MALBA, Le Parc Lumière (Julio Le Parc) e La Casa (Gustavo Fontán)

Imagem 1Siete Ultimas Canciones, Guillermo Kuitca

O medo de sucumbir à pressão de aceitar seu desencontro.

Estava prestes a explodir quando pousei em Buenos Aires. Um dia a mais de trabalho poderia ter me matado. Um dia a mais pensando na graduação na qual, embora me interesse, não vejo um futuro profissional que me atraia. Convivendo com a confusão do futuro.

Dividi um apartamento em Buenos Aires com um amigo peruano que havia conhecido por uma noite em São Paulo, com o qual havia desenvolvido um forte vínculo. Ainda no taxi entre o aeroporto e o studio que havíamos alugado, senti-me invadido pela atmosfera da cidade. Mas a cada ponto turístico, a sentia distanciar-se cada vez mais. O prazer que encontrava nos detalhes que não me cercam em meu cotidiano dava lugar às imagens que acidentalmente vemos em cartões postais.

Posteriormente, um amigo brasileiro que, coincidentemente, estaria em Montevideu no mesmo período, decidiu passar alguns dias com a gente. Lembrei-me, então, de que havia me interessado por um dos lugares recomendados no Guia da Folha: o Museo de Arte Latinoamericana de Buenos Aires (MALBA), que oferece uma programação muito variada de Cinema argentino e europeu.

 

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Neste dia, substituímos os objetivistas taxis por uma longa caminhada, por incontáveis blocos, nos guiando pelo celular e pela pequena noção que havia desenvolvido nos poucos dias anteriores em que estive na cidade. Passei a senti-la novamente. Caminhando por uma cidade, em um ponto aleatório, seja central ou periférico, desde que não destinado exclusivamente ao turismo, percebe-se seus detalhes cotidianos próprios. E como brasileiro, não acostumado a me vestir de forma a tolerar o frio das ruas e, simultaneamente, a temperatura amena dos interiores, percebi pelo caminho que, ao retirar o casaco, estaria completamente inadequado para frequentar um museu, usando uma camisa simples com uma estampa de Nosferatu, um dos meus favoritos do Expressionismo Alemão. Adentrar o MALBA, porém, fez com que eu percebesse, de imediato, meu engano. Logo no interior, recebi o recado de sinta-se como quiser, goste do que lhe atrair.

 

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Na exposição “Le parc Lumière”, de Julio Le Parc, todo o mal-estar que se formava na viagem se converteu em um imenso vazio. Caminhei pelas salas escuras deixando que o visual dissipasse meus pensamentos e me transportasse pela composição caótica de luzes e espelhos que se encaixavam ao subjetivo de meu campo sensorial. Foi uma experiência intimista, por vezes claustrofóbica, por vezes abstrata. Cada ponto de cada sala escura formava, para cada um, um universo distinto e próprio, uma infinidade de sensações próprias e inomináveis. Perder-se por uma linguagem interior nova e difícil de identificar – como são os fenômenos cotidianos e óbvios, para nós adultos, aos olhos de uma criança – foi como Buenos Aires se abriu como um conjunto de possibilidades diferentes para mim.

 

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Embora temerosos pelo fraco espanhol (mais de minha parte do que de meu amigo, que se deu muito bem com o idioma), saímos em busca da seção de Cinema. Por sorte, estava prestes a começar uma sessão de “La Casa”, dirigido por Gustavo Fontán, o qual, pela sinopse, parecia um filme predominantemente estético.

“Lo Primero que pienso cuando veo las películas de Gustavo Fontán es que no filma como se debe. No hace películas con los materiales con que las peliculas suelen hacerse y no muestra esos materiales de la manera en que las películas suelen mostrarlos. Por supuesto, afirmo esto con cierta ironia: en realidad, nunca hay que filmar como se debe. No tengo dudas de que, para filmar bien, hay que atreverse a mirar más allá de lo previsible. Por esto, decir que Fontán no filma como se debe es decir que hay un cineasta abriendo nuevos caminos”.
David Oubiña

A sala do Cine Malba é algo como a intersecção entre uma Sala de Cinema, uma pequena sala de Teatro e um local de palestras, com luzes elevadas em direção à plateia para momentos de discussão. Uma boa sala para o estilo de Cine, bastante atraente e confortável, com equipamento suficiente e mais adequado do que o usual para seu porte e estilo. Como as típicas salas de Cinemas de Rua – ou Cines alternativos, como o Reserva Cultural (SP) -, possuía seu tom de informalidade. Em geral, o público era dividido entre estrangeiros acompanhados e argentinos, boa parte destes, sós, o que é um grande indicativo de que o lugar é frequentado por cinéfilos.

