Louie’s season 4

The Comedy Cellar stage, one of the locations that the "Louie" show is filmed.

“Mas na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?”

Há uma grande antítese no humor de Louis CK: em stand-ups, Louie é um provocativo comediante que testa sem pudores os limites do moralismo e a resistência do público ao imoral; em sua vida, Louie é, ao menos em sua conduta externa, um incansável defensor de sua ideia de moralidade, não se importando, porém, em atentar contra qualquer resquício de moralidade que não encontre fundamento senão em si própria e, portanto, nenhuma utilidade senão a adequação social ao arquétipo do bom cidadão.

Referidos comportamentos antitéticos se refletem, inclusive, na montagem da série, que varia entre o comportamento ativo e preocupado de Louie em sua “vida real”, de onde surgem suas piadas, em contraposição ao seu comportamento em um stand-up comedy, despreocupado e inconsequente. Isto não se limita aos stand-ups da série, mas aplica-se aos stand-ups do comediante na vida real, com os quais sua série colabora de forma imensurável. Isso cria, além, um clima de intimidade dos fãs de Louie e da série, que compreendem o que está por trás do que, para uma plateia ordinária, seria um mero inconsequente arriscando falácias agressivas que podem machucar ou forçar o senso de humor da plateia a torcer-se e aceitar as ideias que seriam absurdas em outro campo que não a comédia.

Tem-se, aqui, o primeiro problema (cuja culpa não pode ser atribuída a Louie): a série, em sua excelente terceira temporada, com, inclusive, sensacional participação de David Lynch como ator, explodiu. O público entrou em contato com aquele self-financed comediante que, até então, escrevia para públicos muito específicos. De repente, todos os “críticos” precisavam assistir pela primeira vez, em uma porção limitada de tempo, a todas as temporadas da série, porque estaria em voga com a quarta temporada e não há revista e site de entretenimento que se respeite que não publicaria uma review e textos esparsos sobre ela.

Louis CK, porém, é um artista completamente espontâneo que está, destaque-se, pouquíssimo se fodendo para os caçadores de críticas que precisam produzir ideias em cima de suas ideias a qualquer custo, e fazer um público que compreende a série tão bem quanto eles engoli-las e repassá-las. O que Louie fez, então, foi dar continuidade natural ao caminho aberto pelo final da terceira temporada, colocando os dois pés no drama e no turbilhão de conflitos de sua existência, afastando-se do humor e aproveitando o espaço conquistado por sua série pra expor um redemoinho de pensamentos que o ataca em seu interior. Não que nunca o tivesse feito, mas ainda não havia uma temporada cujo enfoque fosse esse.

E o que acontece quando as pessoas que não conhecem o Louie que há por trás do humor são as pessoas que opinarão sobre esta quarta temporada tão intimista e atípica?

Se você assiste a Louie já há algum tempo, uma sugestão: procure diversas reviews da temporada como um todo, ou textos sobre episódios avulsos, e tente diferenciar os escritores que estão há algum tempo tentando captar o conceito da série e os escritores que estão agora a assistindo e produzindo o velho “conteúdo-obrigação”: a homogeneidade das opiniões é surpreendente. O texto mais famoso – e mais raso – sobre a temporada até então é um exemplo nítido disto: lidando com o velho clichê do “por que estamos dando ouvido a ele?”, a verdadeira questão que se levanta é: “por que estão assistindo à série e nos presenteando com opiniões tão lastimáveis e que tão pouco acrescentam?”.

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“O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão.
Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino.
O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo, a imagem da mais intensa realização vital.
Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.”

Nesta quarta temporada, temos uma ideia conflituosa central que se ramifica em diversas situações concretas: Louie está debatendo suas próprias hipocrisias, seja as que ele sequer pôde identificar anteriormente, embora dolorosamente óbvias, seja as que ele identifica, mas não encontra um meio ou solução de se livrar delas. Além, Louie consegue ramificar a abordagem em seu aspecto pessoal, mas também de forma social, tentando identificar as forças que o obrigam a agir daquela forma e, muitas vezes, sequer identificar que suas ações são completamente reprováveis em um campo ideal, tamanha a naturalidade e necessidade das condutas para o caminho da aceitação social.

Em seu relacionamento com Vanessa (Sarah Barker), a garçonete acima do peso do Comedy Cellar, Louie descobre um problema comportamental simultaneamente evidente e surpreendentemente oculto à sua percepção por muito tempo: ele próprio integra o grupo de pessoas que reforça a imposição de padrões que tanto o maltratam.

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Ao se deparar com sua filha de doze anos fumando maconha, Louie é obrigado a enfrentar uma hipocrisia à qual não enxerga solução senão o abraço em que a circunstância deságua: como impedi-la de fazer algo que ele próprio fez; como agir dentro dos padrões esperados de um pai, um educador, sendo ele próprio um ser humano que compreende o que fundamenta sua atitude e quais os conflitos juvenis que a induzem à fuga comportamental que adotou? Em contraste ao seu humor típico ao abordar o tema, como neste stand-up, em que sugere que as drogas seriam a perfeita solução para os adolescentes, bem como suas incontáveis declarações de que é usuário esporádico de drogas – como suas narrativas em comedians with cars getting coffee -, Louie reconhece e alerta seu público das consequências negativas e dos problemas que estão por trás da fuga de problemas psicológicos ao recurso drogas.

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No tocante à polêmica cena em que Louie beira – se não concretiza, tendo em vista que o estupro não demanda a conjunção carnal propriamente – estuprar Pamela, faz-se necessário destacar o que não convém: não se trata de uma gravação de Louis CK em sua vida real e a cena sequer constitui uma apologia ao estupro. É uma cena desconfortável para o mundo feminino e para uma parcela considerável do mundo masculino, onde Louie poderia estar incluído. À parte esta consideração, é uma cena cotidiana e real, infelizmente. Mas que não deve ser analisada senão contextualizada em seu propósito. Face à exposição até então feita, surpreende-me que a situação não tenha contagiado pela discussão assim como ocorreu com a cena de Vanessa. É o feminismo um discurso que não se expandirá pelos gêneros por não tolerar a integração?

Desde que conheceu Pamela, Louie é um cara excepcionalmente legal com ela, mesmo que ela o faça se sentir um lixo a todo tempo. É evidente que Pamela não quer se relacionar com Louie pelas mesmas razões pelas quais Louie não quer se relacionar com Vanessa: porque ele é careca, gordo, ruivo, branquelo. Assim, inclusive, Louie fecha sua quarta temporada: mesmo após o relacionamento concretizar-se, ainda que, em prática, superados estes preconceitos padronizados, Pamela joga em sua cara, em frente às suas filhas, o quão inadequado e indesejável ele é, utilizando-se dos próprios padrões que, sem qualquer exagero, destroem vidas de muitas mulheres. Não é algo que justifica o estupro, e tenho certeza de que o próprio Louis CK não pensa assim, mas Louie aponta ao fato de que há também mulheres que reforçam estes padrões de beleza que tanto reclamam por vincularem os homens. É um aspecto que oprime muito mais a mulher. Ainda que um possível egoísmo de Louie em expor sob a perspectiva que menos ofende.  O homem também sofre, e de forma crescente, os males da padronização em seu aspecto social. Mas não sente em sua pele a opressão em seu sentido estrutural, fator limitador que eleva a não adequação a níveis de reprovabilidade que intensificam o campo subjetivo e vão além como barreiras intransponíveis do campo social.

Resta, porém, a questão: se o objeto do feminismo é a equidade de gêneros e a quebra de padrões estéticos e preconceitos sociais que se escondem em situações de imobilidade injustificável, por que o homem que também o anseia não pode ser ouvido? Por que sua voz não pode ser interessante e produtiva para a discussão?

