Praia do Futuro: trilhando e distorcendo o caminho aberto por La Vie d’Adèle

Imagem 1

O Cine LGBT está em voga. Embora o próprio nome seja ainda um resquício de preconceito, é uma fase necessária à libertação cultural: filmes que abordam as diversas opções sexuais em lugar tratá-las todas como tão ordinárias quanto a heterossexualidade, o que de fato são. As produções não são recentes, mas o papel do vencedor da Palma de Ouro de melhor diretor (Abdellatif Kechiche) e atrizes (Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux) “La vie d’Adèle”, sobre o qual escrevi aqui, tem um papel crucial neste foco. E diante de sua razoável – tendo em vista a temática – aceitação pela crítica e, inclusive, pelo público, seria quase inevitável que outros filmes seguissem pelo caminho aberto pela obra.

!CONTÉM SPOILERS!

B025_C054_0402B0

Em “Praia do Futuro”, dirigido por Karim Aïnouz, escrito por este em parceria com Felipe Bragança, Donato (Wagner Moura), um salva-vidas na chamada Praia do Futuro, em Fortaleza, após tentativa infrutífera de resgatar um de dois turistas que se arriscam em seu mar, em meio à perturbação e sensação de impotência advindos da frustração, adentra em um romance com o sobrevivente, Konrad (Clemens Schick), relacionamento que acaba o levando a Berlin, onde, sem dominar o idioma e culturamente isolado de seu habitat natural, divide-se entre a sensação de solidão e a completude de um amor conflituoso por sua própria natureza. Sua posterior opção por Berlin resulta também em um abandono à sua mãe e seu irmão, Ayrton (Jesuita Barbosa), que posteriormente vai ao encontro do irmão em Berlin, sentindo-se abandonado e evidentemente confuso diante não apenas da opção sexual e do abandono de seu irmão, mas também pelo novo mundo cultural alemão a que foi exposto.

Imagem 2

“Praia do Futuro” propõe-se a apresentar a visão masculina sobre a homossexualidade: não há personagens femininos atuantes no filme. Mesmo a mãe, que poderia acrescentar papel de peso à obra, sequer tem alguma aparição. Propõe-se a tanto, mas passa longe de qualquer êxito.

Em “La vie D’adèle”, conforme a resenha que sugeri em supra, Abdellatif nos insere à perspectiva de Adèle, utilizando-se de um composto técnico que vai do visual, passando pela trilha sonora e montagem, que se soma ao roteiro para nos inserir à sua rotina, à sua experiência heterossexual, sua descoberta homossexual e transtornos no tocante à autoafirmação social de sua condição. Em verdade, “La vie D’Adèle” é não apenas um filme completo, mas ousado e visualmente interessante. Todos seus elementos se integram e funcionam para seu propósito.

Em “Praia do Futuro”, as coisas acontecem. E nós engolimos todas as alterações, esperando a substância. Da cena em que os protagonistas se conhecem, há um corte brusco para uma cena de sexo entre eles. Depois de alguma interação vaga, eles estão em Berlin. Após algum conflito, por lá se estabelecem. Então, Ayrton está em Berlin e o filme fecha com um recado aparentemente profundo sobre os personagens. O roteiro não se fundamenta, os personagens não se apoiam em nada sólido senão na fé do espectador de que são profundos por alguma razão, como se a natureza de seu relacionamento fosse o bastante; mantém-se na superficialidade. No sentido técnico, é um apanhado do Cinema Europeu jogado às telas aleatoriamente, sem funcionar com qualquer propósito à trama. Se as cenas de sexo em “La vie D’adèle” chocam, são ousadas, também funcionam no sentido de demonstrar a diferença abismal entre a frustração da experiência heterossexual e a descoberta do prazer e do amor na experiência homossexual. Em “Praia do Futuro”, as cenas sexuais homossexuais são tratadas com naturalidade, o que é uma qualidade, mas não funcionam para a discussão de gênero. Tem-se, portanto, que se visto sob a perspectiva do Cine LGBT a que me referi a princípio – de discussão da sexualidade -, trata-se de um filme fraquíssimo. Se visto sob a perspectiva de um drama que trata a homossexualidade como elemento comum e indiferente, é também uma obra fraquíssima sob o aspecto dramático.

Imagem 4

Pouco depois de referida aceitação e sucesso de “La Vie d’Adèle”, assim como obras artificiais como “12 Years a Slave” – completamente projetado e planejado visando o Oscar e a lucratividade, aproveitando-se de um tema importante e o tratando de forma completamente rasa e insatisfatória -, “Praia do Futuro” é um filme mal planejado para o Cinema Europeu, para conquistar espaço em festivais europeus, não visando propriamente a lucratividade, mas o espaço em si, a visibilidade que proporciona aos autores.

Não adentrará o mundo europeu. Viveremos esta rotineira ideia de preconceito com o Cinema Brasileiro. Quando este preconceito é, na verdade e há muito tempo, nada mais do que ausência de autocrítica.