 

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“La Casa” é parte de uma composição não cronológica chamada “Ciclo de la Casa” – uma trilogia de filmes independentes, todos gravados na casa dos pais do diretor, com atuação dos próprios – que esteve em exibição no MALBA, todos eles dirigidos por Fontán: “El Arbol” (2006), “Elegía de Abril” (2010) e o título em questão, lançado em 2012.

 Por duas razões, o fato de me deparar com “La Casa” em cartaz no exato horário em que estive no MALBA foi uma grande coincidência.

A primeira delas, é porque a obra é quase tudo de algo que preciso procurar “pelos cantos” do Cinema para encontrar. É simultaneamente espetacular e triste que a Argentina esteja contribuindo na inovação de um gênero cinematográfico, enquanto o Brasil está, predominantemente – muito disto em função da ligação monopólio-entretenimento que vincula o Cinema Nacional – importando e adaptando um estilo já ultrapassado de Cinema-entretenimento com pouco valor arte.

Com grande sensibilidade, Fontán revisita a casa de seus pais para abrir a realidade em passado e presente por um meio técnico-subjetivo repleto de lirismo. Seja através da sonoplastia, ou através da câmera sem objetividade – à vontade em trafegar pela casa sem a vinculação objetiva de um roteiro ou o bom-senso do enquadramento lógico -, Fontán nos introduz a vinte e cinco minutos hipnóticos em que a materialidade, com auxílio da memória, se abre em vida, e a casa se transforma em um organismo muito maior do que se inspira das vigas de concreto que a mantém de pé. Seja guiando-se por um som qualquer ou por um objeto antigo, Fontán desdobra, em uma mesma cena, duas percepções subjetivas diversas, acrescentando à dimensão natural camadas de vida. Os fantasmas de sua casa são as memórias, e as percepções vivas, a independência do local como ser próprio, preenchida pela vivência.

 

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Digo que a obra é quase tudo o que procuro no Cinema porque, em certo ponto, o autor permite que a sensibilidade perca para pretensão excessiva. Seria um excelente curta-metragem, modelo que sempre me atraiu e atrai cada vez mais, em especial em um momento do Cinema em que os longas se tornam cada vez mais longos, as séries, cada vez mais numerosas e seus episódios, cada vez mais desnecessários. Metade da obra consiste, basicamente, na demolição da casa. O autor utiliza-se deste choque para nos retirar bruscamente da transcendência da materialidade que construiu. Por fim, temos algo em torno de vinte minutos de demolição. Havia outras formas de o autor transmitir este choque sem quebrar tão bruscamente a hipnose da primeira parte. Meu amigo, posteriormente, concordou comigo de forma indireta, contando sobre a sensação hipnótica da primeira metade em contraste à sonolência que sentiu na segunda. Pode-se transmitir um recado sem retirar do destinatário o prazer da inspiração que uma obra pode lhe conceder.

 

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A segunda razão é que o Diretor esteve em pessoa na sessão, com sua equipe, para discutir a obra com o público e se submeter a uma entrevista. Foi interessante vê-lo reagir à pergunta de um jornalista, em questionamento de maior aprofundamento técnico sobre seus fantasmas materiais e os significados objetivos que inspiravam, alegando a iminente impossibilidade de responder uma questão a que sua obra era submetida, com medo de planificar o que era uma experiência pessoal, repassada ao público para que este a transportasse também ao seu entendimento individual.

 

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Em impressão final, o MALBA, jovem que é, troca a imponência pelo diálogo, permitindo que seu visitante o adentre sem o peso no ombro que costumeiramente representa a visita a um Museu e desfrute de momentos intimistas e insustentavelmente leves.

