Boyhood: um legado sincero de um fragmento de vida em um fragmento de espaço e tempo

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O tempo é um abismo.

Macroscopicamente, podemos traçar uma linha direta entre uma pessoa e seu destino final. Em um microscópio, estamos todos subjetivamente perdidos. Quando pensamos em nossas vidas, não olhamos para trás. Nos equilibramos em uma tênue corda, observando o caos que construímos abaixo de nossos pés. Sob essa perspectiva, o tempo e a expectativa de futuro nada mais são do que o medo do desequilíbrio.

Desconhecemos quem somos. Aonde estamos indo. Quais são as conseqüências.

“Boyhood” é, para uma geração – ou um conjunto delimitado delas –, o momento em que você olha para baixo e observa seu próprio abismo.

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Produzido em parceria da IFC Film Production – produtora norte-americana de filmes independentes como “Y tu mamá también” (Alfonso Cuarón), “Fahrenheit 9/11” (Michael Moore), “Paranoid Park” (Gus Van Sant), “Antichrist” (Lars Von Trier), “La vie d’Adèle” (Abdellatif Kechiche) – e Detour Filmproduction – produtora do próprio diretor –, “Boyhood” é um projeto conduzido por Richard Linklater entre maio de 2002 e outubro de 2013, com estreia no Sundance Film Festival de 2014.

O filme conta com os mesmos atores, cujo corpo central trata-se de Ellar Coltrane, Lorelei Linklater, Ethan Hawke e Patricia Arquette, interpretando seus personagens ao longo destes aproximados 12 anos de produção e, portanto, os enfrentando e construindo ao longo da passagem do tempo.

Linklater recebeu da IFC Film Production apoio financeiro de U$200.000,00 anuais, totalizando U$2.400.000,00, o que, somado ao investimento de sua própria produtora, totaliza um budget estimado de U$4.000.000,00. A obra possui duração aproximada de 165 minutos.

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Quando se pretende retratar uma geração, não necessariamente descarta-se da abordagem o que há de permanente, o que é inerente às pessoas. Em lugar, há preocupação em incluir as especificidades, ainda que uma boa abordagem não deixe de demonstrar a interação destas com o que há de imutável. Ocorre que, se não podemos reviver uma estória pessoal, muito menos uma geração pode contar a outra um momento. Mesmo no meio artístico, enfrentamos o problema da objetivização do passado. Um período de tempo será retratado com seus melhores e piores aspectos. É como imaginar uma vida em um mundo pós-filtro, em que exista apenas o que há de bom ou o que há de destaque específico ao tempo. Selecionar o modo de vida para retratar um período através de contrastes é deixar de abordar a sua manifestação da vida cotidiana, o que é um dos aspectos mais interessantes e viáveis para compreendê-lo.

Este erro não ocorre apenas no aspecto material de um filme. São incontáveis as obras que retratam períodos de tempo em que só o extraordinário do meio musical daquele recorte temporal existe em suas trilhas sonoras, apenas o caricato comportamental habita em seus personagens, que só vestem o corte extravagante e o tom desarmônico de cor de sua geração.

Em lugar de criar um épico caricato de uma geração, Linklater optou por representá-la através de um remendo de curtas materialmente conectados, construídos como despretensiosos “filmes da semana”, com uma trilha sonora composta – não em sua integralidade – por músicas da semana, enquadrando em seu cotidiano a literatura e os jogos ocasionais ou as discussões políticas sob a ótica de uma mesa de jantar.

Escondida nesta desconstruída aparência de planificação, porém, opera a grande sensibilidade do diretor; seja enquanto Mason apaga a progressão de sua altura pintada na parede de sua primeira casa ou enquanto tem sua frustração por perder seu prometido carro substituída pela explicação de seu pai sobre o “Black Album”, dos Beatles, estamos completamente imersos nesta Obra e, a partir de então, mergulhados em nosso próprio passado. As sensações provocadas pelo filme são como guias da memória em nosso interior e, em parte, “Boyhood” se torna um detalhe enquanto revisitamos nossa própria trilha do tempo.

Ademais, a própria direção cresce muito na progressão do filme. Resta refletir se isto se trata de um reflexo do aprimoramento do próprio Richard Linklater no decorrer do tempo ou, ao contrário, trata-se de uma evolução – ao menos aparente – do Cinema médio no decorrer dos passados doze anos.

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Muitas das principais especificidades desta geração foram abordadas por Linklater com grande sucesso.

Ao pretender retratar a família nesta geração, não abstraindo o conceito da concretização prática majoritária, mas da especificidade expressiva, o resultado inegavelmente seria uma família fragmentada. Trata-se da era em que o conceito tradicional do instituto familiar, inegavelmente, foi às ruínas. Qualquer movimento mal fundamentado que lute por ele não passa de gritos contra a inafastável dinâmica do tempo, e o autoritarismo não é o bastante para enfrentar o cessar do momento que propicia a consolidação de uma ideia. A família da Obra, em sua gênese, é baseada nos pais de Ethan Hawke (44 anos) e do próprio Linklater (54 anos), o que nos leva a crer que, por ser um conceito que tão bem se encaixa à geração que cresceu durante a própria produção do filme, não se trata de um movimento recente, mas de uma realidade que há gerações perde sua força. Ainda não possuímos uma resposta ao novo conceito do instituto familiar, mas atualmente já temos plena consciência das limitações a ele impostas que não mais se sustentam.

Neste aspecto, aliás, fica bem demonstrada a sensação de que as transições sociais que deveriam ser naturais sofrem graves restrições inerentes ao autoritarismo e conservadorismo das gerações anteriores, que se julgam sábias, mas se compõem majoritariamente de pessoas sem maturidade suficiente para observar as novas gerações e renovarem-se no caminhar do tempo – o que não é o caso de todos os personagens retratados. Neste sentido, toda geração passa por algo próximo a um parto para escapar das garras estagnadas da anterior. Como o próprio Mason dispõe, estas pessoas que o deixam bastante irritado sequer percebem que estão tentando controlá-lo. O autoritarismo, o machismo, a hierarquização obrigatória da idade, são regras presentes e eventualmente excepcionadas nesta Obra, como o são em realidade.

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Outras especificidade indispensável no retrato a que se propõe a obra e, neste sentido, presente e muito bem abordada, é o pragmatismo social, que se inicia na educação e deságua na alienação do trabalho. A possível maior revolução de nossa geração.

No trabalho, esta já começou. O trabalho como valor em si já foi descartado. A ideia de ocupar as pessoas com empregos que simplesmente não servem para nada – ou seja, a esmagadora maioria dos empregos de nossa sociedade –, escalonados unicamente pela apreciação financeira a eles atribuída, escolhidos pela capacidade de compra de bens de curta duração a eles inerente, em lugar de deixá-las naturalmente encontrar o caminho em que bem se enquadram, sem preconceitos ou saltos desproporcionais, já é presente. Pode-se dizer que “Walden; or, life in the woods”, de Thoreau, é cada vez menos uma obra fantasiosa e progressivamente mais uma filosofia de ordem prática no pensamento contemporâneo.

Desde o princípio, o filme aborda a limitação do ensino, atuando mais pela adaptação social do que pelo desenvolvimento individualizado. As diferenças de tratamento e interesse dispensados para os irmãos é a complacência da sociedade a esta infeliz ideia. Igualmente, o brusco corte entre as idades favorece a ilustração do trabalho como um fator neste sentido; temos, por exemplo, o rígido salto de um artista em potencial procurando sua forma de contribuir para a Arte que lhe interessa para um jovem padronizado lavando louças por profissão. De fragmento a fragmento, o filme expõe fatores que buscam conformar a vida dos personagens a uma expectativa de normalidade e abafar o que há para ser descoberto na existência de cada um. O pragmatismo exigido pela sociedade é o principal deles. Na balança da sociedade contemporânea, o prático, por mais burlesco ou inútil, sempre superará o existencial. A vida é um valor que só se percebe em detalhes.

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Ao contrário da convicção de que a obra se comunica bem com a geração que representa e as gerações que tangencia, só poderemos saber se a experiência de Linklater em retratar um fragmento de vida em um fragmento de espaço e tempo funciona para as gerações seguintes no futuro. De lado isto, se a dúvida é o suficiente para exaltar o experimentalismo do projeto, a forma como o filme nos toca é o bastante para afirmar que o diretor acertou mais uma vez e “Boyhood” é uma boa forma de deixar que o momento nos colha.

MALBA, Le Parc Lumière (Julio Le Parc) e La Casa (Gustavo Fontán)

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O medo de sucumbir à pressão de aceitar seu desencontro.

Estava prestes a explodir quando pousei em Buenos Aires. Um dia a mais de trabalho poderia ter me matado. Um dia a mais pensando na graduação na qual, embora me interesse, não vejo um futuro profissional que me atraia. Convivendo com a confusão do futuro.

