South Park vs Scientology

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De um lado, a Cientologia. Religião para os Estados Unidos, Itália, África do Sul, Suécia, Holanda, Nova Zelândia, Portugal e Espanha. Na Austrália, sob o nome de Igreja da Nova Fé. Empresa para a Suíça. “Culto” para os chilenos. “Culto totalitarista” para Alemanha e Bélgica. “Culto perigoso” para os franceses. Nada próxima de religião para os russos.

Do outro lado, South Park. Animação criada por Trey Parker & Matt Stone. Atualmente em sua décima sétima temporada, com contrato até a vigésima. Transmitida pela Comedy Central, mas que angariou fãs pela MTV ou pelo extinto Locomotion. Criada após os virais “Jesus vs. Frosty” (1992) e “Jesus vs. Santa” (1995), que juntos formavam o “The Spirit of Christmas”. Ambas animações em cutout animation (animação de recortes), formato esteticamente mantido pela série, produzida a partir de um software que a simula. Enfim, South Park em uma declaração:

“And hearing other people say ‘You can’t do that,’ – you can only say ‘you can’t do that” so many times to Matt and me before we’re gonna do it’.
Trey Parker

Fundamentada no best-seller norte-americano “Dianetics: the modern science of mental health”, de L. Ron Hubbard, a Cientologia sugere uma forma de cura aos tormentos da mente  que consiste na exposição e remoção de traumas passados. A origem e conceito destes fatos passados foi condensada por Hubbard na ideia de “Thetan”. Embora julgar-se religião, a cientologia passa uma imagem de maior base científica em sua liturgia; como expõem os criadores de South Park, mais próxima de uma alternativa à psicologia do que, propriamente, uma religião.

Não à toa, South Park e Cientologia se encontraram. De um lado, um desenho que desafia qualquer censura ou padrão de moralidade. Do outro, um grupo – seja lá como você considera – cuja reputação é de completa intolerância a insultos, críticas e ironias. Que não apenas utiliza-se excessivamente do meio legal, mas vai além dele, adentrando o campo do assédio para intimidar e frear seus adversários. Fora as grandes lendas, como a de utilização de técnicas de hipnose para controle autoritário sobre seus membros, a Cientologia, gasta um valor estimado – pela Times Magazine – de 20 milhões de dólares anuais com ações jurídicas. Acontece que não apenas para buscar a justiça ao caso ou garantir a liberdade religiosa de seus membros. O grupo frequentemente se utiliza dos meios legais para, inclusive, assediar, intimidar ou esvaziar seus inimigos.

“The purpose of the suit is to harrass and discourage rather than win. The law can be used very easily to harass, and enough harassment on somedbody who is simply on the thin edge anyway, well knowing that he is not authorized, will generally be sufficient to cause professional decesase. If possible, of course, ruin him utterly”.
L. Ron Hubbard: the scientologist, a manual on the dissemination of material, 1955

Do início ao fim, abordando quatro episódios específicos, assim foi uma das maiores polêmicas de South Park, que tem seu ápice em “Trapped in the Closet”, nono episódio da décima segunda temporada:

!Contém Spoilers dos seguintes EPS!
S05E03 – “Super Best Friends”
S09E12 – “Trapped in the Closet”
S10E01 – “The return of Chef”

 

The Gauntlet – MTV Movie Awards, 2000

Tudo Começou. A primeira referência de South Park à Cientologia aconteceu neste curta especialmente produzido para o MTV Movie Awards de 2000. Parodiando o filme “The Gladiator”, nossos quatro amigos de Colorado estão sendo perseguidos por Russell Crowe pelo Coliseu quando são salvos pela Cientologia, liderada por John Travolta (que é membro da [?]Igreja). No curta, os integrantes do grupo estão caracterizados como os Psychlos de “Battlefield Earth”. Apenas Kenny não resistiu.

 

Super Best Friends – Season 5, Episode 3, 2001

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Bom. Neste terceiro episódio da quinta temporada de South Park – “Super Best Friends” -, David Blaine seduz nossos amigos com sua nova seita – a Blaintology -, a qual convence, através de perguntas retóricas, compreender a infelicidade das pessoas, prometendo ajudá-las. Após abandonar a seita, sem conseguir convencer Kyle a segui-lo, Stan recorre a seu amigo Jesus, cujos famosos truques aparentemente não mais funcionam dois mil anos depois de serem consagrados. Para vencer David Blaine, Jesus reúne os Super Amigos: Buddha, Muhammad, Krishna, Joseph Smith, Lao Tzu e.. Seaman. Liderados por Moisés, os Super Amigos partem para impedir o suicídio coletivo dos seguidores de David Blaine, manifestação para forçar o governo a fornecer isenção fiscal à Blaintology. David Blaine acaba por dar vida à estátua de Abraham Lincoln, que passa a destruir a cidade. Sem encontrar recursos para derrotá-la, os Super Amigos consultam seu líder, Moisés, que aponta a solução: uma estátua de John Wilkes Booth.

Não estou bêbado.

