First Cousin Once Removed: Lembre-se de como esquecer, nada mais.

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Sessenta por cento do corpo humano é formado por água. Não para mim.

Somos sessenta por cento memórias.

Tamanho o espaço que ocupam, quando perdidos, somos capazes de viver em um limbo de lembranças. Como estrangeiros em uma cela. Podemos a todo tempo revivê-las e transformá-las, mas nunca, de (como) fato, lembrá-las.

Se você já foi prisioneiro desta cela, pelo mesmo contraste pelo qual conhece o infinito, pode imaginar o que seria estar preso em um limbo onde não há lembranças. Uma cela de reminiscências. Um lugar onde a vida seja o que está a sua frente. Penso em minha mente como algo para brincar.

 

When hope dies, the straps that saddle us through time become undone;
And we sit alone in space as in a place that can no longer hold us:
From this we wake into another form still wet with shaping;
A form as of another being never yet imagined;
And from this we view the carcass of our former selves;
Clearly gone, without a trace, we are no longer there.

 

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“First Cousin Once Removed”, produzido pela HBO e dirigido por Alan Berliner – um experimentalista norte-americano no campo de documentários -, nos apresenta à vida pós-Alzheimer do poeta, dramaturgo e tradutor norte-americano Edwin Honig, falecido em 25 de maio de 2011. Teve sua estreia em 2012 pelo New York Film Festival, vencendo como Best Feature-Lenght Documentary no Amsterdam International Documentary Film Festival.

Acho que um filme sobre você ensinaria muitas pessoas sobre o significado da memória, disse o diretor ao poeta. O que acontece, por todos seus setenta e nove minutos. Ainda que abordando a vida pessoal de Honig, suas conquistas, fantasmas e sua Obra, o documentário tem sempre por protagonista seu espectador e sua vida. Seus fantasmas e seus feitos. Suas lembranças e o que significam.

O poeta já não mais é um escritor. Se o mundo estivesse uma merda, então, você sequer saberia? Já não mais acompanha o calendário. Não sabe dizer qual é o presidente de seu país, ou em que lugar está. Que mundo? Perdido em um universo de sensações que não mais podem ser expressas em nossa linguagem. Os mais puros sentimentos, desconexos de qualquer concretude do passado, senão o produto de sua vida para seu frágil corpo.

 

Se recordo quem fui, outrem me vejo;
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo;
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente;
Não é de mim nem do passado visto;
Senão de quem habito;
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto;
Que quem sou e quem fui;
São sonhos diferentes.

 

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A lembrança é o elo mais forte do homem com o mundo. Enquanto este respirar, lá estará ela. Em todo som, toda imagem e cor que houver ao seu redor.

De um lado, temos Honig alheio a fatos que, para nós, soam como grandiosos. Assistimos a este homem ouvir, como um terceiro, histórias sobre si mesmo. Por outro lado, o poeta se prontifica a contar fatos pessoais que o marcaram de forma especial e determinante. Transformaram-no na pessoa que é.

Por vezes, este reage a linhas de seus próprios poemas com repúdio, como se a pessoa mesma pessoa que, em determinados momentos, sequer consegue mais se comunicar, pudesse identificar os sentimentos que ali estão por trás. Há momentos, ainda, em que se esconde de reminiscências. Evita buscar as dolorosas lembranças de seu passado.

O que o poeta com alzheimer nos ensina é que não há circunstância em vida em que possamos nos esconder de nossas lembranças, ainda que se transformem em nada mais que borrões de memórias. Em nosso último momento, todos nossos atos, todas nossas dores e todos nossos prazeres, um dia tão bem separados em nosso íntimo, serão nada mais que uma esfera de concreto única, exposta em nossos olhos. E a última pessoa que nos olhar, saberá exatamente quem somos.

Lembre-se de como esquecer, nada mais. Disse, por fim, o poeta. Um conselho que não pôde seguir.

 

Poemas, respectivamente, de Edwin Honig e Fernando Pessoa

Mistaken for Strangers, de Tom Berninger

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O The National disponibilizou no dia 28 de março, em seu site oficial, o documentário “Mistaken for Strangers”, por $15,00 dólares. É difícil imaginar outro documentário que retrate tão bem o National quanto este, que, no fim, não é um documentário sobre a banda.