 

Trailer de “La Casa”, Gustavo Fontán

Esta não é uma review de “La Grande Bellezza”

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Uma noite em que tudo soa como preto e branco. Saindo de um Cinema de rua, cuja sessão os já poucos presentes abandonaram pela metade. Vestindo um casaco para evitar a chuva, o que é reflexivo e ilógico para quem não só queria, como esperava e torcia por enfrentá-la. Acendo um cigarro, não sei se para evitar o sensorial exaltado ou para inibir a confusão mental entre o perdido e o quebra-cabeças de ideias desorganizadas, frequente pela objetividade da rotineira linguística. O que eu escreveria após “2001: a Space Odyssey”?

Há dezesseis anos entrava pela primeira vez em uma sala de Cinema. Acompanhado por meu pai, preparava-me para ver um filme que entrava em cartaz com atraso que não incomodava à época como incomoda hoje; a não ser pela ansiedade, em lugar do orgulho. Era o Cine Rio Branco, em Varginha (MG). Famoso por supostamente possuir a maior tela da América Latina. Hoje fechado. A lenda não precisa de comprovação em minha memória; é tão verídica quanto meus olhos infantis rolando pelos lados, nunca fixos: era impossível, para mim, captar toda a imagem sem movê-los. Por vezes perdia diálogos e rostos e me flagrava observando objetos inúteis pelo cenário. Ainda não consegui livrar-me deste vício de primeira experiência. Ainda não quis livrar-me dele. O Titanic a que assisti em 1998 não é o mesmo a que assisti mais de uma década depois (2012), em seu relançamento em 3D. O Titanic que assisti naquele dia era um amontoado de detalhes, cujo enredo central pouco importava. Como pessoa fotográfica – que nunca esqueceu um rosto sequer em toda sua vida -, assusta-me o fato de não lembrar-me de uma pessoa sequer daquela sessão. Não lembrar-me se meu pai estava de barba, como estava seu cabelo e como transpirava seu humor. Pouco lembro de minha absorção do roteiro da obra à época. Lembro-me vividamente, porém, da interação da plateia. Da posição em que sentávamos em relação ao filme. Da pipoca que comia enquanto observava apaixonado perdidos objetos trivais para a obra. Senti-me, naquele dia, nada envolvido na história de amor central do filme, mas sim um terceiro passageiro do navio, calado, seguindo sua viagem, assustado pela situação. Construí minha própria história. E assim descobri, realmente, a sétima arte. Maior do que qualquer coisa que eu já havia visto na televisão, porque o Cinema – o ato de frequentá-lo – era sensorial e subjetivo. O filme não era. O filme seria o que meu estado de espírito ao entrar na sessão moldaria sobre o que me era dado. Por isso, detestei por muito tempo boa parte dos cinéfilos e nunca consegui encaixar-me em rodas de Cinema. Conhecer novas opiniões sobre um filme é, para mim, tão adorável quanto descobrir um novo universo. Principalmente sobre os filmes que detesto. Não consigo lidar com pessoas que busquem uma análise objetiva, terminando seu trabalho após “captar a essência e a verdade indiscutível” sobre uma obra. É sempre melhor não entender um filme, à sua maneira.

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Compreender nossa obsessão linguística pela que talvez seja a arte de maior potencial estético da história da humanidade é como tentar decifrar uma loucura de sua própria mente. Embora utilize-se da linguagem, o Cinema raramente é admirado pela abstração, subjetivamente, como se admira um quadro ou uma paisagem. Um filme que nos desperte sensorialmente não pode ser bom se não está preenchido linguisticamente, ou se ao menos não pode ser decifrado desta forma. É uma de nossas grandes tolices. Em seu produto final, a arte é tão bela quanto a ciência. Mas seus intermediários são completamente diversos. A arte é uma formação sensorial de resultado subjetivo. Não precisa, embora possa optar por, passar pelos caminhos da argumentação para justificar o que produz. Assim como você não tem o direito de delimitar quem você é e fazer com que os outros o engulam, sequer o autor tem o direito de delimitar sua obra. Não há, na arte, verdade. Há verdades.