 

Trapped in the Closet – Season 9, Episode 12, 2005

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Neste episódio, ápice da polêmica, Stan, economizando dinheiro para comprar uma nova bicicleta – talvez porque a cientologia tenha atropelado sua antiga no EP de que falamos anteriormente -, faz um teste de personalidade gratuito oferecido pela Cientologia e descobre, novamente através de perguntas retóricas, que é completamente infeliz. Para solucionar seus problemas, Stan usa suas economias para tornar-se membro da Cientologia. Ao passar pelo exame pra descobrir seu nível de Thetan, porém, descobrimos que Stan é, na verdade, a reencarnação de L. Ron Hubbard e deverá agora guiar a Cientologia e retomar as obras de LRH.

Depois de ouvir a doutrina da Cientologia narrada pelo presidente, Stan retoma os escritos. Mas não pode fazê-lo em seu quarto: depois de desprezar Tom Cruise  como ator, este se tranca em seu armário and won’t come out of the closet. Tentando convencê-lo, John Travolta e R. Kelly acabam gostando de ficar por lá, também. Lembremos que Tom Cruise e John Travolta estão na lista dos famosos membros da Cientologia. E R. Kelly… fez a obra rap “Trapped in the Closet” que, se eu fosse você, ouviria antes de ver o EP. E veria os clipes. De verdade.

Enfim, Stan retoma a doutrina e seus escritos agradam o Presidente. Exceto em um ponto: ao sugerir que os membros não mais tenham de pagar para participarem, Stan provoca sua ira, momento em que o presidente o questiona se realmente acredita naquelas bobagens, ou como tirarão dinheiro das pessoas sem que elas paguem para participarem.

Por fim, embora Stan pareça conformar-se com o exposto pelo presidente, ao discursar para o público, acaba voltando atrás, afirmando não ser a reencarnação de L. Ron Hubbard e tratar-se a Cientologia meramente de um golpe em escala global. Sofrendo ameaças dos membros – ninguém pode fazer piadas com a Cientologia -, do presidente – que sentiu-se caluniado por Stan quando este o acusou de tê-lo dito pessoalmente que a Cientologia tratava-se de um golpe – e, claro, de Tom Cruise, já que o falso profeta o fez sentir-se um merda, Stan fecha o episódio gritando, well.. Ok, good. Do it. I’m not scared of you. Sue me.

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Segundo Parker, o que os impedia de dedicar todo um EP a parodiar a Cientologia até então era a presença de Isaac Hayes – voz de Chef e membro da Cientologia – no programa. Mas quando Penn Jillette contou a Parker & Stone que foi impedido de abordar a Cientologia em “Bullshit!”, não faria sentido que South Park não falasse a respeito. Penn Jillette, além de ilusionista, é conhecido por seu grande ceticismo. Ao cogitar abordar a Cientologia em “Bullshit!” – seu programa de televisão com Raymond Joseph Teller – acabou frustrado pela Showtime, temendo os famosos processos judiciais de que falamos no começo. Foi então que Parker proferiu o que, em parte, foi transcrito no início do texto:

“We’re going. That’s fucked up. And hearing other people say, ‘you can’t do that’ – you can only say ‘you can’t do that’ so many times to Matt and me before we’re gonna do it. Finally, we just had to tell Isaac, ‘Dude, we totally love working with you, and this is nothing personal, it’s just we’re South Park, and if we don’t do this, we’re belittling everything else we’ve rippeod on'”

O EP apresenta, de forma caricata e debochada, as supostas crenças da Cientologia, sempre afirmando, em legenda, que this is what scientologists actually believe. Acontece que Mark Ebner – jornalista investigativo, um dos autores do livro “Hollywood Interrupted” e dono de site homônimo, com notícias nada agradáveis sobre o mundo das celebridades – afirma que Nada do que você vê aqui é sequer um pouco exagerado. De verdade. No supracitado best-seller, que traz uma visão alternativa sobre a cultura das celebridades de Hollywood,  o autor faz uma pesquisa sobre a Cientologia para abordar seus efeitos na cultura Hollywoodiana. A obra conta, inclusive, com uma entrevista com Trey Parker.

 

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Isaac Hayes, de fato ofendido pelo episódio, rescindiu seu contrato em 13 de março de 2006, pouco antes do retorno da animação em sua décima temporada. Ele próprio afirma ter sido motivado pelo desrespeito da série às crenças religiosas – não dirigindo-se em específico à Cientologia. Como ativista político por quarenta anos, Hayes declara insustentável sua permanência na série.

“Religious beliefs are sacred to people and at all times should be respected and honored. As a Civil Rights activist of the past 40 years, I cannot support a show that disrespects those beliefs and practices”.

A contradição quase cômica do discurso de Hayes foi levantada por Stone em declaração ao New York Post. O Co-criador de South Park aponta que em dez anos e mais de cento e cinquenta episódios de South Park, Hayes nunca viu qualquer problema no fato de a série debochar dos cristãos, islâmicos, mórmons ou judeus. Mas repentinamente ficou extremamente sensível a deboches religiosos quando estes passaram a envolver suas crenças.

In 10 years and over 150 episodes of South Park, Isaac never had a problem with the show making fun of Christians, Muslims, Mormons or Jews. He got a sudden case of religious sensitiviy when it was his religion featured on the show”.

