MALBA, Le Parc Lumière (Julio Le Parc) e La Casa (Gustavo Fontán)

Imagem 1Siete Ultimas Canciones, Guillermo Kuitca

O medo de sucumbir à pressão de aceitar seu desencontro.

Estava prestes a explodir quando pousei em Buenos Aires. Um dia a mais de trabalho poderia ter me matado. Um dia a mais pensando na graduação na qual, embora me interesse, não vejo um futuro profissional que me atraia. Convivendo com a confusão do futuro.

Dividi um apartamento em Buenos Aires com um amigo peruano que havia conhecido por uma noite em São Paulo, com o qual havia desenvolvido um forte vínculo. Ainda no taxi entre o aeroporto e o studio que havíamos alugado, senti-me invadido pela atmosfera da cidade. Mas a cada ponto turístico, a sentia distanciar-se cada vez mais. O prazer que encontrava nos detalhes que não me cercam em meu cotidiano dava lugar às imagens que acidentalmente vemos em cartões postais.

Posteriormente, um amigo brasileiro que, coincidentemente, estaria em Montevideu no mesmo período, decidiu passar alguns dias com a gente. Lembrei-me, então, de que havia me interessado por um dos lugares recomendados no Guia da Folha: o Museo de Arte Latinoamericana de Buenos Aires (MALBA), que oferece uma programação muito variada de Cinema argentino e europeu.

 

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Neste dia, substituímos os objetivistas taxis por uma longa caminhada, por incontáveis blocos, nos guiando pelo celular e pela pequena noção que havia desenvolvido nos poucos dias anteriores em que estive na cidade. Passei a senti-la novamente. Caminhando por uma cidade, em um ponto aleatório, seja central ou periférico, desde que não destinado exclusivamente ao turismo, percebe-se seus detalhes cotidianos próprios. E como brasileiro, não acostumado a me vestir de forma a tolerar o frio das ruas e, simultaneamente, a temperatura amena dos interiores, percebi pelo caminho que, ao retirar o casaco, estaria completamente inadequado para frequentar um museu, usando uma camisa simples com uma estampa de Nosferatu, um dos meus favoritos do Expressionismo Alemão. Adentrar o MALBA, porém, fez com que eu percebesse, de imediato, meu engano. Logo no interior, recebi o recado de sinta-se como quiser, goste do que lhe atrair.

 

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Na exposição “Le parc Lumière”, de Julio Le Parc, todo o mal-estar que se formava na viagem se converteu em um imenso vazio. Caminhei pelas salas escuras deixando que o visual dissipasse meus pensamentos e me transportasse pela composição caótica de luzes e espelhos que se encaixavam ao subjetivo de meu campo sensorial. Foi uma experiência intimista, por vezes claustrofóbica, por vezes abstrata. Cada ponto de cada sala escura formava, para cada um, um universo distinto e próprio, uma infinidade de sensações próprias e inomináveis. Perder-se por uma linguagem interior nova e difícil de identificar – como são os fenômenos cotidianos e óbvios, para nós adultos, aos olhos de uma criança – foi como Buenos Aires se abriu como um conjunto de possibilidades diferentes para mim.

 

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Embora temerosos pelo fraco espanhol (mais de minha parte do que de meu amigo, que se deu muito bem com o idioma), saímos em busca da seção de Cinema. Por sorte, estava prestes a começar uma sessão de “La Casa”, dirigido por Gustavo Fontán, o qual, pela sinopse, parecia um filme predominantemente estético.

“Lo Primero que pienso cuando veo las películas de Gustavo Fontán es que no filma como se debe. No hace películas con los materiales con que las peliculas suelen hacerse y no muestra esos materiales de la manera en que las películas suelen mostrarlos. Por supuesto, afirmo esto con cierta ironia: en realidad, nunca hay que filmar como se debe. No tengo dudas de que, para filmar bien, hay que atreverse a mirar más allá de lo previsible. Por esto, decir que Fontán no filma como se debe es decir que hay un cineasta abriendo nuevos caminos”.
David Oubiña

A sala do Cine Malba é algo como a intersecção entre uma Sala de Cinema, uma pequena sala de Teatro e um local de palestras, com luzes elevadas em direção à plateia para momentos de discussão. Uma boa sala para o estilo de Cine, bastante atraente e confortável, com equipamento suficiente e mais adequado do que o usual para seu porte e estilo. Como as típicas salas de Cinemas de Rua – ou Cines alternativos, como o Reserva Cultural (SP) -, possuía seu tom de informalidade. Em geral, o público era dividido entre estrangeiros acompanhados e argentinos, boa parte destes, sós, o que é um grande indicativo de que o lugar é frequentado por cinéfilos.