Dividi um apartamento em Buenos Aires com um amigo peruano que havia conhecido por uma noite em São Paulo, com o qual havia desenvolvido um forte vínculo. Ainda no taxi entre o aeroporto e o studio que havíamos alugado, senti-me invadido pela atmosfera da cidade. Mas a cada ponto turístico, a sentia distanciar-se cada vez mais. O prazer que encontrava nos detalhes que não me cercam em meu cotidiano dava lugar às imagens que acidentalmente vemos em cartões postais.

Posteriormente, um amigo brasileiro que, coincidentemente, estaria em Montevideu no mesmo período, decidiu passar alguns dias com a gente. Lembrei-me, então, de que havia me interessado por um dos lugares recomendados no Guia da Folha: o Museo de Arte Latinoamericana de Buenos Aires (MALBA), que oferece uma programação muito variada de Cinema argentino e europeu.

 

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Neste dia, substituímos os objetivistas taxis por uma longa caminhada, por incontáveis blocos, nos guiando pelo celular e pela pequena noção que havia desenvolvido nos poucos dias anteriores em que estive na cidade. Passei a senti-la novamente. Caminhando por uma cidade, em um ponto aleatório, seja central ou periférico, desde que não destinado exclusivamente ao turismo, percebe-se seus detalhes cotidianos próprios. E como brasileiro, não acostumado a me vestir de forma a tolerar o frio das ruas e, simultaneamente, a temperatura amena dos interiores, percebi pelo caminho que, ao retirar o casaco, estaria completamente inadequado para frequentar um museu, usando uma camisa simples com uma estampa de Nosferatu, um dos meus favoritos do Expressionismo Alemão. Adentrar o MALBA, porém, fez com que eu percebesse, de imediato, meu engano. Logo no interior, recebi o recado de sinta-se como quiser, goste do que lhe atrair.

 

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Na exposição “Le parc Lumière”, de Julio Le Parc, todo o mal-estar que se formava na viagem se converteu em um imenso vazio. Caminhei pelas salas escuras deixando que o visual dissipasse meus pensamentos e me transportasse pela composição caótica de luzes e espelhos que se encaixavam ao subjetivo de meu campo sensorial. Foi uma experiência intimista, por vezes claustrofóbica, por vezes abstrata. Cada ponto de cada sala escura formava, para cada um, um universo distinto e próprio, uma infinidade de sensações próprias e inomináveis. Perder-se por uma linguagem interior nova e difícil de identificar – como são os fenômenos cotidianos e óbvios, para nós adultos, aos olhos de uma criança – foi como Buenos Aires se abriu como um conjunto de possibilidades diferentes para mim.

 

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Embora temerosos pelo fraco espanhol (mais de minha parte do que de meu amigo, que se deu muito bem com o idioma), saímos em busca da seção de Cinema. Por sorte, estava prestes a começar uma sessão de “La Casa”, dirigido por Gustavo Fontán, o qual, pela sinopse, parecia um filme predominantemente estético.

“Lo Primero que pienso cuando veo las películas de Gustavo Fontán es que no filma como se debe. No hace películas con los materiales con que las peliculas suelen hacerse y no muestra esos materiales de la manera en que las películas suelen mostrarlos. Por supuesto, afirmo esto con cierta ironia: en realidad, nunca hay que filmar como se debe. No tengo dudas de que, para filmar bien, hay que atreverse a mirar más allá de lo previsible. Por esto, decir que Fontán no filma como se debe es decir que hay un cineasta abriendo nuevos caminos”.
David Oubiña

A sala do Cine Malba é algo como a intersecção entre uma Sala de Cinema, uma pequena sala de Teatro e um local de palestras, com luzes elevadas em direção à plateia para momentos de discussão. Uma boa sala para o estilo de Cine, bastante atraente e confortável, com equipamento suficiente e mais adequado do que o usual para seu porte e estilo. Como as típicas salas de Cinemas de Rua – ou Cines alternativos, como o Reserva Cultural (SP) -, possuía seu tom de informalidade. Em geral, o público era dividido entre estrangeiros acompanhados e argentinos, boa parte destes, sós, o que é um grande indicativo de que o lugar é frequentado por cinéfilos.

 

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“La Casa” é parte de uma composição não cronológica chamada “Ciclo de la Casa” – uma trilogia de filmes independentes, todos gravados na casa dos pais do diretor, com atuação dos próprios – que esteve em exibição no MALBA, todos eles dirigidos por Fontán: “El Arbol” (2006), “Elegía de Abril” (2010) e o título em questão, lançado em 2012.

 Por duas razões, o fato de me deparar com “La Casa” em cartaz no exato horário em que estive no MALBA foi uma grande coincidência.

A primeira delas, é porque a obra é quase tudo de algo que preciso procurar “pelos cantos” do Cinema para encontrar. É simultaneamente espetacular e triste que a Argentina esteja contribuindo na inovação de um gênero cinematográfico, enquanto o Brasil está, predominantemente – muito disto em função da ligação monopólio-entretenimento que vincula o Cinema Nacional – importando e adaptando um estilo já ultrapassado de Cinema-entretenimento com pouco valor arte.

Com grande sensibilidade, Fontán revisita a casa de seus pais para abrir a realidade em passado e presente por um meio técnico-subjetivo repleto de lirismo. Seja através da sonoplastia, ou através da câmera sem objetividade – à vontade em trafegar pela casa sem a vinculação objetiva de um roteiro ou o bom-senso do enquadramento lógico -, Fontán nos introduz a vinte e cinco minutos hipnóticos em que a materialidade, com auxílio da memória, se abre em vida, e a casa se transforma em um organismo muito maior do que se inspira das vigas de concreto que a mantém de pé. Seja guiando-se por um som qualquer ou por um objeto antigo, Fontán desdobra, em uma mesma cena, duas percepções subjetivas diversas, acrescentando à dimensão natural camadas de vida. Os fantasmas de sua casa são as memórias, e as percepções vivas, a independência do local como ser próprio, preenchida pela vivência.

 

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Digo que a obra é quase tudo o que procuro no Cinema porque, em certo ponto, o autor permite que a sensibilidade perca para pretensão excessiva. Seria um excelente curta-metragem, modelo que sempre me atraiu e atrai cada vez mais, em especial em um momento do Cinema em que os longas se tornam cada vez mais longos, as séries, cada vez mais numerosas e seus episódios, cada vez mais desnecessários. Metade da obra consiste, basicamente, na demolição da casa. O autor utiliza-se deste choque para nos retirar bruscamente da transcendência da materialidade que construiu. Por fim, temos algo em torno de vinte minutos de demolição. Havia outras formas de o autor transmitir este choque sem quebrar tão bruscamente a hipnose da primeira parte. Meu amigo, posteriormente, concordou comigo de forma indireta, contando sobre a sensação hipnótica da primeira metade em contraste à sonolência que sentiu na segunda. Pode-se transmitir um recado sem retirar do destinatário o prazer da inspiração que uma obra pode lhe conceder.

 

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A segunda razão é que o Diretor esteve em pessoa na sessão, com sua equipe, para discutir a obra com o público e se submeter a uma entrevista. Foi interessante vê-lo reagir à pergunta de um jornalista, em questionamento de maior aprofundamento técnico sobre seus fantasmas materiais e os significados objetivos que inspiravam, alegando a iminente impossibilidade de responder uma questão a que sua obra era submetida, com medo de planificar o que era uma experiência pessoal, repassada ao público para que este a transportasse também ao seu entendimento individual.

 

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Em impressão final, o MALBA, jovem que é, troca a imponência pelo diálogo, permitindo que seu visitante o adentre sem o peso no ombro que costumeiramente representa a visita a um Museu e desfrute de momentos intimistas e insustentavelmente leves.

 

Trailer de “La Casa”, Gustavo Fontán

Praia do Futuro: trilhando e distorcendo o caminho aberto por La Vie d’Adèle

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O Cine LGBT está em voga. Embora o próprio nome seja ainda um resquício de preconceito, é uma fase necessária à libertação cultural: filmes que abordam as diversas opções sexuais em lugar tratá-las todas como tão ordinárias quanto a heterossexualidade, o que de fato são. As produções não são recentes, mas o papel do vencedor da Palma de Ouro de melhor diretor (Abdellatif Kechiche) e atrizes (Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux) “La vie d’Adèle”, sobre o qual escrevi aqui, tem um papel crucial neste foco. E diante de sua razoável – tendo em vista a temática – aceitação pela crítica e, inclusive, pelo público, seria quase inevitável que outros filmes seguissem pelo caminho aberto pela obra.

!CONTÉM SPOILERS!

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Em “Praia do Futuro”, dirigido por Karim Aïnouz, escrito por este em parceria com Felipe Bragança, Donato (Wagner Moura), um salva-vidas na chamada Praia do Futuro, em Fortaleza, após tentativa infrutífera de resgatar um de dois turistas que se arriscam em seu mar, em meio à perturbação e sensação de impotência advindos da frustração, adentra em um romance com o sobrevivente, Konrad (Clemens Schick), relacionamento que acaba o levando a Berlin, onde, sem dominar o idioma e culturamente isolado de seu habitat natural, divide-se entre a sensação de solidão e a completude de um amor conflituoso por sua própria natureza. Sua posterior opção por Berlin resulta também em um abandono à sua mãe e seu irmão, Ayrton (Jesuita Barbosa), que posteriormente vai ao encontro do irmão em Berlin, sentindo-se abandonado e evidentemente confuso diante não apenas da opção sexual e do abandono de seu irmão, mas também pelo novo mundo cultural alemão a que foi exposto.

