La vie d’Adèle (Blue is the warmest colour)

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O prazer pode ser compartilhado?

Não. “Eu não sinto o mesmo que você”. No entanto, o que sequer pode ser compartilhado foi por nós padronizado. Não vou aqui discutir a ideia do que é natural em lugar do que é padrão. Não sei como os homens primitivos transavam, mas se o homem consegue ir além do que se tem por natural – seja por qualquer razão; psicológica, sociológica ou cultural – e o padrão moral quer ater-se ao que se considera natural, isto deixa de ser natural para tornar-se padronização. Neste sentido, o natural é o mero instinto contextual.

Se você é menor de dezoito anos, sou forçado a recomendar que não continue lendo.

Por toda a introdução de “La vie d’Adèle”, vemos Adèle lutar contra esse padrão. Após ser quase forçada por seu grupo de amigas a se relacionar com um homem, assistimos ao clichê social do relacionamento: duas pessoas de personalidades opostas se “atraem”, se divertem, beijam e transam. O homem, sem se preocupar com a mulher, goza e sente prazer. A mulher, sem qualquer sinal de orgasmo, simplesmente diz que foi bom. Grande parte das mulheres – aquelas que conseguem contar o número de orgasmos que tiveram na vida – partem daí e para sempre seguem esta linha. Não estou, também, generalizando os homens. Alguns aprendem pela vida que há duas pessoas excitadas em uma transa. A questão é: se não pode ser compartilhado, o prazer é uma coincidência. Não há como padronizá-lo, cada um deve descobri-lo e, para isso, procurar por ele.

 

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Após superar o problema interno – aceitar o que sente, que o que quer está fora do padrão –  Adèle passa a enfrentar o problema externo: seu círculo social torna-se inquisitório, tratando-a como verdadeira autora de um crime. O filme aborda inclusive a diferente aceitação familiar: Adèle mente para sua família, enquanto Emma a apresenta com sinceridade. Faz uso de elementos comuns na vida de um adolescente que está se descobrindo, como música, cigarros, timidez, álcool, bem como trata em paralelo elementos além do sexo, como carreira profissional, ambições de vida e afins; comuns à fase. Abdellatif Kechiche frequentemente faz bom uso de câmeras subjetivas para demonstrar o interesse sexual das personagens de forma real, enquadrando partes não tão usuais do corpo, o que insere melhor o espectador na experiência e intensifica os momentos. O diretor não se constrange em expor os momentos sexuais das personagens, o que é um contraste também interessante: o sexo com um homem foi, para Adèle, uma completa frustração, enquanto com uma mulher, uma experiência mais intensa e verdadeira: torna-se nítido onde foi que ela realmente se descobriu, tanto nas cenas sexuais, quanto nas mudanças que se operam em seu próprio cotidiano.

 

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Dois pontos deste filme me conquistaram. O primeiro deles: não há nada como um filme que use bem silêncio e rotina para apresentar um personagem. Uma grande quantidade de filmes – inclusive muitos bons filmes – apresenta seu protagonista de forma excessivamente acelerada, com diálogos precipitados, que não se encaixam à realidade. “La vie d’Adèle” faz belo jogo de rotina e silêncio para introduzir Adèle, complementando esta climatização com algumas falas bem encaixadas. O segundo ponto: nada como um filme que não reúna uma enorme quantidade de faixas musicais que o público alvo goste e as jogue aleatoriamente para conquistar o espectador, o que é costumeiro no Cine atual (um grande exemplo disto é Watchmen – um filme que gosto -, em que Snyder produz uma ótima coletânea musical e uma trilha sonora que beira o irritante). Em “La vie d’Adèle”, a trilha atua muito bem quando tem de atuar, mas é um filme em geral bastante silencioso, o que é um choque inclusive interessante, que dá a ela poder.

 

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Apesar de ter gostado bastante do filme, não estava me sentindo bem para escrever sobre. Creio que mulheres que tenham passado pelo que o filme aborda estejam mais aptas a escrever a respeito. Por isso, resolvi conversar com uma amiga bissexual, em um relacionamento com outra mulher há quase um ano. A conversa segue abaixo:

Frances Ha

Eu sou diferente. Acredito que sempre soube que era bissexual. Meu primeiro beijo e minha primeira paixão foram com uma mulher. Mas sempre soube que também gostava de homens, sentia tesão igualmente por eles. Meu primeiro namoro foi com um homem.