“2001: a Space Odissey” foi, neste sentido, meu primeiro desafio. Não no sentido de tentar captar sua verdade absoluta. No sentido de, além do sensorial encantador, compreender o que me despertava. Sonho, desde 1998, em trabalhar com Cinema. Assim como sonho em me tornar escritor, ou como sonhei em ser músico. Não há contradição: não considero-me perdido, considero-as facetas de um mesmo sentimento. Nunca pensei, porém, que um dia escreveria sobre obras alheias. O fantasma de “2001: a Space Oddyssey” despertou em mim no exato instante em que aceitei o convite para criar este blog. Sempre soube que nunca poderia escrever sobre alguns filmes; não ao menos no encaixe estrutural que conhecia. A ideia de começar um projeto que envolvesse escrita e impessoalidade era, para mim, como desenvolver uma vida baseado em uma mentira.

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Vá ao Cinema, sente-se e assista a “La Grande Bellezza”. Incline-se a deixar-se levar. Descubra o que a obra o provoca. O que significa no contexto de sua pessoa. Não deixe que o filme acabe quando sair da sessão, mas mantenha o que sensorialmente lhe foi despertado e o continue. Reserve uma noite em branco, vá a um cinema incomum, deixe para decidir o que fazer nesta noite somente após a sessão. Assim como o cerne da mensagem de filmes como Fellini 8 1/2 não reduz e nem concentra o poder do filme, há muito mais por trás de “La Grande Bellezza” do que se transcreverá por aí.

O que posso dizer é que, assim como aconteceu com vários dos filmes que me tocaram realmente, em pouco tempo me esquecerei do que se trata, propriamente, “La Grande Bellezza”. Mas jamais esquecerei do sentimento que se formou na noite em que o assisti.

Good Will Hunting: Rage & Fear

Terrível a ideia de resumir um homem a dois sentimentos. Ainda mais terrível tentar delimitá-los em espécie. Não poderia ser pior, porém, atribuir um arquétipo generalizado ao espectro de sentimentos de toda uma raça. O que não só frequente, como também verdadeiro teorema. Olhamos para nós mesmos julgando todo fenômeno interno como complexo ao mesmo tempo que olhamos para o restante da humanidade julgando todo pensamento e ação como simples e inerente. Verdadeira tendência esta: cada indivíduo se vê como alguém especial em meio a um mar de previsibilidade. Tendência tão notável e aplicada que ousamos, inclusive, dar nomes a sentimentos, atribuir a eles categorias, tendências, apontar suas origens, remédios e possíveis resultados. É assim que um ser dotado de tamanha racionalidade consegue se banalizar, tornar o mundo tão previsível e, de forma geral, chato. Uma simples escolha, relutância ao reconhecimento do próximo, talvez o maior de nossos desafios.

Não estou desconstruindo tudo o que tenho a dizer, embora assim pareça até para mim mesmo. Apenas reconheço uma abordagem vulgar e limitada, algo que gostaria poder dizer de outra forma. Reconheço, em cada universo específico que habita um ser humano, sentimentos únicos e inclassificáveis. O medo e a raiva, como chamamos, se manifestam de formas específicas e são, na verdade, sentimentos diversos em cada um de nós. A linguagem é uma forma de comunicação, não de delimitação. Se nós tivéssemos de nos descrever baseado-nos apenas em palavras, felizmente, seria uma tentativa absurdamente inútil. As mesmas palavras soariam diferentes a pessoas diversas, o que só pode ser explicado pela vivência de cada um. As palavras ganham sentido de acordo com o destinatário, e assim nos reconhecemos um no outro, pelos poucos vestígios que podemos compreender em palavras e atos de outras pessoas, que nos levam a imaginar sua essência e nos interessar por ela, muitas vezes assimilá-la.