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“Praia do Futuro” propõe-se a apresentar a visão masculina sobre a homossexualidade: não há personagens femininos atuantes no filme. Mesmo a mãe, que poderia acrescentar papel de peso à obra, sequer tem alguma aparição. Propõe-se a tanto, mas passa longe de qualquer êxito.

Em “La vie D’adèle”, conforme a resenha que sugeri em supra, Abdellatif nos insere à perspectiva de Adèle, utilizando-se de um composto técnico que vai do visual, passando pela trilha sonora e montagem, que se soma ao roteiro para nos inserir à sua rotina, à sua experiência heterossexual, sua descoberta homossexual e transtornos no tocante à autoafirmação social de sua condição. Em verdade, “La vie D’Adèle” é não apenas um filme completo, mas ousado e visualmente interessante. Todos seus elementos se integram e funcionam para seu propósito.

Em “Praia do Futuro”, as coisas acontecem. E nós engolimos todas as alterações, esperando a substância. Da cena em que os protagonistas se conhecem, há um corte brusco para uma cena de sexo entre eles. Depois de alguma interação vaga, eles estão em Berlin. Após algum conflito, por lá se estabelecem. Então, Ayrton está em Berlin e o filme fecha com um recado aparentemente profundo sobre os personagens. O roteiro não se fundamenta, os personagens não se apoiam em nada sólido senão na fé do espectador de que são profundos por alguma razão, como se a natureza de seu relacionamento fosse o bastante; mantém-se na superficialidade. No sentido técnico, é um apanhado do Cinema Europeu jogado às telas aleatoriamente, sem funcionar com qualquer propósito à trama. Se as cenas de sexo em “La vie D’adèle” chocam, são ousadas, também funcionam no sentido de demonstrar a diferença abismal entre a frustração da experiência heterossexual e a descoberta do prazer e do amor na experiência homossexual. Em “Praia do Futuro”, as cenas sexuais homossexuais são tratadas com naturalidade, o que é uma qualidade, mas não funcionam para a discussão de gênero. Tem-se, portanto, que se visto sob a perspectiva do Cine LGBT a que me referi a princípio – de discussão da sexualidade -, trata-se de um filme fraquíssimo. Se visto sob a perspectiva de um drama que trata a homossexualidade como elemento comum e indiferente, é também uma obra fraquíssima sob o aspecto dramático.

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Pouco depois de referida aceitação e sucesso de “La Vie d’Adèle”, assim como obras artificiais como “12 Years a Slave” – completamente projetado e planejado visando o Oscar e a lucratividade, aproveitando-se de um tema importante e o tratando de forma completamente rasa e insatisfatória -, “Praia do Futuro” é um filme mal planejado para o Cinema Europeu, para conquistar espaço em festivais europeus, não visando propriamente a lucratividade, mas o espaço em si, a visibilidade que proporciona aos autores.

Não adentrará o mundo europeu. Viveremos esta rotineira ideia de preconceito com o Cinema Brasileiro. Quando este preconceito é, na verdade e há muito tempo, nada mais do que ausência de autocrítica.

Trailer

“Tomorrow Night” – O indie film de Louis CK.

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A série “Louie”, de Louis CK – sobre a qual escrevi aqui -, retorna no dia 5 de maio para sua Quarta Temporada, no FX. Não é, porém, a primeira vez que Louie aposta na inovação para suprir cachês. Recentemente disponibilizado em seu site oficial por $5,00 dólares, “Tomorrow Night” (1998) é o primeiro trabalho de Louis CK como roteirista e diretor em simultâneo.

O filme gira em torno de dois personagens principais: Charles (Chuck Sklar) é o misantropo dono de uma loja de fotografia. Apesar do ofício próximo ao campo artístico, Charles é um homem frio e estritamente racional, sempre tentando encontrar paciência para seus necessários clientes. Mel (J. B. Smoove), seu carteiro folgado e bem humorado, é o mais próximo de um amigo que possui, por visitar diariamente sua loja e insistir em estabelecer contato, embora sempre frustrado. De outro lado, Florence (Martha Greenhouse) é uma idosa refém de um casamento com Lester (Joseph Dolphin), um lunático completamente sádico, por vezes caricato, por vezes assustador, por vezes ambos. A pobre Florence espera há vinte anos ser salva por seu filho, Willie (Greg Hahn), que se alistou no exército e nunca mais fez contato.

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Embora em início de carreira à época, struggling comedian and TV writer, juntando suas economias – e as economias alheias – para este filme de 1h27min em P&B, filmado em 16mm, Louie conta com um excepcional círculo de amigos para executar sua ideia. Além dos supracitados Chuck Sklar – que escreveu para, dentre outros shows de humor, “The Chris Rock Show”, atualmente parte da equipe de escritores de Totally blased with W. Kamau Bell, do FX -, J. B. Smoove – Leon Black em Curb your Enthusiasm (série de Larry David, co-criador de Seinfeld) -, Martha Greenhouse – atriz de novelas e séries como Law & Order, além de líder sindical, falecida em 2013 – e Greg Hahn – stand-up comedian -, conta também com participações como de Steve Carell (em um papel excepcionalmente babaca, sensacional para fãs de The Office US), Conan O’Brien, Jim Earl, Todd Barry & Nick Dipaolo (que interpretam a si mesmos em “Louie”), Deanna Storey (que está em “Synecdoche, New York”, primeiro filme escrito e dirigido por Charlie Kaufman), Rick Shapiro, Robert Smigel (escreveu para o SNL e Late Night with Conan O’Brien), Heather Morgan e Wanda Sykes (The New adventures of old Christine e também em Curb your Enthusiasm). E a lista continua; o elenco completo, desde os mais obscuros coadjuvantes, é interessante. Inclusive, se você é fã de Parks & Recreation – que conta com participação especial de Louie -, se assistir com atenção, poderá ver uma cena completamente nonsense com Louis CK molhando Amy Poehler com uma mangueira.

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Em “Tomorrow Night”, encontramos desde o humor pastelão, que nos faz gargalhar, até o humor refinado, que nos leva no máximo a sorrir, além, é claro, do humor completamente nonsense, todos comuns em “Louie”. Sua trilha sonora é também próxima a “Louie”, oscilando entre o orquestrado e jazz. É interessante, ainda, que o filme, em 1998, satirize de forma pesada o casamento por conveniência. Louie se divorciou de Alix Bailey apenas em 2008, dez anos depois, o que mostra que o tema tão exaustivamente por ele abordado possivelmente não está conectado exclusivamente ao seu divórcio (aos 10 anos, Louie enfrentou também o divórcio de seus pais).

Não há nada de excepcional em “Tomorrow Night”, embora um filme bastante acima da média para um primeiro projeto alternativo de um stand-up comedian autodidata no campo da direção. Se você gosta de “Louie”, porém, com certeza entenderá o que está acontecendo por trás deste filme simples, babaca, mas, ao mesmo tempo, por diversas vezes um grande desabafo, como a própria série. E nada como aquecer para o dia 5 com um filme de 98 do Louie, não?

“In your Eyes” (2014) – A Comédia Romântica de Joss Whedon

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Por que você não sabe por que está se sentindo assim? Porque não se conhece tão bem, ou por não termos um mapa perfeito da mente humana?

E se, por alguma razão – qualquer razão -, você estiver conectado a alguém lá fora? Alguém que você nunca sequer tenha visto e, talvez, nunca chegue a conhecer? Não estou falando de amor, sequer de amizade, mas de um vínculo incompreensível e acima da razão. E se essa fosse a verdadeira explicação para aqueles weird feelings que você ocasionalmente sente, e que vêm do nada?

 

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Logo após sua estreia mundial na semana passada, pelo norte-americano Tribeca Film Festival, “In Your Eyes” – novo filme de Joss Whedon – já está disponível, por $5,00 dólares, no Vimeo e em seu Site Oficial.

Após escapar das garras de diretores comerciais que, segundo o próprio roteirista, levavam seus roteiros às ruínas, Joss Whedon nos presenteou com obras como a série “Buffy, the Vampire Slayer”, bem como os recentes “The Avengers” (2012) – o qual também dirigiu -, e “The Cabin in the Woods” (2012), uma parceria de sucesso com o diretor estreante no Cine Drew Goddard (que já havia trabalhado com Whedon em Buffy), o qual Whedon descreveu como “a loving hate letter” aos horror films (altamente recomendável aos fãs do gênero, aliás).

Desta vez, com “In your eyes”, Whedon apresenta ao público uma.. comédia romântica. O que é irônico, mas nem tanto. Adentrando o gênero tão lucrativo a Hollywood, casa do arquétipo de diretores de que tanto reclamou, Joss Whedon mostra que é possível dar um tom diferente ao gênero, ainda que não escape completamente de seus clichês defeituosos.

