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Kairo (Pulse) – A internet de Kiyoshi Kurosawa não é a mesma de Paul Miller

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Na fase catastrófica do Terror no Cinema mainstream, os fãs do gênero são obrigados a encontrar no underground filmes que satisfaçam sua procura. Para não ser injusto, essa não é apenas uma característica da fase atual do Cinema e se torna, inclusive, um ponto forte à medida em que você põe os pés mais a fundo no gênero. Raros são os momentos em que o Terror atinge alta qualidade no mainstream (e estes filmes costumam ser excelentes). Foi por esse caminho que acabei entrando no cine oriental e, acidentalmente, encontrando Kairo (nome americano: Pulse), filme de 2001 no qual o Terror divide espaço igualmente com o Sci-Fi e, ao contrário do que possa parecer, não é tão b-side assim. Há spoilers no texto, mas não considero que a leitura vá estragar o filme.

Com trilha sonora sutil, atmosférica e muitas vezes minimalista, fotografia sombria – clássicos do Terror japonês – em alguns momentos fazendo lembrar inclusive a direção típica do Cinema Noir, além de ótimo uso de câmeras subjetivas, Kiyoshi Kurosawa constrói um excelente e envolvente ambiente de suspense. Além, a técnica se integra muito bem ao roteiro para nos ambientar no clima da Internet 90s e do início da primeira década de nosso século. O roteiro destaca bem situações da época, ao redor do nascimento da internet, que são bem diferentes da atualidade, como o enorme abismo entre os que estudavam computação e afins e os que começavam a se aventurar de forma autodidata no mundo tecnológico e da internet inclusive no que há de mais básico.

A internet nos 90s não era um ambiente tão integrado à vida real como atualmente, e se afastava cada vez mais desta à medida que se caminhava para seu interior. As amizades eram trocadas por ideias. Formava-se quase uma segunda personalidade e essa alteração em sua vida o afastava cada vez mais do real. As ideias aos poucos iam se tornando vazio. O vazio, convertendo-se em solidão. A velha prática de manter-se acordado até a madrugada para acessá-la ia aos poucos nos despersonalizando na vida real. Era um clima de insegurança quase primata, ali surgindo os lammers: pessoas com conhecimento irrisório de computação, mas que conseguiam droppar sua internet e sentiam-se por isso uma raça superior de donos do novo mundo (teriam perdido menos tempo estourando espinhas ou correndo em uma esteira). Também ali surgiram os hacktivistas, pessoas que utilizavam seus conhecimentos de tecnologia com propósitos políticos, bem intencionados; na época sofriam grande preconceito da sociedade – com verdadeira imagem de terroristas -, o qual vem sendo desconstruído atualmente. Esse ambiente alternativo, agora integrado ao real, faz os velhos internautas sentirem falta do que encontravam no princípio. Às vezes me pego conectado ao IRC – lugar que via repleto de pessoas, com canais sobre qualquer tipo de assunto imaginável -, agora deserto, com poucos canais acessados por algumas pessoas que estão lá mais por saudosismo do que para conversar propriamente e, claro, os hackers old-school, que ainda o frequentam.

O diretor nos introduz nesse contexto já no início, com a solidão consumindo os usuários de internet. No velho clichê de que “um dia o mundo dos mortos ficará sobrecarregado e eles voltarão à nossa realidade”, o filme aponta metaforicamente a internet como porta para tal, mas tratando logo de comparar os usuários com fantasmas. Utiliza quase sempre a personagem Harue para fazer tal ponte, como em cenas em que esta questiona Kawashima sobre o porquê de querer se conectar à internet, logo desconstruindo a ideia de que, através dela, se conectaria a novas pessoas: “As pessoas não realmente se conectam”. No desenvolvimento paralelo entre o pano de fundo sobrenatural e a crítica à internet, Harue, em cena chave, conecta as linhas de desenvolvimento ao ligar diversos computadores em sua casa, nos quais se transmitiam imagens via webcam de usuários em estado de alienação, questionando se eles estavam realmente vivos; se haveria verdadeira diferença entre estas pessoas e os fantasmas. “They are trapping themselves into their own loneliness”. Por fim, o filme desemboca em uma Tokyo apocalíptica e deserta, com todos os personagens restantes agonizantes pela solidão.

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Não foi sem motivo que resolvi revisitar pela terceira vez essa excelente obra do Cinema Japonês. O filme me veio à mente após ler a experiência de Paul Miller, jornalista norte-americano que, sentindo-se uma vítima moderna semelhante aos personagens do filme, resolveu experimentar uma vida desconectada por um ano. O resultado é este excelente artigo para o The Verge, que apoiou o projeto (infelizmente não o encontrei em português).

Em um projeto que desmente a si mesmo, Paul Miller descobre que não há mais um muro entre a realidade e a vida cibernética, mas que estas estão conectadas de forma inseparável, já não nos delegando uma opção. A internet, ainda, não é mais a mesma; o aumento do fluxo de informação, a busca desenfreada que aponta, do indivíduo, a todas direções, torna cada conteúdo – apesar da amplitude na rede – aproveitado muitas vezes de forma limitada. O desenvolvimento da comunicação, que nos liga uns aos outros a qualquer momento, choca-se com o “todo mundo é uma ilha”. Por fim, não pude me decidir se o que Paul Miller encontrou em sua vida por um ano foi uma resposta negativa à crítica do diretor japonês ou o pessimista alinhamento com o adendo de que, para nós, é tarde demais.

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