona qualquer sentido – por que não depositamos ainda um tiro em nossas cabeças? Além do simples fato de nossa covardia humana nos impedir de fazê-lo? O fato é que o melhor que o existencialismo pode prover ao mundo é ser exterminado como um vírus, antes que contamine as demais pessoas. Mas somos egoístas e preferimos coloca-las em risco por uma esperança vã de que estejamos enganados, ou que seremos curados em algum momento. Quando buscamos algo grande demais – exceder os limites do ser humano – chegamos ao ponto de não conseguirmos voltar atrás e descobrirmos que simplesmente não estamos prontos – ou fomos feitos – para ultrapassar esse limite. E é quase sempre tarde demais. Vivemos em um mundo incomunicável.

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É por isso que se referir a Louie como “uma versão adulta de Seinfeld” é completamente minimalista. A principal diferença de Louie para as demais séries citadas é que ela não é simplesmente uma ode ao cotidiano, mas sim uma luta por ele. A personificação da velha piada do palhaço Paggliacci é um existencialista que luta para viver.

No S02E09, quando Louie se encontra com seu velho amigo Eddie, temos uma situação peculiar: um existencialista defendendo a vida contra um velho amigo ranzinza e pessimista. São os vinte e dois minutos que todo existencialista deveria assistir. Muitas pessoas chegam a um ponto na vida que precisam escolher entre lutar para sair do buraco em que se enfiaram ou esperar que a terra naturalmente o cubra. Mas não pedir que alguém lhe estenda a mão para puxá-lo à situação em que está.

Pegue o metrô ou entre no carro.

Show da Vida – The National

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Neste dia do rock, o Catárticos presenteia você com um relato de um leigo aposentado no assunto sobre o melhor show de sua vida. Animado? Bom, antes de chegar ao show, preciso situá-los sobre como conheci uma das bandas da minha vida: The National. Tudo não começou em torno de 2006, quando meu amigo Wanderson Meireles – ex-membro da Cambriana – me recomendou um álbum: “Alligator”, afirmando que eu simplesmente piraria. Nessa época eu tinha uma pasta no computador: “álbuns por ouvir – Wanderson”, com dezenas de álbuns nos quais “eu piraria”. Essa pasta ainda existe, cheia e imaculada (meus amigos estão acostumados com o bom e velho “quando chegar em casa ouço”; “estou meio ocupado agora fazendo porra nenhuma, assim que der, ouço” etc). Mas eis que, em 2009, abri essa pasta que não estava empoeirada somente por ser eletrônica, e coloquei o álbum no MP3.

À época, com 18 anos, havia ido à Niterói fazer faculdade de Direito, contra a vontade dos meus pais. Dividia um quarto com duas pessoas, o que simplesmente detestava (não por elas), não tinha amigos, gostava de uma garota que demorou muito pra ficar pra trás com a minha mudança, não tinha grana pra fazer absolutamente nada. Na época, não tinha telefone fixo ou celular; quando queria falar com minha família – o que se resumia a brigas – precisava usar telefones públicos nas ruas. Minha vida se resumia a música e literatura. Foi a época em que li “Misto-quente”, do Bukowski, “Crime e Castigo”, “Irmãos Karamazov”, “Humilhados e Ofendidos”, “Noites Brancas”, “O Tirano”, de Dostoievski… Enfim, creio suficiente pra ter uma pequena imagem do que era meu cotidiano.

