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Boyhood: um legado sincero de um fragmento de vida em um fragmento de espaço e tempo

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O tempo é um abismo.

Macroscopicamente, podemos traçar uma linha direta entre uma pessoa e seu destino final. Em um microscópio, estamos todos subjetivamente perdidos. Quando pensamos em nossas vidas, não olhamos para trás. Nos equilibramos em uma tênue corda, observando o caos que construímos abaixo de nossos pés. Sob essa perspectiva, o tempo e a expectativa de futuro nada mais são do que o medo do desequilíbrio.

Desconhecemos quem somos. Aonde estamos indo. Quais são as conseqüências.

“Boyhood” é, para uma geração – ou um conjunto delimitado delas –, o momento em que você olha para baixo e observa seu próprio abismo.

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Produzido em parceria da IFC Film Production – produtora norte-americana de filmes independentes como “Y tu mamá también” (Alfonso Cuarón), “Fahrenheit 9/11” (Michael Moore), “Paranoid Park” (Gus Van Sant), “Antichrist” (Lars Von Trier), “La vie d’Adèle” (Abdellatif Kechiche) – e Detour Filmproduction – produtora do próprio diretor –, “Boyhood” é um projeto conduzido por Richard Linklater entre maio de 2002 e outubro de 2013, com estreia no Sundance Film Festival de 2014.

O filme conta com os mesmos atores, cujo corpo central trata-se de Ellar Coltrane, Lorelei Linklater, Ethan Hawke e Patricia Arquette, interpretando seus personagens ao longo destes aproximados 12 anos de produção e, portanto, os enfrentando e construindo ao longo da passagem do tempo.

Linklater recebeu da IFC Film Production apoio financeiro de U$200.000,00 anuais, totalizando U$2.400.000,00, o que, somado ao investimento de sua própria produtora, totaliza um budget estimado de U$4.000.000,00. A obra possui duração aproximada de 165 minutos.

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Quando se pretende retratar uma geração, não necessariamente descarta-se da abordagem o que há de permanente, o que é inerente às pessoas. Em lugar, há preocupação em incluir as especificidades, ainda que uma boa abordagem não deixe de demonstrar a interação destas com o que há de imutável. Ocorre que, se não podemos reviver uma estória pessoal, muito menos uma geração pode contar a outra um momento. Mesmo no meio artístico, enfrentamos o problema da objetivização do passado. Um período de tempo será retratado com seus melhores e piores aspectos. É como imaginar uma vida em um mundo pós-filtro, em que exista apenas o que há de bom ou o que há de destaque específico ao tempo. Selecionar o modo de vida para retratar um período através de contrastes é deixar de abordar a sua manifestação da vida cotidiana, o que é um dos aspectos mais interessantes e viáveis para compreendê-lo.

Este erro não ocorre apenas no aspecto material de um filme. São incontáveis as obras que retratam períodos de tempo em que só o extraordinário do meio musical daquele recorte temporal existe em suas trilhas sonoras, apenas o caricato comportamental habita em seus personagens, que só vestem o corte extravagante e o tom desarmônico de cor de sua geração.

Em lugar de criar um épico caricato de uma geração, Linklater optou por representá-la através de um remendo de curtas materialmente conectados, construídos como despretensiosos “filmes da semana”, com uma trilha sonora composta – não em sua integralidade – por músicas da semana, enquadrando em seu cotidiano a literatura e os jogos ocasionais ou as discussões políticas sob a ótica de uma mesa de jantar.

Escondida nesta desconstruída aparência de planificação, porém, opera a grande sensibilidade do diretor; seja enquanto Mason apaga a progressão de sua altura pintada na parede de sua primeira casa ou enquanto tem sua frustração por perder seu prometido carro substituída pela explicação de seu pai sobre o “Black Album”, dos Beatles, estamos completamente imersos nesta Obra e, a partir de então, mergulhados em nosso próprio passado. As sensações provocadas pelo filme são como guias da memória em nosso interior e, em parte, “Boyhood” se torna um detalhe enquanto revisitamos nossa própria trilha do tempo.

Ademais, a própria direção cresce muito na progressão do filme. Resta refletir se isto se trata de um reflexo do aprimoramento do próprio Richard Linklater no decorrer do tempo ou, ao contrário, trata-se de uma evolução – ao menos aparente – do Cinema médio no decorrer dos passados doze anos.