Um indivíduo é um mar de sentimentos impassíveis de síntese. Invariavelmente, porém, embora subjetivamente próprios, todos nós experimentamos dois sentimentos que podem nos consumir e demandam por transcendência, uma busca pelo que pode ser confundido com completude ou perfeição – complexidade -, embora se traduza e mera essência pessoal, o que é bem simples. De certa forma, todos nós compreendemos o que somos, embora de forma muito confusa. É por isso que nos vemos forçados a rejeitar determinadas coisas – sob verdadeira vertigem – enquanto sabemos exatamente o que buscamos, embora não estejamos certos sobre a forma como este objeto se materializa. Creio que, dentre as categorias chulas supracitadas, poder-se-ia afirmar que todo ser humano possui, dentre diversas sensações semelhantes, embora e menor escala, um grande medo e um grande ódio. Isto porque a vida em sociedade nos impõe desafios à concretização do que realmente queremos ser, misturados a sensações artificiais e ampliações de ideias de felicidade que nos seduzem e confundem. Aos poucos julgamos nossa própria essência como pueril, processo que chamamos de “envelhecer” em um aspecto negativo do sentido da própria palavra, como se crescer significasse adaptação e não ampliação. Meu ponto é que sempre tive em mente que, ao se deparar com estes desafios, boa parte das pessoas opta por esquecer os sentimentos inocentes que as traduzem para adaptarem-se ao que externamente se julga como necessário ou útil, enquanto poucos enfrentam as confusões e as expulsam para concretizarem o que realmente são (este é o ponto em que eu deveria simplesmente abortar este texto e transferí-lo pra uma resenha sobre Lost).

 

 

Se você cresceu nos 90s, talvez concorde comigo: vigorou por esta década um entendimento dualista entre uma esquerda utópica morta durante o século XX e uma direita de aceitação: o mundo como ele é. Você poderia basicamente optar entre ser um sonhador ou mero zumbi admirador dos prazeres carnais. Creio que algo análogo ao que precedeu o movimento beat anteriormente. Entre dois caminhos vazios, simplesmente nos desesperávamos pelos momentos especiais, de sensações que não pudessem se explicar. Buscávamos por algo ainda não inventado, a qualquer preço. Se o Cine está, ao fim dos 60s & 70s, povoado de filmes baseados no desespero pelo confronto de uma invevitável vida vazia (“Easy Rider”, “Zabriskie Point”….), assim também está os 90s & 00s (“Thelma & Louise”, “Gerry”, “The Beach”, “Fight Club”, “American Beauty”, “Into the wild” e, inclusive, a obra a qual me refiro aqui: “Good will hunting”).

Embora sempre tivesse gostado de política, um dia fui simplesmente corrompido pela falsa ideia dos 90s: somos naturalmente insolucionáveis e precisamos aceitar isto. A esquerda está morta, o punk se tornou um comercial da coca-cola, o mundo atual é o que sempre foi e o ser humano caminha em ciclos ilusórios de desenvolvimento, estagnado em seu interior como qualquer outro animal do planeta. Abandonei tudo o que passei a considerar um sonho para me entregar ao inevitável pragmatismo. A ideia de que eu vivia 3 ou 4 dias por ano me perseguia como um pesadelo. Curtos momentos especiais em meio a uma vida completamente banal, indiferente e vazia. Era sentado no sofá da sala dos meus pais, à meia luz, no conforto do Natal, que reunia estes poucos momentos em curtas. Ali, ano após ano, percebia que deixava que meu medo tomasse conta de mim, enfrentava-o, vencia-o e esperava seu renascimento. A cada enfrentamento, porém, aquela criança e aquele adolescente recusava a banalidade do comum para transcender ao contato com quem buscava o mesmo. A cada Natal, assistia a estes momentos transmitidos pela branca parede ao lado da mesma árvore que ainda se ergue na casa dos meus pais a cada ano.

À medida que me expus e saí do interior, tendo contato com cidades maiores, percebi que as pessoas com perfil de aceitação tendem a ser cada vez mais banais, enquanto as pessoas especiais, não mais especiais, mas sim mais numerosas. A cada ônibus, carona, avião, meus filmes de Natal se tornavam mais e mais numerosos. Até que um dia o Natal passou a ser mera data comemorativa, como deveria ser. Hoje posso deitar em minha cama, em um dia cansativo, olhar para o teto de meu quarto, à meia luz, e visualizar longas e longas de pequenos flashs que dão sentido à minha existência. Calçadas, acordes, garrafas, cigarros, rostos, sorrisos, saltos, salas insalubres ocupadas por instrumentos musicais, papéis, livros em edredons, brisas, palavras apropriadas ou ridículas, ondas, ideias, pulsações sanguíneas.