O QI de Hayes adentraria o campo patológico se, de fato, não houvesse percebido o humor negro de South Park com os judeus. Que trabalhava em uma animação em que Jesus tem um talk show e Moisés é um grande cone laranja e amarelo. E Maomé já foi um super-herói. Na sétima temporada, inclusive, South Park já havia feito um episódio em semelhante modelo, mas em relação aos Mormons (“All about Mormons”, S07E12). Vai precisar de uma desculpa melhor, Isaac.

 

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“Trapped in the closet” foi ao ar pela primeira vez em 16 de novembro de 2005. Tinha uma reprise programada para 16 de março de 2006 mas, sem qualquer aviso prévio, o EP foi substituído por “Chef’s Chocolate Salty Balls” (S02E09). Embora o Comedy Central insista que a razão seja a saída de Hayes do programa, Mark Ebner afirmou – através de seu supracitado site Hollywoodinterrupted, coro posteriormente reforçado pela CNN & FOX News – que a substituição teria se dado, na verdade, por ameaças de Tom Cruise à Viacom de que não cumpriria com seus compromissos de marketing na divulgação de “Mission: Impossible III”. A Viacom detém controle de, dentre diversas outras emissoras e produtoras, Comedy Central e Paramount Pictures (que produziu o MI3). Em entrevista à ABC, Tom Cruise expõe sua visão orkutiana sobre o assunto:

                “First of all, could you ever imagine sitting down with anyone? I would never sit down with someone and question them on their beliefs. Here’s the thing: I’m not even going to dignify this. I honestly didn’t really even know about it. I’m working, making my movie, I’ve got my family. I’m busy. I don’t spend my days going ‘what are people saying about me?'”

Em outras palavras:

But I’m not.. I’m not in the closet”.

Em meio às ameaças de fãs de South Park em boicotar MI3, em apoio à animação e repudio à censura à reprise do EP, Parker & Stone soltaram a seguinte nota, publicada através da Variety:

So, Scientology, you may have on THIS battle, but the million-year war for earth has just begun! Temporaly anozinizing our episode will NOT stop us from keeping Thetans forever trapped in your pitiful man-bodies. Curses and drat! You have obstructed us for now, but your feeble bid to save humanity will fail! Hail Xenu!!!”
Trey Parker and Matt Stone, servants of the dark lord Xenu

 

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“Trapped in the Closet”, e toda sua polêmica, entrou para o TOP 100 episódios da história da TV Guide, elaborado em 2009. Sobreviveu à censura, entrando normalmente para o box da nona temporada de South Park e indo ao ar pela Comedy Central por diversas vezes após a polêmica. Recebeu uma indicação ao Emmy Award (“Outstanding Animated Program (for Programming less than one hour”), que acabou perdendo para “The Seemingly Never-Ending Story”, de Simpsons, mas que gerou o anúncio acima, publicado também na Variety, pela Comedy Central (que, por si só, já é melhor do que qualquer categoria do Emmy).

 

The Return of Chef – Season 10, Episode 1, 2006

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Felizmente, neste episódio, não há referências à cientologia. O episódio começa com um flashback de um EP que não existiu, com Chef abandonando South Park para viajar pelo mundo com seu grupo de aventuras, o “Super Adventure Club”. Os quatro amigos estão arrasados. A cidade se despede de Chef. Ninguém sabe o que será de South Park sem ele. Isaac Hayes já não está neste episódio. Todas as falas de Chef são feitas por recortes de palavras em falas de episódios anteriores.

Finda a apresentação, Chef volta a South Park. Aparentemente encontrou uma forma de conciliar seu novo grupo e seus velhos amigos. Mas algo está errado. Chef volta com comportamento, well.. Pedófilo. Os garotos não vêem outra explicação, se não o tempo que Chef passou com seu grupo…. o “Super Adventure Club” e, portanto, vão investigá-lo.

Descobrem que o “Super Adventure Club” é um clube de pessoas que viajam pelo mundo molestando crianças. Mas o “Super Adventure Club” não o faz simplesmente  porque it feels really really really really good, conta-nos William P. Connelly. O clube foi fundado pelo maior aventureiro de todos os tempos.. William P. Phinehas. Phinehas nunca conseguia ser o primeiro a chegar nos locais mais ermos do planeta. Portanto, decidiu ser o primeiro a fazer sexo com as crianças nativas destes locais. Phinehas descobriu que as crianças possuem “Marlocks” em seus corpos, e, segundo Bethos, o adulto que transa com crianças se enche de Marlocks e se torna imortal. Phinehas viveu viajando ao redor do mundo e molestando crianças, sendo imortal até 1892, quando foi atropelado por um trem. This is what Super Adventure Club actually believes.

Imagem 5Bethos, the ruler

Após recusarem o convite para se tornarem membros do “Super Adventure Club” e resistirem à hipnose de William P. Connelly para aceitá-lo, os amigos constatam que Chef só faz parte do grupo e se tornou um pedófilo porque sofreu lavagem cerebral por seus membros. As crianças, seguindo o conselho de um psicólogo, levam-no a um prostíbulo, onde Chef é curado por uma mulher, bem… ao melhor estilo Chef.