 

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“La Casa” é parte de uma composição não cronológica chamada “Ciclo de la Casa” – uma trilogia de filmes independentes, todos gravados na casa dos pais do diretor, com atuação dos próprios – que esteve em exibição no MALBA, todos eles dirigidos por Fontán: “El Arbol” (2006), “Elegía de Abril” (2010) e o título em questão, lançado em 2012.

 Por duas razões, o fato de me deparar com “La Casa” em cartaz no exato horário em que estive no MALBA foi uma grande coincidência.

A primeira delas, é porque a obra é quase tudo de algo que preciso procurar “pelos cantos” do Cinema para encontrar. É simultaneamente espetacular e triste que a Argentina esteja contribuindo na inovação de um gênero cinematográfico, enquanto o Brasil está, predominantemente – muito disto em função da ligação monopólio-entretenimento que vincula o Cinema Nacional – importando e adaptando um estilo já ultrapassado de Cinema-entretenimento com pouco valor arte.

Com grande sensibilidade, Fontán revisita a casa de seus pais para abrir a realidade em passado e presente por um meio técnico-subjetivo repleto de lirismo. Seja através da sonoplastia, ou através da câmera sem objetividade – à vontade em trafegar pela casa sem a vinculação objetiva de um roteiro ou o bom-senso do enquadramento lógico -, Fontán nos introduz a vinte e cinco minutos hipnóticos em que a materialidade, com auxílio da memória, se abre em vida, e a casa se transforma em um organismo muito maior do que se inspira das vigas de concreto que a mantém de pé. Seja guiando-se por um som qualquer ou por um objeto antigo, Fontán desdobra, em uma mesma cena, duas percepções subjetivas diversas, acrescentando à dimensão natural camadas de vida. Os fantasmas de sua casa são as memórias, e as percepções vivas, a independência do local como ser próprio, preenchida pela vivência.

 

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Digo que a obra é quase tudo o que procuro no Cinema porque, em certo ponto, o autor permite que a sensibilidade perca para pretensão excessiva. Seria um excelente curta-metragem, modelo que sempre me atraiu e atrai cada vez mais, em especial em um momento do Cinema em que os longas se tornam cada vez mais longos, as séries, cada vez mais numerosas e seus episódios, cada vez mais desnecessários. Metade da obra consiste, basicamente, na demolição da casa. O autor utiliza-se deste choque para nos retirar bruscamente da transcendência da materialidade que construiu. Por fim, temos algo em torno de vinte minutos de demolição. Havia outras formas de o autor transmitir este choque sem quebrar tão bruscamente a hipnose da primeira parte. Meu amigo, posteriormente, concordou comigo de forma indireta, contando sobre a sensação hipnótica da primeira metade em contraste à sonolência que sentiu na segunda. Pode-se transmitir um recado sem retirar do destinatário o prazer da inspiração que uma obra pode lhe conceder.

 

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A segunda razão é que o Diretor esteve em pessoa na sessão, com sua equipe, para discutir a obra com o público e se submeter a uma entrevista. Foi interessante vê-lo reagir à pergunta de um jornalista, em questionamento de maior aprofundamento técnico sobre seus fantasmas materiais e os significados objetivos que inspiravam, alegando a iminente impossibilidade de responder uma questão a que sua obra era submetida, com medo de planificar o que era uma experiência pessoal, repassada ao público para que este a transportasse também ao seu entendimento individual.

 

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Em impressão final, o MALBA, jovem que é, troca a imponência pelo diálogo, permitindo que seu visitante o adentre sem o peso no ombro que costumeiramente representa a visita a um Museu e desfrute de momentos intimistas e insustentavelmente leves.

 

Trailer de “La Casa”, Gustavo Fontán

Como foi o Oscar 2014 e suas principais categorias

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Como vocês podem perceber – especialmente pelo rosto de Julia Roberts -, people had a great time at the Oscars this year. Aparentemente para se conduzir uma boa cerimônia não basta encontrar um bom host(ess) – como tivemos neste ano, com Ellen Degeneres -, mas a presença de bons filmes também é necessária (e esteve escassa nas últimas edições, especialmente 2012 e 2013).

A noite de Gravity (sete estatuetas) foi roubada no momento decisivo por “12 Years a Slave”, que acabou levando por Melhor Filme, o que foi um susto embora não haja sido propriamente uma surpresa.