O Alligator foi um álbum atípico. Era uma enorme dificuldade passar para a música seguinte, porque todas faziam completo sentido, uma por uma. Por essa situação no local onde morava, estava quase sempre na garagem do prédio, ouvindo música, e sou capaz de afirmar gastei ao menos duas horas em cada faixa do álbum, compartilhando sentimentos com veículos estacionados. Quando finalmente consegui chegar ao seu fim, fui falar com o Wanderson sobre como tinha gostado da banda, se havia possibilidade de ver um show deles no Brasil, e ouvi como resposta o seguinte: “eles têm um contingente reduzido de fãs e tocaram aqui recentemente, em um festival”. Essas palavras significaram para mim, como vocês devem imaginar: “não”.Eis que um ano depois, o “não” se tornou “sim”. Pisei pela primeira vez em São Paulo, acompanhado pelo João Vítor Medeiros (o @Indiedadepre), para ver um show do National no falecido Citibank Hall. Chegamos muito cedo. A sensação, pelo público na porta, era de que veríamos um show de uma banda paulistana de médio porte. É claro que depois o público aumentou, mas como ficamos próximos ao palco, de costas para tudo, essa sensação permaneceu. E cresceu, quando à meia luz, exatamente como sempre imaginei, o National abriu com “Runaway”, em um tom especial, simples e despretensioso, como se fosse uma banda em início de carreira, respeitando cada um de seus shows como um momento de sentimento único. Não era exatamente como eu havia esperado, mas maior do que minhas expectativas. Percebi as lágrimas que escorriam de meus olhos somente ao fim da faixa. O que se seguiu a isso foi uma catarse que desaguou em um público em silêncio para a execução completamente acústica de “Vanderlyle Crybaby Geeks”.

Após o show, enquanto todos esperavam a saída de Matt Berninger – que já havia ocorrido, porque ele saíra às pressas embriagado pelo vinho e por um beijo do João quando se jogou na plateia -, fiquei por um tempo conversando com Scott Devendorf, que não recebia atenção de absolutamente ninguém: “Ninguém se fode pra baixistas”, ele disse. Foi uma conversa completamente informal, ele chegou a me fazer perguntas pessoais, como há quanto tempo eu tocava baixo. Enquanto os seguranças tratavam os fãs como canibais tentando engolir os membros da banda, os caras saíram por entre a gente, trocaram ideia com todos, atravessaram a rua no meio da galera e ficaram do outro lado da calçada, sem qualquer equipe ao redor, conversando entre si. Ainda tive tempo de dizer ao Aaron Dessner que ele me lembrava o Charlie, personagem de “Lost”.

Por tudo isso, “Alligator” será sempre o álbum que representa pra mim a quebra que é crescer, enfrentar o mundo e se tornar independente. O “Boxer” não é meu símbolo da melancolia.

Tempos depois, em visita à Rússia – país que sempre sonhei em conhecer -, talvez por toda a literatura russa que me bombardeou à época em que conheci National, a banda voltou com tudo aos meus fones, mas de uma forma completamente diferente. Fiz as pazes com o meu passado e passei a achar tudo bonito, de uma forma inexplicável. Eis que uma das gravações da viagem se transformou no vídeo abaixo:

 

Mostra Tarantino (CCBB – Rio de Janeiro)

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Aos leitores cariocas e demais fãs de Tarantino: está rolando, desde o dia 17 e até 29 de julho, no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), a Mostra Tarantino, que exibe vários dos clássicos do diretor, entre eles, “Reservoir Dogs”, “Pulp Fiction”, “Jackie Brown”, “Death Proof”, “Inglorious Basterds” e “Django Unchained”.

O festival disponibiliza, inclusive:
Projetos nos quais sua participação se limita a roteiro ou atuação, como “Planet Terror” e “From Dusk Till Dawn”;
Projetos cujas vendas de roteiros possibilitou ao diretor angariar recursos para produzir e dirigir seus primeiros filmes: “True Romance” (dirigido por Tony Scott) e “Natural Born Killers” (dirigido por Oliver Stone);
Projetos nos quais o diretor participou parcialmente da direção (“Sin City”, “Four Rooms”).

Além e principalmente, é uma ótima oportunidade para assistir às obras do mestre no formato 35mm. As exibições contam, ainda, com sessões extras, caso a programação não se adeque à sua disponibilidade.

Cinco entradas podem ainda ser trocadas por um catálogo com ficha completa de todos os filmes que contam com participação do mestre – seja como diretor, roteirista, ator ou produtor. Se você estiver fora da classificação etária dos filmes, ainda pode comparecer, acompanhado por responsável.

O CCBB se localiza na Rua Primeiro de Março, 66, Centro (como chegar). O Cinepasse (R$6,00, com meia disponível) dá acesso a todas as sessões e à videoteca (ou melhor, é extremamente acessível). Recomenda-se a chegada uma hora mais cedo devido à lotação da casa (98 lugares, um destinado a obeso e três destinados a cadeirantes) para retirada da senha, havendo limite – em cada sessão – de uma senha por cinepasse.

A programação completa e demais informações estão disponíveis no site oficial da mostra. É ainda possível acompanhá-la através de sua página no Facebook (por lá estão rolando, inclusive, promoções, concursos e afins).

Enfim, tem de ser muito cabaço pra perder isso. Se você atingir tal feito, parabéns.

 

 

 

Fica aqui aberto um espaço para divulgação de mostras, festivais, cineclubes e afins. É sempre um prazer divulgar o que se relaciona à sétima arte. Caso seja de seu interesse, o contato é Travis@Catarticos.com.br.

Closer – Todos amam uma bela mentira

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!SPOILER DA OBRA “O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA”, DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ!

“(…)

Nenhuma dessas ilusões foi vã, não obstante. A fábula do galeão, e em seguida a novidade do farol, foram aliviando para ele a ausência de Fermina Daza, e quando ele menos o pressentia chegou a notícia do regresso. Com efeito, depois de uma estada prolongada em Riohacha, Lorenzo Daza tinha resolvido voltar. Não era a época mais benigna do mar, devido aos alíseos de dezembro, e a goleta histórica, a única que se arriscava à travessia, podia amanhecer de volta ao porto de origem, arrastada por um vento contrário. Assim foi. Fermina Daza passara uma noite de agonia, vomitando bílis, amarrada ao beliche de um camarote que parecia uma privada de botequim, não só pela estreiteza opressiva como pela pestilência e o calor. O balanço era tão forte que várias vezes teve a impressão de que iam arrebentar as correias da cama, do convés lhe chegavam os gritos doloridos que pareciam de naufrágio, e os roncos de tigre do pai no beliche contíguo eram um ingrediente a mais do terror.  Pela primeira vez em quase três anos passou uma noite em claro sem pensar um instante em Florentino Ariza, enquanto que ele permaneceu insone na rede da loja de trás contando um a um os minutos eternos que faltavam para que ela voltasse. Ao amanhecer, o vento cessou de súbito e o mar se tornou plácido, e Fermina Daza percebeu que dormira apesar dos estragos do enjoo, porque a despertou o estrépito das correntes de âncora. Então se livrou das correias e olhou pela escotilha na ilusão de descobrir Florentino Ariza no tumulto do porto, mas o que viu foram os armazéns da alfândega entre as palmeiras douradas pelos primeiros sóis, e o molhe de barrotes apodrecidos de Riohacha, de onde a goleta zarpara a noite anterior.

O resto do dia foi como uma alucinação, na mesma casa em que tinha estado até a véspera, recebendo as mesmas visitas que dela se haviam despedido, falando as mesmas coisas, e aturdida pela impressão de estar vivendo de novo um pedaço de vida já vivida. Era uma repetição tão fiel que Fermina Daza estremecia à simples ideia de que assim também tinha sido com a viagem da goleta cuja simples lembrança lhe causava pavor. No entanto, a única alternativa de voltar para casa eram duas semanas em lombo de mula pelas cornijas da serra, e em condições ainda mais perigosas que da primeira vez, pois uma nova guerra civil iniciada no estado andino do Cauca já se ramificava pelas províncias do Caribe. Por isso, às oito da noite foi acompanhada outra vez até o porto pelo mesmo cortejo de parentes barulhentos, com as mesmas lágrimas de adeus e os mesmos volumes de pilhas presentes de última hora que não cabiam nos camarotes. No momento de zarpar, os homens da família se despediram da goleta com uma salva de disparos para o ar, e Lorenzo Daza retribuiu do convés com os cinco tiros do seu revólver. A ansiedade de Fermina Daza se dissipou em breve, porque o vento foi favorável a noite inteira, e o mar tinha um cheiro de flores que a ajudou a dormir bem sem as correias de segurança. Sonhou que tornava a ver Florentino Ariza, e este despiu a cara que ela sempre tinha visto, porque na realidade era uma máscara, mas a cara real era idêntica. Levantou-se muito cedo, intrigada pelo enigma do sonho, e encontrou o pai tomando café com conhaque na cantina do capitão, com o olho torcido pelo álcool, mas sem o menor indício de preocupação pelo regresso.

Estavam entrando no porto. A goleta deslizava em silêncio pelo labirinto de veleiros ancorados na enseada do mercado público, cuja pestilência se sentia a léguas de distância no mar, e a madrugada estava saturada de um chuvisco firme que em breve despencou num aguaceiro dos grandes. A postos no balcão da telegrafia, Florentino Ariza reconheceu a goleta quando atravessava a baía das Ânimas coma s velas desanimadas pela chuva e ancorou diante do embarcadouro do mercado. Tinha esperado na véspera até as onze da manhã, quando soube por um telegrama casual do atraso da goleta devido aos ventos contrários, e voltara a esperar aquele dia desde as quatro da madrugada. Continuou esperando sem arredar a vista das chalupas que conduziam até a terra os escassos passageiros que resolviam desembarcar apesar da tempestade. Em sua maioria eles tinham que abandonar na metade do caminho a chalupa encalhada, e chegavam ao embarcadouro chapinhando no lodaçal. Às oito, depois de esperar em vão que estiasse um carregador negro com água pela cintura recebeu Femina Daza na amurada da goleta e a levou nos braços até a margem, mas estava tão ensopada que Florentino Ariza não conseguiu reconhecê-la.

Ela própria não estava consciente do quanto amadurecera na viagem, até que entrou na casa fechada e empreendeu de pronto a tarefa heroica de torná-la de novo habitável, com a ajuda de Gala Placídia, a criada preta, que voltou à sua antiga senzala logo que lhe avisaram do regresso. Fermina Daza não era mias a filha única, ao mesmo tempo mimada e tiranizada pelo pai, e sim a dona e senhora de um império de poeira e teias de aranha que só podia ser recuperado graças à força de um amor invencível. Não se acovardou, pois sentia um sopro de levitação que lhe daria a força de mover o mundo. Na própria noite da volta, quando tomavam chocolate com bolinhos de queijo na grande mesa da cozinha, seu pai lhe delegou os poderes de governo da casa, e o fez com o formalismo de um ato sacramental.

-Entrego a você as chaves da sua própria vida – disse.

Ela, com dezessete anos feitos, assumia-a com um pulso firme, consciente de que cada palmo da liberdade ganha era para o amor. No dia seguinte, depois de uma noite de maus sonhos, padeceu pela primeira vez o enfado do regresso, quando abriu a janela da sacada e tornou a ver o chuvisco triste da pracinha, a estátua do herói decapitado, o banco de mármore em que Florentino Ariza costumava sentar-se com um livro de versos. Já não pensava nele como o noivo impossível e sim como o marido certo a quem se devia dos pés à cabeça. Sentiu quanto pesava o tempo desperdiçado desde o dia em que partira, quanto custava estar viva, quanto amor lhe ia faltar para amar o seu homem como Deus mandava. Surpreendeu-a que ele não estivesse na pracinha, como tantas vezes estivera apesar da chuva, e que não houvesse recebido qualquer sinal dele, por qualquer meio que fosse, nem mesmo um presságio, e de pronto abalou-a a ideia de que houvesse morrido. Mas em seguida descartou o mau pensamento, porque no frenesi dos telegramas dos últimos dias, ante a iminência da volta, tinham esquecido de combinar um modo de continuarem se comunicando quando ela voltasse.

A verdade é que Florentino Ariza estava certo de que ela não tinha voltado, até que o telegrafista de Riohacha lhe confirmou que havia embarcado sexta-feira na mesma golera que não chegara na véspera devido aos ventos contrários. No fim da semana esteve tentando divisar qualquer sinal de vida na casa dela, e a partir do anoitecer de segunda-feira viu pelas janelas uma luz ambulante que pouco depois das nove se apagou no quarto de dormir da sacada. Não dormiu, presa das mesmas ansiedades de náuseas que perturbaram suas primeiras noites de amor. Trânsito Ariza se levantou com os primeiros galos, alarmada porque não voltara o filho que saíra ao pátio à meia-noite, e não o encontrou na casa. Tinha ido errar pelo cais, recitando versos de amor contra o vento, chorando de júbilo, até que acabou de amanhecer. Às oito estava sentado sob os arcos do Café da Paróquia, alucinado pela vigília, tratando de descobrir um jeito de fazer chegar seus votos de boas-vindas a Fermina Daza, quando se sentiu sacudido por um abalo sísmico que lhe dilacerou as entranhas.

Era ela. Atravessava a Praça da Catedral acompanhada por Gala Placídia, que carregava os cestos para as compras, e pela primeira vez não trajava o uniforme escolar. Estava mais alta do que ao partir, mais perfilada e intensa, e com a beleza depurada por um domínio de pessoa mais velha. A trança lhe havia crescido de novo, mas não lhe pendia mais pelas costas, atirada agora sobre o ombro esquerdo, e esta simples mudança a despojara de todo traço infantil. Florentino Ariza permaneceu atônito em seu lugar, até que aquela aparição acabou de atravessar a praça sem afastar a vista do seu caminho. Mas o mesmo poder irresistível que o paralisara obrigou-o em seguida a se precipitar atrás dela quando dobrou a esquina da catedral e se perdeu no tumulto ensurdecedor das ruelas do comércio.

Segui-a sem se deixar ver, descobrindo os gestos cotidianos, a graça, a maturidade prematura do ser que amis amava no mundo, e que via pela primeira vez em seu estado natural. Assombrou-o a fluidez com que abria caminho na multidão. Enquanto Gala Placídia ia aos encontrões, e se embaraçava com os cestos e tinha que correr para não perde-la de vista, ela navegava na desordem da rua num espaço seu e num tempo diferente, sem esbarrar em ninguém feito um morcego nas trevas. Tinha estado muitas vezes no comércio com tia Escolástica, mas eram sempre compras miúdas, pois o pai em pessoa se encarregava de abastecer a casa, e não só de móveis e comida mas inclusive de roupas de mulher. Por isso aquela primeira saída foi para ela uma aventura fascinante, idealizada em seus sonhos de menina.

Não prestou atenção à insistência dos ambulantes que lhe ofereciam o jarabe, o xarope do amor eterno, nem às súplicas dos mendigos atirados às portas com suas chagas ao sol, nem ao falso índio que tentava vender-lhe um jacaré amestrado. Deu uma volta grande e minuciosa, sem rumo calculado, com paradas que só tinham como motivo um prazer sem pressa diante do espírito das coisas. Entrou em cada portal onde houvesse alguma coisa a vender, e por toda parte encontrou alguma coisa que aumentava sua ânsia de viver. Deliciou-se com o hálito de vetiver dos panos nos arcões, enrolou-se em sedas estampadas, riu-se do próprio riso vendo-se fantasiada de madrilena com sua travessa e o leque de flores pintadas diante do espelho de corpo inteiro de O arame de Ouro. Na loja de importados destapou um barril de arenques em salmoura que lhe lembrou noites de nordeste, muito menina ainda, em São João da Ciénaga. Deram-lhe uma prova de morcela de alicante que tinha gosto de alcaçuz, e comprou duas para a refeição matinal de sábado, além de postas de bacalhau e um frasco de groselhas em aguardente. No balcão de especiarias, pelo puro prazer do olfato, macerou folhas de sálvia e de orégano nas palmas das mãos, e comprou um punhado de cravos-da-índia, outro de anis estrelado, e outros dois de gengibre e de zimbro, e saiu banhada em lágrimas de riso de tanto espirrar com os vapores da pimenta de Caiena. Na botica francesa, enquanto comprava sabonete de Reuter e água de benjoim, puseram-lhe atrás da orelha um toque do perfume que estava na mora em Paris, e lhe deram uma pastilha desodorante para depois de fumar.

Brincava de fazer compras, sem dúvida, mas aquilo que de verdade estava precisando comprava na hora, com uma autoridade que não deixava ninguém pensar que o fazia pela primeira vez, pois estava consciente de que não comprava para ela só e sim para ele também, doze jardas de linho para as toalhas de mesa dos dois, o percal para os lençóis de bordas que teriam ao amanhecer o orvalho dos humores de ambos, o mais delicioso de cada uma das coisas que desfrutariam juntos na casa do amor. Pedia abatimento e sabia fazê-lo, discutia com graça e dignidade até conseguir o melhor, e pagava com moeda de ouro que os lojistas testavam pelo puro prazer de ouvi-las cantar no mármore do balcão.

Florentino Ariza a espiava maravilhado, a perseguia sem tomar fôlego, tropeçou várias vezes nos cestos da criada que respondeu às suas desculpas com um sorriso, e ela havia passado tão perto que ele sentira a brisa do seu cheiro, e se nem então o viu não foi porque não pudesse e sim pela altivez do seu modo de andar. Ela lhe parecia tão bela, tão sedutora, tão diferente da gente comum, que não compreendia que ninguém se transtornasse como ele com as castanholas dos seus saltos nas pedras do calçamento, ou tivesse o coração descompassado com os ares e suspiros de suas mangas, ou não ficasse louco de amor o mundo inteiro com os ventos de sua trança, o voo de suas mãos, o ouro de seu riso. Não perdera um gesto seu, nem um indício do seu caráter, mas não se atrevia a se aproximar dela pelo medo de desfazer o encanto. Contudo, quando ela se meteu na balbúrdia do Portal dos Escrivães, ele descobriu que se arriscava a perder a ocasião que aguardara durante anos.

Fermina Daza compartilhava com suas companheiras de colégio a ideia estranha de que o Portal dos Escrivães era um lugar de perdição, vedado, é claro, às senhoritas decentes. Era uma galeria de arcadas diante de um largo onde paravam os carros de aluguel e as carretas de carga puxadas por burros, e onde se tornava mias denso e ruidoso o comércio popular. O nome lhe vinha dos tempos da Colônia, porque ali se sentavam desde então os calígrafos taciturnos, de paletós de lã e meias mangas postiças, que escreviam por profissão toda classe de documentos a preços de pobre: requerimentos de agravo ou de súplica, arrazoados jurídicos, cartões de cumprimentos ou de luto, missivas de amor em qualquer das suas idades. Não era dos escrivães, diga-se logo, que vinha a má reputação daquele mercado fragoroso, e sim de bufarinheiros mais atuais, que ofereciam por baixo do balcão os muitos artifícios equívocos que chegavam de contrabando nos navios da Europa, dos postais obscenos às pomadas tônicas e até aos célebres preservativos catalães com cristas de iguanas que pulsavam quando era o caso, ou com flores na extremidade para que soltassem pétalas de acordo com a vontade do usuário. Fermina Daza, pouco perita no uso da rua, meteu-se no portal sem muito ver por onde andava, buscando uma sombra que aliviasse o sol bravo das onze.

Afundou na algaravia quente dos engraxates e dos vendedores de pássaros, dos livreiros de segunda mão e dos curandeiros e das doceiras que anunciavam aos berros por cima da bulha as cocadas de pinhas para as mocinhas, de cocos para os loucos, de panela para Micaela. Mas ela ficou indiferente ao estrondo, cativada de pronto por um papeleiro que fazia demonstrações de tintas mágicas de escrever, tintas vermelhas com a sugestão do sangue, tintas de reflexos tristes para recados fúnebres, tintas fosforescentes para se ler no escuro, tintas invisíveis que o pleno resplendor da luz revelava. Ela as queria todas para brincar com Florentino Ariza, para impressioná-lo com seu engenho, mas ao fim de várias experiências decidiu-se por um vidrinho de tinta de ouro. Foi depois às doceiras sentadas por trás de suas grandes redomas, e comprou seis doces de cada espécie, apontando-os com o dedo pelo cristal porque não conseguia fazer-se ouvir na gritaria: seis de fios d’ovos, seis de leite, seis de tijolinhos de gergelim, seis de iúca e amêndoa, seis de chocolate envolto em papel de sorte, seis piononos de biscoito, seis bons-bocados de goiaba, seis disto e seis daquilo, seis de tudo e os ia amontoando nos cestos da criada com uma graça irresistível, alheia por completo às grossas nuvens de moscas em cima do melado, alheia à algazarra contínua, alheia ao bafo de suores azedos suspensos no calor mortal. Despertou-a do feitiço uma preta feliz, com um pano colorido na cabeça, redonda e formosa, que lhe ofereceu um triângulo de abacaxi fisgado na ponta de uma faca de açougueiro. Ela o pegou, meteu-o inteiro na boca, saboreando-o, e continuou a saboreá-lo, a vista errando pela multidão, quando uma comoção a pregou no lugar em que estava. Às suas costas, tão perto de sua orelha que só ela pôde escutá-la no tumulto, tinha ouvido a voz:

-Este não é um bom lugar para uma deusa coroada.

Voltou a cabeça e viu a dois palmos de seus olhos os outros olhos glaciais, o rosto lívido, os lábios petrificados de medo, tal como os vira no tumulto da missa do galo pela primeira vez em que ele estivera tão perto dela, mas ao contrário daquela vez não sentiu agora a comoção do amor e sim o abismo do desencanto. Num instante teve a revelação completa da magnitude do próprio engano, e perguntou a si mesma, aterrada, como tinha podido incubar durante tanto tempo e com tanta ferocidade semelhante quimera no coração. Mal conseguiu pensar: “Deus meu, pobre homem!” Florentino Ariza sorriu, procurou dizer alguma coisa, procurou acompanha-la, mas ela o apagou de sua vida com um gesto de mão.

-Não, por favor – disse. – Esqueça.

Naquela tarde, enquanto o pai dormia a sesta, mandou-lhe por Gala Placídia uma carta de duas linhas: Hoje, ao vê-lo, descobri que só nos unia uma ilusão. A criada levou também os telegramas dele, os versos, as camélias secas, e lhe pediu que devolvesse as cartas e os presentes que ela lhe havia mandado: o missal de tia Escolástica, as rendas de folhas secas do seu herbário, o centímetro quadrado do hábito de São Pedro Claver, as medalhas de santos, a trança dos seus quinze anos com o laço de seda do uniforme escolar. Nos dias seguintes, à beira da loucura, ele lhe escreveu numerosas cartas de desespero, e assediou a criada para que as levasse, mas esta cumpriu as instruções terminantes de não receber nada além dos presentes devolvidos. Insistiu com tanto afinco que Florentino Ariza os mandou todos, salvo a trança, que não queria devolver enquanto Fermina Daza não o recebesse em pessoa para conversar ainda que fosse um instante. Não conseguiu. Temendo alguma determinação fatal do filho, Trânsito Ariza desceu do seu orgulho e pediu a Fermina Daza que lhe concedesse a ela uma graça de cinco minutos, e Fermina Daza a atendeu um instante no saguão de sua casa, de pé, sem convidá-la a entrar e sem um pingo de fraqueza. Dois dias depois, ao término de uma discussão com a mãe, Florentino Ariza desprendeu da parede do seu quarto o empoeirado nicho de cristal onde mantinha exposta a trança feito uma relíquia sagrada, e a própria Trânsito Ariza a devolveu no estojo de veludo bordado com fios de ouro. Florentino Ariza nunca mais teve a oportunidade de ver a sós Fermina Daza, nem de falar a sós com ela nos tantos encontros de suas mui longas vidas, até cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias mais tarde, quando lhe reiterou o juramento de fidelidade eterna e amor para todo o sempre em sua primeira noite de viúva.”

Trecho de “Amor nos tempos do cólera”, de Gabriel García Márquez.

 

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Quão pretensiosa é a ideia de um ser mortal construir um sentimento que seja imortal. O amor se constrói e desconstrói em pequenos detalhes. Seu fim não coincide com o fim da convivência. É uma vida independente que, como todas as outras, morre. Diante do amor, um tempo vertical se levanta em nossa existência horizontal. Muitas vezes se vive mais intensamente nessa nova vida interior do que em nossa própria existência, da mesma forma como muitas vezes uma pessoa que morre jovem vive por mais tempo do que uma pessoa centenária; é também uma questão de relatividade. Universal, por tão variável, é a lei natural que o homem jamais conseguirá explicar.

O amor não nasce da afinidade ou convivência. Nasce da coincidência que dá abertura à fraqueza, da atribuição de sentido ao momento, da mágica corporal, da impossibilidade. A crença na eternidade que com ele caminha nada mais é do que reflexo da imprevisibilidade. Não é mais sólido e rígido do que o concreto de um muro e, como ele, nasceu para ser um dia quebrado. Maleável como toda verdade, lei natural, fato humano. Como qualquer vida, o amor nasce para morrer. Isto porque, felizmente, como organismo, não nasceu para se tornar uma prisão. Sua beleza é o momento; sua cela, a eternidade.

O amor invencível. Que eterno tédio seria.