Mas logo após ser curado, Chef é sequestrado pelo Super Adventure Club e a lavagem cerebral é novamente iniciada. Após descobrirem o segredo do Super Adventure Club – e se safarem de serem expulsos pelo segurança em situação de grande constrangimento -, os meninos salvam Chef.

No momento da fuga, porém, Chef se vê no centro de uma ponte, tendo de escolher entre South Park e o “Super Adventure Club”. Ao optar pelo Super Adventure Club, um raio cai na ponte. Chef pega fogo. Tentando se manter pendurado nela, é atingido por uma pedra. Quicando pelos rochedos, cai em um galho de árvore, que o atravessa. É devorado por um leão da montanha. Atingido por alguns tiros. Um urso pardo aparece. Defeca nas calças. E morre.

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Por fim, Kyle faz um discurso sobre como Chef foi uma parte importante da vida dos moradores de South Park. Que por mais que não concordem com suas decisões, eles não podem deixar que isso faça com que as grandes lembranças com Chef desapareçam. E que não deveríamos ficar putos com Chef por abandonar South Park, mas sim com o “Super Adventure Club” por mexer com sua cabeça. Kyle lembrará de Chef como o cara sempre bem-humorado, com alguma música para cantar e os melhores conselhos para as crianças.

Quando penso neste último episódio, várias coisas vêm à cabeça. Como Isaac Hayes se sentiu ao vê-lo. O fato de que, no fim, fora todo humor, Parker & Stone realmente sentiram a saída de Hayes do programa. Não só a perda de um personagem que todo fã de South Park tanto gosta, mas o abandono de uma figura importante e integrada ao desenho, inclusive no background. Seu resultado – pela opção de Hayes, Tom Cruise e postura da Cientologia – foi mais uma mancha na história do grupo de Hubbard, uma perda lastimável para South Park e, tenho absoluta certeza, Isaac Hayes. Analisá-lo é perceber que não há, nunca, fundamento na censura. A censura carrega consigo sempre como pressuposto a ideia de que as pessoas não possuem capacidade intelectual própria para filtrar o desinteressante. E ainda que isto fosse verdade, a censura não seria a melhor solução. I’ve learned something today, Kyle.

 

Se você gostou do texto, alguns links interessantes/que reforçam as informações:

http://web.archive.org/web/20070502161400/http://www.men.style.com/gq/features/full?id=content_4108&pageNum=1

http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/03/17/AR2006031702158_2.html

http://writ.news.findlaw.com/hilden/20051206.html

http://variety.com/2006/scene/news/inside-move-south-park-feeling-some-celeb-heat-1117939918/

http://www.cs.cmu.edu/~dst/Fishman/time-behar.html

 

Lost in Translation & Her

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Por que não podemos suportar a solidão? Uma pergunta circunstancial, de diversas tonalidades, capaz de parar o mundo em qualquer circunstância.

 

Fazer o café às cinco da manhã. Minha mesa no trabalho. A primeira vez em que cheguei ao apartamento e minha gata não estava na porta. Olhar o céu pela janela do meu quarto, à noite. O colégio. Dirigir na chuva pela primeira vez. Colocar a cabeça no chuveiro da casa dos meus pais, com eles viajando. O mês seguinte à mudança de cidade do meu melhor amigo. A vista do MAM em Niterói, à noite, durante os dias de semana. O quarto dos meus avós no carnaval. A cadeira do Cinema, antes de começar o filme. Meu quarto quando meu irmão se mudou. Chegar em casa após a primeira vez em que fui a um bar sem companhia. Tirar a aliança. Um livro de madrugada com o dimmer baixo. Procurar distância de um grupo de amigos para fumar, após uma risada.

A solidão não é ruim. É o medo do perpétuo que a estraga. O prazer de subir em arranha-céus e admirar a paisagem urbana. À distância. Onde ninguém pode nos ouvir. Mas de onde temos certeza de que a cidade ainda está lá. A vida em sociedade, em sua rotina, é um sacrifício para evitar o insuportável.

Em coletivo, formamos nossas ambições e competimos profissionalmente. Mas não é tudo o que nosso estilo de vida nos traz. Construímos nossa ideia de amor e profundidade psicológica no Cinema, em nossos livros e nas grandes histórias de que ouvimos falar. Assim nos formamos, assim nos distanciamos. A vida se torna cada vez mais imaginária. Somos bons nisso. São grandes e belas ideias. É o meio de criamos coisas que nos dão prazer diariamente, das quais gostamos muito. Mas estamos todos sozinhos. Esperando que as coisas aconteçam como idealmente desejamos.

“But men labor under a mistake. The better part of the man is soon plughed into the soil for compost. By seeming fate, commonly called necessity, they are employed, as it says in an old book, laying up treasures which moth and rust will corrupt and thieves break through and steal. It is a fool’s life, as they will find when they get to the end of it, if not before

(…)

Actually, the laboring man has not lesure for a true integrity day by day; he cannot afford to sustain the manliest relations to men; his labor would be depreciated in the market. He has no time to be any thing but a machine. How can he remember well his ignorance – which his growth requires – who has so often to use his knowledge?”.
Henry David Thoureau – “Walden; or, Life in the Woods”

Embora teoria de cinéfilos, inquestionavelmente, “Lost in Translation” (2003), escrito e dirigido por Sofia Coppola, e “Her” (2013), escrito e dirigido por Spike Jonze, comunicam-se. Ambos filmes têm a mesma temática central: a solidão.

