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Good Will Hunting: Rage & Fear

Terrível a ideia de resumir um homem a dois sentimentos. Ainda mais terrível tentar delimitá-los em espécie. Não poderia ser pior, porém, atribuir um arquétipo generalizado ao espectro de sentimentos de toda uma raça. O que não só frequente, como também verdadeiro teorema. Olhamos para nós mesmos julgando todo fenômeno interno como complexo ao mesmo tempo que olhamos para o restante da humanidade julgando todo pensamento e ação como simples e inerente. Verdadeira tendência esta: cada indivíduo se vê como alguém especial em meio a um mar de previsibilidade. Tendência tão notável e aplicada que ousamos, inclusive, dar nomes a sentimentos, atribuir a eles categorias, tendências, apontar suas origens, remédios e possíveis resultados. É assim que um ser dotado de tamanha racionalidade consegue se banalizar, tornar o mundo tão previsível e, de forma geral, chato. Uma simples escolha, relutância ao reconhecimento do próximo, talvez o maior de nossos desafios.

Não estou desconstruindo tudo o que tenho a dizer, embora assim pareça até para mim mesmo. Apenas reconheço uma abordagem vulgar e limitada, algo que gostaria poder dizer de outra forma. Reconheço, em cada universo específico que habita um ser humano, sentimentos únicos e inclassificáveis. O medo e a raiva, como chamamos, se manifestam de formas específicas e são, na verdade, sentimentos diversos em cada um de nós. A linguagem é uma forma de comunicação, não de delimitação. Se nós tivéssemos de nos descrever baseado-nos apenas em palavras, felizmente, seria uma tentativa absurdamente inútil. As mesmas palavras soariam diferentes a pessoas diversas, o que só pode ser explicado pela vivência de cada um. As palavras ganham sentido de acordo com o destinatário, e assim nos reconhecemos um no outro, pelos poucos vestígios que podemos compreender em palavras e atos de outras pessoas, que nos levam a imaginar sua essência e nos interessar por ela, muitas vezes assimilá-la.

Um indivíduo é um mar de sentimentos impassíveis de síntese. Invariavelmente, porém, embora subjetivamente próprios, todos nós experimentamos dois sentimentos que podem nos consumir e demandam por transcendência, uma busca pelo que pode ser confundido com completude ou perfeição – complexidade -, embora se traduza e mera essência pessoal, o que é bem simples. De certa forma, todos nós compreendemos o que somos, embora de forma muito confusa. É por isso que nos vemos forçados a rejeitar determinadas coisas – sob verdadeira vertigem – enquanto sabemos exatamente o que buscamos, embora não estejamos certos sobre a forma como este objeto se materializa. Creio que, dentre as categorias chulas supracitadas, poder-se-ia afirmar que todo ser humano possui, dentre diversas sensações semelhantes, embora e menor escala, um grande medo e um grande ódio. Isto porque a vida em sociedade nos impõe desafios à concretização do que realmente queremos ser, misturados a sensações artificiais e ampliações de ideias de felicidade que nos seduzem e confundem. Aos poucos julgamos nossa própria essência como pueril, processo que chamamos de “envelhecer” em um aspecto negativo do sentido da própria palavra, como se crescer significasse adaptação e não ampliação. Meu ponto é que sempre tive em mente que, ao se deparar com estes desafios, boa parte das pessoas opta por esquecer os sentimentos inocentes que as traduzem para adaptarem-se ao que externamente se julga como necessário ou útil, enquanto poucos enfrentam as confusões e as expulsam para concretizarem o que realmente são (este é o ponto em que eu deveria simplesmente abortar este texto e transferí-lo pra uma resenha sobre Lost).

 

 

Se você cresceu nos 90s, talvez concorde comigo: vigorou por esta década um entendimento dualista entre uma esquerda utópica morta durante o século XX e uma direita de aceitação: o mundo como ele é. Você poderia basicamente optar entre ser um sonhador ou mero zumbi admirador dos prazeres carnais. Creio que algo análogo ao que precedeu o movimento beat anteriormente. Entre dois caminhos vazios, simplesmente nos desesperávamos pelos momentos especiais, de sensações que não pudessem se explicar. Buscávamos por algo ainda não inventado, a qualquer preço. Se o Cine está, ao fim dos 60s & 70s, povoado de filmes baseados no desespero pelo confronto de uma invevitável vida vazia (“Easy Rider”, “Zabriskie Point”….), assim também está os 90s & 00s (“Thelma & Louise”, “Gerry”, “The Beach”, “Fight Club”, “American Beauty”, “Into the wild” e, inclusive, a obra a qual me refiro aqui: “Good will hunting”).