A grande qualidade do filme está em sua construção, com dois protagonistas que se conectam por razões não apenas sobrenaturais. Dois outsiders, incompreendidos em seus círculos sociais, Dylan (Michael Stahl-David) é um ex-presidiário em condicional, cuja personalidade é planificada por Giddons (Steve Harris), seu agente de condicional, enquanto Rebecca (Zoe Kazan) é casada com Phillip (Mark Feuerstein), um atribulado médico que parece confundir “cuidar de sua esposa” com adequá-la às demandas objetivas de sua vida social. Fora essas similaridades, estes personagens possuem uma espécie de conexão telepática desde a infância, sendo capazes não apenas de ver através dos olhos do outro ou se comunicar, mas também de compartilhar – nem sempre de forma voluntária – sentimentos.

Whedon nos apresenta aos personagens de forma sutil e desenvolve seu envolvimento com bastante sensibilidade, sem deixar de lado o humor que é marca de sua obra. Passamos pela confusão dos personagens enquanto não compreendem bem o que são essas sensações e visões esporádicas que sentem, até o contato direto. A inicial apresentação sutil de suas características essenciais se desenvolve para o espectador à medida que são apresentadas por eles próprios um ao outro, de forma a acompanharmos de forma integrada a relação que cresce entre eles.

Em mais uma ousada empreitada de Whedon, “In your Eyes” é uma comédia romântica que não se confunde com as demais ordinárias, produzidas em massa na indústria hollywoodiana. Embora trilhe, a partir de certo ponto, caminhos bastante similares, tem em sua construção a sensibilidade diferenciadora de um bom e experiente roteirista, bem como direção bastante peculiar ao gênero.

Os custos do indie movie estão estimados em 1 milhão de dólares, um cachê intermediário a produções hollywoodianas e alternativas. Produzido em parceria pelas Night and Day Pictures e Bellwether Pictures – esta, fundada pelo próprio Whedon e sua esposa, Kai Cole -, é mais uma tentativa de distribuição direta entre autor e público, o que é sempre uma boa motivação para receber nosso suporte. And Joss Whedon really wants you to watch it:

Lost in Translation & Her

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Por que não podemos suportar a solidão? Uma pergunta circunstancial, de diversas tonalidades, capaz de parar o mundo em qualquer circunstância.

 

Fazer o café às cinco da manhã. Minha mesa no trabalho. A primeira vez em que cheguei ao apartamento e minha gata não estava na porta. Olhar o céu pela janela do meu quarto, à noite. O colégio. Dirigir na chuva pela primeira vez. Colocar a cabeça no chuveiro da casa dos meus pais, com eles viajando. O mês seguinte à mudança de cidade do meu melhor amigo. A vista do MAM em Niterói, à noite, durante os dias de semana. O quarto dos meus avós no carnaval. A cadeira do Cinema, antes de começar o filme. Meu quarto quando meu irmão se mudou. Chegar em casa após a primeira vez em que fui a um bar sem companhia. Tirar a aliança. Um livro de madrugada com o dimmer baixo. Procurar distância de um grupo de amigos para fumar, após uma risada.

A solidão não é ruim. É o medo do perpétuo que a estraga. O prazer de subir em arranha-céus e admirar a paisagem urbana. À distância. Onde ninguém pode nos ouvir. Mas de onde temos certeza de que a cidade ainda está lá. A vida em sociedade, em sua rotina, é um sacrifício para evitar o insuportável.

Em coletivo, formamos nossas ambições e competimos profissionalmente. Mas não é tudo o que nosso estilo de vida nos traz. Construímos nossa ideia de amor e profundidade psicológica no Cinema, em nossos livros e nas grandes histórias de que ouvimos falar. Assim nos formamos, assim nos distanciamos. A vida se torna cada vez mais imaginária. Somos bons nisso. São grandes e belas ideias. É o meio de criamos coisas que nos dão prazer diariamente, das quais gostamos muito. Mas estamos todos sozinhos. Esperando que as coisas aconteçam como idealmente desejamos.

“But men labor under a mistake. The better part of the man is soon plughed into the soil for compost. By seeming fate, commonly called necessity, they are employed, as it says in an old book, laying up treasures which moth and rust will corrupt and thieves break through and steal. It is a fool’s life, as they will find when they get to the end of it, if not before

(…)

Actually, the laboring man has not lesure for a true integrity day by day; he cannot afford to sustain the manliest relations to men; his labor would be depreciated in the market. He has no time to be any thing but a machine. How can he remember well his ignorance – which his growth requires – who has so often to use his knowledge?”.
Henry David Thoureau – “Walden; or, Life in the Woods”

Embora teoria de cinéfilos, inquestionavelmente, “Lost in Translation” (2003), escrito e dirigido por Sofia Coppola, e “Her” (2013), escrito e dirigido por Spike Jonze, comunicam-se. Ambos filmes têm a mesma temática central: a solidão.

!!Contém Spoilers!!

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Em 2003, Charlotte, interpretada por Scarlett Johansson, sente-se sozinha em seu casamento com John, à época, fotógrafo, trabalhando com músicos, em boa fase de sua carreira (Em semelhança a John, Spike Jonze dirigiu quarenta e quatro clipes musicais nos 90s e até o fim de seu casamento com Sofia, em 2003). Não só por isso. Aparentemente seu círculo social soa plano para ela, recém-formada em filosofia e com todas as possíveis interrogações sobre si mesma. Perdida em Tóquio – uma cidade do futuro para o presente -, caminhando como uma estranha em uma cidade à qual não pertence, em meio a uma vida à qual parece também não pertencer. É lá que Charlotte conhece Bob Harris – interpretado por Bill Murray -, um ator em idade que lhe possibilita maior certeza sobre seus “pessimismos”.

 

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Em 2013, Theodore é um escritor de cartas pessoais de terceiros. Vivendo sozinho em uma cidade caracterizada como um futuro próximo, o personagem interpretado por Joaquin Phoenix tenta deixar para trás um casamento fracassado. Encontra suporte em um OS, software desenvolvido para se adaptar ao ser humano por ele contratado e ajudá-lo com suas tarefas, bem como fazê-lo companhia. A quem empresta voz Scarlett Johansson, substituindo de última hora Samantha Morton.

 

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Em “Lost in Translation”, Sofia Coppola expõe a solidão quase como um privilégio dos que vão além ao refletirem sobre a própria vida, por vezes apoiando seus personagens na fragilidade dos demais. Seu marido a abandonou, seu círculo social é banal. Ao final, porém, a própria diretora se entrega à banalidade. Um dos elementos que torna o filme interessante é o fato de o espectador não entender – assim como Bob – o que há entre os personagens, provocado em boa parte pela diferença de idade entre eles. Tal diferença é o que soa como a maior das barreiras entre dois personagens em sintonia. Embora não fiquem juntos, o beijo joga o filme à velha banalidade de comédias românticas de que não importa o quão diferente você seja ou o quão perdido você esteja, things are going to work out. Por mais que não tenham ficado juntos, e suas vidas aparentemente sigam como antes, a consumação é uma desnecessária entrega à vontade regular do espectador.

 

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A solidão de “Her” não despreza os terceiros. Abordando a solidão que é comum à nossa sociedade, Spike Jonze insere Theodore em um contexto, sem a arrogância do egocentrismo. Em seus diálogos com Samantha – o OS -, o diretor parece expor seus sentimentos e pensamentos durante a crise de seu casamento e o período posterior, de aceitação. A grande beleza do filme é que o diretor suporta o recado a ele dado sem reagir com rancor ou arrogância. Em uma obra de caráter mais introspectivo, o personagem relembra os bons momentos com sua esposa, reconhece e lamenta seus erros. O passado é uma história que contamos a nós mesmos. Trata-se do primeiro filme dirigido e escrito em solo por Spike Jonze, que firmou parceria em dois de seus quatro filmes com Charlie Kaufman. Este, por sua vez, escreveu e dirigiu seu primeiro filme em 2008: “Synedocche, New York”, o qual foi produzido e, inicialmente, seria dirigido também por Spike Jonze. Sobre esta obra [sensacional], assim declarou o diretor ao The Guardian:

“On Synechdoche, New York, which I was originally going to direct, he [Kaufman] said he wanted to try to write everything he was thinking about in that moment – all the ideas and feelings at that time – and put it into the script. I was very inspired by that, and tried to do that in [Her]”

 

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Spike Jonze e Sofia Coppola permaneceram casados entre 1999 e 2003. Embora a conexão de “Lost in Translation” com o relacionamento seja mais clara por questões temporais, “Her” parece também remeter a ele. Fora as proximidades entre os filmes – e inclusive as semelhanças entre a caracterização de Giovanini Ribisi e Spike Jonze, bem como a de Rooney Mara e Sofia Coppola -, o fato de “Her”, com toda sua pessoalidade, remeter a um casamento fracassado e o casamento de Spike Jonze com Sofia Coppola ter sido o único do diretor já nos remete obrigatoriamente a ele. O filme não foi necessariamente construído como resposta a “Lost in Translation”, mas sem dúvidas o responde.

