Hard Candy: uma indiscutível faceta humana

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Em um dos stand ups de sua série “Louie”, o comediante Louis C.K., quase precocemente interrompido pela platéia, brinca com o fato de que, se tratássemos a pedofilia com mais normalidade, assustando menos os pedófilos, talvez os fizéssemos se sentirem mais confortáveis à ideia de devolverem as crianças após o delito. Uma brincadeira da qual só um grande comediante como Louie, com sua confiança e seu poder de controle sobre a audiência, pode safar-se. Propositadamente ou não, Louie acaba por tocar em um dos tabus de nossa sociedade. Uma análise rasa já nos mostra a relatividade inerente ao tema, uma vez que há grande variação cultural no conceito de adulto, criança e adolescente. O Ordenamento jurídico brasileiro, por exemplo, restringe o conceito criança (não adolescente) à faixa etária anterior aos 12 anos, idade na qual, segundo a tradição judaica, as mulheres já se tornam adultas (o que não necessariamente corresponde à maturidade sexual), enquanto, no Egito, Tutancâmon se casou com apenas 10 anos de idade.

Não tenho qualquer formação em psicologia, não sou parte dos 70% da população mundial que se considera psicólogo nato, sequer sou minimamente mais expert do que qualquer um para abordar o assunto. O que tenho para mim como fato é que a pedofilia, assim como diversas outras classificações superficiais – como o recorrente batismo em “psicopata”, estas figuras naturalmente voltadas ao mal, sem qualquer solução e explicação lógica ou sociológica -, por incomuns e completamente incompreensíveis à mente do ser humano socialmente regular, são completamente refutadas no campo da especulação e entendimento, frequentemente atribuídas de forma insatisfatoriamente fundamentada à causalidade genética. Boa parte das pesquisas relacionadas à pedofilia, principalmente as mais divulgadas, quando não estritamente empíricas e estatísticas, são incompletas e insatisfatórias à amplitude do problema e ao tamanho repudio a ela ofertado por nossa sociedade. Neste ponto, convém desfazer qualquer mal entendido em relação ao texto: obviamente não se trata de uma justificação à prática, mas um simples questionamento: se tratamos como um grave problema, que deve ser evitado e exterminado, por que a ciência o evita em lugar de enfrentá-lo com propriedade e peso argumentativo? Afinal, problemas estéticos podem ser facilmente resolvidos pelo estágio atual da medicina, mas a pedofilia continua a ser tratada como um distúrbio genético inevitável do qual ninguém deseja qualquer proximidade analítica, o que de forma alguma evitará sua ocorrência.

Creio, porém, que a resposta já tenha sido dada no próprio parágrafo; o ser humano consegue reconhecer como uma doença algo que ele pense poder afetá-lo, e consegue reconhecer um doente como próximo quando há alguma possível ligação lógica que o torne compreensível – situação que ele reconheça que pudesse, se outras circunstâncias tivessem sobre ele incidido, ter ocorrido com ele próprio, embora não considere correta. Esta pessoa, reconhece-se como um próximo, um ser como outro, embora de saúde afetada. Quando este vínculo lógico se rompe – não se vê como possível que isto tivesse ocorrido consigo em qualquer circunstância social – o próximo se torna um outro ser, tende a se tornar um monstro distante, de espécie diversa, e a tendência é que a fonte seja atribuída à genética em lugar do ambiente social. Embora não seja o caminho racional, é sem dúvidas o caminho mais confortável.

Em “A insustentável leveza do ser”, Kundera nos introduz à palavra “Kitsch”, um termo alemão datado de meados do século XIX, o qual trata como um acordo categórico com o ser, exemplificando com o ato de defecar, que seria uma “prova cotidiana do caráter inaceitável da criação”. Se a merda é inaceitável, associa-se de imediato um caráter repugnante à criação; portanto, trata-se o kitsch de um acordo de ideal estético: a razão pela qual excluímos de nosso campo visual tudo o que a existência humana tem de essencialmente inaceitável. Ora, não se tratando a pedofilia ou psicopatia de distúrbio estritamente genético incidente sobre pessoa determinada, mas sim de força resultante de circunstâncias sociais, portanto passíveis de afetação a qualquer ser humano, despedaça-se o acordo estético em troca da aceitação de que todo ser humano é potencialmente repugnante. Mesmo os que não o são, poderiam o ser sob circunstâncias diversas. Pensar demais a respeito já seria assumir a possibilidade de que se trata de um problema humano. Tornar o pedófilo um monstro geneticamente diverso do ser humano ordinário, porém, é nos mantermos confortáveis com nossa própria natureza em todas as suas possibilidades.