!!Contém Spoilers!!

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Em 2003, Charlotte, interpretada por Scarlett Johansson, sente-se sozinha em seu casamento com John, à época, fotógrafo, trabalhando com músicos, em boa fase de sua carreira (Em semelhança a John, Spike Jonze dirigiu quarenta e quatro clipes musicais nos 90s e até o fim de seu casamento com Sofia, em 2003). Não só por isso. Aparentemente seu círculo social soa plano para ela, recém-formada em filosofia e com todas as possíveis interrogações sobre si mesma. Perdida em Tóquio – uma cidade do futuro para o presente -, caminhando como uma estranha em uma cidade à qual não pertence, em meio a uma vida à qual parece também não pertencer. É lá que Charlotte conhece Bob Harris – interpretado por Bill Murray -, um ator em idade que lhe possibilita maior certeza sobre seus “pessimismos”.

 

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Em 2013, Theodore é um escritor de cartas pessoais de terceiros. Vivendo sozinho em uma cidade caracterizada como um futuro próximo, o personagem interpretado por Joaquin Phoenix tenta deixar para trás um casamento fracassado. Encontra suporte em um OS, software desenvolvido para se adaptar ao ser humano por ele contratado e ajudá-lo com suas tarefas, bem como fazê-lo companhia. A quem empresta voz Scarlett Johansson, substituindo de última hora Samantha Morton.

 

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Em “Lost in Translation”, Sofia Coppola expõe a solidão quase como um privilégio dos que vão além ao refletirem sobre a própria vida, por vezes apoiando seus personagens na fragilidade dos demais. Seu marido a abandonou, seu círculo social é banal. Ao final, porém, a própria diretora se entrega à banalidade. Um dos elementos que torna o filme interessante é o fato de o espectador não entender – assim como Bob – o que há entre os personagens, provocado em boa parte pela diferença de idade entre eles. Tal diferença é o que soa como a maior das barreiras entre dois personagens em sintonia. Embora não fiquem juntos, o beijo joga o filme à velha banalidade de comédias românticas de que não importa o quão diferente você seja ou o quão perdido você esteja, things are going to work out. Por mais que não tenham ficado juntos, e suas vidas aparentemente sigam como antes, a consumação é uma desnecessária entrega à vontade regular do espectador.

 

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A solidão de “Her” não despreza os terceiros. Abordando a solidão que é comum à nossa sociedade, Spike Jonze insere Theodore em um contexto, sem a arrogância do egocentrismo. Em seus diálogos com Samantha – o OS -, o diretor parece expor seus sentimentos e pensamentos durante a crise de seu casamento e o período posterior, de aceitação. A grande beleza do filme é que o diretor suporta o recado a ele dado sem reagir com rancor ou arrogância. Em uma obra de caráter mais introspectivo, o personagem relembra os bons momentos com sua esposa, reconhece e lamenta seus erros. O passado é uma história que contamos a nós mesmos. Trata-se do primeiro filme dirigido e escrito em solo por Spike Jonze, que firmou parceria em dois de seus quatro filmes com Charlie Kaufman. Este, por sua vez, escreveu e dirigiu seu primeiro filme em 2008: “Synedocche, New York”, o qual foi produzido e, inicialmente, seria dirigido também por Spike Jonze. Sobre esta obra [sensacional], assim declarou o diretor ao The Guardian:

“On Synechdoche, New York, which I was originally going to direct, he [Kaufman] said he wanted to try to write everything he was thinking about in that moment – all the ideas and feelings at that time – and put it into the script. I was very inspired by that, and tried to do that in [Her]”

 

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Spike Jonze e Sofia Coppola permaneceram casados entre 1999 e 2003. Embora a conexão de “Lost in Translation” com o relacionamento seja mais clara por questões temporais, “Her” parece também remeter a ele. Fora as proximidades entre os filmes – e inclusive as semelhanças entre a caracterização de Giovanini Ribisi e Spike Jonze, bem como a de Rooney Mara e Sofia Coppola -, o fato de “Her”, com toda sua pessoalidade, remeter a um casamento fracassado e o casamento de Spike Jonze com Sofia Coppola ter sido o único do diretor já nos remete obrigatoriamente a ele. O filme não foi necessariamente construído como resposta a “Lost in Translation”, mas sem dúvidas o responde.

“Her” não deve ser visto, porém, como uma resposta objetiva a “Lost in Translation” ou ao término, estritamente. Relaciona-se à vida pessoal do diretor neste sentido, mas não resume-se a isto. Em reflexão sobre a sociedade contemporânea, Spike Jonze conversa conosco sobre a nossa solidão. Seu personagem diz mais do que suas reflexões sobre o relacionamento com Sofia Coppola em concreto; passando por ele, é uma reflexão sobre a própria vida do diretor, incluindo sua profissão. They’re just letters. Trata-se de um mundo onde as pessoas formam suas próprias ilhas.