“Her” não deve ser visto, porém, como uma resposta objetiva a “Lost in Translation” ou ao término, estritamente. Relaciona-se à vida pessoal do diretor neste sentido, mas não resume-se a isto. Em reflexão sobre a sociedade contemporânea, Spike Jonze conversa conosco sobre a nossa solidão. Seu personagem diz mais do que suas reflexões sobre o relacionamento com Sofia Coppola em concreto; passando por ele, é uma reflexão sobre a própria vida do diretor, incluindo sua profissão. They’re just letters. Trata-se de um mundo onde as pessoas formam suas próprias ilhas.

Em meu dia-a-dia, quando estou em locais em que não me sinto bem, ou meramente quando estou indo de um lugar para outro, pego-me entrando no universo que existe em meu celular. Por vezes em rodas de conversa, quando encontro espaço para tanto sem soar deselegante. Às vezes mesmo soando mal. E ainda que não o faça, penso no quão bom seria fazê-lo. Não que não haja inúmeras vantagens, mas em alguns momentos paro para pensar naquele pouco – aleatório e em potencial – que estou perdendo; alguns segundos que poderiam se tornar mais importantes para mim do que um tweet ou e-mail.

A internet nos introduz a um universo no qual podemos com maior facilidade encontrar as pessoas que se encaixam à vida que desejamos, com as quais podemos conversar e compartilhar as coisas que nos interessam e formar com elas a vida que imaginamos. À medida que nos desenvolvemos, nos afastamos mais das pessoas de nosso cotidiano e nos abrigamos em nosso próprio casulo, onde formamos caminhos que condizem melhor com o que pensamos. O diferente se torna cada vez mais escasso frente às nossas crescentes certezas, porque não mais somos obrigados a conviver com ele. Isto não nos planifica? Este mecanismo que se encaixa com perfeição à rotina profissional de uma sociedade competitiva não parece tão benéfico em nossas experiências pessoais.

Toda informação a que temos acesso instantâneo realmente funciona a nosso favor?

Estamos crescendo ou nos tornando grandes pessoas solitárias, presas na trilha das ideias a que nos acostumamos?

De lado todas as razões, todos nós temos uma certeza: estamos, mais do que nunca, sós.

 

 

Pra escrever, li dois artigos bem legais:

http://whatculture.com/film/10-ways-lost-translation-connected.php

http://cinemania.es/noticias-de-cine/es-her-una-carta-de-spike-jonze-para-sofia-coppola

Esta não é uma review de “La Grande Bellezza”

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Uma noite em que tudo soa como preto e branco. Saindo de um Cinema de rua, cuja sessão os já poucos presentes abandonaram pela metade. Vestindo um casaco para evitar a chuva, o que é reflexivo e ilógico para quem não só queria, como esperava e torcia por enfrentá-la. Acendo um cigarro, não sei se para evitar o sensorial exaltado ou para inibir a confusão mental entre o perdido e o quebra-cabeças de ideias desorganizadas, frequente pela objetividade da rotineira linguística. O que eu escreveria após “2001: a Space Odyssey”?

Há dezesseis anos entrava pela primeira vez em uma sala de Cinema. Acompanhado por meu pai, preparava-me para ver um filme que entrava em cartaz com atraso que não incomodava à época como incomoda hoje; a não ser pela ansiedade, em lugar do orgulho. Era o Cine Rio Branco, em Varginha (MG). Famoso por supostamente possuir a maior tela da América Latina. Hoje fechado. A lenda não precisa de comprovação em minha memória; é tão verídica quanto meus olhos infantis rolando pelos lados, nunca fixos: era impossível, para mim, captar toda a imagem sem movê-los. Por vezes perdia diálogos e rostos e me flagrava observando objetos inúteis pelo cenário. Ainda não consegui livrar-me deste vício de primeira experiência. Ainda não quis livrar-me dele. O Titanic a que assisti em 1998 não é o mesmo a que assisti mais de uma década depois (2012), em seu relançamento em 3D. O Titanic que assisti naquele dia era um amontoado de detalhes, cujo enredo central pouco importava. Como pessoa fotográfica – que nunca esqueceu um rosto sequer em toda sua vida -, assusta-me o fato de não lembrar-me de uma pessoa sequer daquela sessão. Não lembrar-me se meu pai estava de barba, como estava seu cabelo e como transpirava seu humor. Pouco lembro de minha absorção do roteiro da obra à época. Lembro-me vividamente, porém, da interação da plateia. Da posição em que sentávamos em relação ao filme. Da pipoca que comia enquanto observava apaixonado perdidos objetos trivais para a obra. Senti-me, naquele dia, nada envolvido na história de amor central do filme, mas sim um terceiro passageiro do navio, calado, seguindo sua viagem, assustado pela situação. Construí minha própria história. E assim descobri, realmente, a sétima arte. Maior do que qualquer coisa que eu já havia visto na televisão, porque o Cinema – o ato de frequentá-lo – era sensorial e subjetivo. O filme não era. O filme seria o que meu estado de espírito ao entrar na sessão moldaria sobre o que me era dado. Por isso, detestei por muito tempo boa parte dos cinéfilos e nunca consegui encaixar-me em rodas de Cinema. Conhecer novas opiniões sobre um filme é, para mim, tão adorável quanto descobrir um novo universo. Principalmente sobre os filmes que detesto. Não consigo lidar com pessoas que busquem uma análise objetiva, terminando seu trabalho após “captar a essência e a verdade indiscutível” sobre uma obra. É sempre melhor não entender um filme, à sua maneira.

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Compreender nossa obsessão linguística pela que talvez seja a arte de maior potencial estético da história da humanidade é como tentar decifrar uma loucura de sua própria mente. Embora utilize-se da linguagem, o Cinema raramente é admirado pela abstração, subjetivamente, como se admira um quadro ou uma paisagem. Um filme que nos desperte sensorialmente não pode ser bom se não está preenchido linguisticamente, ou se ao menos não pode ser decifrado desta forma. É uma de nossas grandes tolices. Em seu produto final, a arte é tão bela quanto a ciência. Mas seus intermediários são completamente diversos. A arte é uma formação sensorial de resultado subjetivo. Não precisa, embora possa optar por, passar pelos caminhos da argumentação para justificar o que produz. Assim como você não tem o direito de delimitar quem você é e fazer com que os outros o engulam, sequer o autor tem o direito de delimitar sua obra. Não há, na arte, verdade. Há verdades.

“2001: a Space Odissey” foi, neste sentido, meu primeiro desafio. Não no sentido de tentar captar sua verdade absoluta. No sentido de, além do sensorial encantador, compreender o que me despertava. Sonho, desde 1998, em trabalhar com Cinema. Assim como sonho em me tornar escritor, ou como sonhei em ser músico. Não há contradição: não considero-me perdido, considero-as facetas de um mesmo sentimento. Nunca pensei, porém, que um dia escreveria sobre obras alheias. O fantasma de “2001: a Space Oddyssey” despertou em mim no exato instante em que aceitei o convite para criar este blog. Sempre soube que nunca poderia escrever sobre alguns filmes; não ao menos no encaixe estrutural que conhecia. A ideia de começar um projeto que envolvesse escrita e impessoalidade era, para mim, como desenvolver uma vida baseado em uma mentira.

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Vá ao Cinema, sente-se e assista a “La Grande Bellezza”. Incline-se a deixar-se levar. Descubra o que a obra o provoca. O que significa no contexto de sua pessoa. Não deixe que o filme acabe quando sair da sessão, mas mantenha o que sensorialmente lhe foi despertado e o continue. Reserve uma noite em branco, vá a um cinema incomum, deixe para decidir o que fazer nesta noite somente após a sessão. Assim como o cerne da mensagem de filmes como Fellini 8 1/2 não reduz e nem concentra o poder do filme, há muito mais por trás de “La Grande Bellezza” do que se transcreverá por aí.

O que posso dizer é que, assim como aconteceu com vários dos filmes que me tocaram realmente, em pouco tempo me esquecerei do que se trata, propriamente, “La Grande Bellezza”. Mas jamais esquecerei do sentimento que se formou na noite em que o assisti.

O retorno de Scorsese em “The Wolf of Wall Street”

Director Martin Scorsese arrives at The Royal Premiere of his film Hugo at the Odeon Leicester Square cinema in London

“The Wolf of Wall Street”: o filme mais Scorsese dos últimos dez anos, no mínimo. Não o melhor, não o pior. Em se tratando de arte, tal questionamento é infrutífero. Remete-nos a um feeling de quando Scorsese se apresentou a nós, em early classics como “Taxi Driver”, “Mean Streets” ou “Raging Bull”.