Até que em algum ponto indelimitável de minha vida percebi duas coisas importantes:  todas as pessoas que tentaram mudar o mundo de forma descontextualizada, por medidas externas, falharam, enquanto as pessoas que tentaram operar mudanças internas em si mesmas e contagiaram as demais ao seu redor obtiveram sucesso de formas que a história e a sociologia simplesmente não podem explicar. Ao mesmo tempo, diversas pessoas de diversos pontos do planeta passaram a enfrentar estes desafios e, o que é incrível, muitas delas possuíam, em essência, o mesmo medo e o mesmo ódio que eu e boa parte das pessoas especiais que conheci em minha vida: a raiva pelo utilitarismo e o medo de uma existência vazia. Foi neste ponto que percebi que o contexto geopolítico atual, suas “doenças”, condizem impressionantemente com o filme que expressa muito do que foi dito até aqui e, inclusive, com uma das melhores cenas – no tocante a conteúdo – que já vi no Cine, inclusive figurando como sujeito uma agência que é o foco ao qual se direciona boa parte da raiva que essas pessoas sentem atualmente – o que não é necessariamente uma coincidência: a NSA. Como percebem, a cena que escolhi para abrir este texto. Boa parte destas pessoas poderiam se entregar ao pragmatismo – trocar o que esconde suas essências por grandes salários, salas, troféus – em lugar de arriscarem suas vidas. Mas existe uma razão, extremamente simples, pela qual eles não a fazem.

Mudar o mundo é muito pretensioso; direcionar a mudança a um objeto sempre acaba por se perder na utopia. Rejeitar os vícios da sociedade contemporânea e escolher pela felicidade pessoal e realização de nossa essência subjetiva me parece um caminho muito mais adequado e funcional. É como se o mundo estivesse se preparando para isso há muito tempo e, nestes ciclos estagnados da humanidade, estivesse sempre presente uma célula de esperança que pode se desenvolver em vida. Não se trata de mudar o mundo, mas sim da criação de um sentido para seu próprio interior, bem como permitir, aceitar e compreender que as outras pessoas o façam. Enfrentar seu grande medo, expor seu grande ódio. Caminhar.

Obs.: esqueci de mencionar que boa parte da trilha sonora é Elliott Smith?

 

Louie – a luta pelo cotidiano

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O maior erro que um ser humano pode cometer é questionar aquilo que ama ou lhe dá prazer. Alguns nascem, descobrem e morrem biologicamente. Outros nascem, descobrem, desconstroem e morrem em vida.

Agora, meus senhores, eu quero contar-lhes, desejem ou não desejem escutar isso,
por que não consegui tornar-me nem um inseto. Solenemente lhes digo que várias
vezes quis tornar-me um inseto. Mas nem isso me foi concedido. Juro-lhes, meus
senhores, que ser por demais consciente é uma doença, uma verdadeira e rematada
doença. Para o humano bastaria, até dizer chega, uma ordinária consciência humana,
isto é, metade ou três quartos daquela porção que cabe a um homem desenvolvido
de nosso infeliz décimo nono século (…).

Notas do Subsolo – Dostoiévski

 

Hoje tive um dia cansativo.  Há um ponto em minha rotina – pontualmente às 19h – em que estou sentado em um ônibus entre o trabalho e a faculdade e adentro em um estado anestésico em que não consigo identificar perfeitamente qual a linha lógica que estabeleço em minha cabeça. Aquele momento em que você sabe que está pensando, pelo pressuposto fático de conhecimento geral do ser humano de que é impossível deixar de pensar, e só por isso não se deixa levar pela ideia de que nada se passa por sua cabeça a não ser uma forte neblina entre os carros e uma mistura de vozes cansadas que chegam ao fim do dia.

Foi aí que uma voz em particular me chamou a atenção: uma mulher, sentada atrás de mim no ônibus, em voz alta no celular, reclamava sobre seu dia no trabalho. Uma cliente alegava que havia comprado chupetas e estas não haviam sido colocadas em sua sacola, enquanto a trabalhadora alegava tê-lo feito. Desabafava sobre isso com sua amiga como algo que havia posto a perder seu dia. “Quanta estupidez” – pensaria qualquer terceiro sobre aquele sentimento – “deixar que um fato tão besta acabe com seu dia”.