“Mistaken for Strangers” é um excelente desarranjo sobre os artistas que são, os que serão e os que nunca conheceremos. A ideia não é estranha para os membros de uma banda com pouco apelo comercial que se formou em 1999, produziu e lançou seu melhor álbum em 2005/2006 (“Alligator”), começou a conquistar seu espaço somente em 2007 com o lançamento do “Boxer”, o qual se consolidou com o “High Violet” (2010) e se expandiu com o “Trouble will find me” (2013). Em seu show em São Paulo (2011), lembro-me de Bryce Dessner anunciando “Lucky You” (última faixa de “Sad songs for dirty lovers”) como a única música na qual sua mãe gostava da voz de Matt. Lembro-me de pensar no National –  enquanto ouvia o “Alligator” e, principalmente, o “Boxer” – como a excelente banda que nunca sairia do underground (possivelmente a ingenuidade de quem não conhece bem o mercado musical).

Se por um lado está o National, uma banda atualmente consolidada, com todos os méritos imagináveis, de outro lado está Tom Berninger, irmão do front man da banda, um artista perdido, já em idade de mostrar resultados, com um futuro obscuro pela frente (posição nada estranha para os membros da banda). Em seu curriculum, aparente headbanger e produtor de filmes de terror amadores.

Sob o aspecto secundário, temos um documentário que demonstra como o National, frente ao sucesso atual da banda, mantém seu feeling “homemade” e de proximidade. Por um lado, uma referência musical internacional. Por outro lado, uma banda que ainda carrega uma intimidade e a sinceridade que teve em toda sua carreira. Em uma de suas cenas, temos a manager do National  – Dawn Barger – pedindo para ver as filmagens de Tom, por precaução, dando o tom de profissionalidade – bem nítido na postura de Brandon Reid, tour manager da banda e vilão do documentário – que contrasta em aparência com o som, a carreira e até mesmo o que conhecemos em vídeos e imagens do background da banda. Cena que entrou no documentário e, vista em seu contexto, nos faz ter ideia amadora de que o National sequer precisa de um manager, ao menos no fronte do marketing. Demonstra, enfim, que a banda teve duas características essenciais para sobreviver no mundo musical, e que a princípio são quase inconciliáveis: o profissionalismo e a manutenção da espontaneidade. A banda trabalhou para chegar onde está, mas não deixou seu trabalho desvirtuar-se pelo objetivo.

Há, claro, seu lado cômico. Com um Tom Berninger inexperiente e perdido fazendo perguntas aleatórias aos membros da banda (como a Scott Devendorf: se os membros da banda carregam suas carteiras quando estão no palco). É uma oportunidade de ver o cara que termina todo show bêbado de vinho, caindo pelo palco – quando não na plateia -, tirar a longneck de cerveja das mãos de seu irmão porque you drink all the time, you don’t know when to stop.

Em superfície, “Mistaken for Strangers” é um documentário excessivamente centrado na vida pessoal de Matt Berninger e Tom Berninger, bem como na relação de ambos. Os demais componentes da banda chegam a comentar sobre o possível incômodo no foco das atenções em Matt Berninger (não apenas no documentário em si). A fundo, trata do perigoso mundo da música. Sobre os caras que estão por aí tentando encontrar seu espaço e sobreviver disso, e seus grandes borrões distorcidos e indistinguíveis como futuro.

As oportunidades do mundo da arte são extremamente oscilantes, seja pela área escolhida (música, pintura, cinema) e os altos custos nela envolvidos, seja pela demanda do público e o caráter empresarial que a reveste e sustenta, seja pela qualidade. Ainda a todos estes itens já suficientemente voláteis, soma-se o elemento mais incontrolável da vida: a sorte, o acaso. Em si, a manifestação artística é um risco, não sendo, portanto, de se espantar – embora não seja desejável ou justifique -, que a vida de um artista também o seja. Mas estas pessoas andam por aí, mantendo vivo o que não é a obviedade, pagando o preço com suas próprias vidas. Tom Berninger é um destes caras, que está tentando se expressar verdadeiramente, sem pular etapas, à seu risco. E é o principal motivo pelo qual você deveria assistir a “Mistaken for Strangers”.