Scorsese faz parte de uma geração de diretores que passaram por uma graduação, propriamente, de Cinema, em conjunto com outros nomes como Oliver Stone. Apesar de já considerado gênio enquanto graduando da NYU, não foi fácil para o diretor alcançar o renome que possui atualmente. Embora já no início de sua carreira tenha demonstrado seu inquestionável talento em filmes como “Mean Streets” & “Taxi Driver”, com o fracasso de “New York, New York”, Marty sucumbiu por completo ao vício por cocaína. Ele próprio cogitou ter sido este o último filme de sua carreira.

Fiquem tranquilos, eu aviso a partir de que momento haverá spoilers

 

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Eis aqui um dos motivos pelo qual, ao recuperar sua confiança na indústria hollywoodiana firmando parceria com Leonardo DiCaprio (sim, o próprio Scorsese teve severos problemas em conseguir produção. Hollywood é a indústria do Cinema e todos conhecem a lei número um de uma indústria: não importa quem você é, dinheiro não deve ser desperdiçado), Scorsese reafirmou seu nome com o público e, simultaneamente, levantou questionamentos com uma boa parcela de seus próprios fãs:

Quando penso comparativamente em duas parcerias de grande sucesso entre os cinéfilos, penso em dois perfis também de sucesso, embora completamente opostos, de diretores e atores. Quando Jack Nicholson comenta a fama de Kubrick em seu tratamento com os atores, o próprio aponta algumas procedências e outros exageros. Kubrick foi famoso por seu “abandono” a Malcolm McDowell após a gravação de “Clockwork Orange”, bem como seu tratamento impaciente e agressivo em relação a Shelley Duvall em “The Shining”. Em comentários sobre os bastidores do próprio “The Shining”, Jack Nicholson expõe Kubrick como alguém superficialmente compreensivo. Quando via um ator fazer algo fora do esperado (ou do que gostaria) em uma cena – segundo Nicholson – Kubrick o chamava e o deixava falar pelo tempo que fosse necessário, ouvindo-o com atenção, para depois simplesmente refutar sua ideia e pedir que caminhasse de acordo com o que esperava. Para Jack Nicholson, isto não era incômodo: ele conseguia visualizar um limite entre o papel do ator e do diretor, considerando sua transposição uma invasão (o que não significa limitar-se por completo ao esperado ou ao que o roteiro o disponibilizava). Vale lembrar, aqui, que todos os grandes clássicos de Kubrick foram recepcionados com dureza pela crítica, enquanto Scorsese declara que esperava com grande expectativa qualquer filme em que o nome “Kubrick” figurasse como diretor. Para Marty, era obrigatoriamente um indicativo de um filme diferente; segundo Scorsese, Kubrick possuía sua marca, mesmo lutando contra a crítica, o que indica a capacidade de visão e discernimento independente do diretor.

Sorte para ambos e para nós, a relação entre Scorsese e De Niro foi diversa. Robert De Niro possui o perfil inverso de ator: ativo, invasivo, de iniciativa que transcende sua atuação. Com Scorsese afundado na cocaína e depressão, após ler a autobiografia de Jake LaMotta, De Niro desenvolveu obsessão em fazer um filme a respeito do ex-boxeador norte-americano. Treinando com o próprio (o qual, inclusive, tentou convencer De Niro a realmente seguir carreira no esporte), o ator insistiu para que Scorsese tomasse o projeto e se reerguesse. Em pré-produção exaustiva, De Niro recusou diversos roteiros encomendados por Scorsese, até aceitar o de Paul Schrader (que já havia sido roteirista de “Taxi Driver” e escreveria outros filmes com o diretor posteriormente, como “Bringing out the Dead”) e Mardik Martin. “Raging Bull”, que conta com a lendária atuação de De Niro – com suas alterações de peso e seu envolvimento excessivo com o papel – e direção excelente (elogio redundante) de Scorsese, foi o filme que ressuscitou o diretor.

 

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Não é de se espantar, portanto, a resistência dos fãs com uma nova parceria de Scorsese, desta vez com DiCaprio. O intenso envolvimento anterior do diretor com um dos maiores atores da história do Cinema norte-americano tornou os fãs resistentes a um novo nome figurando ao lado de Scorsese, ainda que este nome tenha passado por indicação do próprio De Niro. A situação se agrava por se tratar de DiCaprio, que é um ator que vive em um limiar, sem conquistar em definitivo a confiança da crítica: Por vezes excelente ator, por vezes mediano. Esta dúvida, inclusive, perdurou por seus filmes em parceria com Scorsese (“Gangs of New York”, “The aviator”, “The departed”, “Shutter Island”).

 Spoilers a partir daqui

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Não é que eu pense que algum ser humano vá perder a oportunidade de assistir a “The wolf of Wall Street”, ainda que em DVD. Trata-se aqui do privilégio de fazer parte do grupo de pessoas que assistiram à obra no Cinema e fizeram parte daquilo. Em minha opinião, em nenhum momento de sua carreira Marty deixou de ser o grande diretor que é. O que há de diferenciado em “The Wolf of Wall street” é um resgate de Marty às origens que o consagraram. O humor e estilo explícito que tanto influencia grandes diretores de nossa geração, como o próprio Tarantino. Uma direção vívida e envolvente brindada com a melhor atuação de DiCaprio em parceria com o diretor (talvez a única convincente). Com o conhecimento e vivência que possui, Scorsese confronta dois personagens, apresentando apenas um deles, quase “comprando” o público – de forma maestral – ao estilo de vida de Jordan Belfort (interpretado por DiCaprio), deixando em completo segundo plano Jean Jacques Saurel (personagem interpretado por Jean Dujardin) para, em um turnover não tão inesperado, apesar de surpreendente pelo caminho optado pelo diretor, à semelhança do ocorrido em “Raging Bull” – embora despertando sentimentos completamente diversos pelas circunstâncias contrastantes – derrubar, de uma só vez, seu protagonista (e o espectador) e, pelo mesmo caminho explícito optado por toda a obra, expor a queda de Jordan e a vitória – fora dos moldes de ostentação traçados pelo filme – de Jean. Em um mesmo filme, Scorsese reúne o explícito, o divertido, a acidez e a crítica, sem nunca perder o envolvimento.

Após assisti-lo mudo por suas três horas de duração – guardando em meu bolso o ingresso que iria para uma obscura caixa de papelão ocupada por lembranças -, como se fosse um terceiro, assisti a meus lábios, quase involuntariamente, dizerem: “Still got it, motherfucker. Still got it”.

Sinceramente, se você perder este filme, trinta minutos com as mãos nas chamas de uma vela não serão suficientes para se perdoar. Não simplesmente pela obra, mas pelo “retorno”. Como um lunático falando sozinho, deixo meu agradecimento a este diretor que mudou minha vida. Entrar no Cine e descobrir que Scorsese, aos 71 anos, still got it, é o indicativo de que chegou o momento de finalizar o texto: não há palavras.

La vie d’Adèle (Blue is the warmest colour)

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O prazer pode ser compartilhado?

Não. “Eu não sinto o mesmo que você”. No entanto, o que sequer pode ser compartilhado foi por nós padronizado. Não vou aqui discutir a ideia do que é natural em lugar do que é padrão. Não sei como os homens primitivos transavam, mas se o homem consegue ir além do que se tem por natural – seja por qualquer razão; psicológica, sociológica ou cultural – e o padrão moral quer ater-se ao que se considera natural, isto deixa de ser natural para tornar-se padronização. Neste sentido, o natural é o mero instinto contextual.

Se você é menor de dezoito anos, sou forçado a recomendar que não continue lendo.

Por toda a introdução de “La vie d’Adèle”, vemos Adèle lutar contra esse padrão. Após ser quase forçada por seu grupo de amigas a se relacionar com um homem, assistimos ao clichê social do relacionamento: duas pessoas de personalidades opostas se “atraem”, se divertem, beijam e transam. O homem, sem se preocupar com a mulher, goza e sente prazer. A mulher, sem qualquer sinal de orgasmo, simplesmente diz que foi bom. Grande parte das mulheres – aquelas que conseguem contar o número de orgasmos que tiveram na vida – partem daí e para sempre seguem esta linha. Não estou, também, generalizando os homens. Alguns aprendem pela vida que há duas pessoas excitadas em uma transa. A questão é: se não pode ser compartilhado, o prazer é uma coincidência. Não há como padronizá-lo, cada um deve descobri-lo e, para isso, procurar por ele.

 

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Após superar o problema interno – aceitar o que sente, que o que quer está fora do padrão –  Adèle passa a enfrentar o problema externo: seu círculo social torna-se inquisitório, tratando-a como verdadeira autora de um crime. O filme aborda inclusive a diferente aceitação familiar: Adèle mente para sua família, enquanto Emma a apresenta com sinceridade. Faz uso de elementos comuns na vida de um adolescente que está se descobrindo, como música, cigarros, timidez, álcool, bem como trata em paralelo elementos além do sexo, como carreira profissional, ambições de vida e afins; comuns à fase. Abdellatif Kechiche frequentemente faz bom uso de câmeras subjetivas para demonstrar o interesse sexual das personagens de forma real, enquadrando partes não tão usuais do corpo, o que insere melhor o espectador na experiência e intensifica os momentos. O diretor não se constrange em expor os momentos sexuais das personagens, o que é um contraste também interessante: o sexo com um homem foi, para Adèle, uma completa frustração, enquanto com uma mulher, uma experiência mais intensa e verdadeira: torna-se nítido onde foi que ela realmente se descobriu, tanto nas cenas sexuais, quanto nas mudanças que se operam em seu próprio cotidiano.

