“In your Eyes” (2014) – A Comédia Romântica de Joss Whedon

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Por que você não sabe por que está se sentindo assim? Porque não se conhece tão bem, ou por não termos um mapa perfeito da mente humana?

E se, por alguma razão – qualquer razão -, você estiver conectado a alguém lá fora? Alguém que você nunca sequer tenha visto e, talvez, nunca chegue a conhecer? Não estou falando de amor, sequer de amizade, mas de um vínculo incompreensível e acima da razão. E se essa fosse a verdadeira explicação para aqueles weird feelings que você ocasionalmente sente, e que vêm do nada?

 

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Logo após sua estreia mundial na semana passada, pelo norte-americano Tribeca Film Festival, “In Your Eyes” – novo filme de Joss Whedon – já está disponível, por $5,00 dólares, no Vimeo e em seu Site Oficial.

Após escapar das garras de diretores comerciais que, segundo o próprio roteirista, levavam seus roteiros às ruínas, Joss Whedon nos presenteou com obras como a série “Buffy, the Vampire Slayer”, bem como os recentes “The Avengers” (2012) – o qual também dirigiu -, e “The Cabin in the Woods” (2012), uma parceria de sucesso com o diretor estreante no Cine Drew Goddard (que já havia trabalhado com Whedon em Buffy), o qual Whedon descreveu como “a loving hate letter” aos horror films (altamente recomendável aos fãs do gênero, aliás).

Desta vez, com “In your eyes”, Whedon apresenta ao público uma.. comédia romântica. O que é irônico, mas nem tanto. Adentrando o gênero tão lucrativo a Hollywood, casa do arquétipo de diretores de que tanto reclamou, Joss Whedon mostra que é possível dar um tom diferente ao gênero, ainda que não escape completamente de seus clichês defeituosos.

A grande qualidade do filme está em sua construção, com dois protagonistas que se conectam por razões não apenas sobrenaturais. Dois outsiders, incompreendidos em seus círculos sociais, Dylan (Michael Stahl-David) é um ex-presidiário em condicional, cuja personalidade é planificada por Giddons (Steve Harris), seu agente de condicional, enquanto Rebecca (Zoe Kazan) é casada com Phillip (Mark Feuerstein), um atribulado médico que parece confundir “cuidar de sua esposa” com adequá-la às demandas objetivas de sua vida social. Fora essas similaridades, estes personagens possuem uma espécie de conexão telepática desde a infância, sendo capazes não apenas de ver através dos olhos do outro ou se comunicar, mas também de compartilhar – nem sempre de forma voluntária – sentimentos.

Whedon nos apresenta aos personagens de forma sutil e desenvolve seu envolvimento com bastante sensibilidade, sem deixar de lado o humor que é marca de sua obra. Passamos pela confusão dos personagens enquanto não compreendem bem o que são essas sensações e visões esporádicas que sentem, até o contato direto. A inicial apresentação sutil de suas características essenciais se desenvolve para o espectador à medida que são apresentadas por eles próprios um ao outro, de forma a acompanharmos de forma integrada a relação que cresce entre eles.

Em mais uma ousada empreitada de Whedon, “In your Eyes” é uma comédia romântica que não se confunde com as demais ordinárias, produzidas em massa na indústria hollywoodiana. Embora trilhe, a partir de certo ponto, caminhos bastante similares, tem em sua construção a sensibilidade diferenciadora de um bom e experiente roteirista, bem como direção bastante peculiar ao gênero.

Os custos do indie movie estão estimados em 1 milhão de dólares, um cachê intermediário a produções hollywoodianas e alternativas. Produzido em parceria pelas Night and Day Pictures e Bellwether Pictures – esta, fundada pelo próprio Whedon e sua esposa, Kai Cole -, é mais uma tentativa de distribuição direta entre autor e público, o que é sempre uma boa motivação para receber nosso suporte. And Joss Whedon really wants you to watch it:

Mistaken for Strangers, de Tom Berninger

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O The National disponibilizou no dia 28 de março, em seu site oficial, o documentário “Mistaken for Strangers”, por $15,00 dólares. É difícil imaginar outro documentário que retrate tão bem o National quanto este, que, no fim, não é um documentário sobre a banda.