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Em Gravity, Cuarón alcançou uma ótima experiência de Cinema, que não poderá ser recuperada pelos que estão atrasados, exceto aqueles que possuam uma sala particular para reprodução. Visto em sua sala de televisão, “Gravity” provavelmente será o grande whattafuck deste Oscar. Não à toa, visto que Cuarón simplesmente esqueceu-se da parte chamada “roteiro”, Gravity é um filme tecnicamente admirável, uma experiência diferenciada para o espectador, mas nem de longe um bom filme. Por isto, vencedor de prêmios majoritariamente técnicos, ou de arte estética (Cinematography, Directing, Film editing, Music – Original Score, Sound Mixing, Visual Effects), “Gravity” não levou, felizmente, Best Picture.

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Se a Academia foi feliz em não dar “Best Picture” a “Gravity”, isto não significa que tenha sido feliz em dá-lo a “12 Years a Slave”. Percebam, antes que se exaltem: escolhi uma foto com Benedict Cumberbatch. C’mon, you know you like me right now. O inesperado do Oscar não foi, porém, uma surpresa: “12 Years a Slave” é um filme pensado em Oscar, começando no roteiro, passando pela montagem e parando por um bom tempo no casting. Enquanto em “Django Unchained” Tarantino dá tapas na cara do público adulto norte-americano, “12 Years a Slave” conta a escravidão para um adolescente velho demais pra ouvir os eufemismos de sempre e novo demais para se assustar em demasia. É um filme para as pessoas tomarem café e discutirem sobre os absurdos da história norte-americana sem sujarem demais os próprios olhos. Enfim, um filme que se passa no período de escravidão e não estragará sua noite. Lupita Nyong’o, porém, que nada tem a ver com a produção, direção e roteiro do filme, pode ficar feliz por brindar sua bela atuação com seu Oscar (Actress in a supporting Role).

Falando em atuação, muitos atores e atrizes têm razão o bastante para acordarem tristes hoje. No caso dos meninos, porque a categoria este ano estava difícil e seria impossível que ganhassem todos os que mereciam o prêmio. No caso das meninas, porque estava fácil de decidir e, se a coisa tá fácil, é porque não está boa.

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Sequer as polêmicas ao redor de Woody Allen e sua filha Dylan Farrow foram bastantes para tirar de Cate Blanchett este Oscar de Best Actress in a leading role. Atrás dela, o fantasma de Amy Adams (American Hustle). Cate Blanchett conseguiu, em um dos filmes mais “sem sal” de Woody Allen dos últimos anos (“Blue Jasmine”), preencher o difícil papel de Jasmine. Como Best Supporting Actress, Lupita Nyong’o era favorita absoluta e levou com justiça.

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Actor had some tough calls this year, ma friends. Enquanto todos os protagonistas foram bem, inclusive Di Caprio com sua melhor atuação desde o início de sua parceria com Scorsese, McCounaughey acabou por levar, com todos os méritos, Best Actor in a Leading Role. Boa parte das grandes qualidades de “Dallas Buyers Club” deve-se às atuações, e a Academia reconheceu isso ao conceder também a Jared Leto o prêmio de Best Actor in a supporting role. Embora tenha concorrido com figuras como Bradley Cooper – que ninguém nunca saberá explicar por que foi indicado ao prêmio -, concorreu também com atores como Jonah Hill, que teve ótima atuação em “The Wolf of Wall Street”. Aparentemente o elenco de “Dallas Buyers Club” desbancou por completo os caras de Marty.

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Let’s take a momento pra falar sobre “The Wolf of Wall Street”, embora já tenha falado o bastante sobre ele aqui. O filme recebeu cinco Indicações (Best Picture; Actor in a leading role; Actor in a supporting role; Directing; Writing, adapted screenplay) e acabou levando: zero. Muitas das estatuetas, assustadoramente justas. Cuarón realmente arrebentou em “Gravity”, bem como McCounaughey e Jared Leto em “Dallas Buyers Club”. Embora não tenha sido também meu filme favorito do Oscar 2014 (Fico com “Her”, do Spike Jonze), creio que “The Wolf of Wall Street” merecesse “Best Picture”. No conjunto, é o filme mais completo deste Oscar. Uma pena que saia de mãos abanando.

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Falando em filme favorito do Oscar, a suposta resposta de Spike Jonze a Sofia Coppola (“Lost in Translation”) rendeu a Spike Jonze não só o Oscar de Best Writing (Original Screenplay), como também a maior injustiça do Oscar 2014. Music (Original Score) não só deveria ir para “Her” (William Butler & Owen Pallett), como não deveria ir pra Gravity ainda que “Her” nunca houvesse sido feito. A bem da verdade, o vencedor da categoria não é sequer o segundo melhor dos indicados. O próprio experiente John Williams em “The Book Thief” teria sido o bastante para bater “Gravity”. Uma lástima.