 

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Dois pontos deste filme me conquistaram. O primeiro deles: não há nada como um filme que use bem silêncio e rotina para apresentar um personagem. Uma grande quantidade de filmes – inclusive muitos bons filmes – apresenta seu protagonista de forma excessivamente acelerada, com diálogos precipitados, que não se encaixam à realidade. “La vie d’Adèle” faz belo jogo de rotina e silêncio para introduzir Adèle, complementando esta climatização com algumas falas bem encaixadas. O segundo ponto: nada como um filme que não reúna uma enorme quantidade de faixas musicais que o público alvo goste e as jogue aleatoriamente para conquistar o espectador, o que é costumeiro no Cine atual (um grande exemplo disto é Watchmen – um filme que gosto -, em que Snyder produz uma ótima coletânea musical e uma trilha sonora que beira o irritante). Em “La vie d’Adèle”, a trilha atua muito bem quando tem de atuar, mas é um filme em geral bastante silencioso, o que é um choque inclusive interessante, que dá a ela poder.

 

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Apesar de ter gostado bastante do filme, não estava me sentindo bem para escrever sobre. Creio que mulheres que tenham passado pelo que o filme aborda estejam mais aptas a escrever a respeito. Por isso, resolvi conversar com uma amiga bissexual, em um relacionamento com outra mulher há quase um ano. A conversa segue abaixo:

Frances Ha

Eu sou diferente. Acredito que sempre soube que era bissexual. Meu primeiro beijo e minha primeira paixão foram com uma mulher. Mas sempre soube que também gostava de homens, sentia tesão igualmente por eles. Meu primeiro namoro foi com um homem.

Minha primeira experiência sexual foi com um homem. Sexo entre homens e mulheres é com certeza diferente, mas você pode e consegue achar uma mulher tão bruta quanto um homem na cama.

Travis

“Você pode e consegue achar uma mulher tão bruta quanto um homem na cama”. Mas então, sexualmente, você procura, inclusive na mulher, algo de masculino?

Frances Ha

Não, eu apenas sou mais submissa na cama. A questão da brutalidade não é necessariamente uma característica masculina, mas pode se dar de forma feminina, como algemar, bater, me fazer implorar para foder; enfim, apenas uma mulher mais ativa e dominante. Acho que mulheres têm o controle do sexo com homens. Pegue, por exemplo, o sexo oral. Você tem o poder sobre alguém com a boca. Agora imagine isso no sexo lésbico, com duas mulheres disputando o domínio. Isso é um bom turn-on para mim.

Travis

A velha pergunta babaca: você se sente completa, sexualmente, com outra mulher?

Frances Ha

Sexo lésbico é bom. Eu não tenho preferência, simplesmente me sinto excitada e com tesão com a pessoa que estou, independente do sexo. Acho que alguém te desejar é sexy. Eu não sinto falta de homem porque estou apaixonada e namorando uma mulher que é a única pessoa que sinto falta no momento. Acho todas as pessoas bonitas e sensuais, cada uma à sua maneira, independente de gênero. Por isso gosto de ser bissexual, porque você se apaixona pela pessoa, por quem ela é, independente de gênero. Independente de quem eu estiver amando, estarei satisfeita, seja homem ou mulher. Uma resposta babaca: sim, sexo lésbico é completo, te faz gozar sete vezes em uma noite. Que mulher não quer isso?

Uma coisa que me deixa desconfortável é o fato de algumas lésbicas não saberem lidar com bissexuais, como se elas fossem traí-las com homens. Existe um grande preconceito com bissexuais, como se não soubessem o que querem, o que é muito injusto. Se estou com uma mulher, é porque eu a quero e não sentirei falta de outra coisa, porque estou satisfeita e feliz com ela. O mesmo poderia acontecer com um homem. O amor é uma questão de afinidade e convivência. O importante é ter intimidade o bastante na cama para que ambos se sintam satisfeitos. Eu acredito que quando alguém busca por outras pessoas, seja em um relacionamento hetero ou gay, é porque algo está faltando nela.

Travis

Você acha a bissexualidade natural, que toda pessoa a cogita em algum momento? Acha que a heterossexualidade se tornou uma condicionante moral, artificial?

Frances Ha

Eu não consigo enxergar a bissexualidade senão como algo natural em mim. Não acredito em tal coisa de “é apenas uma fase”. Mesmo que atualmente estejamos e uma sociedade mais tolerante à homossexualidade, desde criança você provavelmente nascerá em um lar heterossexual que apontará a heterossexualidade como o caminho mais correto, ou no mínimo mais “natural”.  Me aceitar foi muito difícil, ainda mais em uma criação evangélica. Cresci ouvindo que algo é ruim e errado, quando hoje vejo que não tem nada de errado no amor. Se você é uma pessoa boa e gosta de uma pessoa do mesmo sexo, isso não te torna ruim ou abominável.

Eu tenho certeza de que todo mundo já sentiu aquela vontade no amigo quando está bêbado. Minhas amigas héteros sempre me pegavam em fim de balada. Muitas pessoas realmente não deixam esse lado aflorar. E acham que os gays querem transformar héteros  em homossexuais, o que é uma grande mentira. Eu mesmo me sinto muito constrangida quando chego em uma menina e levo um fora por ela ser hétero, pela possibilidade dela me interpretar de forma errada.

Travis

Você acha que muitas pessoas se tornam infelizes e não encontram quem realmente são por preconceito interno?

Frances Ha

Sim. Acho que a pessoa não querer se aceitar deve ser a pior parte do processo. Quantos casos de homens que têm famílias – esposas e filhos – e casos paralelos com outros homens, porque apesar de amarem suas esposas, aquilo não é o que verdadeiramente são. As pessoas não deveriam fingir serem outras pessoas para serem aceitas pelos outros. Elas precisam aceitar que não há problema em achar alguém do mesmo sexo lindo e querer aquilo para si. É um corpo como o seu, inclusive uma forma de amar e conhecer melhor a si mesmo. É um tabu parecido com a masturbação: conheço muitas mulheres que não o fazem e tratam a masturbação como se fosse algo errado, enquanto para meninos de 14 anos isso já é normal. É como se a mulher devesse ser reprimida e acaba não conhecendo bem seu próprio corpo.

Travis

Seguindo a mesma lógica, você acha que o mesmo ocorre com pessoas que têm fetiches? Não encontram seu verdadeiro prazer sexual por constrangimento?

Frances Ha

Acho que pode ser visto dessa forma, mesmo porque o sexo é muito íntimo. Você pode ser tímido nas relações sociais, mas o sexo não é um momento para timidez. Você precisa se soltar. Mas não aceitar que façam com você algo com que você não se sinta confortável. As pessoas de sub/dom precisam encontrar parceiros para os quais tenham chance de mostrar isso sem serem julgados. Precisam saber que tudo é muito natural e deve ser aceito. Se alguém tem um fetiche e está com uma pessoa que não gosta disso, provavelmente será infeliz, sentirá falta disso. É como uma pessoa que é homossexual, sente isso por dentro, mas leva uma vida com um parceiro de outro sexo, apenas para se ajeitar aos costumes, mas no fundo, sei lá, vê um porn gay escondido. A única pessoa prejudicada no final da história é aquela que não consegue aceitar seus prazeres e vê-los de forma natural. Com certeza levará uma vida frustrada. Você nunca será tão feliz quanto uma atendente de Sex Shop.

Travis

É engraçado. Boa parte das pessoas se adequam aos padrões morais esperando assim serem aceitos e levarem uma vida feliz. Mas, ao contrário, deixam de encontrar quem realmente são e experienciar o que realmente querem. Isso me lembra de uma cena de “Easy Rider”, na qual o personagem de Jack Nicholson explica aos dois viajantes que as pessoas em geral os odeiam porque odeiam a liberdade que eles têm. Não é que toda pessoa tenha de ser bissexual, mas não vejo por que um heterossexual deva odiar uma pessoa de opção diversa. Você acha que, de certa forma, essas pessoas odeiam a liberdade que os bissexuais têm? O fato de eles terem enfrentado todo o preconceito e encontrado quem verdadeiramente são? Por fim, acha que, por todo tabu que existe – embora esteja diminuindo – em sequer cogitar essas opções sexuais, existem pessoas que são homossexuais/bissexuais e não sabem disso?

Frances Ha

Eu não sei se eles odeiam a questão da liberdade. Acho que eles têm medo de compreender como uma pessoa pode gostar das duas coisas, se é que me entende. Para eles é mais fácil falar que é um indeciso, porque a mentalidade das pessoas pode ser muito pequena quando elas querem. Se você gosta de uma coisa, você é isso. Mas não pode gostar de duas coisas ao mesmo tempo. Para elas é como se fosse impossível gostar de doce e salgado ao mesmo tempo.