Em meu dia-a-dia, quando estou em locais em que não me sinto bem, ou meramente quando estou indo de um lugar para outro, pego-me entrando no universo que existe em meu celular. Por vezes em rodas de conversa, quando encontro espaço para tanto sem soar deselegante. Às vezes mesmo soando mal. E ainda que não o faça, penso no quão bom seria fazê-lo. Não que não haja inúmeras vantagens, mas em alguns momentos paro para pensar naquele pouco – aleatório e em potencial – que estou perdendo; alguns segundos que poderiam se tornar mais importantes para mim do que um tweet ou e-mail.

A internet nos introduz a um universo no qual podemos com maior facilidade encontrar as pessoas que se encaixam à vida que desejamos, com as quais podemos conversar e compartilhar as coisas que nos interessam e formar com elas a vida que imaginamos. À medida que nos desenvolvemos, nos afastamos mais das pessoas de nosso cotidiano e nos abrigamos em nosso próprio casulo, onde formamos caminhos que condizem melhor com o que pensamos. O diferente se torna cada vez mais escasso frente às nossas crescentes certezas, porque não mais somos obrigados a conviver com ele. Isto não nos planifica? Este mecanismo que se encaixa com perfeição à rotina profissional de uma sociedade competitiva não parece tão benéfico em nossas experiências pessoais.

Toda informação a que temos acesso instantâneo realmente funciona a nosso favor?

Estamos crescendo ou nos tornando grandes pessoas solitárias, presas na trilha das ideias a que nos acostumamos?

De lado todas as razões, todos nós temos uma certeza: estamos, mais do que nunca, sós.

 

 

Pra escrever, li dois artigos bem legais:

http://whatculture.com/film/10-ways-lost-translation-connected.php

http://cinemania.es/noticias-de-cine/es-her-una-carta-de-spike-jonze-para-sofia-coppola

Como foi o Oscar 2014 e suas principais categorias

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Como vocês podem perceber – especialmente pelo rosto de Julia Roberts -, people had a great time at the Oscars this year. Aparentemente para se conduzir uma boa cerimônia não basta encontrar um bom host(ess) – como tivemos neste ano, com Ellen Degeneres -, mas a presença de bons filmes também é necessária (e esteve escassa nas últimas edições, especialmente 2012 e 2013).

A noite de Gravity (sete estatuetas) foi roubada no momento decisivo por “12 Years a Slave”, que acabou levando por Melhor Filme, o que foi um susto embora não haja sido propriamente uma surpresa.

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Em Gravity, Cuarón alcançou uma ótima experiência de Cinema, que não poderá ser recuperada pelos que estão atrasados, exceto aqueles que possuam uma sala particular para reprodução. Visto em sua sala de televisão, “Gravity” provavelmente será o grande whattafuck deste Oscar. Não à toa, visto que Cuarón simplesmente esqueceu-se da parte chamada “roteiro”, Gravity é um filme tecnicamente admirável, uma experiência diferenciada para o espectador, mas nem de longe um bom filme. Por isto, vencedor de prêmios majoritariamente técnicos, ou de arte estética (Cinematography, Directing, Film editing, Music – Original Score, Sound Mixing, Visual Effects), “Gravity” não levou, felizmente, Best Picture.

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Se a Academia foi feliz em não dar “Best Picture” a “Gravity”, isto não significa que tenha sido feliz em dá-lo a “12 Years a Slave”. Percebam, antes que se exaltem: escolhi uma foto com Benedict Cumberbatch. C’mon, you know you like me right now. O inesperado do Oscar não foi, porém, uma surpresa: “12 Years a Slave” é um filme pensado em Oscar, começando no roteiro, passando pela montagem e parando por um bom tempo no casting. Enquanto em “Django Unchained” Tarantino dá tapas na cara do público adulto norte-americano, “12 Years a Slave” conta a escravidão para um adolescente velho demais pra ouvir os eufemismos de sempre e novo demais para se assustar em demasia. É um filme para as pessoas tomarem café e discutirem sobre os absurdos da história norte-americana sem sujarem demais os próprios olhos. Enfim, um filme que se passa no período de escravidão e não estragará sua noite. Lupita Nyong’o, porém, que nada tem a ver com a produção, direção e roteiro do filme, pode ficar feliz por brindar sua bela atuação com seu Oscar (Actress in a supporting Role).

Falando em atuação, muitos atores e atrizes têm razão o bastante para acordarem tristes hoje. No caso dos meninos, porque a categoria este ano estava difícil e seria impossível que ganhassem todos os que mereciam o prêmio. No caso das meninas, porque estava fácil de decidir e, se a coisa tá fácil, é porque não está boa.

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Sequer as polêmicas ao redor de Woody Allen e sua filha Dylan Farrow foram bastantes para tirar de Cate Blanchett este Oscar de Best Actress in a leading role. Atrás dela, o fantasma de Amy Adams (American Hustle). Cate Blanchett conseguiu, em um dos filmes mais “sem sal” de Woody Allen dos últimos anos (“Blue Jasmine”), preencher o difícil papel de Jasmine. Como Best Supporting Actress, Lupita Nyong’o era favorita absoluta e levou com justiça.

