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Esta não é uma review de “La Grande Bellezza”

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Uma noite em que tudo soa como preto e branco. Saindo de um Cinema de rua, cuja sessão os já poucos presentes abandonaram pela metade. Vestindo um casaco para evitar a chuva, o que é reflexivo e ilógico para quem não só queria, como esperava e torcia por enfrentá-la. Acendo um cigarro, não sei se para evitar o sensorial exaltado ou para inibir a confusão mental entre o perdido e o quebra-cabeças de ideias desorganizadas, frequente pela objetividade da rotineira linguística. O que eu escreveria após “2001: a Space Odyssey”?

Há dezesseis anos entrava pela primeira vez em uma sala de Cinema. Acompanhado por meu pai, preparava-me para ver um filme que entrava em cartaz com atraso que não incomodava à época como incomoda hoje; a não ser pela ansiedade, em lugar do orgulho. Era o Cine Rio Branco, em Varginha (MG). Famoso por supostamente possuir a maior tela da América Latina. Hoje fechado. A lenda não precisa de comprovação em minha memória; é tão verídica quanto meus olhos infantis rolando pelos lados, nunca fixos: era impossível, para mim, captar toda a imagem sem movê-los. Por vezes perdia diálogos e rostos e me flagrava observando objetos inúteis pelo cenário. Ainda não consegui livrar-me deste vício de primeira experiência. Ainda não quis livrar-me dele. O Titanic a que assisti em 1998 não é o mesmo a que assisti mais de uma década depois (2012), em seu relançamento em 3D. O Titanic que assisti naquele dia era um amontoado de detalhes, cujo enredo central pouco importava. Como pessoa fotográfica – que nunca esqueceu um rosto sequer em toda sua vida -, assusta-me o fato de não lembrar-me de uma pessoa sequer daquela sessão. Não lembrar-me se meu pai estava de barba, como estava seu cabelo e como transpirava seu humor. Pouco lembro de minha absorção do roteiro da obra à época. Lembro-me vividamente, porém, da interação da plateia. Da posição em que sentávamos em relação ao filme. Da pipoca que comia enquanto observava apaixonado perdidos objetos trivais para a obra. Senti-me, naquele dia, nada envolvido na história de amor central do filme, mas sim um terceiro passageiro do navio, calado, seguindo sua viagem, assustado pela situação. Construí minha própria história. E assim descobri, realmente, a sétima arte. Maior do que qualquer coisa que eu já havia visto na televisão, porque o Cinema – o ato de frequentá-lo – era sensorial e subjetivo. O filme não era. O filme seria o que meu estado de espírito ao entrar na sessão moldaria sobre o que me era dado. Por isso, detestei por muito tempo boa parte dos cinéfilos e nunca consegui encaixar-me em rodas de Cinema. Conhecer novas opiniões sobre um filme é, para mim, tão adorável quanto descobrir um novo universo. Principalmente sobre os filmes que detesto. Não consigo lidar com pessoas que busquem uma análise objetiva, terminando seu trabalho após “captar a essência e a verdade indiscutível” sobre uma obra. É sempre melhor não entender um filme, à sua maneira.

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Compreender nossa obsessão linguística pela que talvez seja a arte de maior potencial estético da história da humanidade é como tentar decifrar uma loucura de sua própria mente. Embora utilize-se da linguagem, o Cinema raramente é admirado pela abstração, subjetivamente, como se admira um quadro ou uma paisagem. Um filme que nos desperte sensorialmente não pode ser bom se não está preenchido linguisticamente, ou se ao menos não pode ser decifrado desta forma. É uma de nossas grandes tolices. Em seu produto final, a arte é tão bela quanto a ciência. Mas seus intermediários são completamente diversos. A arte é uma formação sensorial de resultado subjetivo. Não precisa, embora possa optar por, passar pelos caminhos da argumentação para justificar o que produz. Assim como você não tem o direito de delimitar quem você é e fazer com que os outros o engulam, sequer o autor tem o direito de delimitar sua obra. Não há, na arte, verdade. Há verdades.

“2001: a Space Odissey” foi, neste sentido, meu primeiro desafio. Não no sentido de tentar captar sua verdade absoluta. No sentido de, além do sensorial encantador, compreender o que me despertava. Sonho, desde 1998, em trabalhar com Cinema. Assim como sonho em me tornar escritor, ou como sonhei em ser músico. Não há contradição: não considero-me perdido, considero-as facetas de um mesmo sentimento. Nunca pensei, porém, que um dia escreveria sobre obras alheias. O fantasma de “2001: a Space Oddyssey” despertou em mim no exato instante em que aceitei o convite para criar este blog. Sempre soube que nunca poderia escrever sobre alguns filmes; não ao menos no encaixe estrutural que conhecia. A ideia de começar um projeto que envolvesse escrita e impessoalidade era, para mim, como desenvolver uma vida baseado em uma mentira.

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Vá ao Cinema, sente-se e assista a “La Grande Bellezza”. Incline-se a deixar-se levar. Descubra o que a obra o provoca. O que significa no contexto de sua pessoa. Não deixe que o filme acabe quando sair da sessão, mas mantenha o que sensorialmente lhe foi despertado e o continue. Reserve uma noite em branco, vá a um cinema incomum, deixe para decidir o que fazer nesta noite somente após a sessão. Assim como o cerne da mensagem de filmes como Fellini 8 1/2 não reduz e nem concentra o poder do filme, há muito mais por trás de “La Grande Bellezza” do que se transcreverá por aí.

O que posso dizer é que, assim como aconteceu com vários dos filmes que me tocaram realmente, em pouco tempo me esquecerei do que se trata, propriamente, “La Grande Bellezza”. Mas jamais esquecerei do sentimento que se formou na noite em que o assisti.

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