Fiz meu melhor, com êxito, creio, para evitar spoilers; é uma indicação, não propriamente uma resenha.

 

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Enfim, querido assustado leitor. “Hard Candy” é um filme de 2005 dirigido por – aposto que você não esperava por essa – David Slade (sim, “Twilight”, “30 days of Night”). O filme trata de um fotógrafo – suposto pedófilo – interpretado por Patrick Wilson (“Watchmen”, “Prometheus”…) que conhece pela internet uma teenager aparentemente aberta e matura para sua idade, interpretada por Ellen Page (“Juno”, “X-men”, “Inception”…). Sinceramente, há tantas qualidades neste filme que comprei por chute – apenas por ler a sinopse, em uma Loja Americanas – que sequer sei por onde começar.

Convém destacar, a princípio, se tratar de um filme cujo suspense maestral é a proposta central, embora nem de longe esgote seu conteúdo. A princípio, fiquei encantado com o jogo de câmeras de Slade, principal qualidade técnica do filme. A dança das câmeras trabalha de forma perfeita com o suspense, por vezes induzindo o telespectador – com oscilações entre pouca dinâmica e enquadramentos simples durante o desenvolvimento dos diálogos e momentos calmos para bruscas movimentações nos momentos de ápice e resultado, cooperando com a sensação de instabilidade – por vezes com ele dialogando. Além, nestes momentos  de ápice da tensão, o enquadramento sempre surpreende com efeitos de direção – às vezes a opção pela handycam, outras vezes opções de foco – que intensificam os sentimentos profundos dos atores na exteriorização humana – raiva, tristeza, segredos profundos que se revelam, autodecepções sobre as quais nunca gostariam de dialogar a respeito, momentos em que as máscaras caem após longas construções dúbias de diálogos. Há, aqui, um excelente e harmonioso ponto de encontro entre a ótima direção e as ótimas atuações dos dois protagonistas supracitados.

Fora o aspecto técnico voltado à direção, o filme se desenvolve também sobre bases sólidas. Os personagens já não se iniciam planos, mas a cada diálogo surgem mais dúvidas a respeito deles e, a cada desfecho, quando se pensa haver encontrado uma solução para uma das peças, mais dúvidas surgem destas “soluções”, de forma que os personagens, já não planos desde o princípio, se tornam cada vez mais complexos e misteriosos. O filme faz uma bela construção que oscila entre dúvida, certeza e, novamente, dúvida, construindo mais e mais seus personagens ao decorrer da história, sem desprender a atenção do telespectador, que se afunda cada vez mais naquela narrativa, incômoda por várias razões. É interessante notar, no aspecto material, em relação ao exposto antes de entrarmos propriamente no filme, que a dúvida quanto ao caráter sociológico/genético é sabiamente exposta de forma invertida: a garota questiona qual a origem de seu problema, não a de quem ela própria supõe pedófilo.

Por fim, o filme deságua em um princípio de esclarecimento simultâneo à uma cena que está entre as que mais me provocou a sensação “suspense” no cine, de fazer qualquer marmanjo se contorcer e fechar os olhos. Se você é uma garota que odeia filmes de terror e seu namorado te força a vê-los com uma felicidade sádica, confie em mim: VEJA ESSE FILME COM ELE, porque esta cena não te afetará em nada e o traumatizará, sem dúvidas.

Bem, pra quem gosta de ser torturado por um filme, e para os fãs do psycho e de filmes que abordam perturbações da mente humana, é prato cheio, recomendo fortemente.