Embora sempre tivesse gostado de política, um dia fui simplesmente corrompido pela falsa ideia dos 90s: somos naturalmente insolucionáveis e precisamos aceitar isto. A esquerda está morta, o punk se tornou um comercial da coca-cola, o mundo atual é o que sempre foi e o ser humano caminha em ciclos ilusórios de desenvolvimento, estagnado em seu interior como qualquer outro animal do planeta. Abandonei tudo o que passei a considerar um sonho para me entregar ao inevitável pragmatismo. A ideia de que eu vivia 3 ou 4 dias por ano me perseguia como um pesadelo. Curtos momentos especiais em meio a uma vida completamente banal, indiferente e vazia. Era sentado no sofá da sala dos meus pais, à meia luz, no conforto do Natal, que reunia estes poucos momentos em curtas. Ali, ano após ano, percebia que deixava que meu medo tomasse conta de mim, enfrentava-o, vencia-o e esperava seu renascimento. A cada enfrentamento, porém, aquela criança e aquele adolescente recusava a banalidade do comum para transcender ao contato com quem buscava o mesmo. A cada Natal, assistia a estes momentos transmitidos pela branca parede ao lado da mesma árvore que ainda se ergue na casa dos meus pais a cada ano.

À medida que me expus e saí do interior, tendo contato com cidades maiores, percebi que as pessoas com perfil de aceitação tendem a ser cada vez mais banais, enquanto as pessoas especiais, não mais especiais, mas sim mais numerosas. A cada ônibus, carona, avião, meus filmes de Natal se tornavam mais e mais numerosos. Até que um dia o Natal passou a ser mera data comemorativa, como deveria ser. Hoje posso deitar em minha cama, em um dia cansativo, olhar para o teto de meu quarto, à meia luz, e visualizar longas e longas de pequenos flashs que dão sentido à minha existência. Calçadas, acordes, garrafas, cigarros, rostos, sorrisos, saltos, salas insalubres ocupadas por instrumentos musicais, papéis, livros em edredons, brisas, palavras apropriadas ou ridículas, ondas, ideias, pulsações sanguíneas.

Até que em algum ponto indelimitável de minha vida percebi duas coisas importantes:  todas as pessoas que tentaram mudar o mundo de forma descontextualizada, por medidas externas, falharam, enquanto as pessoas que tentaram operar mudanças internas em si mesmas e contagiaram as demais ao seu redor obtiveram sucesso de formas que a história e a sociologia simplesmente não podem explicar. Ao mesmo tempo, diversas pessoas de diversos pontos do planeta passaram a enfrentar estes desafios e, o que é incrível, muitas delas possuíam, em essência, o mesmo medo e o mesmo ódio que eu e boa parte das pessoas especiais que conheci em minha vida: a raiva pelo utilitarismo e o medo de uma existência vazia. Foi neste ponto que percebi que o contexto geopolítico atual, suas “doenças”, condizem impressionantemente com o filme que expressa muito do que foi dito até aqui e, inclusive, com uma das melhores cenas – no tocante a conteúdo – que já vi no Cine, inclusive figurando como sujeito uma agência que é o foco ao qual se direciona boa parte da raiva que essas pessoas sentem atualmente – o que não é necessariamente uma coincidência: a NSA. Como percebem, a cena que escolhi para abrir este texto. Boa parte destas pessoas poderiam se entregar ao pragmatismo – trocar o que esconde suas essências por grandes salários, salas, troféus – em lugar de arriscarem suas vidas. Mas existe uma razão, extremamente simples, pela qual eles não a fazem.

Mudar o mundo é muito pretensioso; direcionar a mudança a um objeto sempre acaba por se perder na utopia. Rejeitar os vícios da sociedade contemporânea e escolher pela felicidade pessoal e realização de nossa essência subjetiva me parece um caminho muito mais adequado e funcional. É como se o mundo estivesse se preparando para isso há muito tempo e, nestes ciclos estagnados da humanidade, estivesse sempre presente uma célula de esperança que pode se desenvolver em vida. Não se trata de mudar o mundo, mas sim da criação de um sentido para seu próprio interior, bem como permitir, aceitar e compreender que as outras pessoas o façam. Enfrentar seu grande medo, expor seu grande ódio. Caminhar.

Obs.: esqueci de mencionar que boa parte da trilha sonora é Elliott Smith?

 

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