Trailer

“Les Revenants”: a continuidade dos Zombie Movies

Imagem 1

A série francesa “Les Revenants”, criada em 2012 por Fabrice Gobert, inspirada no filme homônimo de 2004, de Robin Campillo, é não apenas a melhor zombie series da atualidade, mas um passo diferenciado no mundo do gênero.

Em meu primeiro texto ao Catárticos – sobre a série “The Walking Dead” -, fiz uma introdução à história dos zombie movies, abordando as principais características comuns aos bons filmes do gênero. Convido-o a ler esta introdução para compreender por que considero, a despeito da natureza dúbia dos que retornam da morte, ambos filme e série uma continuidade deste consagrado gênero.

Imagem 2

A série se baseia em um filme homônimo de Robin Campillo, de 2004. No filme, as pessoas que morreram recentemente retornam à vida com uma personalidade apática, discernimento questionável, mas aparente capacidade motora regular. Diferente da série, “Les Revenants” de Campillo assume a perspectiva dos vivos face à tragédia. Sutilmente, porém, o diretor nos indica que os “mortos” não se resumem à apatia indicada pelos pesquisadores – que, à medida que procuram saber mais sobre eles, progressivamente os segregam. Neste sentido, marcou-me a cena em que Mathieu (Jonathan Zaccaï) – um dos que retornaram -, em conversa íntima com Rachel (Géraldine Pailhas), sua esposa, alega estar com calor, interrompendo o momento íntimo entre eles para um mergulho. Em seguida, um corte para a visão subjetiva dos balões de temperatura instalados pela cidade – a temperatura corporal dos que retornaram mantém-se em média inferior à dos vivos -, indicando que a temperatura corporal de Mathieu continua inferior à de Rachel: aparentemente não era o calor que o levava a querer mergulhar, embora, pela supracitada perspectiva adotada pelo autor, não possamos saber exatamente o que se passa por sua cabeça.

Retirando o gore tradicional aos zombie movies, Campillo discute o tema central do gênero; exatamente o oposto do que ocorre na incorporação ao Cinema Comercial, o qual opta por suavizar e profissionalizar o gore e não absorve o propósito central, sem o qual não há qualquer sentido (a incorporação do gore a grandes produção já não faz qualquer sentido). Aborda questões sociais diante do retorno dos mortos, a segregação direta e indireta produzida pelo medo do diferente, sendo este por si só suficiente, ainda que não haja exatidão sobre sua consistência. Conecta-se aos filmes do gênero também no sentido da formação subjetiva do espectador: a linearidade dos acontecimentos – o concreto do enredo – não é tão importante quanto as ideias que se formam em sua cabeça em relação às situações postas. Conecta-se de forma limitada a “Incidente em Antares”, de Érico Veríssimo, tendo em vista que em seu livro, Veríssimo utiliza-se do realismo fantástico em tom não só sociológico, mas também conectado a uma realidade histórica e social específica, enquanto “Les Revenants” não se vincula a uma realidade histórica, explorando o ser humano em abstrato.

Les Revenants

“Les Revenants” é a série que deveria ter surgido há muito tempo, em lugar de séries como “The Walking Dead”, a partir do momento em que o público geral passou a se interessar pelos gêneros proibidos dos 70s & 80s. Com uma climatização próxima a “Twin Peaks”, de Lynch, embora não assustadora, prenderá o espectador a um mundo do qual não sairá automaticamente ao final de um episódio. Em lugar do medo ou do susto, Fabrice Gobert opta pelo assustador, pelo sombrio, inserindo o espectador ao mundo que inspirou, optando pela sensação de medo de forma constante e climatizada em lugar de utilizar-se de picos de adrenalina. Tal climatização conta, ainda, com composição da trilha sonora do Mogwai (a qual você pode ouvir na íntegra, gratuitamente, aqui).

Imagem 3

Ao contrário de Campillo, Gobert opta por adotar ambas perspectivas, inserindo-nos também à perspectiva confusa dos mortos frente ao seu retorno, à sua natureza e como se inserem na sociedade diante da situação. Sem esquecer por completo a abordagem social do filme e até então exposta, opta por dar enfoque ao drama, o que é necessário à continuidade de uma série, ao menos a longo prazo. Opta por construir histórias paralelas, como uma forma de apresentar melhor os personagens, para depois entrelaçá-las, construindo o drama. Como se passa em uma pequena cidade nas montanhas, não só a climatização, mas o entrelace das situações paralelas entre os personagens também é facilitado e funciona bem.  A adoção de ambos lados da história atua lado a lado com a complexidade dos conflitos: o espectador não é um terceiro que sabe como as coisas deveriam desenrolar e torcem para tanto; conhecemos os dois lados, compreendemos a razão que há em ambos e, no entanto, nas situações pessoais específicas, são inconciliáveis. Todo este mix torna o drama de “Les Revenants” profundo e interessante, fugindo do entretenimento sem esforços e sem acréscimos.