Falando em música, a vitória de “Let it Go” (“Frozen”) – executada por Idina Menzel e de autoria de Kristen Anderson-Lopez & Robert Lopez – deixou todo mundo feliz por não ter de ouvir Bono Vox discursar. Não, não, não.. Obrigado a vocês, guys, de verdade.

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Por fim, “La Grande Bellezza” (Italy) levou Best Foreign Language Film, sobre o qual já escrevi Aqui.

 

 

Enfim, assim ficou o Oscar 2014:

Gravity
Directing (Alfonso Cuarón)
Cinematography (Emmanuel Lubezki)
Film Editing (Mark Sanger & Alfonso Cuarón)
Music – Original Score (Steven Price)
Sound Editing (Glenn Freemantle)
Sound Mixing (Skip Lievsay, Niv Adiri, Christopher Benstead, Chris Munro)
Visual Effects (Tim Webber, Chris Lawrence, David Shirk, Neil Corbould)

12 Years a Slave
Best Picture
Best Actress in a supporting role (Lupita Nyong’o)
Adapted Screenplay (John Ridley)

Dallas Buyers Club
Best Actor in a leading role (Matthew McConaughey)
Best Actor in a supporting role (Jared Leto)
Makeup and Hairstyling (Adruitha Lee, Robin Mathews)

The Great Gatsby
Costume Design (Catherine Martin)
Production Design (Catherine Martin, Beverley Dunn)

Frozen
Animated Feature Filme (Chris Buck, Jennifer Lee & Peter Del Vecho)
Music – Original Song (“Let it Go” – Kristen Anderson-Lopez & Robert Lopez)

Her
Original Screenplay (Spike Jonze)

Blue Jasmine
Best Actress in a leading role (Cate Blanchett)

La Grande Bellezza
Foreign Language Filme (Italy)

20 Feet from Stardom
Documentary Feature (Morgan Neville, Gil Friesen, Caitrin Rogers)

The Lady in Number 6: Music save my life
Documentary Short Subject (Malcolm Clarke, Nicholas Reed)

Mr. Hublot
Short Film animated (Laurent Witz, Alexandre Espirares)

Helium
Short Film – Live Action (Anders Walter, Kim Magnusson)

 

 

A lista completa de indicados e vencedores, você encontra aqui.

Mostra Tarantino (CCBB – Rio de Janeiro)

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Aos leitores cariocas e demais fãs de Tarantino: está rolando, desde o dia 17 e até 29 de julho, no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), a Mostra Tarantino, que exibe vários dos clássicos do diretor, entre eles, “Reservoir Dogs”, “Pulp Fiction”, “Jackie Brown”, “Death Proof”, “Inglorious Basterds” e “Django Unchained”.

O festival disponibiliza, inclusive:
Projetos nos quais sua participação se limita a roteiro ou atuação, como “Planet Terror” e “From Dusk Till Dawn”;
Projetos cujas vendas de roteiros possibilitou ao diretor angariar recursos para produzir e dirigir seus primeiros filmes: “True Romance” (dirigido por Tony Scott) e “Natural Born Killers” (dirigido por Oliver Stone);
Projetos nos quais o diretor participou parcialmente da direção (“Sin City”, “Four Rooms”).

Além e principalmente, é uma ótima oportunidade para assistir às obras do mestre no formato 35mm. As exibições contam, ainda, com sessões extras, caso a programação não se adeque à sua disponibilidade.

Cinco entradas podem ainda ser trocadas por um catálogo com ficha completa de todos os filmes que contam com participação do mestre – seja como diretor, roteirista, ator ou produtor. Se você estiver fora da classificação etária dos filmes, ainda pode comparecer, acompanhado por responsável.

O CCBB se localiza na Rua Primeiro de Março, 66, Centro (como chegar). O Cinepasse (R$6,00, com meia disponível) dá acesso a todas as sessões e à videoteca (ou melhor, é extremamente acessível). Recomenda-se a chegada uma hora mais cedo devido à lotação da casa (98 lugares, um destinado a obeso e três destinados a cadeirantes) para retirada da senha, havendo limite – em cada sessão – de uma senha por cinepasse.

A programação completa e demais informações estão disponíveis no site oficial da mostra. É ainda possível acompanhá-la através de sua página no Facebook (por lá estão rolando, inclusive, promoções, concursos e afins).

Enfim, tem de ser muito cabaço pra perder isso. Se você atingir tal feito, parabéns.

 

 

 

Fica aqui aberto um espaço para divulgação de mostras, festivais, cineclubes e afins. É sempre um prazer divulgar o que se relaciona à sétima arte. Caso seja de seu interesse, o contato é Travis@Catarticos.com.br.