Tudo o que descobrimos e identificamos como verdadeiro se desconstrói em nossa passagem pelo tempo. O pressuposto infantil de que seu pai sabe exatamente o que está fazendo, o primeiro beijo, o primeiro amor, o sentimento sexual, a ambição por poder, o sucesso profissional. É natural que, em algum ponto de sua vida, quando você se pega pensando que “se sua vida estivesse de outra forma, estaria muito melhor”, perceba por experiências passadas que isto, de fato, não faria diferença nenhuma. A vida é como ela é. Sem a imortalidade da alma não pode haver virtude. O efêmero de nosso prazer é inerente à nossa percepção e realidade. O próprio prazer não possui sentido senão o criado pela mente a partir da percepção biológica. Pode ser aproveitado enquanto não desconstruído pela mente desde que não haja um pré-questionamento sobre toda e qualquer sensação, que se reveste na recusa em aceitar-se humano. Tudo se encerra em um contexto social, ainda que este seja ampliado pelo conhecimento de outras eras e costumes, porque o aumento do espaço de uma prisão não é a conquista da liberdade.

Aí está o grande prazer de boa parte das grandes sitcoms – Seinfeld, Friends, The Office (…): a aceitação do prazer do cotidiano, sem a espera de um grande sentido. A vida como ela é, pequena, simples, divertida, despretensiosa e despreocupada. Em verdade, qual a diferença entre sofrer por um problema besta de trabalho ou sofrer pelo abandono de um grande amor, um trauma de infância, um ato que incrimine a consciência?

Afinal, se o prazer é racionalmente pré-condenado, desconstruído – se não há absolutamente nenhuma diferença entre o vazio do pós-vida e a existência que não nos proporciona qualquer sentido – por que não depositamos ainda um tiro em nossas cabeças? Além do simples fato de nossa covardia humana nos impedir de fazê-lo? O fato é que o melhor que o existencialismo pode prover ao mundo é ser exterminado como um vírus, antes que contamine as demais pessoas. Mas somos egoístas e preferimos coloca-las em risco por uma esperança vã de que estejamos enganados, ou que seremos curados em algum momento. Quando buscamos algo grande demais – exceder os limites do ser humano – chegamos ao ponto de não conseguirmos voltar atrás e descobrirmos que simplesmente não estamos prontos – ou fomos feitos – para ultrapassar esse limite. E é quase sempre tarde demais. Vivemos em um mundo incomunicável.

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É por isso que se referir a Louie como “uma versão adulta de Seinfeld” é completamente minimalista. A principal diferença de Louie para as demais séries citadas é que ela não é simplesmente uma ode ao cotidiano, mas sim uma luta por ele. A personificação da velha piada do palhaço Paggliacci é um existencialista que luta para viver.

No S02E09, quando Louie se encontra com seu velho amigo Eddie, temos uma situação peculiar: um existencialista defendendo a vida contra um velho amigo ranzinza e pessimista. São os vinte e dois minutos que todo existencialista deveria assistir. Muitas pessoas chegam a um ponto na vida que precisam escolher entre lutar para sair do buraco em que se enfiaram ou esperar que a terra naturalmente o cubra. Mas não pedir que alguém lhe estenda a mão para puxá-lo à situação em que está.

Pegue o metrô ou entre no carro.

Show da Vida – The National

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Neste dia do rock, o Catárticos presenteia você com um relato de um leigo aposentado no assunto sobre o melhor show de sua vida. Animado? Bom, antes de chegar ao show, preciso situá-los sobre como conheci uma das bandas da minha vida: The National. Tudo não começou em torno de 2006, quando meu amigo Wanderson Meireles – ex-membro da Cambriana – me recomendou um álbum: “Alligator”, afirmando que eu simplesmente piraria. Nessa época eu tinha uma pasta no computador: “álbuns por ouvir – Wanderson”, com dezenas de álbuns nos quais “eu piraria”. Essa pasta ainda existe, cheia e imaculada (meus amigos estão acostumados com o bom e velho “quando chegar em casa ouço”; “estou meio ocupado agora fazendo porra nenhuma, assim que der, ouço” etc). Mas eis que, em 2009, abri essa pasta que não estava empoeirada somente por ser eletrônica, e coloquei o álbum no MP3.