Não se trata da inserção do homem como protagonista. O machismo é uma circunstância que volta no tempo até o infinito, até a gênese de nosso conhecimento da história. Integralmente, o homem o apoia ainda na contemporaneidade, seja intencionalmente, seja em atitudes que não percebem. Há, porém, uma diferença fundamental entre o dolo e a culpa neste comportamento. Não se pode ignorar, também, que alguns homens – ainda que uma parcela mínima – querem se adequar a esta nova demanda de comportamento e, rotineiramente, não conseguem fazê-lo. É realmente uma solução que as mulheres simplesmente ignorem estas tentativas, em lugar de analisá-las e corrigi-las? O “erro” de Louis CK é, de fato, completamente improdutivo? Ou trata-se de uma exposição fidedigna da infeliz realidade, dando abertura à discussão e à possível otimização concreta do discurso?

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“Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar,
que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real,
que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes”.

Por fim, em seu percurso, Louie arrisca-se em uma tentativa de fuga destes padrões: um relacionamento com uma estrangeira, com a qual sequer pode comunicar-se pelas vias tradicionais. Ao fazê-lo, porém, Louie nos brinda com uma demonstração de que há muito mais na linguística do amor do que o que traduzem os idiomas e a comunicação tradicional, o que está exposto em algumas cenas veneráveis, como a que Amia se comunica com sua filha, através do violino, de uma forma mais intensa e verdadeira do que ele poderia fazer pela linguagem ordinária do cotidiano.

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Uma das grandes qualidades de Louie, explícita nesta quarta temporada, é seu talento para aguçar a curiosidade e apoiar a dúvida, o que pode ser muito cruel para uma parcela do público que se conforta e se enfeita tanto com certezas, indiferente aos seus fundamentos.

“Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”

Trechos de “A insustentável leveza do ser”, Milan Kundera

“Les Revenants”: a continuidade dos Zombie Movies

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A série francesa “Les Revenants”, criada em 2012 por Fabrice Gobert, inspirada no filme homônimo de 2004, de Robin Campillo, é não apenas a melhor zombie series da atualidade, mas um passo diferenciado no mundo do gênero.

Em meu primeiro texto ao Catárticos – sobre a série “The Walking Dead” -, fiz uma introdução à história dos zombie movies, abordando as principais características comuns aos bons filmes do gênero. Convido-o a ler esta introdução para compreender por que considero, a despeito da natureza dúbia dos que retornam da morte, ambos filme e série uma continuidade deste consagrado gênero.

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A série se baseia em um filme homônimo de Robin Campillo, de 2004. No filme, as pessoas que morreram recentemente retornam à vida com uma personalidade apática, discernimento questionável, mas aparente capacidade motora regular. Diferente da série, “Les Revenants” de Campillo assume a perspectiva dos vivos face à tragédia. Sutilmente, porém, o diretor nos indica que os “mortos” não se resumem à apatia indicada pelos pesquisadores – que, à medida que procuram saber mais sobre eles, progressivamente os segregam. Neste sentido, marcou-me a cena em que Mathieu (Jonathan Zaccaï) – um dos que retornaram -, em conversa íntima com Rachel (Géraldine Pailhas), sua esposa, alega estar com calor, interrompendo o momento íntimo entre eles para um mergulho. Em seguida, um corte para a visão subjetiva dos balões de temperatura instalados pela cidade – a temperatura corporal dos que retornaram mantém-se em média inferior à dos vivos -, indicando que a temperatura corporal de Mathieu continua inferior à de Rachel: aparentemente não era o calor que o levava a querer mergulhar, embora, pela supracitada perspectiva adotada pelo autor, não possamos saber exatamente o que se passa por sua cabeça.

Retirando o gore tradicional aos zombie movies, Campillo discute o tema central do gênero; exatamente o oposto do que ocorre na incorporação ao Cinema Comercial, o qual opta por suavizar e profissionalizar o gore e não absorve o propósito central, sem o qual não há qualquer sentido (a incorporação do gore a grandes produção já não faz qualquer sentido). Aborda questões sociais diante do retorno dos mortos, a segregação direta e indireta produzida pelo medo do diferente, sendo este por si só suficiente, ainda que não haja exatidão sobre sua consistência. Conecta-se aos filmes do gênero também no sentido da formação subjetiva do espectador: a linearidade dos acontecimentos – o concreto do enredo – não é tão importante quanto as ideias que se formam em sua cabeça em relação às situações postas. Conecta-se de forma limitada a “Incidente em Antares”, de Érico Veríssimo, tendo em vista que em seu livro, Veríssimo utiliza-se do realismo fantástico em tom não só sociológico, mas também conectado a uma realidade histórica e social específica, enquanto “Les Revenants” não se vincula a uma realidade histórica, explorando o ser humano em abstrato.

Les Revenants

“Les Revenants” é a série que deveria ter surgido há muito tempo, em lugar de séries como “The Walking Dead”, a partir do momento em que o público geral passou a se interessar pelos gêneros proibidos dos 70s & 80s. Com uma climatização próxima a “Twin Peaks”, de Lynch, embora não assustadora, prenderá o espectador a um mundo do qual não sairá automaticamente ao final de um episódio. Em lugar do medo ou do susto, Fabrice Gobert opta pelo assustador, pelo sombrio, inserindo o espectador ao mundo que inspirou, optando pela sensação de medo de forma constante e climatizada em lugar de utilizar-se de picos de adrenalina. Tal climatização conta, ainda, com composição da trilha sonora do Mogwai (a qual você pode ouvir na íntegra, gratuitamente, aqui).

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Ao contrário de Campillo, Gobert opta por adotar ambas perspectivas, inserindo-nos também à perspectiva confusa dos mortos frente ao seu retorno, à sua natureza e como se inserem na sociedade diante da situação. Sem esquecer por completo a abordagem social do filme e até então exposta, opta por dar enfoque ao drama, o que é necessário à continuidade de uma série, ao menos a longo prazo. Opta por construir histórias paralelas, como uma forma de apresentar melhor os personagens, para depois entrelaçá-las, construindo o drama. Como se passa em uma pequena cidade nas montanhas, não só a climatização, mas o entrelace das situações paralelas entre os personagens também é facilitado e funciona bem.  A adoção de ambos lados da história atua lado a lado com a complexidade dos conflitos: o espectador não é um terceiro que sabe como as coisas deveriam desenrolar e torcem para tanto; conhecemos os dois lados, compreendemos a razão que há em ambos e, no entanto, nas situações pessoais específicas, são inconciliáveis. Todo este mix torna o drama de “Les Revenants” profundo e interessante, fugindo do entretenimento sem esforços e sem acréscimos.

Com a recente morte de Gabriel García Márquez, um dos pais do realismo fantástico, é curiosa a coincidência de um resgate a um filme de 2004 para a construção desta série, que teve sua segunda temporada recentemente adiada para 2015. “Les Revenants” é a continuidade lógica dos zombie movies para esta era da queda de barreiras preconceituosas com o trash dos 70s & 80s, absorvendo o discurso ao drama profundo e bem climatizado, em lugar de explorar o gore como se fosse uma obrigação ou um band-aid que esconda o fato de que aquela obra é baseada comercialmente em algo que se tem atualmente como cool e pode ser rentável.

 

Trailer do Filme

Trailer da Série

South Park vs Scientology

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De um lado, a Cientologia. Religião para os Estados Unidos, Itália, África do Sul, Suécia, Holanda, Nova Zelândia, Portugal e Espanha. Na Austrália, sob o nome de Igreja da Nova Fé. Empresa para a Suíça. “Culto” para os chilenos. “Culto totalitarista” para Alemanha e Bélgica. “Culto perigoso” para os franceses. Nada próxima de religião para os russos.

Do outro lado, South Park. Animação criada por Trey Parker & Matt Stone. Atualmente em sua décima sétima temporada, com contrato até a vigésima. Transmitida pela Comedy Central, mas que angariou fãs pela MTV ou pelo extinto Locomotion. Criada após os virais “Jesus vs. Frosty” (1992) e “Jesus vs. Santa” (1995), que juntos formavam o “The Spirit of Christmas”. Ambas animações em cutout animation (animação de recortes), formato esteticamente mantido pela série, produzida a partir de um software que a simula. Enfim, South Park em uma declaração:

“And hearing other people say ‘You can’t do that,’ – you can only say ‘you can’t do that” so many times to Matt and me before we’re gonna do it’.
Trey Parker

Fundamentada no best-seller norte-americano “Dianetics: the modern science of mental health”, de L. Ron Hubbard, a Cientologia sugere uma forma de cura aos tormentos da mente  que consiste na exposição e remoção de traumas passados. A origem e conceito destes fatos passados foi condensada por Hubbard na ideia de “Thetan”. Embora julgar-se religião, a cientologia passa uma imagem de maior base científica em sua liturgia; como expõem os criadores de South Park, mais próxima de uma alternativa à psicologia do que, propriamente, uma religião.

Não à toa, South Park e Cientologia se encontraram. De um lado, um desenho que desafia qualquer censura ou padrão de moralidade. Do outro, um grupo – seja lá como você considera – cuja reputação é de completa intolerância a insultos, críticas e ironias. Que não apenas utiliza-se excessivamente do meio legal, mas vai além dele, adentrando o campo do assédio para intimidar e frear seus adversários. Fora as grandes lendas, como a de utilização de técnicas de hipnose para controle autoritário sobre seus membros, a Cientologia, gasta um valor estimado – pela Times Magazine – de 20 milhões de dólares anuais com ações jurídicas. Acontece que não apenas para buscar a justiça ao caso ou garantir a liberdade religiosa de seus membros. O grupo frequentemente se utiliza dos meios legais para, inclusive, assediar, intimidar ou esvaziar seus inimigos.

“The purpose of the suit is to harrass and discourage rather than win. The law can be used very easily to harass, and enough harassment on somedbody who is simply on the thin edge anyway, well knowing that he is not authorized, will generally be sufficient to cause professional decesase. If possible, of course, ruin him utterly”.
L. Ron Hubbard: the scientologist, a manual on the dissemination of material, 1955

Do início ao fim, abordando quatro episódios específicos, assim foi uma das maiores polêmicas de South Park, que tem seu ápice em “Trapped in the Closet”, nono episódio da décima segunda temporada:

!Contém Spoilers dos seguintes EPS!
S05E03 – “Super Best Friends”
S09E12 – “Trapped in the Closet”
S10E01 – “The return of Chef”

 

The Gauntlet – MTV Movie Awards, 2000

Tudo Começou. A primeira referência de South Park à Cientologia aconteceu neste curta especialmente produzido para o MTV Movie Awards de 2000. Parodiando o filme “The Gladiator”, nossos quatro amigos de Colorado estão sendo perseguidos por Russell Crowe pelo Coliseu quando são salvos pela Cientologia, liderada por John Travolta (que é membro da [?]Igreja). No curta, os integrantes do grupo estão caracterizados como os Psychlos de “Battlefield Earth”. Apenas Kenny não resistiu.

 

Super Best Friends – Season 5, Episode 3, 2001

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Bom. Neste terceiro episódio da quinta temporada de South Park – “Super Best Friends” -, David Blaine seduz nossos amigos com sua nova seita – a Blaintology -, a qual convence, através de perguntas retóricas, compreender a infelicidade das pessoas, prometendo ajudá-las. Após abandonar a seita, sem conseguir convencer Kyle a segui-lo, Stan recorre a seu amigo Jesus, cujos famosos truques aparentemente não mais funcionam dois mil anos depois de serem consagrados. Para vencer David Blaine, Jesus reúne os Super Amigos: Buddha, Muhammad, Krishna, Joseph Smith, Lao Tzu e.. Seaman. Liderados por Moisés, os Super Amigos partem para impedir o suicídio coletivo dos seguidores de David Blaine, manifestação para forçar o governo a fornecer isenção fiscal à Blaintology. David Blaine acaba por dar vida à estátua de Abraham Lincoln, que passa a destruir a cidade. Sem encontrar recursos para derrotá-la, os Super Amigos consultam seu líder, Moisés, que aponta a solução: uma estátua de John Wilkes Booth.

Não estou bêbado.

 

Trapped in the Closet – Season 9, Episode 12, 2005

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Neste episódio, ápice da polêmica, Stan, economizando dinheiro para comprar uma nova bicicleta – talvez porque a cientologia tenha atropelado sua antiga no EP de que falamos anteriormente -, faz um teste de personalidade gratuito oferecido pela Cientologia e descobre, novamente através de perguntas retóricas, que é completamente infeliz. Para solucionar seus problemas, Stan usa suas economias para tornar-se membro da Cientologia. Ao passar pelo exame pra descobrir seu nível de Thetan, porém, descobrimos que Stan é, na verdade, a reencarnação de L. Ron Hubbard e deverá agora guiar a Cientologia e retomar as obras de LRH.

Depois de ouvir a doutrina da Cientologia narrada pelo presidente, Stan retoma os escritos. Mas não pode fazê-lo em seu quarto: depois de desprezar Tom Cruise  como ator, este se tranca em seu armário and won’t come out of the closet. Tentando convencê-lo, John Travolta e R. Kelly acabam gostando de ficar por lá, também. Lembremos que Tom Cruise e John Travolta estão na lista dos famosos membros da Cientologia. E R. Kelly… fez a obra rap “Trapped in the Closet” que, se eu fosse você, ouviria antes de ver o EP. E veria os clipes. De verdade.

Enfim, Stan retoma a doutrina e seus escritos agradam o Presidente. Exceto em um ponto: ao sugerir que os membros não mais tenham de pagar para participarem, Stan provoca sua ira, momento em que o presidente o questiona se realmente acredita naquelas bobagens, ou como tirarão dinheiro das pessoas sem que elas paguem para participarem.

Por fim, embora Stan pareça conformar-se com o exposto pelo presidente, ao discursar para o público, acaba voltando atrás, afirmando não ser a reencarnação de L. Ron Hubbard e tratar-se a Cientologia meramente de um golpe em escala global. Sofrendo ameaças dos membros – ninguém pode fazer piadas com a Cientologia -, do presidente – que sentiu-se caluniado por Stan quando este o acusou de tê-lo dito pessoalmente que a Cientologia tratava-se de um golpe – e, claro, de Tom Cruise, já que o falso profeta o fez sentir-se um merda, Stan fecha o episódio gritando, well.. Ok, good. Do it. I’m not scared of you. Sue me.

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Segundo Parker, o que os impedia de dedicar todo um EP a parodiar a Cientologia até então era a presença de Isaac Hayes – voz de Chef e membro da Cientologia – no programa. Mas quando Penn Jillette contou a Parker & Stone que foi impedido de abordar a Cientologia em “Bullshit!”, não faria sentido que South Park não falasse a respeito. Penn Jillette, além de ilusionista, é conhecido por seu grande ceticismo. Ao cogitar abordar a Cientologia em “Bullshit!” – seu programa de televisão com Raymond Joseph Teller – acabou frustrado pela Showtime, temendo os famosos processos judiciais de que falamos no começo. Foi então que Parker proferiu o que, em parte, foi transcrito no início do texto:

“We’re going. That’s fucked up. And hearing other people say, ‘you can’t do that’ – you can only say ‘you can’t do that’ so many times to Matt and me before we’re gonna do it. Finally, we just had to tell Isaac, ‘Dude, we totally love working with you, and this is nothing personal, it’s just we’re South Park, and if we don’t do this, we’re belittling everything else we’ve rippeod on'”

O EP apresenta, de forma caricata e debochada, as supostas crenças da Cientologia, sempre afirmando, em legenda, que this is what scientologists actually believe. Acontece que Mark Ebner – jornalista investigativo, um dos autores do livro “Hollywood Interrupted” e dono de site homônimo, com notícias nada agradáveis sobre o mundo das celebridades – afirma que Nada do que você vê aqui é sequer um pouco exagerado. De verdade. No supracitado best-seller, que traz uma visão alternativa sobre a cultura das celebridades de Hollywood,  o autor faz uma pesquisa sobre a Cientologia para abordar seus efeitos na cultura Hollywoodiana. A obra conta, inclusive, com uma entrevista com Trey Parker.

 

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Isaac Hayes, de fato ofendido pelo episódio, rescindiu seu contrato em 13 de março de 2006, pouco antes do retorno da animação em sua décima temporada. Ele próprio afirma ter sido motivado pelo desrespeito da série às crenças religiosas – não dirigindo-se em específico à Cientologia. Como ativista político por quarenta anos, Hayes declara insustentável sua permanência na série.

“Religious beliefs are sacred to people and at all times should be respected and honored. As a Civil Rights activist of the past 40 years, I cannot support a show that disrespects those beliefs and practices”.

A contradição quase cômica do discurso de Hayes foi levantada por Stone em declaração ao New York Post. O Co-criador de South Park aponta que em dez anos e mais de cento e cinquenta episódios de South Park, Hayes nunca viu qualquer problema no fato de a série debochar dos cristãos, islâmicos, mórmons ou judeus. Mas repentinamente ficou extremamente sensível a deboches religiosos quando estes passaram a envolver suas crenças.

In 10 years and over 150 episodes of South Park, Isaac never had a problem with the show making fun of Christians, Muslims, Mormons or Jews. He got a sudden case of religious sensitiviy when it was his religion featured on the show”.

O QI de Hayes adentraria o campo patológico se, de fato, não houvesse percebido o humor negro de South Park com os judeus. Que trabalhava em uma animação em que Jesus tem um talk show e Moisés é um grande cone laranja e amarelo. E Maomé já foi um super-herói. Na sétima temporada, inclusive, South Park já havia feito um episódio em semelhante modelo, mas em relação aos Mormons (“All about Mormons”, S07E12). Vai precisar de uma desculpa melhor, Isaac.

 

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“Trapped in the closet” foi ao ar pela primeira vez em 16 de novembro de 2005. Tinha uma reprise programada para 16 de março de 2006 mas, sem qualquer aviso prévio, o EP foi substituído por “Chef’s Chocolate Salty Balls” (S02E09). Embora o Comedy Central insista que a razão seja a saída de Hayes do programa, Mark Ebner afirmou – através de seu supracitado site Hollywoodinterrupted, coro posteriormente reforçado pela CNN & FOX News – que a substituição teria se dado, na verdade, por ameaças de Tom Cruise à Viacom de que não cumpriria com seus compromissos de marketing na divulgação de “Mission: Impossible III”. A Viacom detém controle de, dentre diversas outras emissoras e produtoras, Comedy Central e Paramount Pictures (que produziu o MI3). Em entrevista à ABC, Tom Cruise expõe sua visão orkutiana sobre o assunto:

                “First of all, could you ever imagine sitting down with anyone? I would never sit down with someone and question them on their beliefs. Here’s the thing: I’m not even going to dignify this. I honestly didn’t really even know about it. I’m working, making my movie, I’ve got my family. I’m busy. I don’t spend my days going ‘what are people saying about me?'”

Em outras palavras:

But I’m not.. I’m not in the closet”.

Em meio às ameaças de fãs de South Park em boicotar MI3, em apoio à animação e repudio à censura à reprise do EP, Parker & Stone soltaram a seguinte nota, publicada através da Variety:

So, Scientology, you may have on THIS battle, but the million-year war for earth has just begun! Temporaly anozinizing our episode will NOT stop us from keeping Thetans forever trapped in your pitiful man-bodies. Curses and drat! You have obstructed us for now, but your feeble bid to save humanity will fail! Hail Xenu!!!”
Trey Parker and Matt Stone, servants of the dark lord Xenu

 

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“Trapped in the Closet”, e toda sua polêmica, entrou para o TOP 100 episódios da história da TV Guide, elaborado em 2009. Sobreviveu à censura, entrando normalmente para o box da nona temporada de South Park e indo ao ar pela Comedy Central por diversas vezes após a polêmica. Recebeu uma indicação ao Emmy Award (“Outstanding Animated Program (for Programming less than one hour”), que acabou perdendo para “The Seemingly Never-Ending Story”, de Simpsons, mas que gerou o anúncio acima, publicado também na Variety, pela Comedy Central (que, por si só, já é melhor do que qualquer categoria do Emmy).

 

The Return of Chef – Season 10, Episode 1, 2006

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Felizmente, neste episódio, não há referências à cientologia. O episódio começa com um flashback de um EP que não existiu, com Chef abandonando South Park para viajar pelo mundo com seu grupo de aventuras, o “Super Adventure Club”. Os quatro amigos estão arrasados. A cidade se despede de Chef. Ninguém sabe o que será de South Park sem ele. Isaac Hayes já não está neste episódio. Todas as falas de Chef são feitas por recortes de palavras em falas de episódios anteriores.

Finda a apresentação, Chef volta a South Park. Aparentemente encontrou uma forma de conciliar seu novo grupo e seus velhos amigos. Mas algo está errado. Chef volta com comportamento, well.. Pedófilo. Os garotos não vêem outra explicação, se não o tempo que Chef passou com seu grupo…. o “Super Adventure Club” e, portanto, vão investigá-lo.

Descobrem que o “Super Adventure Club” é um clube de pessoas que viajam pelo mundo molestando crianças. Mas o “Super Adventure Club” não o faz simplesmente  porque it feels really really really really good, conta-nos William P. Connelly. O clube foi fundado pelo maior aventureiro de todos os tempos.. William P. Phinehas. Phinehas nunca conseguia ser o primeiro a chegar nos locais mais ermos do planeta. Portanto, decidiu ser o primeiro a fazer sexo com as crianças nativas destes locais. Phinehas descobriu que as crianças possuem “Marlocks” em seus corpos, e, segundo Bethos, o adulto que transa com crianças se enche de Marlocks e se torna imortal. Phinehas viveu viajando ao redor do mundo e molestando crianças, sendo imortal até 1892, quando foi atropelado por um trem. This is what Super Adventure Club actually believes.

Imagem 5Bethos, the ruler

Após recusarem o convite para se tornarem membros do “Super Adventure Club” e resistirem à hipnose de William P. Connelly para aceitá-lo, os amigos constatam que Chef só faz parte do grupo e se tornou um pedófilo porque sofreu lavagem cerebral por seus membros. As crianças, seguindo o conselho de um psicólogo, levam-no a um prostíbulo, onde Chef é curado por uma mulher, bem… ao melhor estilo Chef.

Mas logo após ser curado, Chef é sequestrado pelo Super Adventure Club e a lavagem cerebral é novamente iniciada. Após descobrirem o segredo do Super Adventure Club – e se safarem de serem expulsos pelo segurança em situação de grande constrangimento -, os meninos salvam Chef.

No momento da fuga, porém, Chef se vê no centro de uma ponte, tendo de escolher entre South Park e o “Super Adventure Club”. Ao optar pelo Super Adventure Club, um raio cai na ponte. Chef pega fogo. Tentando se manter pendurado nela, é atingido por uma pedra. Quicando pelos rochedos, cai em um galho de árvore, que o atravessa. É devorado por um leão da montanha. Atingido por alguns tiros. Um urso pardo aparece. Defeca nas calças. E morre.

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Por fim, Kyle faz um discurso sobre como Chef foi uma parte importante da vida dos moradores de South Park. Que por mais que não concordem com suas decisões, eles não podem deixar que isso faça com que as grandes lembranças com Chef desapareçam. E que não deveríamos ficar putos com Chef por abandonar South Park, mas sim com o “Super Adventure Club” por mexer com sua cabeça. Kyle lembrará de Chef como o cara sempre bem-humorado, com alguma música para cantar e os melhores conselhos para as crianças.

Quando penso neste último episódio, várias coisas vêm à cabeça. Como Isaac Hayes se sentiu ao vê-lo. O fato de que, no fim, fora todo humor, Parker & Stone realmente sentiram a saída de Hayes do programa. Não só a perda de um personagem que todo fã de South Park tanto gosta, mas o abandono de uma figura importante e integrada ao desenho, inclusive no background. Seu resultado – pela opção de Hayes, Tom Cruise e postura da Cientologia – foi mais uma mancha na história do grupo de Hubbard, uma perda lastimável para South Park e, tenho absoluta certeza, Isaac Hayes. Analisá-lo é perceber que não há, nunca, fundamento na censura. A censura carrega consigo sempre como pressuposto a ideia de que as pessoas não possuem capacidade intelectual própria para filtrar o desinteressante. E ainda que isto fosse verdade, a censura não seria a melhor solução. I’ve learned something today, Kyle.

 

Se você gostou do texto, alguns links interessantes/que reforçam as informações:

http://web.archive.org/web/20070502161400/http://www.men.style.com/gq/features/full?id=content_4108&pageNum=1

http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/03/17/AR2006031702158_2.html

http://writ.news.findlaw.com/hilden/20051206.html

http://variety.com/2006/scene/news/inside-move-south-park-feeling-some-celeb-heat-1117939918/

http://www.cs.cmu.edu/~dst/Fishman/time-behar.html

 

Louie – a luta pelo cotidiano

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O maior erro que um ser humano pode cometer é questionar aquilo que ama ou lhe dá prazer. Alguns nascem, descobrem e morrem biologicamente. Outros nascem, descobrem, desconstroem e morrem em vida.

Agora, meus senhores, eu quero contar-lhes, desejem ou não desejem escutar isso,
por que não consegui tornar-me nem um inseto. Solenemente lhes digo que várias
vezes quis tornar-me um inseto. Mas nem isso me foi concedido. Juro-lhes, meus
senhores, que ser por demais consciente é uma doença, uma verdadeira e rematada
doença. Para o humano bastaria, até dizer chega, uma ordinária consciência humana,
isto é, metade ou três quartos daquela porção que cabe a um homem desenvolvido
de nosso infeliz décimo nono século (…).

Notas do Subsolo – Dostoiévski

 

Hoje tive um dia cansativo.  Há um ponto em minha rotina – pontualmente às 19h – em que estou sentado em um ônibus entre o trabalho e a faculdade e adentro em um estado anestésico em que não consigo identificar perfeitamente qual a linha lógica que estabeleço em minha cabeça. Aquele momento em que você sabe que está pensando, pelo pressuposto fático de conhecimento geral do ser humano de que é impossível deixar de pensar, e só por isso não se deixa levar pela ideia de que nada se passa por sua cabeça a não ser uma forte neblina entre os carros e uma mistura de vozes cansadas que chegam ao fim do dia.

Foi aí que uma voz em particular me chamou a atenção: uma mulher, sentada atrás de mim no ônibus, em voz alta no celular, reclamava sobre seu dia no trabalho. Uma cliente alegava que havia comprado chupetas e estas não haviam sido colocadas em sua sacola, enquanto a trabalhadora alegava tê-lo feito. Desabafava sobre isso com sua amiga como algo que havia posto a perder seu dia. “Quanta estupidez” – pensaria qualquer terceiro sobre aquele sentimento – “deixar que um fato tão besta acabe com seu dia”.

Tudo o que descobrimos e identificamos como verdadeiro se desconstrói em nossa passagem pelo tempo. O pressuposto infantil de que seu pai sabe exatamente o que está fazendo, o primeiro beijo, o primeiro amor, o sentimento sexual, a ambição por poder, o sucesso profissional. É natural que, em algum ponto de sua vida, quando você se pega pensando que “se sua vida estivesse de outra forma, estaria muito melhor”, perceba por experiências passadas que isto, de fato, não faria diferença nenhuma. A vida é como ela é. Sem a imortalidade da alma não pode haver virtude. O efêmero de nosso prazer é inerente à nossa percepção e realidade. O próprio prazer não possui sentido senão o criado pela mente a partir da percepção biológica. Pode ser aproveitado enquanto não desconstruído pela mente desde que não haja um pré-questionamento sobre toda e qualquer sensação, que se reveste na recusa em aceitar-se humano. Tudo se encerra em um contexto social, ainda que este seja ampliado pelo conhecimento de outras eras e costumes, porque o aumento do espaço de uma prisão não é a conquista da liberdade.

Aí está o grande prazer de boa parte das grandes sitcoms – Seinfeld, Friends, The Office (…): a aceitação do prazer do cotidiano, sem a espera de um grande sentido. A vida como ela é, pequena, simples, divertida, despretensiosa e despreocupada. Em verdade, qual a diferença entre sofrer por um problema besta de trabalho ou sofrer pelo abandono de um grande amor, um trauma de infância, um ato que incrimine a consciência?

Afinal, se o prazer é racionalmente pré-condenado, desconstruído – se não há absolutamente nenhuma diferença entre o vazio do pós-vida e a existência que não nos proporciona qualquer sentido – por que não depositamos ainda um tiro em nossas cabeças? Além do simples fato de nossa covardia humana nos impedir de fazê-lo? O fato é que o melhor que o existencialismo pode prover ao mundo é ser exterminado como um vírus, antes que contamine as demais pessoas. Mas somos egoístas e preferimos coloca-las em risco por uma esperança vã de que estejamos enganados, ou que seremos curados em algum momento. Quando buscamos algo grande demais – exceder os limites do ser humano – chegamos ao ponto de não conseguirmos voltar atrás e descobrirmos que simplesmente não estamos prontos – ou fomos feitos – para ultrapassar esse limite. E é quase sempre tarde demais. Vivemos em um mundo incomunicável.

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É por isso que se referir a Louie como “uma versão adulta de Seinfeld” é completamente minimalista. A principal diferença de Louie para as demais séries citadas é que ela não é simplesmente uma ode ao cotidiano, mas sim uma luta por ele. A personificação da velha piada do palhaço Paggliacci é um existencialista que luta para viver.

No S02E09, quando Louie se encontra com seu velho amigo Eddie, temos uma situação peculiar: um existencialista defendendo a vida contra um velho amigo ranzinza e pessimista. São os vinte e dois minutos que todo existencialista deveria assistir. Muitas pessoas chegam a um ponto na vida que precisam escolher entre lutar para sair do buraco em que se enfiaram ou esperar que a terra naturalmente o cubra. Mas não pedir que alguém lhe estenda a mão para puxá-lo à situação em que está.

Pegue o metrô ou entre no carro.

South Park S15E07 – You’re getting old

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Há quem ligue a televisão em algumas noites e se depare com quatro crianças falando palavrões, e se divirta. Há pessoas fodidas que assistam a South Park toda noite, por alguma razão. O primeiro tipo pode até gostar deste episódio, que destoa de todos os outros das dezesseis temporadas do desenho. Mas o segundo tipo nunca esquecerá da primeira vez em que o viu. Deitou em sua cama, esperando ver o desenho que lida de forma sarcástica e escrachada com QUALQUER coisa do mundo, dos maiores tabus às ideias populares infundadas mais imbecis.

E o episódio, que começa como qualquer um, mas depois percorre um caminho inusitado, faz o espectador esperar o tempo todo por um twist debochado.

De um lado, Stan completa dez anos e começa a achar tudo uma merda. No desenho, literalmente. Enquanto as pessoas falam, merda sai por suas bocas. O que seus amigos gostam de fazer (e que ele gostava) é agora apenas merda.  Sem ter prazer por nada, sempre resmungando, seus próprios amigos (há 15 temporadas juntos) começam a evitá-lo, porque ninguém quer andar por aí com um cara resmungando e achando tudo uma merda.

De outro lado, seu pai (Randy) passa por uma crise semelhante, mas em idade diferente. A pessoa que chegou ao fim da vida sem conquistar o que sonhava quando jovem. Atrasado, tenta se forçar para ter a vida que sempre quis.

O episódio parece indicar uma insatisfação dos autores de South Park. Na briga entre os pais de Stan, Sharon começa a se questionar por quanto tempo eles podem continuar fazendo aquilo; toda semana uma mesma história de formas diferentes, cada vez mais ridículas. Stone e Parker, que sempre escrevem um episódio por semana já para lançamento, estavam na época produzindo um musical (“The book of mormon”) e não sabiam como conseguiriam manter a obrigação legal de continuar a 15ª temporada.

Por fim, o episódio não nos dá o twist que esperamos. Ao contrário, vira South Park do avesso. Se chegamos à nossa noite, depois de ver tanta merda pelo dia, esperando quatro garotos (que nos lembram os bons tempos, de quando as coisas tinham alguma graça por si só) passarem por situações sarcásticas com coisas que repudiamos, para então relaxarmos, rirmos delas e dormirmos, o que vemos é um Stan sendo abandonado pelos amigos enquanto seus pais se divorciam. Sharon começa a jogar na cara de Randy infantilidades que realmente aconteceram no desenho (mas é exatamente essa infantilidade que o torna divertido, e que acaba provocando o fim de seu casamento). Por fim, enquanto Stan senta sozinho em um parque, Kyle até pensa em caminhar até ele, mas desiste. Chega a provocar dor física ver Stan deitado em sua cama, refletindo sobre como sua vida ficou vazia, com seu pijama do Terrance & Phillip (dos quais ele provavelmente já não consegue mais gostar). Até o episódio se encerrar. Este que chegou a me lembrar a época de leitura de “Notas do subsolo”.

“People get older, Randy. People grow apart”. Os pais de Stan se divorciam.

“I haven’t changed, the world has. Don’t you see it?”. Isto não é verdade, Stan. Você mudou, o mundo continua o mesmo.

The Walking Dead: uma homenagem ao Cine Trash, um insulto à humanidade.

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A realidade é um muro de concreto. Imaleável, subjetivamente, quebra-se como porcelana. Era o que pensava o homem, involuntariamente, olhando fixamente para um vaso intacto, em cujo interior jaziam plantas mortas. Havia sido baleado e, há alguns segundos, conversava com seu melhor amigo, sentindo que se recuperava. Sentia que a lógica era um organismo vivo. Dependia de cada um dos seus órgãos, dos centrais aos mais insignificantes. Se um deles não funcionasse, todo o resto era questionável. Do interior à realidade, já não mais poderia afirmar que qualquer coisa fosse real, ainda que palpável. Gritava por ajuda sem saber que não havia ninguém para atendê-lo. Ou todos aqueles corredores estariam dominados por pessoas, escondidas sob seus cadáveres. Criaturas do demônio, um castigo de Deus, um erro da ciência, um produto natural das escolhas da humanidade. Isto, somente ele poderia decidir. Aquele homem, que dormiu por dias, meses, anos, estava prestes a envelhecer mais do que qualquer pessoa que viva em tempos de paz, ainda que velada. Mas provavelmente não gostaria que seus gritos de ajuda fossem atendidos. Não naquele momento. Não daquela forma. Foi aí que tudo começou para alguns. Para outros, começa no gênero que se encontra nos 60s, se expande nos 70s e consolida seu espaço nos 80s. Mas os zumbis nasceram muito antes.

O princípio

Passado-tratada

Apesar do artigo de reunião supersticiosa “The Country of the Comers-Back”, publicado pelo jornalista Lafcadio Hearn na Harper’s Magazine (1889), foi o aventureiro William Seabrook – membro da Geração Perdida de escritores norte-americanos – o primeiro a ir além da superfície do mito. Dono de uma escrita espontânea e subjetiva – estamos falando de um escritor que se recusou a escrever sobre canibalismo (em seu livro Jungle Ways) até que provasse por si mesmo a carne humana, a qual descreveu como semelhante à carne de porco, mas que “precisava de mais tempero” -, em viagem à capital Vodu do Caribe (Haiti), publicou “The Magic Island” (1929), livro que mostraria que a lenda zumbi vai além das superstições sem padrão apresentadas no artigo de Hearn.

O Haiti, em situação colonial ainda pior do que a brasileira, teve sua população indígena dizimada, seguida por uma grande importação da mão-de-obra escrava africana e imigração de uma minoria de proporção irrisória que dominaria esta mão-de-obra. Do híbrido da cultura africana e da tentativa de catequização forçada, nasceria a religião Vodu, que resistiria à caça às religiões pagãs. De acordo com tal crença, uma pessoa seria composta de duas almas: a primeira representando sua força vital (“gros-bom-ange”), enquanto a segunda, sua essência (“ti-bom-ange”). Aqui, nasce a possibilidade de que as duas sejam separadas por um terceiro, restando ao corpo, de volta à vida, apenas sua força vital, sem qualquer vestígio de sua essência: uma casca vazia. Diante deste contexto de exploração extrema de uma vasta maioria por uma minoria, era assustador à população haitiana a possibilidade de que este feitiço fosse utilizado contra eles para que o que restasse de seus corpos vazios fosse utilizado para o trabalho escravo, fazendo inclusive com que fosse comum que, após a morte de um parente querido, a própria família o “matasse novamente” com um tiro na cabeça. Se isto, a princípio, soa como uma superstição banal, o alcance da veracidade do mito pode surpreender, o que é constatável da descrição de Seabrook ao se deparar pela primeira vez com o que os fazendeiros haitianos se referiam como zumbis:

“Minha primeira impressão dos três supostos zumbis, que continuavam a trabalhar, foi a de que eles tinham realmente alguma coisa de estranho. Seus gestos eram de autômatos (…). O mais horrível era o olhar, ou melhor, a ausência do olhar. Os olhos estavam mortos, como se fossem cegos, desprovidos de expressão. Não eram olhos de um cego, mas de um morto. Todo o semblante era inexpressivo, incapaz de expressar-se. Eu havia visto no Haiti tantas coisas que fugiam do senso comum que por um instante tive um surto, quase pânico, no qual pensei, ou senti: ‘Bom Deus, talvez seja tudo verdade e, se for, é terrível demais, pois isso muda tudo’. Por ‘tudo’ eu me refiro às leis e aos processos da natureza nos quais o pensamento e a ação humana moderna se baseiam.

Mais uma vez, porém, Seabrook não se rendeu aos mitos e, em diálogo com um médico haitiano, constatou que havia grandes chances de que o que os haitianos se referiam como zumbis fossem sonâmbulos em estado induzido de hipnose. Por isto, não é de se estranhar que algumas listas de zombie movies incluam filmes como “The Cabinet of Dr. Caligari”. Tal hipótese, inclusive, é reforçada pelo Código Penal do Haiti que, em seu Art. 249, assim dispunha:

                             “É também considerado atentado à vida de uma pessoa, o emprego feito contra ela de substâncias que, sem produzir a morte, causam um efeito  letárgico mais ou menos prolongado, quaisquer que sejam as consequências.  Se por efeito desse estado letárgico a pessoa for enterrada, o atentado será considerado assassinato”.

Para mais informações a respeito, sugiro a leitura de “Book of the Dead”, de Jamie Russel.

O apocalipse chega ao Cinema

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O livro de Seabrook chega aos EUA em meio à Grande Depressão e, além, em um contexto em que o Haiti, país já independente e que sofria embargos de toda a comunidade internacional, despertava interesse a todos pela construção preconceituosa de uma sociedade e cultura de selvagens. Não é aí, porém, que os zumbis encontrarão seu espaço livre de preconceitos.

A Guerra Fria, conhecida pela ausência de conflito direto entre a dualidade de potências mundiais, não tem a perder em relação às demais Grandes Guerras. Principalmente com a proximidade da Guerra do Vietnam, a população norte-americana – especialmente os jovens – se percebia enfim como vilã no mundo. Era uma juventude perdida e que se via como vazia, clamando por sentido. Foi aí que Jack Kerouac iniciou suas viagens que dariam origem ao “On the Road”. Que um fã de Woody Guthrie, influenciado pela obra de Kerouac, de voz questionável, saiu pelo país com um violão nas costas e um talento para letras que revolucionaria a música. O movimento Punk, enfrentando o privilégio e a extrema delimitação da música, gritou ao mundo o lema “do it yourself”, universalizou o acesso à música e a produção da mesma com sua atitude que preenchia seus acordes em grande parte simplórios e, principalmente, com o muito que tinham a dizer – ou gritar. Agora, qualquer garagem poderia se expressar através da música. O cinema, que é uma arte de alto custo, não ficou de fora disto. O tão mal quisto Cine Trash nada mais é do que a vertente “do it yourself” do Cinema. Pessoas com muito a dizer, que queriam apenas se divertir ou que buscavam chocar, sem dinheiro e sem apoio de produtoras, lançavam seus filmes low budget e conquistavam aos poucos seu público. Daí as inúmeras vertentes; o humor negro, macabro ou muitas vezes simplesmente pastelão, filmes de produção limitada e com conteúdo infinitamente maior do que grandes produções hollywoodianas ou filmes que lidavam quase estritamente com o gore. E claro, a mescla de tudo isso era comum. Para bom espectador de um filme trash, o sangue falso ou a maquiagem tosca não ofusca o plano de fundo. Guarda-se o foco etimológico do termo “monstro”: o termo latino monstrare; demonstrar, mostrar, apresentar. E mesmo o gore, que tanto preconceito sofreu no Cinema (e hoje está em alta), era algo equivalente a um adolescente trancado no banheiro raspando sua própria cabeça e saindo às ruas com seu moicano. Foda-se se você gosta ou não, e se detesta, que seus olhos tenham a nítida certeza de que não queremos que pense o contrário. FUCKOFF. Com o Cine Trash, o processo de aceitação foi mais lento, mas não menos corajoso.

Neste cenário, os filmes de zumbi se encaixam se dirigindo a um público específico. Aqueles que têm curiosidade sobre a verdadeira natureza humana.  Sobre quão certa nossa é nossa escala social de valores, quando testada diante do caos. Aquele grupo de pessoas que se perguntam se o que eles fazem e que aparentemente contribui à sociedade por uma atribuição humana de valores realmente é útil em um estado de natureza. Se nossa ciência realmente produz algo que transforma e evolui o ser humano. Se estamos no caminho certo. Esta reflexão pode parecer inútil se o estado caótico for colocado como uma situação utópica tão distante, mas a abstração pode trazer algum sentido real às nossas vidas, nos afastar de um caminho determinista improdutivo. De uma verdadeira escravidão. Da letargia. Isto, afinal, adotando a postura de que estamos tão distantes do caos. Estamos? Ou estamos próximos? Talvez vivamos nele? Ele seria tão ruim assim?

Esclarecendo que este texto não tem intenção de qualquer tipo de orientação relativa a filmografia, apenas para reforçar o que foi até então dito, não poderia deixar de citar o grande mestre George Andrew Romero. Tido por muitos como o grande criador do gênero no Cinema – o que não é bem verdade, apesar de tê-lo adaptado de uma forma que será a linha seguida majoritariamente – com seu filme “Night of the living dead” (1968), que se foca no terror e na natureza humana e divergência comportamental e ideológica em face do apocalipse, tem “Dawn of the Dead” (1978) como obra base e que melhor ilustra o que foi até então exposto – que posteriormente recebeu uma das mais lastimáveis adaptações do Cinema, do diretor Zack Snyder – na qual ultrapassa a situação de exteriorização do zumbi para consolidar a ideia de que é também o zumbi uma metáfora para a alienação já presente no indivíduo de nossa sociedade, além de considerações sobre a defesa de valores sociais em uma inércia de ausência crítica até o limite do caos, envolvendo inclusive o humor e o gore típicos supracitados. Em “Land of the Dead” (2005), filme que se inicia em meio a um apocalipse zumbi já consolidado, mas com uma cidade completamente cercada e reforçada onde vive o que restou da humanidade, o diretor dá ainda maior amplitude ao que construiu. O filme atinge seu ápice quando os mortos a invadem e, ao tentar fugir, a população se vê cercada pelos muros que ela construiu para sua própria proteção, o que é destacado pelo personagem, indicando seu sentido metafórico explícito. Não é, porém, conveniente buscar listas e afins, embora tais filmes sejam bons para quem está ainda ingressando no mundo dos zumbis. O legal é que você mesmo trilhe seus caminhos, vá encontrando os filmes que te agrade. Seria uma pena delegar a terceiros a escolha dos filmes em um gênero tão amplo.

The Walking Dead – Uma homenagem ao Cine Trash

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“Welcome to the big city”. Foi com esta frase que Glenn recepcionou Rick, enquanto observavam as ruas repletas de zumbis.

Há poucos motivos para não considerar a primeira temporada da série excelente e muitos motivos para não considerá-la ruim ou meramente mediana. Priorizando situar o espectador no novo mundo, o primeiro episódio inicia-se com um Rick fraco, que mal consegue caminhar, em um hospital infestado. Caminhando pelas ruas enquanto o espectador tem a percepção de que, em uma cidade deserta, talvez um dos zumbis fosse suficiente para acabar com o personagem ali mesmo. É um contraste interessante com o Rick que termina o episódio saudável, recuperado e seguro, caminhando pelas mesmas ruas e inclusive matando um zumbi que antes o assustara. Não se limitando ao bom suspense e à ação, já nesta temporada os personagens são apresentados em seu básico, sem grande desenvolvimento, e os espaços do HQ são preenchidos com referências a diálogos, ao gore e ao suspense clássico dos zombie movies, embora levemente amenizados. Inclusive o contraste de cenas de imagens fortes com músicas leves, com um toque de humor negro que suaviza o suspense levando o espectador a divertir-se acima de tudo com o que está por vir.

A primeira temporada não traz ao espectador a segurança de que uma boa série está por vir, mas consolida uma promessa. Seus erros irão se refletir majoritariamente na segunda temporada, o que comentarei posteriormente. Se cabe aqui uma crítica, seria a Noah Emmerich, que enfraquece seu personagem. Outro bom ator poderia dar ao desfecho um peso muito maior. Mas é muito positivo que a adaptação não tenha se dado ao pé da letra, como muito acontece e é desastroso, mas sim resgatando as origens do gênero, constituindo verdadeiro transporte do modelo de expressão dos comic books para o das séries. É ótimo destacar que, apesar de toda a explicação dada pelo Dr. Edwin a partir de suas pesquisas mantém ainda em aberto a causa. O fornecimento de uma explicação limita que os personagens expressem suas visões pessoais diante da nova realidade. Alguns personagens importantes da HQ, cortados, aparecerão posteriormente. Não estou certo, porém, que isto tenha sido premeditado, mas retornarei a este ponto ao comentar a terceira temporada.

Uma adaptação é subjetiva, podemos dar importância maior a detalhes aos quais os roteiristas não se detiveram, e não creio que isto sempre possa ser posto como crítica. Ao ser questionado sobre sua profissão antes do holocausto, diante da admiração do grupo por suas habilidades, Glenn os surpreende dizendo que era entregador de pizza. Nas HQs ocorre uma conversa no acampamento em que cada um fala brevemente sobre sua ocupação e sua vida antes da mudança. Considero esta cena importante. Característica dos filmes de zumbi, demonstra normalmente o contraste entre a importância dos empregos e a verdadeira utilidade de cada um diante daquela nova circunstância, ainda reforçando a ideia de que após o apocalipse zumbi, todos são iguais. Mas não se pode esperar – ao contrário é ideal que se repudie – que uma fórmula seja obedecida. A arte em geral não deve funcionar assim.

Por fim, a criação de Merle e Daryl é de se tirar o chapéu. Merle cortando a própria mão e a cauterizando no fogão é um ato sequer exposto em cena que já traduz a essência do personagem. A interpretação que Norman Reedus dá a seu personagem o engrandece e segue uma crescente por toda a série. Ele e Steven Yeun já se marcam como bons atores, em gritante contraste com a maioria dos demais, o que também vai ficando cada vez mais nítido pelo caminho.

The Walking Dead – Um insulto à humanidade

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Se o problema fosse somente a covardia, o desenvolvimento chulo dos personagens, a abundância de más atuações (aqui alguns atores devem ser aliviados, porque simplesmente não dava pra trabalhar com o que lhes foi passado) e o conteúdo absolutamente nulo, a segunda temporada seria apenas horrível. O problema invade inclusive o campo técnico, com uma direção que deixa a desejar, em contraste com a season 1.

Cabe aqui um questionamento que diz respeito à montagem das séries, no tocante à diferença aos filmes. Ao contrário do que se pensa a princípio, a diferença não deveria ser tão grande. A vantagem das séries é a possibilidade de contar longas histórias com maior tempo para desenvolvimento. Mas se todo este tempo é inutilizado, não havendo qualquer desenvolvimento, quebra-se o sentido. Não estou aqui considerando, porém, um mundo idealizado que não leve em consideração o caráter comercial da série. Mas considere-se, por exemplo, Lost: temporadas e temporadas de enrolação que fizeram com que parte do público desistisse. Qual a diferença? Lost inicia suas temporadas atingindo todos os personagens a fundo, contrastando a ideologia de cada um com resgate a clássicos científicos como os contratualistas bem como personagens fictícios literários. É plenamente plausível para um fã de Lost estabelecer um diálogo com um dos personagens, apenas olhando para a parede, porque foi criada uma personalidade verdadeira, como se cada um deles realmente existisse como uma ideia. Em Walking Dead, como me referi, os personagens foram meramente apresentados na primeira temporada e simplesmente não foram desenvolvidos na segunda: não há qualquer tipo de ideia, apenas uma eterna e maçante novela de entretenimento sem esforço, se é que há algum entretenimento.

Toda a temporada se guia basicamente em uma dualidade entre o instinto de sobrevivência (Shane) e a manutenção da humanidade (Rick), mas o discurso simplesmente não se desenvolve, mantendo-se repetitivo, como mera forma de legitimação de uma novela sem fim. As discussões inerentes aos filmes de zumbi são esquecidas. Os personagens chegam a encontrar uma igreja e, impressionantemente, ninguém expõe qualquer tipo de pensamento cético firme: não há discussão.

As mudanças dos personagens se dividem entre alterações bruscas e mal planejadas e a covardia de maculá-los, o que impede o desenvolvimento de algum conteúdo, de conflito real de ideais, no roteiro. Assim como a morte de Dale, que era um personagem capaz de causar as piores vergonhas alheias a um ser humano, o covarde Hershel da série, com sua defesa pacífica e civilizada da propriedade (defesa que o simboliza a princípio nas HQs, mas de forma rígida) deveria ao menos ter recusado abandonar sua fazenda e morrido defendendo sua propriedade, demonstrando que, mesmo após o apocalipse, alguns valores sociais não se perderam. Ambos personagens chegam ao limite da tolerância humana na segunda temporada, se comparados com os personagens de expressão das HQs.

A atuação de Sarah Wayne Callies merece um destaque especial. Simplesmente messiânica, é um provável sucesso do século XXII. Por enquanto, ninguém compreende muito bem o que ela está fazendo. Parabéns.

O grande problema da segunda temporada é que, com objetivo comercial nítido e estrito, houve má leitura do mercado. Tudo o que desperta um mínimo interesse pode ser amenizado, adaptado e rentável. Atualmente tem-se um movimento de importação de elementos do Cine Trash a filmes produzidos; formou-se um verdadeiro hype. O público se interessa atualmente por estes temas, quer conhecê-los. O que a série fez foi exatamente fugir do que considerava “repugnante para atrair audiência” para um modelo velho e conservador, quando o público esperava exatamente que a série seguisse a linha da primeira temporada.

Terceira temporada e o resgate

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O fracasso da segunda temporada parece ter sido um alerta efetivo. Mas nem todos os problemas por ela ocasionados puderam ser habilmente solucionados.

Não só pelo aparecimento de diversos personagens da HQ, inclusive personagens que foram omitidos na primeira temporada e que entram bem na história, os combates corpo a corpo e a oposição entre a prisão e Woodbury dão à série um clima de HQ interessante. A escassez de munição e a exploração da prisão me lembraram em alguns momentos o clima de jogos antigos de zumbi como Resident Evil 1, em que frequentemente era necessário o recurso ao corpo a corpo e a munição deveria ser economizada, bem como o clima de suspense. O elenco em geral cresce – as atuações melhoram – apesar de faltar aos personagens a substância, a particularidade determinada, que deveria ter sido desenvolvida na segunda temporada. Isto prejudica a série principalmente pelo aparecimento do Governador.

O governador é, sem dúvidas, o personagem que mais enriquece a série. Com fortalecimento da boa atuação de David Morrissey, sua conduta misteriosa logo expõe ideias que chegam a lembrar clássicos como “Crime e Castigo”. O personagem, em seu discurso repleto de sugestões metafóricas, opõe uma pequena parcela da humanidade a outra de caráter estritamente determinista. Finalmente, ao sugerir que eles reconstruiriam a sociedade, sugere que esta renasceria diferente: uma sociedade em que os indivíduos não se devorariam, nítida comparação entre os zumbis e as pessoas da sociedade em ruína (que no caso, seríamos nós). O personagem cresce e se revela a cada episódio. Infelizmente, sua ideologia não encontra uma ideia para contrastar no grupo da prisão, justamente pela ausência de forte caracterização dos personagens. O fortalecimento da atuação do elenco – conforme supracitado -, porém, ajuda nesta oposição – longe de torná-la perfeita. Apesar da ausência deste contraste, há conflitos relativos ao tratamento dispensado a estranhos e a forma de condução daquele grupo que nos levam a reflexões interessantes.

A temporada apresenta bons momentos de suspense e ação e nos leva a refletir, embora haja tal unilateralidade. Coloca novamente Walking Dead em possíveis bons trilhos, mas não alcança a qualidade da primeira temporada. A série continua em dívida.