Acho muito difícil uma pessoa não saber que é homossexual/bissexual. É algo que você nota, inevitavelmente. Eu descobri que era bissexual com 13 anos, e não precisei ficar com ninguém para ter certeza disso. Eu sabia que achava mulheres gostosas quando vi a Natalie Portman em Star Wars. Mas queria pegar o Anakin, também.

Travis

Mas a Natalie Portman não é um ponto neutro? Toda pessoa nesse planeta deveria querer transar com ela, não? Estou confuso.

Frances Ha

Hahaha não existem pontos neutros. Se uma mulher sente tesão na Natalie Portman e quer foder com ela, ela não deveria ser considerada bissexual ou homossexual?

Travis

Se uma mulher não sente tesão na Natalie Portman, ela pode ser considerada morta. É tudo o que tenho a declarar.

Enfim. Algum comentário final? Quem sabe uma experiência sexual, pra dar ibope ao blog?

Frances Ha

[censored] (sorry guys :/)

Hard Candy: uma indiscutível faceta humana

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Em um dos stand ups de sua série “Louie”, o comediante Louis C.K., quase precocemente interrompido pela platéia, brinca com o fato de que, se tratássemos a pedofilia com mais normalidade, assustando menos os pedófilos, talvez os fizéssemos se sentirem mais confortáveis à ideia de devolverem as crianças após o delito. Uma brincadeira da qual só um grande comediante como Louie, com sua confiança e seu poder de controle sobre a audiência, pode safar-se. Propositadamente ou não, Louie acaba por tocar em um dos tabus de nossa sociedade. Uma análise rasa já nos mostra a relatividade inerente ao tema, uma vez que há grande variação cultural no conceito de adulto, criança e adolescente. O Ordenamento jurídico brasileiro, por exemplo, restringe o conceito criança (não adolescente) à faixa etária anterior aos 12 anos, idade na qual, segundo a tradição judaica, as mulheres já se tornam adultas (o que não necessariamente corresponde à maturidade sexual), enquanto, no Egito, Tutancâmon se casou com apenas 10 anos de idade.

Não tenho qualquer formação em psicologia, não sou parte dos 70% da população mundial que se considera psicólogo nato, sequer sou minimamente mais expert do que qualquer um para abordar o assunto. O que tenho para mim como fato é que a pedofilia, assim como diversas outras classificações superficiais – como o recorrente batismo em “psicopata”, estas figuras naturalmente voltadas ao mal, sem qualquer solução e explicação lógica ou sociológica -, por incomuns e completamente incompreensíveis à mente do ser humano socialmente regular, são completamente refutadas no campo da especulação e entendimento, frequentemente atribuídas de forma insatisfatoriamente fundamentada à causalidade genética. Boa parte das pesquisas relacionadas à pedofilia, principalmente as mais divulgadas, quando não estritamente empíricas e estatísticas, são incompletas e insatisfatórias à amplitude do problema e ao tamanho repudio a ela ofertado por nossa sociedade. Neste ponto, convém desfazer qualquer mal entendido em relação ao texto: obviamente não se trata de uma justificação à prática, mas um simples questionamento: se tratamos como um grave problema, que deve ser evitado e exterminado, por que a ciência o evita em lugar de enfrentá-lo com propriedade e peso argumentativo? Afinal, problemas estéticos podem ser facilmente resolvidos pelo estágio atual da medicina, mas a pedofilia continua a ser tratada como um distúrbio genético inevitável do qual ninguém deseja qualquer proximidade analítica, o que de forma alguma evitará sua ocorrência.

Creio, porém, que a resposta já tenha sido dada no próprio parágrafo; o ser humano consegue reconhecer como uma doença algo que ele pense poder afetá-lo, e consegue reconhecer um doente como próximo quando há alguma possível ligação lógica que o torne compreensível – situação que ele reconheça que pudesse, se outras circunstâncias tivessem sobre ele incidido, ter ocorrido com ele próprio, embora não considere correta. Esta pessoa, reconhece-se como um próximo, um ser como outro, embora de saúde afetada. Quando este vínculo lógico se rompe – não se vê como possível que isto tivesse ocorrido consigo em qualquer circunstância social – o próximo se torna um outro ser, tende a se tornar um monstro distante, de espécie diversa, e a tendência é que a fonte seja atribuída à genética em lugar do ambiente social. Embora não seja o caminho racional, é sem dúvidas o caminho mais confortável.

Em “A insustentável leveza do ser”, Kundera nos introduz à palavra “Kitsch”, um termo alemão datado de meados do século XIX, o qual trata como um acordo categórico com o ser, exemplificando com o ato de defecar, que seria uma “prova cotidiana do caráter inaceitável da criação”. Se a merda é inaceitável, associa-se de imediato um caráter repugnante à criação; portanto, trata-se o kitsch de um acordo de ideal estético: a razão pela qual excluímos de nosso campo visual tudo o que a existência humana tem de essencialmente inaceitável. Ora, não se tratando a pedofilia ou psicopatia de distúrbio estritamente genético incidente sobre pessoa determinada, mas sim de força resultante de circunstâncias sociais, portanto passíveis de afetação a qualquer ser humano, despedaça-se o acordo estético em troca da aceitação de que todo ser humano é potencialmente repugnante. Mesmo os que não o são, poderiam o ser sob circunstâncias diversas. Pensar demais a respeito já seria assumir a possibilidade de que se trata de um problema humano. Tornar o pedófilo um monstro geneticamente diverso do ser humano ordinário, porém, é nos mantermos confortáveis com nossa própria natureza em todas as suas possibilidades.

Fiz meu melhor, com êxito, creio, para evitar spoilers; é uma indicação, não propriamente uma resenha.

 

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Enfim, querido assustado leitor. “Hard Candy” é um filme de 2005 dirigido por – aposto que você não esperava por essa – David Slade (sim, “Twilight”, “30 days of Night”). O filme trata de um fotógrafo – suposto pedófilo – interpretado por Patrick Wilson (“Watchmen”, “Prometheus”…) que conhece pela internet uma teenager aparentemente aberta e matura para sua idade, interpretada por Ellen Page (“Juno”, “X-men”, “Inception”…). Sinceramente, há tantas qualidades neste filme que comprei por chute – apenas por ler a sinopse, em uma Loja Americanas – que sequer sei por onde começar.

Convém destacar, a princípio, se tratar de um filme cujo suspense maestral é a proposta central, embora nem de longe esgote seu conteúdo. A princípio, fiquei encantado com o jogo de câmeras de Slade, principal qualidade técnica do filme. A dança das câmeras trabalha de forma perfeita com o suspense, por vezes induzindo o telespectador – com oscilações entre pouca dinâmica e enquadramentos simples durante o desenvolvimento dos diálogos e momentos calmos para bruscas movimentações nos momentos de ápice e resultado, cooperando com a sensação de instabilidade – por vezes com ele dialogando. Além, nestes momentos  de ápice da tensão, o enquadramento sempre surpreende com efeitos de direção – às vezes a opção pela handycam, outras vezes opções de foco – que intensificam os sentimentos profundos dos atores na exteriorização humana – raiva, tristeza, segredos profundos que se revelam, autodecepções sobre as quais nunca gostariam de dialogar a respeito, momentos em que as máscaras caem após longas construções dúbias de diálogos. Há, aqui, um excelente e harmonioso ponto de encontro entre a ótima direção e as ótimas atuações dos dois protagonistas supracitados.

Fora o aspecto técnico voltado à direção, o filme se desenvolve também sobre bases sólidas. Os personagens já não se iniciam planos, mas a cada diálogo surgem mais dúvidas a respeito deles e, a cada desfecho, quando se pensa haver encontrado uma solução para uma das peças, mais dúvidas surgem destas “soluções”, de forma que os personagens, já não planos desde o princípio, se tornam cada vez mais complexos e misteriosos. O filme faz uma bela construção que oscila entre dúvida, certeza e, novamente, dúvida, construindo mais e mais seus personagens ao decorrer da história, sem desprender a atenção do telespectador, que se afunda cada vez mais naquela narrativa, incômoda por várias razões. É interessante notar, no aspecto material, em relação ao exposto antes de entrarmos propriamente no filme, que a dúvida quanto ao caráter sociológico/genético é sabiamente exposta de forma invertida: a garota questiona qual a origem de seu problema, não a de quem ela própria supõe pedófilo.

Por fim, o filme deságua em um princípio de esclarecimento simultâneo à uma cena que está entre as que mais me provocou a sensação “suspense” no cine, de fazer qualquer marmanjo se contorcer e fechar os olhos. Se você é uma garota que odeia filmes de terror e seu namorado te força a vê-los com uma felicidade sádica, confie em mim: VEJA ESSE FILME COM ELE, porque esta cena não te afetará em nada e o traumatizará, sem dúvidas.

Bem, pra quem gosta de ser torturado por um filme, e para os fãs do psycho e de filmes que abordam perturbações da mente humana, é prato cheio, recomendo fortemente.