“Mistaken for Strangers” é um excelente desarranjo sobre os artistas que são, os que serão e os que nunca conheceremos. A ideia não é estranha para os membros de uma banda com pouco apelo comercial que se formou em 1999, produziu e lançou seu melhor álbum em 2005/2006 (“Alligator”), começou a conquistar seu espaço somente em 2007 com o lançamento do “Boxer”, o qual se consolidou com o “High Violet” (2010) e se expandiu com o “Trouble will find me” (2013). Em seu show em São Paulo (2011), lembro-me de Bryce Dessner anunciando “Lucky You” (última faixa de “Sad songs for dirty lovers”) como a única música na qual sua mãe gostava da voz de Matt. Lembro-me de pensar no National –  enquanto ouvia o “Alligator” e, principalmente, o “Boxer” – como a excelente banda que nunca sairia do underground (possivelmente a ingenuidade de quem não conhece bem o mercado musical).

Se por um lado está o National, uma banda atualmente consolidada, com todos os méritos imagináveis, de outro lado está Tom Berninger, irmão do front man da banda, um artista perdido, já em idade de mostrar resultados, com um futuro obscuro pela frente (posição nada estranha para os membros da banda). Em seu curriculum, aparente headbanger e produtor de filmes de terror amadores.

Sob o aspecto secundário, temos um documentário que demonstra como o National, frente ao sucesso atual da banda, mantém seu feeling “homemade” e de proximidade. Por um lado, uma referência musical internacional. Por outro lado, uma banda que ainda carrega uma intimidade e a sinceridade que teve em toda sua carreira. Em uma de suas cenas, temos a manager do National  – Dawn Barger – pedindo para ver as filmagens de Tom, por precaução, dando o tom de profissionalidade – bem nítido na postura de Brandon Reid, tour manager da banda e vilão do documentário – que contrasta em aparência com o som, a carreira e até mesmo o que conhecemos em vídeos e imagens do background da banda. Cena que entrou no documentário e, vista em seu contexto, nos faz ter ideia amadora de que o National sequer precisa de um manager, ao menos no fronte do marketing. Demonstra, enfim, que a banda teve duas características essenciais para sobreviver no mundo musical, e que a princípio são quase inconciliáveis: o profissionalismo e a manutenção da espontaneidade. A banda trabalhou para chegar onde está, mas não deixou seu trabalho desvirtuar-se pelo objetivo.

Há, claro, seu lado cômico. Com um Tom Berninger inexperiente e perdido fazendo perguntas aleatórias aos membros da banda (como a Scott Devendorf: se os membros da banda carregam suas carteiras quando estão no palco). É uma oportunidade de ver o cara que termina todo show bêbado de vinho, caindo pelo palco – quando não na plateia -, tirar a longneck de cerveja das mãos de seu irmão porque you drink all the time, you don’t know when to stop.

Em superfície, “Mistaken for Strangers” é um documentário excessivamente centrado na vida pessoal de Matt Berninger e Tom Berninger, bem como na relação de ambos. Os demais componentes da banda chegam a comentar sobre o possível incômodo no foco das atenções em Matt Berninger (não apenas no documentário em si). A fundo, trata do perigoso mundo da música. Sobre os caras que estão por aí tentando encontrar seu espaço e sobreviver disso, e seus grandes borrões distorcidos e indistinguíveis como futuro.

As oportunidades do mundo da arte são extremamente oscilantes, seja pela área escolhida (música, pintura, cinema) e os altos custos nela envolvidos, seja pela demanda do público e o caráter empresarial que a reveste e sustenta, seja pela qualidade. Ainda a todos estes itens já suficientemente voláteis, soma-se o elemento mais incontrolável da vida: a sorte, o acaso. Em si, a manifestação artística é um risco, não sendo, portanto, de se espantar – embora não seja desejável ou justifique -, que a vida de um artista também o seja. Mas estas pessoas andam por aí, mantendo vivo o que não é a obviedade, pagando o preço com suas próprias vidas. Tom Berninger é um destes caras, que está tentando se expressar verdadeiramente, sem pular etapas, à seu risco. E é o principal motivo pelo qual você deveria assistir a “Mistaken for Strangers”.