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Actor had some tough calls this year, ma friends. Enquanto todos os protagonistas foram bem, inclusive Di Caprio com sua melhor atuação desde o início de sua parceria com Scorsese, McCounaughey acabou por levar, com todos os méritos, Best Actor in a Leading Role. Boa parte das grandes qualidades de “Dallas Buyers Club” deve-se às atuações, e a Academia reconheceu isso ao conceder também a Jared Leto o prêmio de Best Actor in a supporting role. Embora tenha concorrido com figuras como Bradley Cooper – que ninguém nunca saberá explicar por que foi indicado ao prêmio -, concorreu também com atores como Jonah Hill, que teve ótima atuação em “The Wolf of Wall Street”. Aparentemente o elenco de “Dallas Buyers Club” desbancou por completo os caras de Marty.

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Let’s take a momento pra falar sobre “The Wolf of Wall Street”, embora já tenha falado o bastante sobre ele aqui. O filme recebeu cinco Indicações (Best Picture; Actor in a leading role; Actor in a supporting role; Directing; Writing, adapted screenplay) e acabou levando: zero. Muitas das estatuetas, assustadoramente justas. Cuarón realmente arrebentou em “Gravity”, bem como McCounaughey e Jared Leto em “Dallas Buyers Club”. Embora não tenha sido também meu filme favorito do Oscar 2014 (Fico com “Her”, do Spike Jonze), creio que “The Wolf of Wall Street” merecesse “Best Picture”. No conjunto, é o filme mais completo deste Oscar. Uma pena que saia de mãos abanando.

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Falando em filme favorito do Oscar, a suposta resposta de Spike Jonze a Sofia Coppola (“Lost in Translation”) rendeu a Spike Jonze não só o Oscar de Best Writing (Original Screenplay), como também a maior injustiça do Oscar 2014. Music (Original Score) não só deveria ir para “Her” (William Butler & Owen Pallett), como não deveria ir pra Gravity ainda que “Her” nunca houvesse sido feito. A bem da verdade, o vencedor da categoria não é sequer o segundo melhor dos indicados. O próprio experiente John Williams em “The Book Thief” teria sido o bastante para bater “Gravity”. Uma lástima.

Falando em música, a vitória de “Let it Go” (“Frozen”) – executada por Idina Menzel e de autoria de Kristen Anderson-Lopez & Robert Lopez – deixou todo mundo feliz por não ter de ouvir Bono Vox discursar. Não, não, não.. Obrigado a vocês, guys, de verdade.

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Por fim, “La Grande Bellezza” (Italy) levou Best Foreign Language Film, sobre o qual já escrevi Aqui.

 

 

Enfim, assim ficou o Oscar 2014:

Gravity
Directing (Alfonso Cuarón)
Cinematography (Emmanuel Lubezki)
Film Editing (Mark Sanger & Alfonso Cuarón)
Music – Original Score (Steven Price)
Sound Editing (Glenn Freemantle)
Sound Mixing (Skip Lievsay, Niv Adiri, Christopher Benstead, Chris Munro)
Visual Effects (Tim Webber, Chris Lawrence, David Shirk, Neil Corbould)

12 Years a Slave
Best Picture
Best Actress in a supporting role (Lupita Nyong’o)
Adapted Screenplay (John Ridley)

Dallas Buyers Club
Best Actor in a leading role (Matthew McConaughey)
Best Actor in a supporting role (Jared Leto)
Makeup and Hairstyling (Adruitha Lee, Robin Mathews)

The Great Gatsby
Costume Design (Catherine Martin)
Production Design (Catherine Martin, Beverley Dunn)

Frozen
Animated Feature Filme (Chris Buck, Jennifer Lee & Peter Del Vecho)
Music – Original Song (“Let it Go” – Kristen Anderson-Lopez & Robert Lopez)

Her
Original Screenplay (Spike Jonze)

Blue Jasmine
Best Actress in a leading role (Cate Blanchett)

La Grande Bellezza
Foreign Language Filme (Italy)

20 Feet from Stardom
Documentary Feature (Morgan Neville, Gil Friesen, Caitrin Rogers)

The Lady in Number 6: Music save my life
Documentary Short Subject (Malcolm Clarke, Nicholas Reed)

Mr. Hublot
Short Film animated (Laurent Witz, Alexandre Espirares)

Helium
Short Film – Live Action (Anders Walter, Kim Magnusson)

 

 

A lista completa de indicados e vencedores, você encontra aqui.

Esta não é uma review de “La Grande Bellezza”

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Uma noite em que tudo soa como preto e branco. Saindo de um Cinema de rua, cuja sessão os já poucos presentes abandonaram pela metade. Vestindo um casaco para evitar a chuva, o que é reflexivo e ilógico para quem não só queria, como esperava e torcia por enfrentá-la. Acendo um cigarro, não sei se para evitar o sensorial exaltado ou para inibir a confusão mental entre o perdido e o quebra-cabeças de ideias desorganizadas, frequente pela objetividade da rotineira linguística. O que eu escreveria após “2001: a Space Odyssey”?