À época, com 18 anos, havia ido à Niterói fazer faculdade de Direito, contra a vontade dos meus pais. Dividia um quarto com duas pessoas, o que simplesmente detestava (não por elas), não tinha amigos, gostava de uma garota que demorou muito pra ficar pra trás com a minha mudança, não tinha grana pra fazer absolutamente nada. Na época, não tinha telefone fixo ou celular; quando queria falar com minha família – o que se resumia a brigas – precisava usar telefones públicos nas ruas. Minha vida se resumia a música e literatura. Foi a época em que li “Misto-quente”, do Bukowski, “Crime e Castigo”, “Irmãos Karamazov”, “Humilhados e Ofendidos”, “Noites Brancas”, “O Tirano”, de Dostoievski… Enfim, creio suficiente pra ter uma pequena imagem do que era meu cotidiano.

O Alligator foi um álbum atípico. Era uma enorme dificuldade passar para a música seguinte, porque todas faziam completo sentido, uma por uma. Por essa situação no local onde morava, estava quase sempre na garagem do prédio, ouvindo música, e sou capaz de afirmar gastei ao menos duas horas em cada faixa do álbum, compartilhando sentimentos com veículos estacionados. Quando finalmente consegui chegar ao seu fim, fui falar com o Wanderson sobre como tinha gostado da banda, se havia possibilidade de ver um show deles no Brasil, e ouvi como resposta o seguinte: “eles têm um contingente reduzido de fãs e tocaram aqui recentemente, em um festival”. Essas palavras significaram para mim, como vocês devem imaginar: “não”.Eis que um ano depois, o “não” se tornou “sim”. Pisei pela primeira vez em São Paulo, acompanhado pelo João Vítor Medeiros (o @Indiedadepre), para ver um show do National no falecido Citibank Hall. Chegamos muito cedo. A sensação, pelo público na porta, era de que veríamos um show de uma banda paulistana de médio porte. É claro que depois o público aumentou, mas como ficamos próximos ao palco, de costas para tudo, essa sensação permaneceu. E cresceu, quando à meia luz, exatamente como sempre imaginei, o National abriu com “Runaway”, em um tom especial, simples e despretensioso, como se fosse uma banda em início de carreira, respeitando cada um de seus shows como um momento de sentimento único. Não era exatamente como eu havia esperado, mas maior do que minhas expectativas. Percebi as lágrimas que escorriam de meus olhos somente ao fim da faixa. O que se seguiu a isso foi uma catarse que desaguou em um público em silêncio para a execução completamente acústica de “Vanderlyle Crybaby Geeks”.

Após o show, enquanto todos esperavam a saída de Matt Berninger – que já havia ocorrido, porque ele saíra às pressas embriagado pelo vinho e por um beijo do João quando se jogou na plateia -, fiquei por um tempo conversando com Scott Devendorf, que não recebia atenção de absolutamente ninguém: “Ninguém se fode pra baixistas”, ele disse. Foi uma conversa completamente informal, ele chegou a me fazer perguntas pessoais, como há quanto tempo eu tocava baixo. Enquanto os seguranças tratavam os fãs como canibais tentando engolir os membros da banda, os caras saíram por entre a gente, trocaram ideia com todos, atravessaram a rua no meio da galera e ficaram do outro lado da calçada, sem qualquer equipe ao redor, conversando entre si. Ainda tive tempo de dizer ao Aaron Dessner que ele me lembrava o Charlie, personagem de “Lost”.

Por tudo isso, “Alligator” será sempre o álbum que representa pra mim a quebra que é crescer, enfrentar o mundo e se tornar independente. O “Boxer” não é meu símbolo da melancolia.

Tempos depois, em visita à Rússia – país que sempre sonhei em conhecer -, talvez por toda a literatura russa que me bombardeou à época em que conheci National, a banda voltou com tudo aos meus fones, mas de uma forma completamente diferente. Fiz as pazes com o meu passado e passei a achar tudo bonito, de uma forma inexplicável. Eis que uma das gravações da viagem se transformou no vídeo abaixo: