Elysium: erros e acertos de um sci-fi contemporâneo

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Wagner Moura não erra. O que não é necessariamente um elogio. Embora o ator mantenha-se regular, atingiu um patamar – renome – que ainda não condiz com sua carreira: repleta de boas atuações, ainda não há em sua filmografia um grande filme que faça com que mereça a fama e respeito que possui no Cinema Nacional.

TEXTO NÃO POSSUI SPOILERS

Fora das fronteiras de nosso país, o ator figura desta vez em uma obra que condiz com a linha de produção da atualidade. Em uma geração que produz sci-fis focados em ação e drama, muitas vezes com conteúdo promissor, embora mal desenvolvido – vício notável em filmes como “Repomen” ou “In Time” e, honestamente, creio que “Looper”, inclusive, figure neste infeliz rol -, “Elysium” consegue fugir parcialmente do estigma, inovando, apesar de repetir, também, erros clássicos de sci-fis dos 70s & 80s, embora nestes, compreensíveis.

Como bem aponta Syd Field, em grande parte das vezes conseguimos nos identificar ou repudiar um filme por seus primeiros minutos – já em sua intro. Embora não constitua regra necessária (um filme pode facilmente começar com qualidade e simplesmente foder tudo de forma inexplicável em seu desenvolvimento ou desfecho), é um bom indicativo, no caso da produção em análise, de que estamos diante de, ao menos, um entretenimento de boa qualidade.

A obra nos introduz a um mundo que, embora fictício, traz elementos que se conectam com nosso mundo atual. desenvolve uma ideia de divisão social de classes com atuação peculiar do Direito a cada uma delas: um Direito Penal do autor, que diversifica sua rigidez e agressividade dentre as classes sociais, apresentando um juízo rigorosamente técnico e objetivo. Apresenta também um monopólio drástico do acesso à saúde – ao redor do qual, de certa forma, gira sua ação (esta, foco do filme por boa parte de sua duração). Apresenta também, merecendo destaque à sua abordagem, a influência do setor privado no desenvolvimento político e, portanto, no cerne estatal.

Se neste ponto encontramos a principal qualidade desta produção de grande elenco – contando com atores como Matt Damon (por este, nutro pessoal admiração, sempre atentando para os filmes nos quais atue), Jodie Foster,  Ben Kingsley e o próprio Wagner Moura; ao mesmo tempo, Alice Braga, uma das razões por ter tido preconceito com o filme – somada ao contexto dos sci-fis supraexposto -, esperando mais um filme vazio de gênero ação estrito (ela também atua em “Repomen”),  – é também este seu principal erro: ignorar o Direito como ciência.

Atualmente já podemos ter certeza de que a ciência não se desenvolve linearmente, mas sim, ao contrário, de forma pragmática. O grande desenvolvimento espacial do século XX não se dá devido a um interesse que trará benefícios diretos à humanidade, mas de uma necessidade de demonstração de poder econômico em face ao conflito bipolar da Guerra Fria. O Direito, como qualquer outra ciência, se desenvolve nesta linha: por pessoas técnicas e vazias, em uma projeção pragmática. O Código de Defesa do Consumidor não existe para proteger o pobre e frágil, existe para conservar o equilíbrio de uma relação necessária ao sistema econômico capitalista em vigor; de um lado, temos o empresário que lida profissionalmente com o consumo, enquanto, do outro lado, temos todos os seres humanos, consumidores, que são profissionais de outras áreas e completamente leigos no consumo. Se não há equilíbrio neste setor, há inibição do consumo e, consequentemente, crise econômica. A lei de proteção ao consumidor age neste ponto, equilibrando a diferença entre os polos. Da mesma forma, outras leis que surgem em períodos de crise de relações importantes à economia, como a Lei do Inquilinato. As leis trabalhistas, nesta linha, não se dedicam propriamente a proteger o trabalhador – apesar de o acabarem fazendo indiretamente e terem surgido através das intensas lutas trabalhistas – mas sim para protegerem o equilíbrio das relações de trabalho. Assim, o Direito se desenvolve como todas as outras ciências; em um sentido pragmático de manutenção de nosso sistema econômico (é por essa razão, por exemplo, que nossos produtos não duram pra sempre; se durassem, não haveria circulação de capital, renovação das necessidades de consumo e manutenção do sistema econômico). Desta forma, tem-se nítido que a forma como o filme apresenta as relações de trabalho é um vício do antigo “sci-fi” prévio a este entendimento – de outro contexto histórico. É interessante para todos, inclusive para um mundo catastrófico futuro, que se mantenha considerável proteção ao trabalhador.

Ao mesmo tempo, porém, que repete erros do passado – não só como o exposto no parágrafo anterior, mas também simples erros físicos (como presença de fogo no espaço e afins) -, o filme inova no desenvolvimento – embora não tão amplo – de conceitos atuais, principalmente em países subdesenvolvidos como o Brasil – embora oriundos e notadamente presentes em países como os Estados Unidos – do Direito Penal do autor e a atuação irregular do Direito de acordo com as classes – ou castas – sociais, bem como o monopólio do acesso à saúde, educação e bem-estar.

Um ponto de inovação de grande acerto é o cenário urbano: em um planeta deixado a morrer, no qual as pessoas que nele permanecem estão  deixadas à mercê de um ecossistema que não mais se pretende salvar – semelhante à ideia presente em Blade Runner – não nos deparamos com um cenário de grandes prédios com excessivo apelo de marketing, mas sim um cenário urbano semelhante a intermináveis favelas, com pouquíssima presença de natureza – uma espécie de privilégio da Elysium. Comparemos os cenários deste filme e o supracitado Blade Runner.

 

A Terra de “Elysium”

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A Terra de “Blade Runner”

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O que se segue à esta introdução é, basicamente, ação, drama, adrenalina, se desconectando desta contextualização, mas entrando, porém, em elementos agradáveis aos fãs de sci-fi: a substituição corporal – mecanização do corpo – típica do cyberpunk e a estética do software (isto é um detalhe bem pensado: os softwares e hardwares utilizados pelos hackers – estilizados no contexto de aventura do filme como verdadeiros piratas – são adequados ao seu estilo de vida, diferentes dos utilizados pelos habitantes e profissionais de Elysium, e inclusive os equipamentos são compostos pelos materiais ao redor e mais preparados para seu estilo de vida – tanto em estética quanto em consistência dos harwares a choques e afins) são exemplos de elementos que mantêm a boa sensação futurista típica do sci-fi.

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Enfim, trata-se de não apenas mais um filme vazio de ação como Hollywood vem produzindo em massa – embora tenha a ação como foco por boa parte de sua duração – mas um bom entretenimento, com relativo conteúdo para quem procura – embora não se trate de um filme profundo -, simultâneo à ação, drama e adrenalina para quem quer simplesmente se divertir. Ainda não é o filme que se espera de Wagner Moura, mas paga o ingresso e suas horas em um Cine. Go go go watch it out, folks!

P.s.: Funny english, mr. Moura