Minha primeira experiência sexual foi com um homem. Sexo entre homens e mulheres é com certeza diferente, mas você pode e consegue achar uma mulher tão bruta quanto um homem na cama.

Travis

“Você pode e consegue achar uma mulher tão bruta quanto um homem na cama”. Mas então, sexualmente, você procura, inclusive na mulher, algo de masculino?

Frances Ha

Não, eu apenas sou mais submissa na cama. A questão da brutalidade não é necessariamente uma característica masculina, mas pode se dar de forma feminina, como algemar, bater, me fazer implorar para foder; enfim, apenas uma mulher mais ativa e dominante. Acho que mulheres têm o controle do sexo com homens. Pegue, por exemplo, o sexo oral. Você tem o poder sobre alguém com a boca. Agora imagine isso no sexo lésbico, com duas mulheres disputando o domínio. Isso é um bom turn-on para mim.

Travis

A velha pergunta babaca: você se sente completa, sexualmente, com outra mulher?

Frances Ha

Sexo lésbico é bom. Eu não tenho preferência, simplesmente me sinto excitada e com tesão com a pessoa que estou, independente do sexo. Acho que alguém te desejar é sexy. Eu não sinto falta de homem porque estou apaixonada e namorando uma mulher que é a única pessoa que sinto falta no momento. Acho todas as pessoas bonitas e sensuais, cada uma à sua maneira, independente de gênero. Por isso gosto de ser bissexual, porque você se apaixona pela pessoa, por quem ela é, independente de gênero. Independente de quem eu estiver amando, estarei satisfeita, seja homem ou mulher. Uma resposta babaca: sim, sexo lésbico é completo, te faz gozar sete vezes em uma noite. Que mulher não quer isso?

Uma coisa que me deixa desconfortável é o fato de algumas lésbicas não saberem lidar com bissexuais, como se elas fossem traí-las com homens. Existe um grande preconceito com bissexuais, como se não soubessem o que querem, o que é muito injusto. Se estou com uma mulher, é porque eu a quero e não sentirei falta de outra coisa, porque estou satisfeita e feliz com ela. O mesmo poderia acontecer com um homem. O amor é uma questão de afinidade e convivência. O importante é ter intimidade o bastante na cama para que ambos se sintam satisfeitos. Eu acredito que quando alguém busca por outras pessoas, seja em um relacionamento hetero ou gay, é porque algo está faltando nela.

Travis

Você acha a bissexualidade natural, que toda pessoa a cogita em algum momento? Acha que a heterossexualidade se tornou uma condicionante moral, artificial?

Frances Ha

Eu não consigo enxergar a bissexualidade senão como algo natural em mim. Não acredito em tal coisa de “é apenas uma fase”. Mesmo que atualmente estejamos e uma sociedade mais tolerante à homossexualidade, desde criança você provavelmente nascerá em um lar heterossexual que apontará a heterossexualidade como o caminho mais correto, ou no mínimo mais “natural”.  Me aceitar foi muito difícil, ainda mais em uma criação evangélica. Cresci ouvindo que algo é ruim e errado, quando hoje vejo que não tem nada de errado no amor. Se você é uma pessoa boa e gosta de uma pessoa do mesmo sexo, isso não te torna ruim ou abominável.

Eu tenho certeza de que todo mundo já sentiu aquela vontade no amigo quando está bêbado. Minhas amigas héteros sempre me pegavam em fim de balada. Muitas pessoas realmente não deixam esse lado aflorar. E acham que os gays querem transformar héteros  em homossexuais, o que é uma grande mentira. Eu mesmo me sinto muito constrangida quando chego em uma menina e levo um fora por ela ser hétero, pela possibilidade dela me interpretar de forma errada.

Travis

Você acha que muitas pessoas se tornam infelizes e não encontram quem realmente são por preconceito interno?