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Muitas das principais especificidades desta geração foram abordadas por Linklater com grande sucesso.

Ao pretender retratar a família nesta geração, não abstraindo o conceito da concretização prática majoritária, mas da especificidade expressiva, o resultado inegavelmente seria uma família fragmentada. Trata-se da era em que o conceito tradicional do instituto familiar, inegavelmente, foi às ruínas. Qualquer movimento mal fundamentado que lute por ele não passa de gritos contra a inafastável dinâmica do tempo, e o autoritarismo não é o bastante para enfrentar o cessar do momento que propicia a consolidação de uma ideia. A família da Obra, em sua gênese, é baseada nos pais de Ethan Hawke (44 anos) e do próprio Linklater (54 anos), o que nos leva a crer que, por ser um conceito que tão bem se encaixa à geração que cresceu durante a própria produção do filme, não se trata de um movimento recente, mas de uma realidade que há gerações perde sua força. Ainda não possuímos uma resposta ao novo conceito do instituto familiar, mas atualmente já temos plena consciência das limitações a ele impostas que não mais se sustentam.

Neste aspecto, aliás, fica bem demonstrada a sensação de que as transições sociais que deveriam ser naturais sofrem graves restrições inerentes ao autoritarismo e conservadorismo das gerações anteriores, que se julgam sábias, mas se compõem majoritariamente de pessoas sem maturidade suficiente para observar as novas gerações e renovarem-se no caminhar do tempo – o que não é o caso de todos os personagens retratados. Neste sentido, toda geração passa por algo próximo a um parto para escapar das garras estagnadas da anterior. Como o próprio Mason dispõe, estas pessoas que o deixam bastante irritado sequer percebem que estão tentando controlá-lo. O autoritarismo, o machismo, a hierarquização obrigatória da idade, são regras presentes e eventualmente excepcionadas nesta Obra, como o são em realidade.

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Outras especificidade indispensável no retrato a que se propõe a obra e, neste sentido, presente e muito bem abordada, é o pragmatismo social, que se inicia na educação e deságua na alienação do trabalho. A possível maior revolução de nossa geração.

No trabalho, esta já começou. O trabalho como valor em si já foi descartado. A ideia de ocupar as pessoas com empregos que simplesmente não servem para nada – ou seja, a esmagadora maioria dos empregos de nossa sociedade –, escalonados unicamente pela apreciação financeira a eles atribuída, escolhidos pela capacidade de compra de bens de curta duração a eles inerente, em lugar de deixá-las naturalmente encontrar o caminho em que bem se enquadram, sem preconceitos ou saltos desproporcionais, já é presente. Pode-se dizer que “Walden; or, life in the woods”, de Thoreau, é cada vez menos uma obra fantasiosa e progressivamente mais uma filosofia de ordem prática no pensamento contemporâneo.

Desde o princípio, o filme aborda a limitação do ensino, atuando mais pela adaptação social do que pelo desenvolvimento individualizado. As diferenças de tratamento e interesse dispensados para os irmãos é a complacência da sociedade a esta infeliz ideia. Igualmente, o brusco corte entre as idades favorece a ilustração do trabalho como um fator neste sentido; temos, por exemplo, o rígido salto de um artista em potencial procurando sua forma de contribuir para a Arte que lhe interessa para um jovem padronizado lavando louças por profissão. De fragmento a fragmento, o filme expõe fatores que buscam conformar a vida dos personagens a uma expectativa de normalidade e abafar o que há para ser descoberto na existência de cada um. O pragmatismo exigido pela sociedade é o principal deles. Na balança da sociedade contemporânea, o prático, por mais burlesco ou inútil, sempre superará o existencial. A vida é um valor que só se percebe em detalhes.

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Ao contrário da convicção de que a obra se comunica bem com a geração que representa e as gerações que tangencia, só poderemos saber se a experiência de Linklater em retratar um fragmento de vida em um fragmento de espaço e tempo funciona para as gerações seguintes no futuro. De lado isto, se a dúvida é o suficiente para exaltar o experimentalismo do projeto, a forma como o filme nos toca é o bastante para afirmar que o diretor acertou mais uma vez e “Boyhood” é uma boa forma de deixar que o momento nos colha.

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