Há dezesseis anos entrava pela primeira vez em uma sala de Cinema. Acompanhado por meu pai, preparava-me para ver um filme que entrava em cartaz com atraso que não incomodava à época como incomoda hoje; a não ser pela ansiedade, em lugar do orgulho. Era o Cine Rio Branco, em Varginha (MG). Famoso por supostamente possuir a maior tela da América Latina. Hoje fechado. A lenda não precisa de comprovação em minha memória; é tão verídica quanto meus olhos infantis rolando pelos lados, nunca fixos: era impossível, para mim, captar toda a imagem sem movê-los. Por vezes perdia diálogos e rostos e me flagrava observando objetos inúteis pelo cenário. Ainda não consegui livrar-me deste vício de primeira experiência. Ainda não quis livrar-me dele. O Titanic a que assisti em 1998 não é o mesmo a que assisti mais de uma década depois (2012), em seu relançamento em 3D. O Titanic que assisti naquele dia era um amontoado de detalhes, cujo enredo central pouco importava. Como pessoa fotográfica – que nunca esqueceu um rosto sequer em toda sua vida -, assusta-me o fato de não lembrar-me de uma pessoa sequer daquela sessão. Não lembrar-me se meu pai estava de barba, como estava seu cabelo e como transpirava seu humor. Pouco lembro de minha absorção do roteiro da obra à época. Lembro-me vividamente, porém, da interação da plateia. Da posição em que sentávamos em relação ao filme. Da pipoca que comia enquanto observava apaixonado perdidos objetos trivais para a obra. Senti-me, naquele dia, nada envolvido na história de amor central do filme, mas sim um terceiro passageiro do navio, calado, seguindo sua viagem, assustado pela situação. Construí minha própria história. E assim descobri, realmente, a sétima arte. Maior do que qualquer coisa que eu já havia visto na televisão, porque o Cinema – o ato de frequentá-lo – era sensorial e subjetivo. O filme não era. O filme seria o que meu estado de espírito ao entrar na sessão moldaria sobre o que me era dado. Por isso, detestei por muito tempo boa parte dos cinéfilos e nunca consegui encaixar-me em rodas de Cinema. Conhecer novas opiniões sobre um filme é, para mim, tão adorável quanto descobrir um novo universo. Principalmente sobre os filmes que detesto. Não consigo lidar com pessoas que busquem uma análise objetiva, terminando seu trabalho após “captar a essência e a verdade indiscutível” sobre uma obra. É sempre melhor não entender um filme, à sua maneira.

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Compreender nossa obsessão linguística pela que talvez seja a arte de maior potencial estético da história da humanidade é como tentar decifrar uma loucura de sua própria mente. Embora utilize-se da linguagem, o Cinema raramente é admirado pela abstração, subjetivamente, como se admira um quadro ou uma paisagem. Um filme que nos desperte sensorialmente não pode ser bom se não está preenchido linguisticamente, ou se ao menos não pode ser decifrado desta forma. É uma de nossas grandes tolices. Em seu produto final, a arte é tão bela quanto a ciência. Mas seus intermediários são completamente diversos. A arte é uma formação sensorial de resultado subjetivo. Não precisa, embora possa optar por, passar pelos caminhos da argumentação para justificar o que produz. Assim como você não tem o direito de delimitar quem você é e fazer com que os outros o engulam, sequer o autor tem o direito de delimitar sua obra. Não há, na arte, verdade. Há verdades.

“2001: a Space Odissey” foi, neste sentido, meu primeiro desafio. Não no sentido de tentar captar sua verdade absoluta. No sentido de, além do sensorial encantador, compreender o que me despertava. Sonho, desde 1998, em trabalhar com Cinema. Assim como sonho em me tornar escritor, ou como sonhei em ser músico. Não há contradição: não considero-me perdido, considero-as facetas de um mesmo sentimento. Nunca pensei, porém, que um dia escreveria sobre obras alheias. O fantasma de “2001: a Space Oddyssey” despertou em mim no exato instante em que aceitei o convite para criar este blog. Sempre soube que nunca poderia escrever sobre alguns filmes; não ao menos no encaixe estrutural que conhecia. A ideia de começar um projeto que envolvesse escrita e impessoalidade era, para mim, como desenvolver uma vida baseado em uma mentira.

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Vá ao Cinema, sente-se e assista a “La Grande Bellezza”. Incline-se a deixar-se levar. Descubra o que a obra o provoca. O que significa no contexto de sua pessoa. Não deixe que o filme acabe quando sair da sessão, mas mantenha o que sensorialmente lhe foi despertado e o continue. Reserve uma noite em branco, vá a um cinema incomum, deixe para decidir o que fazer nesta noite somente após a sessão. Assim como o cerne da mensagem de filmes como Fellini 8 1/2 não reduz e nem concentra o poder do filme, há muito mais por trás de “La Grande Bellezza” do que se transcreverá por aí.

O que posso dizer é que, assim como aconteceu com vários dos filmes que me tocaram realmente, em pouco tempo me esquecerei do que se trata, propriamente, “La Grande Bellezza”. Mas jamais esquecerei do sentimento que se formou na noite em que o assisti.