Frances Ha

Sim. Acho que a pessoa não querer se aceitar deve ser a pior parte do processo. Quantos casos de homens que têm famílias – esposas e filhos – e casos paralelos com outros homens, porque apesar de amarem suas esposas, aquilo não é o que verdadeiramente são. As pessoas não deveriam fingir serem outras pessoas para serem aceitas pelos outros. Elas precisam aceitar que não há problema em achar alguém do mesmo sexo lindo e querer aquilo para si. É um corpo como o seu, inclusive uma forma de amar e conhecer melhor a si mesmo. É um tabu parecido com a masturbação: conheço muitas mulheres que não o fazem e tratam a masturbação como se fosse algo errado, enquanto para meninos de 14 anos isso já é normal. É como se a mulher devesse ser reprimida e acaba não conhecendo bem seu próprio corpo.

Travis

Seguindo a mesma lógica, você acha que o mesmo ocorre com pessoas que têm fetiches? Não encontram seu verdadeiro prazer sexual por constrangimento?

Frances Ha

Acho que pode ser visto dessa forma, mesmo porque o sexo é muito íntimo. Você pode ser tímido nas relações sociais, mas o sexo não é um momento para timidez. Você precisa se soltar. Mas não aceitar que façam com você algo com que você não se sinta confortável. As pessoas de sub/dom precisam encontrar parceiros para os quais tenham chance de mostrar isso sem serem julgados. Precisam saber que tudo é muito natural e deve ser aceito. Se alguém tem um fetiche e está com uma pessoa que não gosta disso, provavelmente será infeliz, sentirá falta disso. É como uma pessoa que é homossexual, sente isso por dentro, mas leva uma vida com um parceiro de outro sexo, apenas para se ajeitar aos costumes, mas no fundo, sei lá, vê um porn gay escondido. A única pessoa prejudicada no final da história é aquela que não consegue aceitar seus prazeres e vê-los de forma natural. Com certeza levará uma vida frustrada. Você nunca será tão feliz quanto uma atendente de Sex Shop.

Travis

É engraçado. Boa parte das pessoas se adequam aos padrões morais esperando assim serem aceitos e levarem uma vida feliz. Mas, ao contrário, deixam de encontrar quem realmente são e experienciar o que realmente querem. Isso me lembra de uma cena de “Easy Rider”, na qual o personagem de Jack Nicholson explica aos dois viajantes que as pessoas em geral os odeiam porque odeiam a liberdade que eles têm. Não é que toda pessoa tenha de ser bissexual, mas não vejo por que um heterossexual deva odiar uma pessoa de opção diversa. Você acha que, de certa forma, essas pessoas odeiam a liberdade que os bissexuais têm? O fato de eles terem enfrentado todo o preconceito e encontrado quem verdadeiramente são? Por fim, acha que, por todo tabu que existe – embora esteja diminuindo – em sequer cogitar essas opções sexuais, existem pessoas que são homossexuais/bissexuais e não sabem disso?

Frances Ha

Eu não sei se eles odeiam a questão da liberdade. Acho que eles têm medo de compreender como uma pessoa pode gostar das duas coisas, se é que me entende. Para eles é mais fácil falar que é um indeciso, porque a mentalidade das pessoas pode ser muito pequena quando elas querem. Se você gosta de uma coisa, você é isso. Mas não pode gostar de duas coisas ao mesmo tempo. Para elas é como se fosse impossível gostar de doce e salgado ao mesmo tempo.

Acho muito difícil uma pessoa não saber que é homossexual/bissexual. É algo que você nota, inevitavelmente. Eu descobri que era bissexual com 13 anos, e não precisei ficar com ninguém para ter certeza disso. Eu sabia que achava mulheres gostosas quando vi a Natalie Portman em Star Wars. Mas queria pegar o Anakin, também.

Travis

Mas a Natalie Portman não é um ponto neutro? Toda pessoa nesse planeta deveria querer transar com ela, não? Estou confuso.

Frances Ha

Hahaha não existem pontos neutros. Se uma mulher sente tesão na Natalie Portman e quer foder com ela, ela não deveria ser considerada bissexual ou homossexual?

Travis

Se uma mulher não sente tesão na Natalie Portman, ela pode ser considerada morta. É tudo o que tenho a declarar.

Enfim. Algum comentário final? Quem sabe uma experiência sexual, pra dar ibope ao blog?

Frances Ha

[censored] (sorry guys :/)