Com a recente morte de Gabriel García Márquez, um dos pais do realismo fantástico, é curiosa a coincidência de um resgate a um filme de 2004 para a construção desta série, que teve sua segunda temporada recentemente adiada para 2015. “Les Revenants” é a continuidade lógica dos zombie movies para esta era da queda de barreiras preconceituosas com o trash dos 70s & 80s, absorvendo o discurso ao drama profundo e bem climatizado, em lugar de explorar o gore como se fosse uma obrigação ou um band-aid que esconda o fato de que aquela obra é baseada comercialmente em algo que se tem atualmente como cool e pode ser rentável.

 

Trailer do Filme

Trailer da Série

“Tomorrow Night” – O indie film de Louis CK.

Imagem 1

A série “Louie”, de Louis CK – sobre a qual escrevi aqui -, retorna no dia 5 de maio para sua Quarta Temporada, no FX. Não é, porém, a primeira vez que Louie aposta na inovação para suprir cachês. Recentemente disponibilizado em seu site oficial por $5,00 dólares, “Tomorrow Night” (1998) é o primeiro trabalho de Louis CK como roteirista e diretor em simultâneo.

O filme gira em torno de dois personagens principais: Charles (Chuck Sklar) é o misantropo dono de uma loja de fotografia. Apesar do ofício próximo ao campo artístico, Charles é um homem frio e estritamente racional, sempre tentando encontrar paciência para seus necessários clientes. Mel (J. B. Smoove), seu carteiro folgado e bem humorado, é o mais próximo de um amigo que possui, por visitar diariamente sua loja e insistir em estabelecer contato, embora sempre frustrado. De outro lado, Florence (Martha Greenhouse) é uma idosa refém de um casamento com Lester (Joseph Dolphin), um lunático completamente sádico, por vezes caricato, por vezes assustador, por vezes ambos. A pobre Florence espera há vinte anos ser salva por seu filho, Willie (Greg Hahn), que se alistou no exército e nunca mais fez contato.

Imagem 4

Embora em início de carreira à época, struggling comedian and TV writer, juntando suas economias – e as economias alheias – para este filme de 1h27min em P&B, filmado em 16mm, Louie conta com um excepcional círculo de amigos para executar sua ideia. Além dos supracitados Chuck Sklar – que escreveu para, dentre outros shows de humor, “The Chris Rock Show”, atualmente parte da equipe de escritores de Totally blased with W. Kamau Bell, do FX -, J. B. Smoove – Leon Black em Curb your Enthusiasm (série de Larry David, co-criador de Seinfeld) -, Martha Greenhouse – atriz de novelas e séries como Law & Order, além de líder sindical, falecida em 2013 – e Greg Hahn – stand-up comedian -, conta também com participações como de Steve Carell (em um papel excepcionalmente babaca, sensacional para fãs de The Office US), Conan O’Brien, Jim Earl, Todd Barry & Nick Dipaolo (que interpretam a si mesmos em “Louie”), Deanna Storey (que está em “Synecdoche, New York”, primeiro filme escrito e dirigido por Charlie Kaufman), Rick Shapiro, Robert Smigel (escreveu para o SNL e Late Night with Conan O’Brien), Heather Morgan e Wanda Sykes (The New adventures of old Christine e também em Curb your Enthusiasm). E a lista continua; o elenco completo, desde os mais obscuros coadjuvantes, é interessante. Inclusive, se você é fã de Parks & Recreation – que conta com participação especial de Louie -, se assistir com atenção, poderá ver uma cena completamente nonsense com Louis CK molhando Amy Poehler com uma mangueira.

Imagem 3

Em “Tomorrow Night”, encontramos desde o humor pastelão, que nos faz gargalhar, até o humor refinado, que nos leva no máximo a sorrir, além, é claro, do humor completamente nonsense, todos comuns em “Louie”. Sua trilha sonora é também próxima a “Louie”, oscilando entre o orquestrado e jazz. É interessante, ainda, que o filme, em 1998, satirize de forma pesada o casamento por conveniência. Louie se divorciou de Alix Bailey apenas em 2008, dez anos depois, o que mostra que o tema tão exaustivamente por ele abordado possivelmente não está conectado exclusivamente ao seu divórcio (aos 10 anos, Louie enfrentou também o divórcio de seus pais).

Não há nada de excepcional em “Tomorrow Night”, embora um filme bastante acima da média para um primeiro projeto alternativo de um stand-up comedian autodidata no campo da direção. Se você gosta de “Louie”, porém, com certeza entenderá o que está acontecendo por trás deste filme simples, babaca, mas, ao mesmo tempo, por diversas vezes um grande desabafo, como a própria série. E nada como aquecer para o dia 5 com um filme de 98 do Louie, não?